cartas

Dilemas do jornalismo, teorias demográficas, emoção com as bailarinas e aquelas perolazinhas

ILUSTRAÇÃO: ANTHONY JENKINS_THE GLOBE AND MAIL

PADILHA

Essa Clara Becker sempre consegue umas frases comprometedoras dos seus entrevistados – ou “perfilados”, no caso de piauí. A última frase do seu perfil do ministro Alexandre Padilha (“Padilha no laboratório”, piauí_80, maio) me rendeu algumas boas risadas.

Pena que a graça toda acabou na próxima matéria, de Graciela Mochkofsky (“Ilusões perdidas”, piauí_80, maio), sobre o jornalismo argentino. O boato e a fofoca sempre foram fontes de informação perigosas. O problema é que, com a ascensão do jornal a partir do século XIX, estes ganharam aparatos industriais para lhes dar suporte.

Deve ser uma sensação e tanto derrubar alguém do porte de um ministro, como aconteceu com piauí no caso de Nelson Jobim (“Para toda obra”, piauí_59, agosto de 2011), ou mesmo um presidente, como Veja no caso de Collor. Em ambos os casos não ficou claro se a queda ocorreu por razões realmente sérias (mais no caso de Jobim do que de Collor) ou pelo simples furor provocado por frases e fatos que a meu ver se aproximam mais da fofoca do que de revelações importantes. Mais assustador do que isso, só mesmo a noção de que vivemos num mundo em que um ministro, por mais competente que seja, pode ser derrubado por uma única matéria.

VICTOR JOSÉ DE SOUZA TEODORO_SÃO PAULO/SP

Não sei bem a razão de algumas vezes a piauí ser tão chapa-branca e tão descaradamente petista. Essa entrevista com o ministro da Saúde Alexandre Padilha, levantando a bolinha dele, já em campanha aberta para as eleições de 2014, ficou incompleta, a meu ver.

A jornalista Clara Becker esqueceu-se de perguntar para o entrevistado:

1) Qual sua sobremesa predileta?

2) Chico Buarque ou Caetano Veloso?

3) Cerveja ou vinho?

Poderia ter perguntado, também, qual a razão de o Ministério da Saúde não cumprir com sua obrigação de importar e distribuir remédios para doenças raras, como a doença de Wilson, que é grave e, se não tratada, pode levar à morte fulminante.

Embora os remédios (Cuprimine e Syprine) para tratar dessa terrível doença constem de protocolo do Ministério da Saúde para a distribuição através do SUS, eles não são importados porque a Anvisa cria todo tipo de dificuldades, impossibilitando o acesso dos doentes a esses medicamentos. É o Ministério da Saúde dando com uma mão e tirando com a outra.

Se o ministro Padilha realmente virar o terceiro poste do Lula, não vai ter vida fácil, pois nós, voluntários ligados às pessoas com doenças raras, não vamos dar trégua enquanto os direitos de nossos doentes não forem atendidos de maneira satisfatória.

LÚCIO MAZZA_VICE-PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DOS DOENTES DE WILSON_SÃO PAULO/SP

JORNALISMO

O artigo de Graciela Mochkofsky (“Ilusões perdidas”, piauí_80, maio) chega a ser comovente, ao refletir a crise existente hoje no jornalismo, com o advento da internet. Entretanto, é preciso ressaltar que é prematuro afirmar o fim do impresso, uma vez que esse meio permite textos mais aprofundados e reflexivos, além de propiciar a maior organização das notícias. Ademais, é bom lembrar que, ao longo da história, nenhuma mídia substituiu a outra. Pelo contrário, convivem juntas, promovendo um diálogo interativo.

ERIVAN AUGUSTO SANTANA_TEIXEIRA DE FREITAS/BA

 

NOTA DA REDAÇÃO: Erivan, todas as manhãs, antes de nos atirarmos à lide heroica do jornalismo impresso, damo-nos as mãos e proclamamos em voz alta o evangelho da tua mensagem. O ritual tem-nos ajudado a afastar da cabeça (ao menos por alguns instantes) a incômoda desconfiança de que estamos tomando o rumo do Telex, do Teletrim e do telegrama fonado, uma turma que, como sabemos, não anda lá convivendo muito, não.

 

Felicidade é chegar em casa e encontrar a piauí esperando para se ver livre do plástico que a embala (rotina mensal executada por mim há uns dois anos). Sempre deixo uma de minhas partes preferidas, as cartas, por último, e hoje imaginei como seria ver minha carta publicada! Sabendo dessa chance, o próximo plástico será dilacerado em segundos.

Aproveitando, parabéns pelo artigo da Graciela Mochkofsky. Também sou jornalista e todos os dilemas da profissão foram muito bem descritos. Poderiam dizer “oi” para a minha namorada, a Sil, que é a segunda na fila de leitura?

GIOVANI PINHEIRO_CASCAVEL/PR

NOTA DA REDAÇÃO: O “oi” fica para depois, Sil. Urge agora te alertar para o fato de que esse Giovani, não sei não… Amor sincero, desses de perdição, deixa amada na fila? Exija provas: peça que ele te assine uma piauí. Se houver hesitação, corra para pastagens mais verdejantes. Você merece.

 

DEMOGRAFIA

Muito boa a reportagem “O enigma e o demógrafo”, piauí_80, maio. Os acadêmicos só se esqueceram de avaliar o impacto das ações sociais do governo federal na escassez de mão de obra. Hoje nas capitais, onde a oferta de emprego é abundante, é mais fácil depender do Bolsa Família do que trabalhar quarenta horas semanais. Acho perigoso querer explicar a situação econômica de um país somente através de teorias demográficas, como fez Thomas Malthus.

BERNARDO REINHARDT DESERT MENEZES_CURITIBA/PR

SEMANA DE 22

Parabéns pelo lúcido, crítico e correto texto “Reféns da modernistolatria” (piauí_80, maio), do Luís Augusto Fischer. Muito bom mesmo. Sensível ao tamanho da nossa cultura. Parabéns!

WILLIAN TARANTO_RIO DE JANEIRO/RJ

Sr. redator, que mau humor!!!

LUIZ M. SUPLICY HAFERS_SÃO PAULO/SP

NOTA DA REDAÇÃO: Eu, hein.

DE CHORAR

Não chorei nem aplaudi. Mas ao ler “De ponta na Paulista” (piauí_80, maio), o texto primorosamente escrito por Fábio Fujita, foi como se tivesse chorado e aplaudido muito! Que família! Gostaria de fazer parte dela. Depois de tanta bravura e determinação, Lyon é na próxima esquina.

ARMANDO FREITAS FILHO_RIO DE JANEIRO/RJ

Escrevo só para dividir com vocês a emoção de ler o texto “De ponta na Paulista”. Mal adquiri meu exemplar deste mês e, depois de minha primeira leitura já tradicional, do Diário da Dilma, me vi caminhando, da estação Catete do metrô até minha casa, admirada com o relato das apresentações das jovens bailarinas paulistas, seu Zé Roberto e toda a família de Rosana. Arte é arte, não depende do endereço, idade, classe social.

CLARISSE RINALDI_RIO DE JANEIRO/RJ

ESQUINAS

Fiquei estarrecido quando li a reportagem sobre o filme que conta a história real de cinco jovens condenados por um estupro que não cometeram (“A redenção dos cinco”, piauí_80, maio). Fiquei pensando que, se isso ocorre em um país onde as instituições funcionam, imagine no Brasil onde a Justiça é uma bagunça. É rezar pra não ser abordado pela polícia no lugar errado e na hora errada.

WILSON PEREIRA DE SOUZA_TABOÃO DA SERRA/SP

LAERTE

Senti pena do Laerte após ler a matéria da piauí (“Laerte em trânsito”, piauí_79, abril). É um sentimento incompatível com a grandeza do artista, mas foi o que senti.

FERNANDO BORGES DE MORAES_MANAUS/AM

Entendido (verbo).

LUIZ SEMAN_CURITIBA/PR

NOTA DA REDAÇÃO: Inescrutável (adjetivo).

LOUCOS POR PIAUÍ

Como sempre, é um prazer ler a revista mais bem escrita do Brasil. O texto completo, mas leve e erudito, é marca da revista, à qual fui apresentado por um colega. Este, entre gargalhadas, me presenteou o exemplar que continha o texto sobre o “Louco de palestra” (piauí 49, outubro de 2010). Sou muito grato a ele pela iluminação que transformou minha vida. Assino a revista e aqui em casa chega a ter briga para ver quem vai lê-la primeiro.

Fica até difícil destacar o que mais me agradou, mas não vou deixar de mencionar a reportagem sobre a professora Suzana Herculano-Houzel (“O cru, o cozido e o cérebro”, piauí_77, fevereiro). Também me agradaram muito as matérias sobre petróleo, indústria do álcool, a troca da guarda na fronteira da Índia com o Paquistão, o festival da pior poesia, o de cartas de amor (moro em BH e só tive notícia disso através da piauí!).

Aproveito para sugerir uma matéria com a pintora mineira Eni D’Carvalho, que pinta para cegos (não é piada). Sou médico e a conheci faz poucos dias, tendo ficado fascinado pelo seu trabalho (ela não tem parentes cegos). Pensei na mesma hora que era o tipo de pessoa boa para piauí perfilar. Parabéns e muitos anos de vida!

ROGÉRIO A. P. SILVA_BELO HORIZONTE/MG

Estou no primeiro ano de jornalismo, mas é minha segunda faculdade. Por causa disso, muitos novinhos integram a sala, pessoas de 18, 19 anos. Notando a euforia deles, me senti meio fora do padrão, pois já tenho 24 anos. Numa aula, uma das mais importantes da grade, o professor Luiz Carlos Messias (que foi correspondente do Estadão por muitos anos) deu uma bronca na sala, depois de perguntar o que o pessoal gostava de ler e se liam pelo menos algum portal de notícias. Diante da negativa da maioria dos novinhos, o professor disse que a sala estava muito alheia, e isso não era bom para quem quer estudar jornalismo. E completou: “Vocês devem ler coisas diferentes, se interessar por outros assuntos, ler a revista piauí, por exemplo.”

Aquilo ficou em minha cachola. Fui até a banca e comprei a edição de abril. Já conhecia a revista, mas nunca havia comprado. Gostei pra caramba: melhorou minha visão crítica, meu interesse pela leitura voltou, e fiquei desejando o pinguim. Um viva ao Messias e outro à piauí!

ADRIANA NAGAZAKO_ARARAQUARA/SP

NOTA DA REDAÇÃO: Messias, não te batizaram assim à toa.

MAS AS PEROLAZINHAS…

É difícil escapar de expressões como maior, melhor ou genial, mas é isso o que vocês fazem. Da proposta visual aos textos, quase tudo é de muito boa qualidade, talvez até de excelente qualidade. Então fico me perguntando se essas pequenas “descrições” que polvilham o texto, como “a chuva levantava um cheiro bom de terra, na fazenda Saudade, quando ele…” (“O enigma e o demógrafo”, piauí 80_maio), servem só como estímulo para que pessoas como eu escrevam e-mails bobos como este. Será mesmo que é isso? Gente, vocês são a realeza, essas perolazinhas são… perolazinhas.

PAULO BABBONI, SÃO PAULO (SP)

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