esquina

Diplomas artesanais

Um artista da falsificação

Juliana Faddul
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

José Roberto, um senhor corcunda, negro, de cabelos brancos, se recusa a revelar o sobrenome. “Meu padrinho me deu dois ensinamentos”, disse, com ar cansado e gentil, numa manhã de setembro, no Centro de São Paulo. “Seja bom e será retribuído”, era o primeiro deles. “Nunca dê seu nome completo para mulher alguma”, o outro. A cautela, e não só com interlocutores femininos, também se justifica pela atividade a que ele se dedica há mais de setenta anos: falsificar títulos acadêmicos, receitas e atestados médicos.

Seu ateliê funciona num prédio que conjuga minúsculos apartamentos residenciais e muitas salas comerciais, na rua da Consolação. O cubículo que José Roberto e dois assistentes dividem tem cerca de 30 metros quadrados. Os dois aprendizes são muito mais jovens que ele: Jonathan tem 17 anos; Wesley, 16. Nenhum dos três é dono do negócio. O chefe nunca aparece, e as encomendas costumam vir por e-mail. José Roberto é o artista da equipe – desde a adolescência atende pelo apelido de Mãos de Anjo, do qual se orgulha.

O lugar é uma bagunça. A sala tem o pé-direito baixo, o piso coberto por carpetes, nas paredes armários de ferro, estantes com tubos e potes de tinta, pincéis, papéis de todo tipo. As lâmpadas fluorescentes estão sempre acesas, mesmo quando é dia claro, já que a janela principal não abre, está emperrada.

A mesa de Mãos de Anjo, limpa e organizada, contrasta com a desordem em volta. Ao se sentar diante dela, e antes de iniciar o trabalho, o artista parece desacelerar os movimentos. Molha um pedaço de papel toalha e limpa o tampo do móvel com movimentos circulares, repetidos além do que pareceria razoável. Separa as tintas e os pincéis que vai usar e os dispõe alinhados, como numa bandeja de instrumentos cirúrgicos. Só então se curva sobre a mesa e começa o trabalho. A tinta nanquim preta, no pincel finíssimo, corre de forma regular e precisa, preenchendo lentamente a superfície alva e lustrosa do papel couché. Em pouco mais de duas horas, nasce um diploma de medicina.

José Roberto, Jonathan e Wesley seguem uma rotina estrita. Pela manhã os meninos vão à escola – cursam o ensino médio – e Mãos de Anjo vai ao culto. Há anos frequenta a Igreja Universal do Reino de Deus. À tarde, Jonathan e Wesley conferem a entrega dos materiais necessários para o trabalho, além das demandas que chegam por e-mail. Receitas de remédios tarja preta podem sair por 30 reais. Atestados de invalidez falsos, usados para fraudar a Previdência Social, diplomas de direito ou administração, apresentados em concursos públicos, e de medicina, entregues segundo José Roberto a gente que vai atuar no interior do país ou que não conseguiu revalidar graduações feitas no exterior, custam até 800 reais. Os três dizem receber cerca de 2 500 reais por mês, cada um.

Mãos de Anjo lamenta que seu ofício não seja mais tão valorizado como no passado. A produção artesanal de certificados acadêmicos, em que se gastam quase cinco horas num único documento, minguou. Ele atribui a baixa demanda ao advento dos computadores e ao aumento do número dos profissionais de design gráfico. “Hoje em dia essa meninada faz um diploma complexo em trinta minutos, no computador. É um absurdo”, disse, enquanto olhava com orgulho para o papel brilhoso que acabara de preencher com caligrafia austera e incorruptível.

 

O falsário acredita ter 85 anos. Não sabe ao certo a idade porque nunca viu sua certidão de nascimento, ele disse. Perdeu a mãe quando tinha 10 anos. Foi encontrada morta no quarto do bordel em que trabalhava, em Palmeirina, interior de Pernambuco. O cafetão acabou se mudando para o Rio de Janeiro e levou consigo o garoto. Na capital fluminense, o sujeito fez dívidas e José Roberto saldou uma delas, em pessoa: foi “vendido” para um sujeito que se chamava Graça. É desse Graça, a quem servia como faz-tudo, que o desenhista fala quase o tempo todo, e a quem se refere como “padrinho”.

“Foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida”, contou. “Seu Graça me tratava como um filho: me dava comida, me deu escola até a 4ª série e, principalmente, a oportunidade de trabalhar.”

No Rio, o padrinho comandava uma casa onde viviam vários garotos de rua. Como paga pelo aluguel, a criançada realizava pequenos serviços: furtos, roubos e o que mais lhes fosse requisitado. José Roberto passou a puxar de uma perna depois de levar uma facada – que ele diz ter sido acidental – de um dos companheiros de alojamento. Também ficou gago, resultado das surras dadas pelo antigo patrão da mãe. Era tímido, fechado, e começou a desenhar.

Certo dia Graça encontrou no lixo da casa cópias de anúncios de revista que o garoto fazia para passar o tempo. O padrinho, disse José Roberto, se derreteu: “Você tem muito talento! Um dia será um artista famoso. Agora vamos te chamar de Mãos de Anjo.” Pouco tempo depois embarcaram para São Paulo. “Fui a única criança da casa que foi com ele. Estou te falando, éramos como uma família”, contou, em seu ateliê.

Na nova cidade, o adolescente ganhou um quarto – um luxo, comparado com a vida no Rio. Passava horas sem sair de lá, desenhando, por ordem do padrinho. “No começo ele me deu vários tipos de diplomas, e eu tive que copiá-los”, lembrou.

No começo dos anos 90, Graça foi assassinado. Depois de décadas falsificando documentos, José Roberto tentou trabalhar como vendedor e pedreiro, mas a deficiência na perna dificultava seu desempenho. Encontrou algum conforto na Igreja Universal – onde também conheceu a esposa, Fátima, e um novo chefe, que soube reconhecer no talento de Mãos de Anjo uma oportunidade de negócio.

Com a morte da mulher, há três anos, José Roberto passou a morar sozinho, no extremo sul da capital paulista. Todo dia gasta mais de duas horas de ônibus até o Centro da cidade. No trajeto, gosta de se lembrar do passado, e também de fazer uma espécie de jogo, em que exercita a memória: enumera clientes – disse ter confeccionado mais de 1 300 diplomas –, suas respectivas profissões e universidades. “Eu costumava me lembrar de todos, mas agora está ficando cada vez mais difícil. Acho que vou me autorreceitar um remédio para a memória”, disse o artista, fazendo piada, antes de revelar que gostaria mesmo era de ter cursado a faculdade de medicina, na juventude.

Juliana Faddul

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