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Distanciamento social

A produtora Brasil Paralelo tenta se afastar do bolsonarismo para vender mais assinaturas

Ana Clara Costa
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2021

Em meados de junho, a agência de publicidade Powerhouse, sediada em São Paulo, tentou recrutar profissionais para um trabalho difícil: reposicionar a imagem da produtora Brasil Paralelo. Conhecida por seus vídeos e cursos para o público de direita e extrema direita, bem como pelo alinhamento com o governo de Jair Bolsonaro, a Brasil Paralelo não quer mais ser associada ao presidente e sua família. O objetivo agora é dirigir sua produção a “todo tipo de público” e, nas palavras de um integrante da Powerhouse, “tornar-se uma opção à Netflix”.

Um ex-funcionário da Brasil Paralelo, que pediu para não ser identificado, explicou assim a mudança: “Eles querem se expandir com o rebranding para ter uma salvaguarda no caso de Bolsonaro perder no ano que vem.” Segundo ele, a produtora teme que sua base de assinantes fique estacionada no grupo atual, formado em boa parte por bolsonaristas.

O declínio da popularidade do presidente – rejeitado por 64% da população segundo pesquisa do PoderData de agosto passado – não é a única névoa que paira sobre a imagem da empresa. A Brasil Paralelo também entrou no foco da CPI da Pandemia, que pediu a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telefônico da empresa. Os senadores querem saber se ela tem conexões com outras pessoas investigadas e se exerceu influência “na radicalização política adotada pelo Palácio do Planalto”, como dizem no requerimento de quebra de sigilo.

Henrique Viana, um dos três sócios fundadores da Brasil Paralelo, admitiu à piauí que a produtora pretende reposicionar sua imagem, mas refutou que essa decisão esteja ligada à possibilidade de derrota de Bolsonaro em 2022 ou à investida da CPI. Apesar disso, ele e os sócios Lucas Ferrugem e Filipe Valerim resolveram fazer duas lives em resposta aos senadores, apresentando as contas da empresa e dizendo não haver nelas nada de ilegal. Aproveitaram para divulgar um manifesto pela liberdade de expressão.

Segundo Viana, a publicidade gerada pela CPI e pelas lives acabou engordando o número de assinantes da produtora, que passou de pouco mais de 200 mil para 250 mil, resultado ainda tímido para os planos do trio. As assinaturas constituem a principal fonte de faturamento da Brasil Paralelo, que neste ano já totaliza 30 milhões de reais (até agosto).

A piauí apurou que foi o empresário Jorge Gerdau, dono de uma das maiores siderúrgicas do mundo, quem aconselhou o trio sobre como reagir à CPI que investiga a desastrosa gestão da pandemia pelo governo federal. Gerdau integra o grupo de conselheiros da Brasil Paralelo, formado por pessoas que possuem uma participação simbólica no capital da produtora e têm ideias convergentes. Desse grupo também fazem parte Pedro Englert, sócio da StartSe, startup de educação, e Roberto Dagnoni, sócio da Mercado Bitcoin, uma bolsa de ativos digitais.

 

Criar um análogo conservador da Netflix é o plano principal de Viana e seus sócios. “A Netflix tem quase 40 milhões de assinantes. É esse mercado que a gente está mirando. As famílias se preocupam com estar assistindo algo na Netflix e, de repente, surgir uma pauta LGBT”, afirma. “Não tem nenhum problema a Netflix ter suas pautas. Mas existe um público que quer ter confiança de que a empresa que oferece o conteúdo está preocupada com o resgate da tradição.” Viana, Ferrugem e Valerim vão todos os domingos à missa das 18h30 na Paróquia Nossa Senhora do Brasil, no Jardim América, em São Paulo, a preferida do PIB paulistano católico.

A Brasil Paralelo Entretenimento e Educação S/A nasceu em Porto Alegre em 2016. Hoje ocupa dois andares de um prédio na Avenida Paulista, em São Paulo, e emprega 130 pessoas. “Temos a maior produção de documentários do Brasil. E temos toda uma formação de roteiristas, de editores. O próximo passo é a produção ficcional, já que existem muitos artistas no Brasil que não são de esquerda”, diz Viana.

A despeito dos esforços para se livrar da imagem de apoiadora do presidente, a produtora continua a seguir o lema “Todo filme precisa ter um inimigo, pois, sem inimigo, não há venda” – como revelou um funcionário. Não é muito diferente da estratégia beligerante de Bolsonaro. Os filmes, todos gratuitos e com peroração conspiratória, servem de isca para planos de assinatura de cursos e outras atividades. Neste mês de setembro, entrará no ar uma nova versão do site, e pela primeira vez serão exibidos, apenas para assinantes, longas-metragens feitos por outras produtoras.

O vídeo mais recente da Brasil Paralelo é Cortina de Fumaça, com duração de 1h41, exibido gratuitamente no YouTube. Trata-se de uma apologia do agronegócio brasileiro que logo aponta o inimigo: os defensores do meio ambiente, tidos como agentes de uma conspiração internacional para destruir o mercado que o Brasil conquistou no setor agropecuário. Uma das bandeiras do filme é a integração dos indígenas ao mercado produtivo, com o uso de suas terras para o plantio de soja. Para dramatizar a proposta e indicar outro inimigo, exibe imagens de crianças indígenas supostamente enterradas vivas, enquanto a ministra de Estado da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, afirma que algumas tribos praticam o infanticídio no caso de bebês de mães solteiras ou que nasceram com alguma deficiência.

 

Dentro da Brasil Paralelo, pontos em comum com o negacionismo bolsonarista continuam prevalecendo, apesar dos planos de mudança. Ex-funcionários contaram à piauí que a produtora não aderiu ao trabalho remoto, só disponibilizou máscaras e álcool em gel nos escritórios a partir de março deste ano e nunca incentivou o uso de ambos.

No auge da pandemia, quem manifestasse a vontade de seguir as regras de isolamento ou aparecesse com máscara era alvo de ironia, embora a empresa não tenha obrigado ninguém a retirar suas proteções. Uma funcionária teve que explicar que estava usando máscara por ser cardíaca e cuidar de pais cardíacos. Foi contaminada pelo vírus. Depois de insistir em fazer trabalho remoto e pedir folga para se recuperar do baque causado pela morte de sua avó por Covid-19, foi demitida, sob alegação de que não se adequava aos novos rumos da produtora.

Embora Viana negue que tenha havido desrespeito às medidas de proteção, imagens de bastidores da Brasil Paralelo publicadas nas redes sociais ao longo de 2020 e 2021 mostram sua equipe sempre reunida sem distanciamento e sem máscaras. No vídeo 7 Denúncias: As Consequências do Caso C0V1}-19, lançado em 30 de junho de 2020, as medidas de isolamento social são criticadas por cercearem a liberdade. O uso dos números 0 e 1 e do símbolo } no lugar das letras “o”, “i” e “d” é um provável estratagema para burlar o controle de mensagens negacionistas pelo YouTube. Quando o narrador do vídeo diz que por causa da pandemia se está delegando “poderes cada vez maiores para governantes”, surgem as imagens do governador João Doria e do então governador Wilson Witzel, ambos antagonistas – hoje – do presidente.

Viana insiste que o conteúdo das produções não é bolsonarista, mas somente “conservador”. “Quando a Brasil Paralelo foi criada, o Bolsonaro era um deputado qualquer, meio polêmico, meio estranho. Quando ele surgiu como fenômeno político, já faturávamos 6 milhões por ano. Nós atendemos a um anseio do brasileiro conservador na área de mídia. O Bolsonaro também, na área política”, diz. “Na Jovem Pan, todos os dias você tem jornalistas apoiando o governo. Nós não fazemos isso.”

A fim de ganhar credibilidade, a Brasil Paralelo tenta agora estabelecer algum diálogo com a imprensa profissional e estreitar seus laços institucionais com o YouTube para evitar que seus vídeos caiam na malha fina do combate à desinformação. A produtora também busca formas de mudar seu verbete na Wikipédia, onde é associada à extrema direita, ao negacionismo e ao bolsonarismo.

Como o verbete da Brasil Paralelo na Wikipédia é protegido e só pode ser atualizado por editores autorizados, a produtora quer capacitar funcionários para obterem essa credencial e refazerem a descrição. Ocorre, porém, que todos os verbetes da enciclopédia virtual são escritos de forma colaborativa, e uma atuação desse tipo, visando manipular a informação, é caracterizada como “vandalismo” pela política editorial da Wikipédia. Viana, entretanto, acha que vandalismo é a versão atual do verbete, insinuando que foi escrito por editores que agiram de má-fé.

Ana Clara Costa

Repórter da piauí. Foi editora de política na Veja, editora do Globo em Brasília e editora-chefe na Época

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