ficção

Dois irmãos

A rocha, a força de uma pedra, o mundo se acabando

Gustavo Melo
ILUSTRAÇÃO: PEDRO ROSSI_2006

E se a África fosse branca? Foi o que decidi escrever. Enquanto todos estavam concentrados nos desenhos de bonequinhas japonesas ou auto-retratos estilizados, achei melhor botar essa frase no muro do Jockey. Eu tinha levado o meu desenho na cabeça, ia tentar fazer um campo de futebol, mostrando um jogador que cruzava a bola na linha de fundo e saía correndo ele mesmo para cabeceá-la, antes de ela tocar no chão. Era uma história contada pelo meu pai, fazia uns dez anos. Uma história da qual eu sempre desconfiei. Mas meu pai não era homem de mentiras, e jurando que era verdade me contou que o Jacaré, o atacante do seu time de várzea que ele mesmo montou, o São Bento, tinha feito essa proeza. Se o São Bento perdesse naquela noite, meu pai perdia o seu Passat, que ele tinha apostado antes do jogo começar. Ele me contou com aquele sorriso de sempre nos olhos. Minha mãe não sabia dessas apostas.

O Jacaré era um negro que vestia a camisa sete, época de pontas-direitas. Lembro que ele era forte e rápido, driblava longo pela lateral. Merecia ter virado profissional. Mesmo assim, eu sempre ficava na dúvida quando olhava para ele nos churrascos de final de semana lá em casa, se ele realmente tinha sido capaz de cobrar um córner e correr para a área naquela velocidade, a ponto de conseguir cabecear e fazer o gol. Adiei esse grafite: o Jacaré merecia o desenho, mas não seria agora. Preferi escrever no muro E se a África fosse branca? Escrevi a palavra branca em cor amarela e sombreei de vermelho.

Pedro se aproximou de mim. Ele havia feito um desenho intrigante, pôs o dalai-lama sentado no pico de uma pedra, próximo a um abismo. O dalai-lama lia um livro de capa preta. O que eu achei curioso foram os óculos que Pedro colocou no rosto dele, de armação bem moderna, daqueles que a gente costumava usar quando queria aparecer ou ir à praia em Ipanema.

“Você não vai desenhar?”, ele perguntou.

“Não, hoje não”, respondi sério.

“Quis passar alguma mensagem com essa frase? Qual foi? Politizou?” Ele sorria, meio irônico.

“Não, não é nada disso. Até pensei no que você está me falando, que pode ter um conteúdo político na frase, mas não é essa a minha intenção. Foi uma coisa que eu pensei de verdade, no inferno que é a África. Mas se ela fosse branca, seria um inferno?”

Pedro me olhou, tenso, por cima dos ombros. Uma Kombi branca, com adesivos vermelhos que não consegui ler, parou na nossa frente. Desceram quatro caras fortes e brancos, de cabeça raspada e camiseta preta apertada. Um estava com a mão bem fechada e, com ódio certeiro, veio correndo e me acertou como uma pedrada na maçã esquerda do rosto, bem abaixo do olho, que na hora ficou cheio de água. Pedro também ficou sem ação, com as latas de tinta colorida e importadas na mão. Os outros grafiteiros que estavam com a gente correram tudo o que podiam. Nós não, nós não conseguimos correr. O segundo dos quatro que tinham vindo na Kombi chutou Pedro na altura da dobra do joelho, enquanto ele corria, e o derrubou. Sem tempo de se proteger do inesperado, Pedro bateu com a cara no muro. Ele tinha um rosto bem bonito, parecia um árabe com espanhol. Os outros dois recolheram as nossas latas de tinta e jogaram tudo para dentro da Kombi. Fui colocado de cara no chão, quase embaixo do primeiro banco de trás, e Pedro foi arremessado por cima de mim. Ele também estava com a mão cortada, provavelmente quando tentou se proteger.

 

A Kombi virou na Lagoa acelerando tudo o que podia, passou em frente ao Clube de Regatas Flamengo e seguiu em direção ao Leblon. Em frente ao Scala e à Décima-Quarta a Kombi desacelerou, mostrando que estava tudo bem. Os rapazes de sorriso perfeito e bem branco sorriram uns para os outros. Eram risadas saudáveis e fortes. Eles estavam felizes. A Kombi seguiu em direção ao Canal do Leblon, subiu rodopiando as curvas em ziguezague da Rua Aperana. O motorista trocou a marcha, diminuindo, e parou em frente à sacada do Mirante. Acompanhei tudo olhando para fora da janela. Mesmo deitado eu reconhecia os lugares daquela área, pelas árvores ou pelo topo dos prédios.

“Sai do carro, vambora”, ouvi. Vi o rosto dos rapazes, todos pareciam bem nascidos, com cara de bem-criados da Zona Sul, mas eles eram os revoltados da área, os filhos que nasceram com ódio. Procuravam alguma coisa e encontraram, eu entendi tudo. Mas nada tinha sentido.

“Chega de sujeira e vagabundagem por aqui, nós estamos atrás de vocês há um tempo, seus pichadores”, disse um deles.

Pedro ainda tentou argumentar:

“Nós somos grafiteiros, a gente não suja, aquilo é arte”.

Era tarde demais, o terceiro rapaz, o de cabelo moicano e orelha em forma de repolho, pulou com os dois pés no peito de Pedro, gritando, com raiva:

“Grafiteiro de cu é rola!”

Ao cair no chão, quando Pedro tentou se apoiar, a mão dele virou inteira para trás. Vi meu amigo se machucar. Aquilo estava ficando sério, mas eu não sabia o que fazer, não via como conseguir ajuda, a cidade estava lá embaixo, o mar estava próximo e era de um azulmarinho único, a brisa refrescava a mata pequena embaixo do Dois Irmãos, e foi para eles que eu resolvi pedir ajuda. Quando os quatro vieram na minha direção com os punhos e os dentes fechados, olhei firme para aquelas duas rochas imensas e pedi: “Venham, desabem, por favor, caiam em cima de todos nós e nos salvem”. Fechei os olhos e não vi mais nada. Só senti a pancada forte no alto da cabeça. Era a pedra. Era a rocha. Era o mundo se acabando.

Gustavo Melo

Gustavo Melo é instrutor de cinema no Rio de Janeiro.

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