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Dos átomos ao Itamaraty

Um diplomata especializado em física nuclear

Rodrigo Simon
ILUSTRAÇÃO DE ANDRÉS SANDOVAL

Os convidados se apressavam para encontrar um lugar numa das salas do campus da Universidade Princeton, nos Estados Unidos. Entrou o antropólogo brasileiro João Biehl, radicado há trinta anos nos Estados Unidos, professor titular da universidade encarregado de apresentar o conferencista à plateia formada por pessoas de várias nacionalidades.

“Doutor em física nuclear pela Universidade de Manchester, na Inglaterra; pesquisador no CERN, o maior laboratório de física de partículas do mundo, em Genebra, na Suíça; pós-doutor pelo Laboratório Nacional de Física de Partículas do Canadá; por fim, membro do corpo diplomático brasileiro. Uau, muito bom”, disse Biehl, em inglês. E voltou-se para o convidado, Ernesto Batista Mané Júnior, que sorria discretamente, em um misto de timidez e orgulho.

Biehl não apresentou o currículo completo. Faltou dizer que Mané Júnior era o primeiro brasileiro a ser aceito como pesquisador visitante no Programa de Ciência e Segurança Global da Escola de Relações Públicas e Internacionais de Princeton. Até junho deste ano, ele trabalhou no programa, onde também foi a primeira pessoa a reunir no currículo a física e a diplomacia, fato que encheu os olhos do departamento que há meio século desenvolve pesquisas na área de desarmamento e não proliferação nuclear.

Aos 37 anos, o paraibano de João Pessoa já se acostumou a ver a admiração que sua reluzente carreira faz brotar no rosto dos interlocutores, mesmo em um ambiente recheado de estrelas das ciências, como o de Princeton. Além disso, era um dos poucos negros dessa universidade, onde apenas 1% dos pós-doutorandos são afrodescendentes.

A situação não é muito diferente no Itamaraty. Segundo Mané Júnior, o número de diplomatas brasileiros negros hoje não deve passar de 60 num universo de aproximadamente 1,6 mil. Ou seja, eles são cerca de 4% do total. “Mas o Ministério das Relações Exteriores nunca concluiu um censo racial, esse é o problema”, afirma. “Ainda há poucos diplomatas negros, o que é sintomático de séculos de exclusão sistemática em espaços percebidos como de destaque.”

Ele nunca recorreu a qualquer sistema de cotas raciais em sua carreira universitária, exceção feita no momento em que pensou em entrar para o Itamaraty. “Sou completamente a favor das políticas de ação afirmativa em todas as suas dimensões: reconhecimento, justiça e reparação”, diz o pesquisador que teve, ele próprio, o destino traçado por uma iniciativa pública criada nos anos 1960 para tornar o Brasil uma referência acadêmica entre os países em desenvolvimento.

Seu pai, Ernesto Batista Mané, nasceu na pequena São Domingos, na Guiné-Bissau, e se mudou para João Pessoa graças a um programa do governo brasileiro que financiava a vinda de estudantes estrangeiros que quisessem cursar o ensino superior no país. Estudante de economia, o guineense se casou com a colega brasileira Solange Porto e teve seis filhos. Para continuar seus estudos, mudou-se para São Paulo. Mané Júnior viveu seus primeiros anos no Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo (Crusp), onde toda a sua família morou durante uma década em um apartamento de 40 m2.

Mané Júnior fez sua graduação em física na Universidade Federal da Paraíba. Ainda não tinha terminado o curso, quando, em 2003, decidiu ir para a Inglaterra fazer um ano letivo no Departamento de Física e Astronomia da Universidade de Manchester. O esforço por intercalar o estudo com o trabalho de garçom em eventos foi recompensado com o convite para realizar o doutorado na mesma escola, na área de física nuclear.

“Fizemos de tudo para financiar sua vinda, pois sabíamos que era perfeito para o projeto no qual estávamos embarcando”, diz o físico Jonathan Billowes. Professor em Manchester, ele era na época chefe de um grupo que estava iniciando em Genebra um projeto – ao qual Mané Júnior se juntaria – no Centro Europeu de Pesquisa Nuclear (que, embora tenha mudado de nome para Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear, ainda é conhecido pela antiga sigla em francês, CERN).

 

Depois do doutorado, em 2009, Mané Júnior passou três anos no Centro Canadense de Aceleração de Partículas, o Triumf, em Vancouver. Foi quando a saudade de casa apertou e, em 2012, ele decidiu voltar ao Brasil. “O país estava passando por um momento excepcional, e muitos brasileiros que moravam no exterior queriam retornar e fazer parte dessa transformação”, diz.

A experiência como cientista fez com que percebesse que a tendência seria ele se especializar cada vez mais em sua área de conhecimento, desviando-se de outros objetivos intelectuais. “Mas eu queria ter mais liberdade para explorar outros domínios do conhecimento, inacessíveis nas estruturas rígidas das universidades.” Com domínio do inglês, do espanhol, do francês e do alemão, a carreira diplomática lhe pareceu uma escolha tentadora para escapar das amarras acadêmicas.

Com o objetivo de ampliar as chances de ingresso de negros na carreira diplomática, desde 2002 o Itamaraty oferece uma bolsa-prêmio de custeio de estudos preparatórios para o concurso de admissão à carreira diplomática. Pela primeira vez na vida, Mané Júnior lançou mão de uma política de ação afirmativa, recorrendo à bolsa. Dois anos depois, fez a prova do Itamaraty e foi aprovado em quarto lugar. Tomou posse em meados de 2014, no mesmo dia em que seu pai foi cremado. Atualmente, atua como segundo-secretário no Departamento de Nações Unidas do Ministério do Exterior, em Brasília.

Pouco antes da formatura, Mané Júnior desfez-se dos longos dreadlocks que o haviam acompanhado durante todo o curso preparatório. Ao vê-lo com o novo visual, um renomado embaixador não escondeu o entusiasmo: “Agora, sim, você está parecendo um diplomata.” Mané Júnior prometeu a si mesmo que um dia retomaria o antigo visual.

Em Princeton, Mané Júnior desenvolveu estudos que podem ajudar a substituir o urânio altamente enriquecido, combustível utilizado nos submarinos nucleares e na construção de bombas nucleares, por outro, de baixo enriquecimento e menos perigoso. Naquela tarde de março na universidade, no entanto, sua palestra deixou de lado a física nuclear. Ele preferiu tratar de um tema menos acadêmico: “Cooperação e conflito dentro e fora da roda de capoeira.” A audiência adorou.

Rodrigo Simon

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