ficção

Dublin assombrada secreta

Nosso ramo são os tours. Não é uma proposta muito original. Nosso diferencial nos protege contra a falência

Daniel Pellizzari
Criamos do zero as histórias do nosso tour. Não é tão difícil ou arriscado quanto parece. Nossos clientes são turistas, afinal. Para a maioria, Dublin significa U2 e bebedeira
Criamos do zero as histórias do nosso tour. Não é tão difícil ou arriscado quanto parece. Nossos clientes são turistas, afinal. Para a maioria, Dublin significa U2 e bebedeira

Ainda não escureceu, e nenhum dos meus colegas costuma chegar com muita antecedência no trabalho. Acendo um Silk Cut, apoio as costas numa das colunas do General Post Office e assisto às manadas de colegiais católicas voltando para casa. De vez em quando me distraio com o bigode especialmente gigantesco de algum cigano que não troca de roupa desde 1972, mas meu foco sempre são as garotas.

Não entendo por que colégios católicos impõem esse tipo de uniforme às alunas. Imagino que o fetiche tenha nascido depois do uniforme, mas dane-se a ressignificação. É impossível imaginar um mundo onde adolescentes curvilíneas de saia, camisa social, gravata e casaquinho não despertem intenções pouco cristãs. Gosto especialmente das imigrantes. Não que as irlandesas não sejam bonitas, mas a maioria costuma exagerar na maquiagem desde cedo. É como se logo após a primeira menstruação crescesse em seus rostos uma exocriatura multicolorida, disfarçada de cosméticos aplicados com a afobação de quem está começando a descobrir o poder que exerce sobre os homens. Mas nada supera as imigrantes. Uma chinesinha recém-chegada à Irlanda e à puberdade, embalada num uniforme católico, é um paradoxo tão delicioso quanto um cordeiro de Galway com molho kung po.

Em meio às colegiais, aos ciganos, aos turistas e ao resto do oceano de pessoas que escoa pela O’Connell no final da tarde, enxergo ao longe a maçaroca ruiva que vive na cabeça de Barry. Caminha sem a mínima pressa, vestido com a habitual calça esportiva e um moletom listrado verde e branco com capuz. De vez em quando esbarra num transeunte, aparentemente de propósito. Barry é nosso irlandês residente, peça fundamental do negócio. Nosso ramo são os tours por locais supostamente mal-assombrados de Dublin. Não é uma proposta muito original. Temos três concorrentes num raio de 800 metros e um deles, promovido pela Dublin Bus, é praticamente oficial. Apenas nosso diferencial nos protege contra a falência. Mostramos aos clientes uma Dublin assombrada secreta, com um roteiro exclusivo de paradas que não se repetem em nenhum dos outros tours da cidade.

Isso acontece, naturalmente, porque inventamos tudo nos mínimos detalhes. Criamos do zero as histórias que justificam cada passo do nosso tour. Não é tão difícil ou arriscado quanto parece à primeira vista. Nossos clientes são turistas, afinal de contas. Turistas não sabem coisa alguma sobre a cidade, especialmente o tipo de turista que procura tours. Para a maioria deles, Dublin significa U2 e bebedeira, nada mais. Para os mais pretensiosos também existe James Joyce, mas esses costumam se limitar aos pub crawls literários e não se interessam pelo serviço que oferecemos. Quando o fazem, são fáceis de reconhecer pelo risinho indelével no canto da boca, que se sustenta por todo o trajeto do roteiro ou até que Barry tenha a chance de lhes conceder o que chama de “tratamento especial”. Melhor não entrar em detalhes. Há também os turistas wiccans, geralmente uma turma de maconheiros loucos para acreditar em qualquer bobagem que se passe por misticismo celta ou viking. Mas o grosso dos clientes é gente comum, turistas que querem apenas se divertir e engolem qualquer história, desde que bem contada.

É raro, mas às vezes algum dublinense tenta se inscrever. Sempre em vão. Para quem nasceu na Irlanda, nunca temos vagas. Quando algum deles escapa da peneira, Barry entra em ação. Como único irlandês da empresa, tem como principal função servir como lastro de verossimilhança para as histórias que inventamos. Ele nasceu em Cork (“na República Popular de Cork”, como sempre me corrige), mas mora com uma tia em Dublin e sabe imitar perfeitamente o sotaque e os maneirismos da classe trabalhadora local. Quando um dublinense resolve questionar uma de nossas histórias, Barry simula um ataque de fúria santa e começa a metralhar explicações que invariavelmente se iniciam com o bordão “meu avô, que Deus o tenha, sempre me contou que…”. E funciona. Assistir a Barry defendendo nossas mentiras é compreender que são Patrício pode realmente ter expulsado as serpentes da Irlanda na base da lábia inflamada. Até os ocasionais concorrentes que às vezes se inscrevem para tentar descobrir nossos segredos parecem acreditar em tudo assim que o testemunho atávico é invocado por um sardento falastrão. Na Irlanda, o respeito aos anciões do clã ainda parece resistir.

 

Hoje, Barry não parece nem um pouco satisfeito em me ver. Pede um cigarro, arranca o maço inteiro da minha mão (“tributo”, rosna) e fulmina:

– Por que não veio trabalhar ontem? Cê sabe muito bem que domingo é um dia complicado, e ficou ainda pior sem sua ajuda. Não atendeu o celular, não atendeu o telefone de casa. Qual é? Fiquei sozinho com o Zbigniew, que nem fala inglês direito e só serve pra meter medo. Aí precisei ligar pro Seewo, que tava de folga e teve que vir às pressas lá da puta que o pariu. E cê sabe melhor do que eu que esse preto não trabalha muito bem. Ele é meio retardado.

Eu pagaria muitos euros para saber as coisas que Barry fala a meu respeito quando não estou por perto.

– Explico mais tarde, no Hairy Lemon. E olha, Barry, o Seewosagur não é negro. Você sabe disso. Ele veio das ilhas Maurício, é de uma etnia que fala crioulo. Indianos não são negros.

– Ai, ai, ai. E onde é que fica essa ilha Maurício, hein? Não é na África?

– No oceano Índico. Mas sim, é perto de Madagáscar.

– Se fica perto de Madagáscar, é África. Não me enrola. Olha, parceiro, quando meu pai tinha minha idade a população preta da Irlanda se resumia ao baixista do Thin Lizzy. Antes dele, a única coisa escura que a gente tinha por aqui era a Guinness. Foi nesse ambiente que eu cresci, então não me vem com essa conversa fiada de etnia e o caralho só porque agora os político enfiaram a gente nessa onda multicultural. Branco é branco, preto é preto e cigano é cigano, ponto final. E pra branco o Seewo não serve. Sai fora. E vê se não me deixa na mão de novo, porra.

Barry tem um canino de ouro. Ficaria ridículo em qualquer outra pessoa.

– Eu tive bons motivos. Juro.

– Tá bom, então. Daqui a pouco também vou começar a matar trampo de vez em quando. Preciso mesmo de um tempo pra cuidar dos meus besouro, cê tá sabendo.

Nos últimos meses, Barry anda obcecado por uma nova ideia de ganhar dinheiro: criar besouros gigantes para vender a japoneses pela internet. Muitos deles têm como hobby colecionar os bichinhos. Mas Barry não se satisfaz com uma simples criação de besouros, atividade que já estaria bem além de suas capacidades. Seu plano para enriquecer à custa dos colecionadores japoneses é cruzar diferentes espécies de besouros gigantes para criar variedades exóticas, que seriam vendidas a preços astronômicos.

– Deus do céu. Você ainda não tirou isso da cabeça? Barry, o que você entende de insetos? Acha que é simples? Vai fazer o quê, hein? Juntar um monte de besouros numa caixa de areia dentro do banheiro, apagar a luz, colocar Sexual Healing no repeat e promover uma suruba de coleópteros que renderá como frutos besouros nunca antes vistos? É esse mesmo seu plano?

– Deixa de ser idjota, parceiro. Cresci jogando Game Boy, porra. Pokémon me ensinou tudo que alguém precisa saber sobre esse negócio de criar bicho exótico.

Pronto. Com Barry, qualquer discussão acaba mencionando videogames. Não posso reclamar.

Pokémon não serve para nada. Os únicos games que realmente importam são os shmups, Barry. Especialmente os manic shooters.

Uma careta.

– Lá vem. Cê sempre começa com esses jogo de navinha. Sai fora. Nintendo ou nada.

– Sim, estimado Barry, insisto em mencionar os bullet hell. Esqueça um pouco essa obsessão sexual por encanadores italianos saltitantes e garotinhos mudos vestidos com malhas verdes colantes, por favor.

– Ei. Eeei – espeta minha clavícula com o indicador em riste. – Mais respeito com as criação de Shigeru Miyamoto. Guarda as blasfêmia pros seus parceiro de sodomia lá do Fibber Magees, seu metaleiro sujo.

Metaleiro. Essa é nova.

– Cala a boca, Barry. Presta atenção. Você controla uma nave minúscula contra ondas intermináveis de inimigos. Está cercado por todos os lados de enxurradas de balas que parecem inescapáveis. Mas sempre existe uma maneira de driblar e vencer os inimigos e suas armas. O segredo está em manter a calma e saber que os leques sucessivos de projéteis nunca são tão letais quanto parecem. Basta descobrir a margem de manobra possível dentro do sistema de colisão de cada jogo. Depois que você domina essa mecânica e descobre a melhor maneira de lidar com o arsenal à sua disposição, o jogo perdeu. Tudo o que resta é continuar jogando todos os dias em busca de escores cada vez mais altos até cansar, e então partir para outro jogo. E a vida é isso, Barry.

Ele fica uns 45 segundos imóvel, de boca aberta. Tem uma expressão confusa nos olhos, como se estivesse tendo um derrame. Nem pisca. De repente começa a fungar com tanta força que tenho a impressão de que sua cabeça vai implodir.

– Jesuis – escarra na calçada, a menos de 1 centímetro dos meus pés. – Essa foi a metáfora mais idjota que eu já ouvi em toda a minha vida. Sai da minha frente, seu imigrante vagabundo.

Barry é tão esperto que sabe direitinho como se fazer de burro.

 

Alguns minutos depois Zbigniew aparece, careca e rosado, como sempre dando a impressão de estar fazendo um esforço sobre-humano para impelir o corpanzil adiante. Quando nos enxerga, acena e sorri. Nosso polonês tem 2 metros de altura, pesa no mínimo 150 quilos e é o único membro da equipe que não dá a mínima para videogames. Obcecado por história bélica e serial killers, vive ruminando teorias aparentemente muito intrincadas a respeito do instinto de agressão humano. Infelizmente, por conta de seu parco vocabulário em inglês de sotaque eslavo, nunca conseguiu nos transmitir muita coisa além de entusiasmo.

Anoitece e as horas seguintes seguem a partitura habitual: os trouxas da noite chegam na hora marcada, levamos todo mundo para passear em nossa terra de faz de conta e pronto. Missão cumprida e euros no bolso. Ao fim do expediente, como todos na cidade, vamos encher a cara em nosso pub favorito.

Daniel Pellizzari

Daniel Pellizzari,escritor e tradutor gaúcho, publicou Dedo Negro com Unha, pela DBA. A ficção é trecho de um romance que será lançado em breve.

Leia também

Últimas Mais Lidas

Pandemônio em Trizidela 

Do interior do Maranhão a celebridade nas redes: prefeito xinga na tevê quem fura quarentena contra covid-19, ameaça jogar spray de pimenta e relata disputa por respirador alugado

Socorro a conta-gotas

Dos R$ 8 bi prometidos para ações de combate à Covid-19, governo federal só repassou R$ 1 bi a estados e municípios

O gás ou a comida

Na periferia de São Paulo, com epidemia de Covid-19, preço do botijão vai a R$ 150 (um quarto do auxílio prometido pelo governo), renda cai e contas continuam chegando

Na piauí_163

A capa e os destaques da revista que começa a chegar às bancas nesta semana

Diário de um reencontro sem abraços

Sônia Braga de luvas de borracha, desinfetante no avião e um samba com Beth Carvalho: a jornada de um roteirista brasileiro para voltar para casa e cuidar dos pais idosos

Cinema e desigualdade – o nó da questão

Salas fechadas acentuam privilégio de quem pode pagar por serviços de streaming

Bolsonaro aposta no comércio

Presidente visita lojas e, nas redes, organiza movimento contra isolamento social

Separados pelo coronavírus

Ao falar contra isolamento, Bolsonaro surpreende até Bannon, favorável à quarentena total; no Brasil, cúpula do Congresso teme autoritarismo e evita confronto direto

A capa que não foi

De novo, a piauí muda a primeira página aos 45 do segundo tempo

E se ele for louco?

Suspeitar da sanidade mental de Bolsonaro não permite encurtar caminho para afastá-lo; saída legal é o impeachment

Mais textos
2

Bolsonaro contra-ataca

Estimulada pelo pronunciamento do presidente, militância bolsonarista faz ação orquestrada nas redes e nas ruas, convocando atos para romper quarentena

3

Em duas estratégias, um êxito e uma ópera trágica

Como a China barrou a transmissão do coronavírus enquanto a Itália tem mais mortes em metade do tempo de epidemia

5

Decepção ambulante

Para um terço dos brasileiros, atuação de Bolsonaro contra coronavírus é ruim ou péssima; ex-apoiador do presidente, camelô rompe quarentena para não passar fome, mas reclama: “Gostaria que ele levasse a sério”

6

“Se não tem teste, como saber se é coronavírus?”

Com febre alta e dificuldade para respirar, moradora do Pantanal, na periferia de São Paulo, diz que medo do Covid-19 chegou à comunidade – mas ainda faltam informação e diagnóstico 

7

E se ele for louco?

Suspeitar da sanidade mental de Bolsonaro não permite encurtar caminho para afastá-lo; saída legal é o impeachment

8

Separados pelo coronavírus

Ao falar contra isolamento, Bolsonaro surpreende até Bannon, favorável à quarentena total; no Brasil, cúpula do Congresso teme autoritarismo e evita confronto direto

9

Com tornozeleira, sem segurança

No Acre, preso que ganha liberdade provisória recebe também sentença de morte

10

Contágio rápido e silencioso: a matemática do coronavírus

Doença pode ser transmitida por pessoas infectadas e sem sintomas; para epidemiologista de Harvard, perspectivas globais são preocupantes, mas no Brasil, é mais provável contrair sarampo