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É cerveja? É sorvete?

Não, são os livros das intrépidas editoras da Bolha no Circo Voador

Rafael Cariello
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2013

Numa manhã recente de domingo, em um prédio art déco na ladeira da Glória, no Rio de Janeiro, a mineira Rachel Gontijo e a californiana Stephanie Sauer faziam, em casa, os últimos preparativos antes de saírem à rua. A tarefa imediata era encher de livros o baú dianteiro de um triciclo, batizado por elas de A Bolha Móvel – uma espécie de carrinho de sorvete, pintado de amarelo brilhante e preso a um quadro de bicicleta com os pedais e a roda traseira.

O veículo seria conduzido por Stephanie, não sem dificuldades para superar calçadas irregulares e meios-fios altos, até o bairro da Lapa, num percurso de pouco mais de 2 quilômetros. Rachel ia na frente, para avaliar os obstáculos do caminho. Levavam quase 70 livros: quatro exemplares de cada um dos dezessete títulos lançados pela editora A Bolha, de que são sócias desde o final de 2011.

Uma feira gastronômica, realizada naquele dia no Circo Voador, tradicional espaço cultural da cidade, se afigurava oportuna para uma visita da lojinha itinerante, que ganhara as ruas do Rio pela primeira vez poucas semanas antes. As principais metas da Bolha Móvel, explica Rachel, são divulgar a empresa para um público mais amplo e impulsionar, na medida do possível, as vendas da editora.

Não que A Bolha seja desconhecida. A criação de Rachel e Stephanie vem chamando a atenção do meio editorial, de livreiros e jornalistas. O catálogo, de difícil definição, tem sido construído em visitas a livrarias independentes e no contato com pequenas editoras dos Estados Unidos e da Europa, sobretudo. Poucos livros se encaixam nos gêneros tradicionais. Há muitos títulos de “narrativa visual” (HQs) irônica ou surrealista, e também textos em que a não ficção e a imaginação literária se confundem – os pintores Balthus e Francis Bacon são personagens, por exemplo, de uma obra parcialmente ficcional, traduzida pelo escritor gaúcho Daniel Galera.



A unidade do conjunto deriva do acabamento cuidadoso. “Quem vê capa vê conteúdo”, defende Rachel. São obras ao mesmo tempo sofisticadas e um tanto gauches, fora do comum. Como as criadoras d’A Bolha, aliás.

 

Rachel tem 34 anos e nasceu em Belo Horizonte, mas passou a maior parte da infância e da adolescência em Brasília. Aos 18, mudou-se para a França. Cursou filosofia e política internacional na Universidade Americana de Paris. Apesar de ter passado quase toda a vida distante da terra natal, seu sotaque é inconfundível. “Quando o negócio aperta, o mineiro desperta”, brincou. Baixinha e magra, ela gesticula bastante quando fala. É a mais inquieta das duas. Tem olhos verdes e os cabelos pretos sempre revoltos.

Stephanie fala bem o português, mas com a prosódia típica de um norte-americano. É bem mais alta que Rachel. Loira, tem 30 anos e os olhos de um azul-claro incomum. Parece sempre muito calma. Nasceu e foi criada numa pequena cidade no norte da Califórnia com o estranho nome de Rough and Ready (algo como Tosca e Pronta).

Seus pais são carpinteiros. A mãe é também caçadora e viaja, durante a temporada, para estados próximos ao Canadá a fim de abater animais de grande porte. Volta com carne suficiente para o ano inteiro. Stephanie adora o hambúrguer de alce e a salsicha de urso.

 

Ao meio-dia, a Bolha Móvel já se encontrava dentro do Circo Voador. Na chegada, um dos funcionários que montavam as barraquinhas da feira gastronômica se aproximou do triciclo. Parecia desconfiado, enquanto tentava descobrir alguma placa ou indicação do que era transportado ali. “Vocês vendem água?”, perguntou.

Pouco depois Rachel orientava Stephanie a fim de encontrarem a melhor localização para o carrinho, já ao lado de uma palmeira e com os Arcos da Lapa ao fundo. A brasileira parecia ansiosa. Moveu uma lata de lixo para fora do “cenário” da Bolha Móvel. “Sei que parece boba essa preocupação, mas não é”, explicou, enquanto fazia mínimas alterações na posição de uma cadeira de praia. “Foi bom ter chegado antes, para poder fazer esses ajustes. Senão eu ia ficar ainda mais nervosa.”

Além das preocupações imediatas, há outras. “A gente não sobrevive da editora”, ela disse. “É um investimento. Ainda não é sustentável.” Stephanie, que parecia alheia ao frenesi da amiga, fez então alguma brincadeira, e Rachel relaxou.

As duas se conheceram, em 2006, no mestrado de escrita criativa no Instituto de Arte de Chicago. Por estar associado a uma das mais importantes escolas de artes plásticas dos Estados Unidos, o curso resulta heterodoxo, híbrido. Rachel e Stephanie se viram, pela primeira vez, numa aula que tinha como título “Oblique angles of entry” (literalmente, ângulos oblíquos de entrada).

Meses depois, resolveram viver e trabalhar juntas. Rachel começou a dar aulas, ainda em Chicago. As duas escreviam. Ainda escrevem. Brincavam de soprar bolhas de sabão gigantes. Queriam abrir uma editora. “Foi daí que veio a ideia”, disse Rachel. “A Bolha. Uma coisa leve. Que não é sólida, não é permanente. Mas é lúdica, é uma brincadeira também.”

Com a crise de 2008, contudo, o visto de trabalho da brasileira não foi renovado. “Eu também estava com dificuldade para conseguir emprego”, explicou Stephanie. Decidiram se mudar para o Brasil. A Bolha vai bem, ganha prestígio, mas não faz dinheiro.

Pensando bem, ter levado a Bolha Móvel a uma feira gastronômica talvez tenha sido um erro. Mais de uma vez houve quem perguntasse se a carrocinha tinha cerveja. Ao final de umas oito horas de trabalho, apenas dois livros haviam sido vendidos.

“A gente tem que seguir em frente”, reagiu Rachel. “Isso aqui é uma atitude meio que de guerrilha”, argumentou. Uma guerrilha incomum, que evoca sorvetes, circos voadores, bolhas de sabão, humor nonsense, histórias da infância. Uma guerrilha do tempo da delicadeza.

Rafael Cariello

Editor da piauí. Foi editorialista da Folha de S.Paulo e correspondente do jornal em Nova York

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