esquina

E o bambu?

Uma surpresa a cada dia

Fernanda Wenzel
ILUSTRAÇÃO_ANDRÉS SANDOVAL_2018

José Ene passava férias em Florianópolis em 2002 quando avistou algumas taquaras boiando no mar. Os locais as usavam para fazer viveiros de ostras, e ele decidiu levar um punhado delas para seu sítio em Eldorado do Sul, a cerca de 50 quilômetros de Porto Alegre. “Estavam cravejadas de mariscos, com um cheirinho bem ruim”, lembra o gaúcho alto e magro de 70 anos. Juntando um motorzinho a três ou quatro pedaços dos bambus que recolhera do mar, ele construiu uma pequena fonte que bombeava água numa bacia de cerâmica.

Sem se dar conta de imediato, Ene acabara de se converter num bambuzeiro, como são chamados os aficionados por essas gramíneas. Pegou gosto pela produção de objetos com essa matéria-prima. Certa vez deixou uma fonte em consignação num shopping de Porto Alegre. Quinze minutos depois o vendedor telefonou avisando que já tinha comercializado a peça: “Tem mais dessas?” Logo o gaúcho estava distribuindo sua produção em diversas lojas. Passou a fabricar utensílios de cozinha, carrancas, abajures e bastões – tudo de bambu. “Depois que tu começa, não larga mais”, alertou.

Como a demanda só crescia e o acesso à matéria-prima estava difícil, Ene decidiu plantar os próprios bambus. Hoje se proclama o maior colecionador particular dessas gramíneas do Brasil. Em seu sítio de 1 hectare, batizado de Bambuplatz Garten – “jardim dos bambuzais”, em alemão –, há 58 espécies da planta, fora aquelas que ele ainda não identificou (o termo “bambu” designa mais de mil espécies que ocorrem em quase todos os continentes, com exceção da Europa e da Antártida – só no Brasil há cerca de 300 variedades, às vezes chamadas de taquara, taquarembó, taquaruçu e outros termos de origem indígena).

O bambuzeiro é bioquímico de formação, com pós-graduação em administração de empresas. De segunda a sexta fica em Porto Alegre, onde trabalha como consultor técnico para empresas de alimentos; nos fins de semana vai para o sítio, hoje ponto de encontro de aficionados que vão admirar sua coleção e participar de oficinas e seminários. “O bambu é uma planta que a cada dia me causa uma surpresa”, disse Ene. “É diferente de uma bananeira”, continuou, apontando para alguns espécimes em sua propriedade. “Elas dão banana todo ano e não me surpreendem. O bambu, não.”



A fim de mostrar a variedade de sua coleção, num fim de semana de julho Ene levou a repórter da piauí para um tour guiado pelo Bambuplatz Garten. “Olha que espetáculo”, exclamou, indicando quatro touceiras imponentes de Bambusa oldhamii. “Essa planta resiste tanto ao inverno rigoroso como às altas temperaturas do verão do Rio Grande do Sul”, contou. Ainda destacou belos espécimes de Phyllostachys pubescens, a espécie de maior importância comercial da China, e os bambus gigantes Dendrocalamus asper.

 

Ene guarda até hoje uma taquara coberta de cracas remanescente da primeira fonte que fabricou – “por uma questão histórica”. Mas já não produz objetos de bambu, a menos que seja para atender à encomenda de algum amigo ou que tenha alguma serventia para a casa, como o corrimão que fabricou para a escada do sítio. Hoje o gaúcho se dedica a cultivar mudas de bambus que ele vende a arquitetos, paisagistas e colecionadores. Mas essas gramíneas podem ser aproveitadas numa série de outras aplicações, da construção civil à produção de celulose, passando pela geração de energia e pela alimentação – seu broto está presente em muitos pratos asiáticos.

Além disso, o gaúcho atua como divulgador do bambu e articulador dos entusiastas – mantém um blog temático desde 2011 e administra um grupo de WhatsApp que reúne dezenas de bambuzeiros do Rio Grande do Sul. Conecta-se também com seus pares no exterior. “O bambu me proporcionou grandes amigos fora do Brasil”, contou. “Todo ano vou aos Estados Unidos visitar a coleção deles.”

Ene é diretor regional da Associação Brasileira dos Produtores de Bambu. Em ano de eleição, a entidade está se articulando para que seus interesses sejam representados nas urnas. Produtores que atuam em várias regiões – a planta é cultivada em oito estados brasileiros – devem distribuir entre os candidatos um documento que os convida a tomar medidas de estímulo à cadeia produtiva do bambu. O gaúcho não descarta levar as reivindicações para os postulantes ao Planalto. “Tu acha que tem algum presidente bambuzeiro?”, perguntou, rindo.

Após dezesseis anos de interesse pelo bambu, a dimensão metafórica de sua obsessão não lhe passou despercebida. A imagem da planta que verga mas não quebra já foi evocada para ilustrar o caráter de indivíduos tenazes. O que nem todos sabem é que ela se enquadra em toda uma linhagem de comparações. “Muitos ditados chineses se baseiam no bambu como um espelho da personalidade”, pontificou o gaúcho.

Que ninguém ouse, porém, fazer troça de sua paixão. Piadas que exploram as rimas com bambu ou alusões que lhe pareçam desrespeitosas despertam profundo desgosto no gaúcho. Foi o que sucedeu numa de suas viagens aos Estados Unidos, em 2010. Assim que soube que o museu Metropolitan, em Nova York, exibia uma obra feita de bambu, o gaúcho tratou de alugar um carro em Baltimore, onde estava hospedado, e dirigiu mais de 300 quilômetros para ver de perto a instalação dos irmãos gêmeos americanos Mike e Doug Starn.

Big Bambú consistia numa grande estrutura no teto do museu montada com milhares de pedaços de bambu atados com cordas, dentro da qual os visitantes podiam transitar. A exposição foi premiada, esteve entre as mais visitadas do MET e inspirou uma releitura da logomarca do New York Times, mas Ene não viu a menor graça na obra, que lhe pareceu bruta, malfeita e deselegante. Onde os artistas esperavam estimular uma reflexão sobre a mutabilidade da existência e o significado de estar vivo, o bambuzeiro viu apenas “um amontoado de palitos e varas empilhadas”. “Não tinha nada de positivo para quem queria evidenciar a beleza e todos os apelos da planta”, lamentou Ene. “Estragaram a imagem do bambu no mundo todo.”

Fernanda Wenzel

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