esquina

Em defesa do esporão

Um conservacionista a favor da briga de galo

Ricardo Cabral
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Adelmar Faria Coimbra Filho, de 86 anos, se levanta todos os dias à mesma hora e logo se tranca em seu escritório, no quarto dos fundos de sua casa, na Gávea, para estudar. Funcionário público aposentado, ele é um dos grandes nomes do conservacionismo nacional. Na década de 70, participou do repovoamento do Parque Nacional da Tijuca. Lá, soltou quase mil animais, entre arapongas, macucos, juritis e cotias nos 3 360 hectares de floresta tropical incrustados no Rio. Com mais de 200 livros e artigos científicos publicados, ele também chamou a atenção para o risco de extinção do mico-leão-dourado.

Adelmar Coimbra contou que está terminando um livro sobre briga de galo. Era razoável presumir que Coimbra, ambientalista que é, passaria os próximos minutos expondo argumentos contra os que se comprazem em ver os galos sofrerem. Engano: o biólogo defende a legalização da briga de galo.

O livro vai se chamar Em Defesa do Galismo, e será uma crítica aos magistrados que, segundo ele, julgam sem saber o que estão julgando, porque não podem julgar um animal que briga porque quer. “Vou desmoralizar a Justiça brasileira”, promete. Explicou que a luta entre os galos é absolutamente natural. “Deus colocou esporão em galo para quê? É um crime idiota!”, disse. O esporão, a “arma” do galo, é uma protuberância que fica na perna do bicho, um pouco acima dos pés, e que, dependendo da força com que atinge um homem, pode perfurar seu braço.

Coimbra diz que a briga foi proibida no Brasil “por um bando de cretinos”, amparados pelo “sentimentalismo doentio” de toda uma população que, sem saber, está arrasando uma tradição milenar da cultura oriental. Orgulhoso, exibe um painel japonês de pintura zen que fica pendurado ao final do corredor que leva ao seu escritório: duas aves robustas se engalfinham, congeladas em uma cena épica. Espalhadas pela casa, compõem a decoração várias estatuetas de galos de briga – ou, como ele prefere chamar, “galos combatentes”.



 

Coimbra é cearense, mas mudou-se para o Rio aos 12 anos. Desde pequeno é fã de brigas de galo. Criador dos bichos até que Jânio Quadros decretasse a criminalização, em 1961, seus olhos brilham ao se lembrar da bravura de seus galos, cuja raça, Asil Rajah Murgh, “tem mais de 3 mil anos de evolução”. Na parede da sala, ele pendurou uma lembrança dos tempos de bonança: um quadro, pintado por ele mesmo em óleo sobre tela, com um exemplar das aves que criava em parceria com o empresário Arnaldo Ferreira Leal. De penugem negra, olhos arregalados e esporões pontiagudos sobre um fundo vermelho-sangue, o galo parece raivoso, como se estivesse prestes a começar uma batalha feroz. Da viagem que fez certa vez ao Japão, trouxe uma meia dúzia de ovos fecundados de primeira estirpe, que criou na mansão do amigo no bairro de Laranjeiras. Entristecido, ele rememora que o melhor dos galos, porém, foi levado ainda novo debaixo dos braços de um caseiro, que nunca mais apareceu.

Para alavancar o livro, Coimbra preparou também uma palestra, que pretende levar para onde quer que o convidem. Arrastando o mouse sem muita desenvoltura, exibiu a apresentação que preparou no computador: mais de 100 slides com fotos, mapas e gráficos sobre as brigas de galo. Ainda não proferiu a conferência nenhuma vez, mas se inspira em galistas célebres para seguir com sua jornada épica, como os ex-presidentes dos Estados Unidos Abraham Lincoln e George Washington, o empresário Assis Chateaubriand e Tancredo Neves. “Só gente decente!”, exaltou-se. “Como dizer então que briga de galo é coisa de mau-caráter? Quem fala uma besteira dessas é porque não sabe nada.”

Ricardo Cabral

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