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Em nome do vírus

A volta do latim divide os virologistas

Bernardo Esteves
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2020

É preciso fôlego e algum traquejo com o inglês para dizer o nome científico do vírus responsável pela pandemia que matou 821,3 mil Homo sapiens até 26 de agosto. Ele pertence à espécie Severe acute respiratory syndrome-related coronavirus – ou coronavírus associado à síndrome respiratória aguda grave.

O nome contrasta com o dado às plantas, animais, bactérias e outros seres vivos. Desde o século XVIII os biólogos batizam as espécies usando o padrão inventado pelo naturalista sueco Lineu: um nome duplo em latim que deve ser escrito em itálico. A laranjeira é Citrus sinensis; a ema, Rhea americana.

Com os vírus, porém, tudo é mais complicado, a começar por seu estatuto biológico: como eles precisam usar estruturas das células de outros organismos para se reproduzir, não podem ser considerados exatamente seres vivos. Essa peculiaridade livrou os vírus de se submeterem às regras usadas para nomear todos os outros organismos. Os cientistas têm liberdade para batizá-los, desde que o nome venha em itálico e com a primeira letra maiúscula.

Os vírus foram observados pela primeira vez nos anos 1930, com a invenção do microscópio eletrônico, e a virologia só se consolidou como disciplina nas décadas seguintes. Talvez por isso os nomes científicos desses organismos sejam dados em inglês, que tomou o lugar do latim como língua franca da ciência.



Mas o uso do vernáculo pode gerar confusão com o nome comum da espécie, além de criar dificuldades para os falantes de outras línguas. Para o lusófono que depara com o nome científico do HIV, Human immunodeficiency virus, o reflexo é verter para o português e chamá-lo de vírus da imunodeficiência humana. “As pessoas acham que podem traduzir, o que é absurdo”, disse o virologista Francisco Murilo Zerbini, da Universidade Federal de Viçosa (UFV). “Ninguém pensa em traduzir Canis familiaris, que é o nome científico do cachorro.”

Zerbini é um paranaense de 54 anos que se especializou no estudo de vírus que provocam doenças em plantas. Já descreveu mais de quarenta espécies, como o Tomato yellow spot virus, que causa a mancha amarela do tomateiro. Se a nomenclatura dos vírus seguisse o padrão estabelecido por Lineu, afirmou, essa espécie poderia se chamar Begomovirus lycopersici. “Perceberiam que é um nome científico e ninguém traduziria”, afirmou. “Facilitaria muito a comunicação científica.”

De quebra, a mudança acabaria com nomes extensos como o do European mountain ash ringspot-associated emaravirus, um vírus que ataca as folhas da tramazeira, árvore que não ocorre no Brasil (em português, seria o emaravírus associado à mancha anelar da tramazeira). “É quase uma frase”, notou Zerbini. “Não tem cabimento um nome desse tamanho.”

No que depender do professor da UFV, a confusão tem data para acabar. Zerbini é um dos dezenove membros do Comitê Executivo do ICTV, ou Comitê Internacional para a Taxonomia de Vírus. Numa eleição em outubro, eles decidirão se os virologistas passarão a adotar um padrão semelhante ao usado em outros ramos da biologia, uma proposta que vem sendo discutida desde 2016. A decisão pode levar à mudança do nome científico das mais de 6,5 mil espécies conhecidas de vírus.

 

Nem todos os virologistas estão confortáveis com a ideia de adotar nomes latinizados, especialmente os anglófonos. “Estou francamente horrorizado que estejamos revisitando um território que deixamos para trás há mais de cinquenta anos”, lamentou Ed Rybicki, da Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul, num fórum de discussão no site do ICTV. “Havia sido reconhecido que os vírus não são como os organismos celulares e que tínhamos uma chance de escapar da camisa de força que os binômios latinos nos impuseram séculos atrás.”

Numa carta aberta endereçada ao comitê, a Sociedade Australasiana de Virologia objetou que a adoção de nomes latinizados para milhares de espécies seria trabalhosa e impraticável em alguns casos. Além disso, julgaram inoportuno discutir a mudança em plena pandemia. “Acreditamos que 2020, o ano da Covid-19, não é o momento adequado para uma mudança maior na nomenclatura das espécies de vírus.”

As objeções não se limitam aos pesquisadores anglófonos. “Implantar um sistema binomial latinizado para vírus, pelo menos no caso de vírus de plantas, não traria nenhuma vantagem, e não vejo razões científicas que justifiquem essa mudança”, afirmou num e-mail o virologista Renato Resende, da Universidade de Brasília. Resende citou o argumento usado por um colega norte-americano: “Essa é uma solução elegante para um problema que não existe.”

Zerbini tem argumentos na ponta da língua para refutar os críticos. Para ele, a mudança de padrão nada terá de trabalhosa. A tarefa de dar novos nomes aos vírus conhecidos seria atribuída aos cerca de seiscentos integrantes do ICTV, divididos em dezenas de grupos de estudo. “Cada pessoa vai ter que bolar uns dez nomes”, calculou. “A gente faz isso em meia hora.” Ferramentas na internet podem ajudar os pesquisadores a criar nomes latinizados a partir de expressões do vernáculo, continuou Zerbini. “Ninguém vai ter que aprender latim.” O paranaense também não vê problema em tomar a decisão no meio da pandemia. “Faz quatro anos que estamos tendo essa conversa e nenhum argumento novo aparece.”

 

De acordo com a proposta a ser votada pelo ICTV, apresentada num artigo publicado em 2019, as espécies de vírus passariam a ter um nome duplo iniciado pelo gênero ao qual pertencem. O comitê executivo terá que escolher uma de três opções para a segunda parte: um nome latinizado, formado por caracteres alfanuméricos ou em formato livre. Zerbini defende o modelo latinizado, mas aposta que o formato livre é o que será adotado, o que lhe parece uma solução de compromisso satisfatória. “Já será um progresso enorme em relação à ausência de padrão que temos hoje em dia.”

Se essa proposta ganhar, o vírus causador da Aids talvez passe a se chamar Lentivirus HIV, e o responsável pela Covid-19 poderia se tornar o Betacoronavirus SARS. Dois vírus comuns no Brasil que podem ser transmitidos pelo mosquito Aedes aegypti possivelmente seriam rebatizados como Flavivirus dengue e Flavivirus zika, o que chamaria a atenção para seu parentesco. “Quando falamos em vírus da dengue e vírus da zika, você não faz ideia de que eles são relacionados”, disse Zerbini.

A mudança na nomenclatura talvez não chamasse a atenção se os virologistas não estivessem sob os holofotes da sociedade no meio da pandemia. Mas a decisão do ICTV não terá grandes consequências para o cidadão comum. Zerbini citou o caso do tomate, cujo nome científico mudou nos anos 1990. “Antes você comprava Lycopersicon esculentum, e agora, Solanum lycopersicum”, afirmou. “Fez diferença na sua vida?”

Bernardo Esteves

Repórter da piauí desde 2010, é autor do livro Domingo É Dia de Ciência, da Azougue Editorial

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