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Retrato de um homem livre

Como fruir um chá na Academia Brasileira de Letras e um encontro de alcoólatras anônimos

Roberto Kaz
Leitor de todas as atas da ABL, Heber Trinta traz de cor número e patrono de cada cadeira, e já gastou metade da vida nas salas da Academia, do Museu de Belas-Artes e da Biblioteca Nacional
Leitor de todas as atas da ABL, Heber Trinta traz de cor número e patrono de cada cadeira, e já gastou metade da vida nas salas da Academia, do Museu de Belas-Artes e da Biblioteca Nacional FOTO: ROGÉRIO REIS_2007

Quinta-feira, uma da tarde, centro do Rio de Janeiro. Um senhor trajando um sobretudo velho, uma gravata Dior desfiada, calça cáqui manchada de café e óculos escuros de gatinho espera na rua pela palestra marcada para dali a duas horas. Tem na cabeça cada um dos quarenta participantes que começam a chegar para o chá dos imortais na Academia Brasileira de Letras. Alguns passam ao longe. Outros não comparecem. À boca pequena, o homem comenta:

– Alberto da Costa e Silva, cadeira nove. Grande amigo meu.

– Evanir Bechara, cadeira 33. Uma doçura humana.

– Ariano Suassuna, cadeira 32. Imortal superstar.

– Paulo Coelho, cadeira 21. Quase não vem.

Quando o ex-secretário estadual de Educação, Arnaldo Niskier, passa a dois metros de distância, ele não se contém: “Professor Arnaldo, cadeira 18, muito prazer!”

O imortal estanca, o encara com um quê de assombro – e segue viagem. Como todos na casa, deve estar acostumado à presença de Heber Trinta Filho, 63 anos, freqüentador assíduo da Academia Brasileira de Letras há três décadas. “Li todas as atas, sei a cadeira e o patrono de todos os imortais e estou escrevendo um livro sobre a instituição, que já tem oito cadernos de 400 páginas”, diz ele. “Ninguém na história da ABL fez a revolução que estou fazendo.”

Não é apenas entre os acadêmicos que Heber Trinta promove sua revolução silenciosa. Faz trinta anos que ele aparece, todo santo dia, no Museu Nacional de Belas-Artes, onde olha os mesmos quadros milhares de vezes. Faz 29 anos que, de manhã, é o primeiro usuário a entrar na Biblioteca Nacional, onde foi presenteado com o crachá comemorativo de leitor número um. Desde 2001, escuta até dois recitais por semana, agendados em locais públicos por um programa chamado Música no Museu. E, sabe-se lá há quanto tempo, freqüenta todos os coquetéis oferecidos no centro do Rio. Heber Trinta Filho é o maior especialista em programação cultural gratuita da cidade.

Heber Trinta – ou simplesmente Trinta, como é conhecido – lembra que sua empreitada cultural começou de forma trivial, quando ainda era contínuo. Estava com 31 anos, voltava para casa, e viu um grupo de senhoras chiques entrar em uma galeria. Seguiu-as. Era o vernissage de uma exposição organizada pelo antropólogo Raul Lody. Deslumbrado tanto pela qualidade das obras quanto dos canapés, resolveu que, a partir daquele momento, daria novo rumo à vida. Começava uma trajetória de letras, empadinhas, acúmulo de cultura e canapés.

Em busca de alimento para o espírito e o físico, Trinta passou a visitar entidades culturais do centro. Conheceu a atual diretora do Museu Nacional de Belas-Artes quando ela ainda era estagiária. Na ABL, viu chegar e partir tantos imortais que se sente autorizado a elaborar teorias sobre a politicagem interna. “É no velório que os candidatos começam a fazer lobby“, avalia. “Os candidatos perambulam pela casa, conversando com a mulher de um e de outro.” Na Biblioteca Nacional, acompanhou de perto a administração de todos os presidentes das últimas décadas. É com conhecimento de causa que descreve um como “gênio”, e outro como “o próprio Inferno de Dante”. Por quê? “Porque ele se achava mais forte do que a casa, e errou.”

Trinta se refere à Biblioteca Nacional como seu “habitat natural”. Diz já ter lido mais de 10 mil livros e periódicos. Entre os quais a coleção completa da série Nosso Século, a revista Placar, de 1970 a 1990, e “tudo que você puder imaginar de Goethe, Shakespeare e Ernest Hemingway”. Nos últimos tempos, para relembrar os fatos, tem se dedicado aos exemplares do Livro do Ano da Enciclopédia Barsa. Começou com o de 2004. Já está no início dos anos 80. “Sem a Biblioteca, eu seria apenas um alienado feliz”, reconhece.

Trinta pisou na Biblioteca Nacional pela primeira vez há exatos trinta anos, em abril de 1977. Acabava de abandonar o curso de economia na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. “Quanto mais mestrado e doutorado o professor tinha, pior era a aula”, lembra. Decidiu se tornar um autodidata, lendo notícias antigas sobre futebol, assunto que lhe era de grande interesse. Torcia pelo Vasco. Mas, depois de dez anos de doutas investigações, concluiu que o maior time do mundo havia sido o Santos. De um dia para o outro, deixou a velha equipe lusa para trás. Com o argumento de que “o pesquisador deve ser isento”, virou casaca e se tornou santista.

Impressionado com as vitórias do Santos, Trinta comprou um caderno de 400 páginas (é o único tamanho que usa) e catalogou todas – enfatize-se – todas as partidas do time, entre 1956 e 1974, o período no qual Pelé jogou no time da Vila Belmiro. As anotações vinham em ordem cronológica, com data, local, placar e escalação das equipes. Assim, ele sabia que no dia 7 de maio de 1967, o Santos vencera o time de Ilhéus por 3 x 1, na casa dos adversários. Que, em 11 de dezembro de 1970, a equipe de Coutinho trucidara por 4 x 0 a seleção de Hong Kong, que contava com os atacantes Wong Man Wai e Chi Wai. Na Biblioteca, dizem que ele é o maior especialista em futebol que passou pela casa.

Nos dez anos de pesquisa, Heber Trinta preencheu mais de 100 cadernos de 400 páginas. São, pois, 40 mil páginas de dados sobre o futebol brasileiro desde 1902, data do primeiro campeonato regional, em São Paulo. Em 1997, ele foi internado à beira da morte. Deixou os cadernos na casa de um amigo, esperando que fossem legados à posteridade. Nove anos depois, as anotações continuam lá. Não foram publicadas por duas razões: falta datilografar, e faltam alguns dados. O autor quer fazer um levantamento dos times estrangeiros que vieram ao Brasil no mesmo período.

Essa não é a única linha de pesquisa elaborada por Heber Trinta. Na Academia, já passou os olhos sobre todas as atas escritas entre 1910 e 2005. Ao terminar, resolveu relê-las, para se certificar de que nada havia passado em branco. Diz que seu livro sobre o assunto fica pronto em um ano: “Sei tudo o que diz respeito a eleição e fofoca de acadêmico”. Os funcionários o chamam de “professor”. Quando têm dúvidas, preferem perguntar-lhe a procurar no computador. É mais rápido.

Na Biblioteca Nacional, corre a lenda de que Heber Trinta recebeu uma herança milionária. Por isso teria passado as últimas três décadas lendo, sem trabalhar. Não é bem assim. Durante a maior parte da vida, Trinta foi sustentado pelo pai, Heber França Trinta, oficial da marinha aposentado. “Ele era meu apoio financeiro e emocional”, conta. “Sem a ajuda de papai, eu não teria me tornado essa pessoa pitoresca, excêntrica, esse Dom Quixote.” Embora não fosse rico, França Trinta tinha seis salas comerciais no centro. Ao falecer, em 2001, deixou uma para cada filho. Os irmãos se desfizeram delas em dias – e ainda quiseram que Trinta lhes passasse o usufruto da sua. Ele negou: “Tinha valor afetivo”. Depois do enterro, nunca mais voltou a ver a família.

Sem a ajuda paterna, Trinta talvez estivesse fadado a viver na pobreza. Foi salvo pela própria doença – ele é diabético. No final dos anos 90, passou catorze meses internado, em estado grave, em três hospitais públicos. Quase perdeu a perna. Passou a andar com dificuldade e se aposentou por invalidez. A prefeitura lhe dá remédio e dois salários mínimos. O que dá justinho para pagar a alimentação e os 280 reais de condomínio.

Heber Trinta mora num apartamento de quarto e sala de um edifício comercial. Outrora, o prédio abrigou 48 prostíbulos simultâneos. Há cinco anos, alguns andares foram comprados pela Petrobras, que reformou a entrada e os elevadores. O apartamento é uma desordem. A porta não tem maçaneta do lado de dentro. Se é fechada com força, pede-se ajuda até que alguém resolva abri-la por fora. Na parede da entrada, pendurado tal qual um amuleto, está o crachá de leitor número um da Biblioteca Nacional, expirado em dezembro de 2002. Na sala, há uma geladeira, uma estante com livros e um pequeno sofá. No caminho para o quarto há uma parede de madeira, que não chega ao teto. Jornais, livros e revistas estão jogados por todos os lados.

O dormitório dá de frente para o edifício-sede da Petrobras. Um colchão jogado contra a janela faz as vezes de cortina. Como é o único cômodo com luz natural, um varal passa por cima da cama, com camisas, calças, meias e cuecas penduradas na altura da cabeça. Não há televisão ou telefone – apenas um rádio, que toca funk e música clássica. “Gosto da Rapsodia in Blue, do Gershwin, e da Rapsódia sobre um tema de Paganini, de Rachmaninov”, diz Trinta, “mas também escuto o Buchecha, que está sendo regravado. Tem que aceitar o que é novo: a Sagração da Primavera chocou o público quando foi executada pela primeira vez, em Paris.”

Rente à janela, há um armário atolado de roupas, onde Heber Trinta guarda um caderno com título e página dos 45 livros em que já foi citado (na maioria das vezes, nos agradecimentos), além de seu tesouro mais precioso: duas pastas repletas de cartas que trocou com intelectuais brasileiros.

No dia 6 de março de 1985, o Paço Imperial foi reinaugurado, com a mostra “Seis Décadas de Arte Moderna na Coleção Roberto Marinho”. Após cinco visitas, Trinta escreveu uma carta ao dono da Globo, agradecendo pela “oportunidade de sonhar com as coisas mais belas do mundo”. Quis entregar o texto pessoalmente. Não conseguiu: “O porteiro tinha mais pose do que o Roberto Marinho”. A resposta veio em cinco linhas, assinada pelo Departamento de Comunicação Social.

Ao escrever uma carta, Heber Trinta faz questão de copiá-la. Se lhe respondem, grampeia tudo junto. Na maioria das vezes, a réplica é protocolar. Talvez porque nunca tenha se endereçado a alguém que não fosse, pelo menos, nacionalmente conhecido. Diz que só fala com quem lhe entende: “Entre Deus e a platéia, escolho Deus. Não vou perder meu tempo jogando pérolas aos porcos”.

Quando o Bradesco abriu uma agência a alguns metros de sua casa, Heber Trinta escreveu que “na data de 31 de julho de 1989, viveu o Rio de Janeiro um grande acontecimento social e econômico, com a inauguração da agência Cinelândia do Bradesco. Até parece que entramos na ‘máquina do tempo’, com índice altíssimo de informatização”. O destinatário era Amador Aguiar, fundador do banco, que delegou a resposta a um secretário. Em 1990, Ivo Pitanguy foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. Trinta lhe enviou uma carta intitulada “Mãos Mágicas”, onde dizia que o “interior espiritual” do novo imortal era “um lindo e maravilhoso mundo de sonhos e poesias” e que “sua amada esposa Marilu e os estimados filhos Helcius e Gisele são o retrato fiel da família feliz”. A resposta veio em um telegrama de três linhas.

Em 21 de dezembro de 2000, Heber Trinta enviou uma carta ao então presidente de honra da Fifa, João Havelange, elogiando sua “sabedoria, inteligência e cultura empresarial e desportiva”. A resposta veio em pouco tempo, assinada pelo próprio cartola. Passaram-se três anos até Heber enviar a segunda carta para Havelange. Intitulava-se “A Morte do Futebol” e tinha tom menos ameno: “O jogo Itália 3 x 2 Brasil, realizado na Copa do Mundo de 1982, seria o prenúncio da Idade Média do futebol. O terrorismo dentro do campo foi implantado brutalmente. O que se assistiu foi a caça às bruxas, isto é, a força bruta do atleta sem recursos técnicos coagindo a criatividade e a liberdade do artista”.

Havelange respondeu em uma carta maior do que a do seu interlocutor. Lamentava “vê-lo tão pessimista em relação ao futebol mundial”. Prometia-lhe enviar o livro Copa Mundial de la Fifa – México 86, com todos os dados da última disputa. A promessa foi cumprida três meses depois, junto a uma carta onde o presidente da Fifa dizia estar certo “de que essa obra lhe será de grande utilidade, ante o seu invulgar interesse pelos assuntos ligados ao desporto das multidões, o futebol”. Trinta sublinhou a palavra “invulgar”.

Em resposta, Heber aproveitou para falar de suas pesquisas sobre futebol, que já levavam cinco anos, e, de quebra, elucidou um dos maiores mistérios do esporte bretão: quem fizera mais gols – Friedenreich ou Pelé? “Segundo as minhas pesquisas, Pelé obteve o maior número de tentos. Nas décadas de vinte, trinta e quarenta, os jogos somente se realizavam aos domingos. Friedenreich jogou de 1909 a 1935. Pelé, de 1956 a 1974. Jogava até três vezes por semana. Como Friedenreich poderia ter marcado 1.329 gols em uma situação bem diferente e Pelé 1.281 gols com pelejas realizadas constantemente?”

Havelange não se pronunciou sobre o assunto.

Passados mais dois anos, o missivista detalha o teor de sua pesquisa: “realizo um trabalho que ora me ocupa, em média, doze horas por dia, sobre futebol brasileiro, tendo-o iniciado em abril de 1982, e com seu término sem data prevista. É a obra da minha vida! Empenho-me de corpo e alma nesta tarefa cansativa materialmente, entretanto magnânima espiritualmente. É uma trajetória através dos tempos para conhecer ‘o mundo’ dos clubes, com seus respectivos jogadores. Desenvolvo um fluxograma estatístico de jogo por jogo, com seus dados técnicos completos”.

Heber Trinta freqüenta diariamente o restaurante Grupo Casarão, onde, por 4 reais e 19 centavos, come-se à vontade. Metódico, conta quantos dias úteis tem o mês e paga tudo adiantado. Pela freqüência, as garçonetes lhe apelidaram de “gatão”. Ele retribui, chamando algumas de “gatona” e outras, por quem tem mais apreço, de “gatona-mor”. Sempre que pode, beija-lhes a mão.

Trinta é solteiro. Ele tem grande carinho por uma moça chamada Rosane da Silva, 31 anos, nascida em “16 de novembro de 1975”, como ele lembra. Morena vistosa, de olhos claros e cabelos cacheados, Rosane já foi convidada ao cargo de rainha da bateria na Beija-Flor. Recusou. Na época, trabalhava como vigia da Biblioteca Nacional. Hoje, ocupa a mesma função no Museu da República.

Ela conta que ao conhecê-lo, em 2001, Trinta era odiado na Biblioteca: “Seu pai tinha acabado de morrer. Ele estava muito triste e brigava com todo mundo. Me chamava de ignorante, porque eu falava errado”. Com o tempo, Trinta foi amolecendo, passou a lhe dar aulas de português e ajudou-a a completar o segundo grau. Em contrapartida, ela lhe ensinou a apreciar música funk.

Rosane trocou o trabalho na Biblioteca Nacional pelo cargo de vigia no projeto Música no Museu, e Trinta seguiu-a – foi assim que começou a assistir aos recitais gratuitos. Mais adiante foi transferida para o Museu da República. Hoje, Heber visita a instituição duas vezes por semana. Sempre que pode, leva três bombons Sonho de Valsa para sua musa. Diz que ela é “uma tremenda gata, dona de um corpo escultural, academicamente falando”. E declara, com um erro de português que tanto condena: “Nós se amamos”.

Às cinco da tarde de um dia da semana, Trinta está na porta do auditório da Academia Brasileira de Letras, à espera da palestra sobre arquitetura e urbanismo. O ex-presidente da Biblioteca Nacional, Eduardo Portella, “cadeira 27”, cumprimenta-o. Em seguida, abre-se a série de debates, que conta com a presença do presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico, Luiz Fernando de Almeida, e do arquiteto Rui Ohtake. O ar condicionado está ligado ao máximo, o auditório quase vazio, e a maioria dos palestrantes prefere ler a falar de improviso. Trinta cochila, com a cabeça apoiada sobre o punho. “Meu diferencial é que sei viver. Sou livre – e isso tem um custo.”

Quando o relógio bate oito da noite, Trinta abandona os imortais e segue rumo ao último programa da noite: a abertura do 54° Salão de Artes do Clube Militar. “Como sou conhecido no meio cultural, sempre me chamam para essas festas.” No caminho, avisa: “Não se vai a vernissage para olhar os quadros, o negócio é beber e comer”.

No Salão Nobre do Clube Militar, há mais de 200 esposas de oficiais, vestidas em cores gritantes. Elas se acotovelam para ver o quadro vencedor, Nostalgia, de Ricardo Chancafe, que retrata de forma realista um retirante nordestino ao lado de um gato persa. Ao fundo, um coral de trinta senhoras canta “Eu sei que vou te amar”. Trinta está indiferente à cena. Assina o caderno de presença – ato que cumpre religiosamente em toda exposição – e perambula pelos quatro cantos à procura do bufê. Encontra a cozinha. Se posiciona na porta. O garçom aparece, trazendo bolinhas de queijo. Ele é o primeiro a abocanhá-las. Em segundos, são dezenas de homens carregando bandejas de torradas, pastinhas, croquetes e carpaccio. A multidão se alvoroça. Os garçons quase não ultrapassam a porta da cozinha. Em pleno Clube Militar, uma tática de guerra é adotada: os produtores do evento escoltam os garçons até o meio do salão.

São oito e meia da noite. Heber Trinta está no quinto copo de cerveja. A fartura lhe faz lembrar os antigos bufês oferecidos pela IBM e pelo Banco Lloyds no Copacabana Palace: “Foi na época áurea dos coquetéis, quando eu não tinha diabete e andava por toda a cidade”. Algumas pessoas tentam puxar assunto. Ele prefere não se prolongar. “Em vernissage, o interessante é conhecer o artista e o dono da festa. E nada de fazer amizade com garçom. Você acaba manchado.” O garçom lhe oferece um copo de vinho. Ele aceita.

O cotidiano de Heber Trinta tem rituais bastante fixos. Às nove da manhã, ele adentra a Biblioteca Nacional. Às onze, atravessa a rua em direção ao Museu Nacional de Belas-Artes. Ao meio-dia, chega ao restaurante Grupo Casarão. Uma hora depois, assiste a recitais gratuitos. Se o concerto é distante, volta ao apartamento, escova os dentes e pega seu caderno para ir à Academia Brasileira de Letras. Chega pontualmente às duas da tarde. O roteiro segue assim, quase sem alterações, de segunda a sexta-feira.

No domingo, com a Biblioteca, o Museu e a Academia fechados, Trinta acorda no horário de sempre. Mas, ao sair do apartamento, prefere pegar o elevador subindo. Salta no décimo-nono andar do seu prédio, onde fica a Primeira Central de Serviços dos Alcoólicos Anônimos. A reunião de domingo é aberta ao público. Trinta participa há 35 anos como ouvinte. Explica por quê: “Os depoimentos são espetaculares. É uma lição de vida. Já vi gente chegar em cadeira de rodas e sair andando. Esse lugar faz milagres”.

Heber Trinta escuta as histórias com toda atenção. Vez ou outra, saca um drope de hortelã do bolso.

Roberto Kaz

Roberto Kaz

Repórter da piauí, é autor do Livro dos Bichos, pela Companhia das Letras

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