questões literárias

Entre a tradição e a ruptura

A esperança cautelosa de Torto Arado

Rodrigo Soares de Cerqueira
Passado e futuro: os eventos fortes de <i>Torto Arado</i>, aqueles que nos fazem apertar as páginas do livro, ao contrário do que se poderia esperar, não empurram a história para a frente
Passado e futuro: os eventos fortes de Torto Arado, aqueles que nos fazem apertar as páginas do livro, ao contrário do que se poderia esperar, não empurram a história para a frente CREDITO: LINOCA SOUZA_2021

Desde que as olhou de frente, a literatura brasileira nunca mais deixou de retratar as mazelas dos mais pobres e marginalizados, em especial as populações rurais, que encarnavam, como nenhuma outra, o nosso atraso. Contudo, de uns tempos para cá, umas boas décadas na verdade, foram os grupos marginalizados nas periferias das grandes cidades que vieram para o primeiro plano. Nada mais natural. No último meio século, o Brasil se tornou um país eminentemente urbano, e o fracasso das aspirações desse processo, que prometia a superação do nosso subdesenvolvimento, salta aos olhos e se torna a matéria principal da representação das nossas misérias. Um dos mais evidentes achados do romance Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, é deslocar o olhar dos grandes centros para o interior do país, resgatando e filiando-se, de maneira própria, à tradição dos chamados romances regionalistas, que durante muitos anos deram forma às reflexões sobre os caminhos e descaminhos do país.

A história gira ao redor das irmãs Belonísia e Bibiana, as narradoras das duas primeiras partes do romance, nascidas e criadas numa fazenda, Água Negra, situada na região rural da Bahia, a Chapada Diamantina. A cena inicial, marcada por uma tragédia, dá o tom desse universo de precariedade. As meninas, remexendo nas coisas da avó, Donana, encontram uma faca, que colocam na boca por brincadeira, e uma delas perde a língua. A tragédia, contudo – e aqui o livro começa a mostrar a que veio –, não se torna o ponto obsessivo ao redor do qual gira a história. Ela é incontornável, por certo. A irmã que perde a língua perde também a capacidade de falar, o que não implica seu silenciamento. Num primeiro momento, cria-se uma sintonia fina entre elas a ponto de que uma pode se expressar pela outra de tal maneira que, ao longo de toda a primeira parte do romance, sequer sabemos quem foi a vítima. O rendimento literário é imenso e escapa às armadilhas de certo regionalismo que distancia (e hierarquiza) a fala do narrador, contrastando-a com as variações dialetais estereotipadas dos personagens. Muitas vezes é como se Torto Arado fosse narrado numa primeira pessoa do plural, um “nós” que, especialmente quando conjugado no passado, cria construções inusitadas, elegantes, nada orais nem para os grupos mais escolarizados. Essa fusão entre a vida precária da roça – com seu mundo e vocabulário próprios – e uma sintaxe finamente elaborada produz um encontro paulofreiriano.

MATÉRIA FECHADA PARA ASSINANTES

Rodrigo Soares de Cerqueira

É professor adjunto de literatura brasileira na Unifesp e autor de Crítica e Memória: Um Estudo dos Textos Memorialísticos de Antonio Candido (Ed. Unifesp)

Leia também

Últimas

A morte em segredo

O conhecido médico negacionista Anthony Wong morreu de Covid-19 – mas isso foi escondido por 123 profissionais do hospital da Prevent Senior

Reforma administrativa ameaça democracia

Fim da estabilidade dos servidores, uma das propostas da mudança, fragiliza o Estado e coloca em risco as políticas públicas

Matemática que multiplica horas e projetos

Universitário do interior de Alagoas conta como realizou o sonho de conquistar medalhas em olimpíadas científicas e hoje incentiva outros jovens a participar dos concursos

O fim do dinheiro no país dos pixelados

Com o Pix a pleno vapor, cai a circulação de papel-moeda e bancos fecham cada vez mais agências; economia digital, no entanto, ainda exclui parte dos brasileiros

No rastro da Covaxin

Assim como a PF, a piauí vem investigando a Precisa Medicamentos e o escândalo da vacina indiana. Para entender melhor o caso, confira o roteiro do que já publicamos

Mais textos