esquina

Era dos extremos

Um policial em Porto Alegre denuncia neonazistas

Adriano Wilkson
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2020

Fazia 8ºC naquela manhã em Porto Alegre quando o policial civil Leonel Radde abriu uma lata de Monster Energy e decidiu cumprimentar seus 35,7 mil seguidores no Instagram. Sacou o celular e fez uma foto que mostrava a bebida energética e o relógio em seu antebraço – eram 5h42 do dia 15 de junho. “Bom dia para você que a esta hora já está atrás de homicidas”, escreveu na legenda.

Horas depois, postou uma montagem de como seria seu rosto se ele fosse mulher e, no dia seguinte, a imagem do momento em que prendeu um foragido da Justiça que estava recebendo ilicitamente o auxílio emergencial do governo. Uma das funções de Radde é cumprir mandados judiciais. Entre prisões, buscas e apreensões, ele também se dedica nos últimos tempos a denunciar neonazistas.

Ser policial é um destino inusitado para alguém com a biografia de Radde, 39 anos, zen-budista, vegetariano, faixa preta em aikido e vocalista de uma banda de rock chamada Calibre. Seu prenome é uma homenagem a Leonel Brizola, político admirado pelo pai, o dramaturgo e diretor de teatro Ronald Radde. Sua mãe, Suzana Guterrez, foi sindicalista e participou da criação do PT no Rio Grande do Sul.

Leonel Radde cresceu em meio a reuniões do sindicato, do partido e da Cia. Teatro Novo, fundada pelo pai em 1968. Chegou a atuar em peças e em comerciais na tevê, mas não seguiu na carreira artística. Fez faculdade de história, depois de direito e, em 2010, ingressou na polícia. “Considero uma profissão nobre, que me atraiu porque permite atuar diretamente na sociedade, trazendo benefícios para ela”, diz.



Em dezembro do ano passado, foi procurado por ativistas antifascistas com denúncias a respeito de um festival de rock marcado para o mês seguinte, em Canoas, na Região Metropolitana de Porto Alegre. Fotos feitas num evento anterior das mesmas pessoas que organizavam o novo festival mostravam frequentadores com camisetas estampadas com a suástica nazista e a Cruz de Ferro, condecoração usada em tempos de guerra pelo Exército alemão.

No último dia de 2019, o policial resolveu agir – nas redes sociais.

 

O técnico de software Wesley Franz, de 23 anos, um dos organizadores dos festivais, se preparava para o Réveillon quando viu o vídeo em que Radde chamava de neonazista os dois eventos. “Eu dei uma risada e fiquei tri-feliz”, afirma Franz.

O perfil de Franz no Instagram mostra um pouco da sua personalidade. Ele gosta de Pepsi e do desenho animado Os Simpsons. Adora churrasco, Doritos e pizza com sushi. Ama seu filho e seu gato Branquinho. Tem uma queda por facas e armas de fogo. Possui um rifle que chama de “amorzinho”. Orgulha-se de ser brasileiro e, ainda mais, gaúcho.

Essas são as coisas de que Franz gosta, mas ele também dedica muitas postagens às que não gosta. Ou, como ele e seus amigos preferem dizer, às coisas que odeiam: os militantes antifascistas e, sobretudo, os comunistas. “Vão estudar um pouco, malditos comunistinhas de internet”, escreveu Franz, após ver um documentário elogioso ao golpe militar de 1964. Num sábado recente, publicou a foto de um carro com uma Cruz de Ferro no teto, seguida da legenda “atropelador de comunistas kkk”.

Seu perfil também mostra memes com críticas a judeus. A letra de Revolta Skin-head, uma das músicas da banda Oi!diados, da qual ele é baixista, diz: “Descruze os seus braços/Não fique aí parado enquanto manipulado/Destrua o judaísmo/Não fique calado.” Após o refrão (“Revolta Skinhead/Contra o sionismo/Revolta Skin-head/Contra o judaísmo”), entra a voz de Adolf Hitler repetindo a saudação Sieg Heil (Viva a Vitória).

Franz argumenta que, “como cristão, não poderia ser contra judeus” e que a banda fez a música apenas para provocar o policial que o denunciou por apologia ao nazismo. “Fiz só pro Leonel me dar ibope”, diz. “Toquei dez anos com dois negão, um negão no vocal e um negão no baixo. E o negão do baixo era viadão assumido, mas é meu amigão até hoje. É muita hipocrisia chamar um cara assim de neonazista. Meu vô era alemão, mas minha vó Jurema era bugra pura.”

Franz denunciou Radde na corregedoria da Polícia Civil, argumentando que o policial teria cometido abuso de autoridade. Disse também que precisou mudar de cidade por causa das acusações. Radde, por sua vez, acusou o técnico de software e seus amigos de calúnia, injúria e ameaças virtuais. A delegacia de Canoas disse ter agido para evitar que o festival Rio Bronx 2020 ocorresse na cidade. O Ministério Público do Rio Grande do Sul afirmou que não daria informações sobre o processo, que tramita em segredo de Justiça. Franz planeja outra edição do festival para depois da pandemia.

 

Desde esse episódio, Radde passou a receber provas de outras células neonazistas brasileiras, todas obtidas na internet, como a foto feita por um casal de São Paulo ao lado do retrato de Hitler e as postagens de um homem que todo dia 20 de abril, data de nascimento do ditador alemão, costuma escrever: “Feliz aniversário, tio amado.” O policial acredita que, desde a eleição de Jair Bolsonaro, simpatizantes do nazismo têm se sentido mais à vontade para dar as caras nas redes sociais e até promover eventos, apesar dos laços do governo brasileiro com Israel. “São militantes bolsonaristas, estão mais organizados, se sentem empoderados e sabem que têm respaldo de boa parte das instituições”, afirma.

Radde já foi criticado pela direita por ser um policial de esquerda, e pela esquerda por ser policial. Recentemente, foi alvo de militantes do movimento negro, que o acusaram de fechar os olhos aos abusos policiais. “Quando começou essa questão de que a polícia mata negros, eu comprei uma treta por dizer que a maior causa de morte no Brasil não é a polícia, e sim o tráfico”, disse. “Por ter dito isso, virei racista pra essa galera.”

Ele é a favor de uma reforma da polícia, o que poderia ajudar a conter os abusos. Mas considera “ingênuo” achar que criminosos não matam negros e pobres. “Matam, sim, e muitos. É o que investigo 24 horas por dia.” Radde pretende se lançar candidato a vereador pelo PT nas próximas eleições, marcadas para novembro. Será sua terceira tentativa de se eleger.

Adriano Wilkson

Leia também

Últimas Mais Lidas

Estupro não é sobre desejo, é sobre poder

Em 70% das ocorrências de violência sexual no Brasil em 2019, vítimas eram crianças ou pessoas incapazes de consentir ou resistir - como na acusação contra Robinho na Itália

“Meu pai foi agente da ditadura. Quero uma história diferente pra mim”

Jovem cria projeto para reunir parentes de militares que atuaram na repressão

Engarrafamento de candidatos

Partidos lançam 35% mais candidaturas a prefeito nas cidades médias sem segundo turno para tentar sobreviver

Bons de meme, ruins de voto

Nomes bizarros viralizam, mas têm fraco desempenho nas urnas

Perigo à vista! – razões de sobra para nos preocuparmos

Ancine atravessa a crise como se navegasse em águas tranquilas, com medidas insuficientes sobre os efeitos da pandemia

Retrato Narrado #4: A construção do mito

De atacante dos militares a goleiro dos conservadores: Bolsonaro constrói sua história política

A renda básica, o teto de gastos e o silêncio das elites

Desafio é fazer caber no orçamento de 2021 um programa mais robusto que o Bolsa Família e mais viável em termos fiscais que o auxílio emergencial

A culpa é de Saturno e Capricórnio, tá ok?

Como Maricy Vogel se tornou a astróloga preferida dos bolsonaristas 

Mais textos
4

A metástase

O assassinato de Marielle Franco e o avanço das milícias no Rio

6

Do Einstein para o SUS: a rota letal da covid-19

Epidemia se espalha para a periferia de São Paulo justamente quando paulistanos começam a abandonar isolamento social

8

Assista a um trecho da mesa com Nikil Saval no Festival Piauí de Jornalismo

Nikil Saval é editor e membro da mesa diretora da revista literária n+1, revista de literatura, cultura e política, publicada em versão impressa três vezes ao ano.
Saval esteve em novembro no Festival Piauí de Jornalismo e conversou com os jornalistas Fernando de Barros e Silva e Flávio Pinheiro. 

9

Histórias da Rússia

Uma viagem pelo país da revolução bolchevique, cem anos depois

10

Em duas estratégias, um êxito e uma ópera trágica

Como a China barrou a transmissão do coronavírus enquanto a Itália tem mais mortes em metade do tempo de epidemia