carta da China

Está no ar

Os dias enfumaçados numa das cidades mais poluídas do planeta

Ian Johnson
O governo chinês tem debatido mais abertamente o problema da poluição, depois de chegar à conclusão de que essa é uma das poucas questões capazes de provocar o desagrado de setores amplos da população, de todas as classes e etnias
O governo chinês tem debatido mais abertamente o problema da poluição, depois de chegar à conclusão de que essa é uma das poucas questões capazes de provocar o desagrado de setores amplos da população, de todas as classes e etnias FOTO: CHINA PHOTO PRESS_GETTY IMAGES

Na arquitetura tradicional chinesa, os princípios do feng shui recomendam que as casas sejam guarnecidas de um pequeno muro a poucos metros da entrada, como proteção contra energias maléficas. Mas na cidade de Handan essas muretas passaram a servir de anteparo para as nuvens da fumaça acre e malcheirosa que exala das fábricas. Numa noite de verão em Sihoupo, bairro de 300 habitantes na Zona Oeste de Handan, as labaredas amarelas de uma fábrica de coque – derivado de carvão empregado na produção do aço – irrompiam no céu, saturando o ar com o cheiro de ovo podre. Para se obter o coque, concentra-se carvão betuminoso em tijolos, que então são usados como combustível dos fornos em que o ferro é fundido em aço. O processo também lança partículas cancerígenas na atmosfera. “Não podemos abrir as janelas à noite”, disse Hu Xuhui, um homem de 60 e tantos anos que mora em frente à fábrica. “Se os dias já são ruins, as noites são piores ainda.”

Handan, situada a 400 quilômetros a sudoeste de Pequim, tem um núcleo urbano de 1,4 milhão de habitantes e um vasto cinturão rural que conta com mais 8 milhões de pessoas. Fica ao lado das montanhas de Taihang, um maciço escarpado com picos pontiagudos que se espraia dos arredores de Pequim, no norte, até as bacias hidrográficas da fértil região sul do país. Durante milênios essas montanhas foram cenário de lendas e da história. Na mitologia chinesa, elas são a morada da deusa Nüwa, a criadora dos seres humanos; na história, com seus desfiladeiros estreitos, sempre estiveram nos cálculos de estrategistas militares. Hoje, graças às ricas jazidas de carvão e minério de ferro, as montanhas constituem importante centro da siderurgia no cenário global. Uma das províncias que fazem fronteira com o maciço de Taihang é Hebei, onde se estende Handan; só essa região responde por 10% da produção de aço em todo o planeta.

Embora a poluição em Pequim tenha atraído a atenção do mundo todo nos últimos anos, o dano ambiental é muito pior nas cidades industriais de menor porte. Segundo dados do governo, das dez cidades mais poluídas da China, sete ficam na província de Hebei, e Handan é uma delas. Nos dias ruins, não se consegue enxergar o outro lado de uma estrada de quatro pistas.

Ativistas e economistas vêm alertando, há décadas, que o boom econômico da China está arruinando o meio ambiente e criando sérios riscos à saúde. Um estudo recente relatou que em 2010 a poluição do ar contribuiu para 1,2 milhão de mortes prematuras no país – quase o dobro do número de baixas por malária em todo o mundo. Outro relatório observou que a poluição causada pelo processamento de carvão reduz em cinco anos e meio a expectativa média de vida no norte do país.



Não obstante as restrições impostas pelo governo à organização independente dos cidadãos, com o propósito de dificultar a formação de grupos de pressão, os moradores de Handan e das aldeias vizinhas estão falando mais livremente dos problemas que enfrentam. Mães contam que os filhos sofrem de doenças respiratórias crônicas. Idosos se queixam de problemas digestivos, que atribuem aos alimentos cultivados na região. E muita gente menciona vizinhos que estão morrendo de câncer. Até mesmo o governo reconheceu a existência de “aldeias do câncer”, que militantes identificaram em centenas de lugares, inclusive em Handan.

Sentada em sua sala, Song Lingdi, moradora de Sihoupo, segura uma foto plastificada do marido, um homem corpulento de 44 anos, o cabelo cortado à escovinha, que há três anos morreu de câncer de pulmão. Contou que já pediu indenização ao governo, mas teve sua petição negada. Moradores mais abastados erguem telhados de zinco no quintal, e é debaixo desse abrigo que as crianças devem ficar. Todos os dias as mulheres varrem a fuligem cinza, suficiente para encher vários baldes.

 

Desde o século III, quando pela primeira vez se extraiu enxofre da região, Handan se destaca por ser um polo industrial. Posicionada no cruzamento de duas importantes rotas comerciais, a cidade também se sobressaiu como centro cultural, berço de centenas de expressões idiomáticas enraizadas no folclore e na história do país. Uma das mais conhecidas é Handan xue bu (Aprendendo a andar em Handan), referência à anedota de um rapaz do interior que ouve dizer que os moradores de Handan são tão sofisticados que andam de um modo especial. Ele vai à cidade para aprender o trejeito, em vão. Abatido, anos depois ele volta para casa e descobre que não se lembra mais de como ele mesmo caminhava. Só lhe resta engatinhar. Moral da história: se imitar os outros, você pode perder a si mesmo.

As origens modernas do poderio industrial de Handan remontam ao século XIX, quando Li Hongzhang, um dos administradores mais competentes da China, abriu uma mina de carvão nas cercanias. Ao assumir o poder, em 1949, o Partido Comunista viu na indústria pesada, e especialmente no aço, o caminho para a modernização do país. Em 1958, o governo fundou em Handan a siderúrgica Hansteel. No ano seguinte, durante o Grande Salto para a Frente, o camarada Mao foi até lá e vaticinou que a cidade, com seu “infindável tesouro em jazidas de ferro”, seria um pujante polo do aço. Soldados e civis trabalharam em turnos ininterruptos, transportando tijolos para os canteiros de obras, em bicicletas ou em carrinhos de mão.

No início a usina produzia apenas ferro de baixa qualidade. Em 1965, conseguiu gerar as temperaturas necessárias para o fabrico de aço, mas mesmo assim a escala da produção era pequena: em 1978, a Hansteel tirava menos de 200 mil toneladas de aço anuais. Naquele ano, porém, Deng Xiaoping assumiu o poder e promoveu reformas econômicas. A iniciativa privada, praticamente banida sob o governo de Mao, foi liberada. Em 1979, a China produziu 34,5 milhões de toneladas de aço; em 1996, a cifra ultrapassava os 100 milhões de toneladas.

À medida que a siderúrgica se expandia, ia engolindo as aldeias vizinhas ou deixava-as praticamente inabitáveis, tamanha a poluição. Muitos ainda se lembram das manifestações nos anos 80 e 90, quando as pessoas se deitavam nos trilhos das ferrovias para impedir a chegada de vagões carregados de carvão. A Hansteel começou a pagar à população do entorno uma “taxa anual de poluição” de algumas centenas de dólares, que os moradores dizem ainda receber.

A maior liberalização da economia nos anos 90 acelerou o crescimento, criando uma insaciável demanda por aço. Os fabricantes compravam do Ocidente, a um custo mínimo, siderúrgicas desativadas que eram remontadas na China. Em 2012, o país gerou 716 milhões de toneladas de aço, quase a metade do total mundial. A Hebei Steel, conglomerado do qual a Hansteel agora faz parte, é o maior fornecedor do país.

Mas a produção de aço segue o esquema comum a toda a economia chinesa: enquanto os empreendimentos bem-sucedidos atraem imitadores, raramente os ineficientes são eliminados. Protegidos pelos governos locais, os produtores em desvantagem perseguem obstinadamente uma participação de mercado, mesmo quando os lucros são pequenos. A implementação de técnicas de controle da poluição é outro problema. Ainda que o Ministério de Proteção Ambiental tenha mais poder hoje, as autoridades locais muitas vezes ignoram suas diretrizes. A prioridade delas é o crescimento econômico, há tempos o segundo fator determinante para a carreira de um funcionário público (evitar a agitação social é o primeiro). O avanço da indústria siderúrgica fez de Handan um lugar estratégico para políticos ambiciosos, que são rapidamente promovidos e logo assumem outros cargos.

 

Quando tentei agendar uma visita à Hansteel, as autoridades locais me avisaram que era proibido divulgar dados sobre a poluição na cidade. Se eu me demorava perto de uma fábrica, era logo enxotado por um funcionário do Partido, que alertava as pessoas para não falar comigo. Um conhecido, porém, concordou em me acompanhar numa visita. Fui de carro até lá com outro metalúrgico, um homem de 39 anos, magro e cheio de energia, chamado Han Zhigang.

Han era um operário de segunda geração; seus pais, originalmente agricultores de uma aldeia próxima, haviam se mudado para Handan durante a expansão da Hansteel, na era maoista. Eles tinham o que então era chamado de “tigela de arroz de ferro” – um emprego vitalício, com todas as vantagens proporcionadas por uma grande empresa estatal num sistema comunista: creche, escola e assistência médica gratuitas, além de subsídios para moradia e alimentação.

Vimos um teatro novo, parques públicos amplos e ruas agradáveis no centro da cidade, margeadas pelas frondosas árvores de Ginkgo biloba. No entanto, conforme nos aproximávamos de Hansteel, a estrada ia ficando esburacada, em decorrência do pesado tráfego de caminhões que transportam carvão para as usinas de lavagem. Uma dessas fábricas, à nossa esquerda, estava temporariamente fechada, graças a uma iniciativa antipoluição do governo central. Passamos sob uma ferrovia por onde transitam composições de cinquenta vagões abarrotados de carvão, destinados à Hansteel.

Vinte anos atrás, quando cursava a escola técnica, Han conseguiu uma colocação como vendedor de mapas numa firma no sul da China. Naquela época, havia muita oferta de novos empregos no setor privado, com salários muito mais altos que os oferecidos pelas empresas estatais. Os pais de Han, porém, não concebiam nada mais seguro do que um emprego na Hansteel, e pediram que ele voltasse. Han, por seu lado, temia que sua geração tivesse sido muito poupada. “Eu achava que não seria capaz de dar duro”, disse ele. “Por isso pleiteei um emprego bem na frente do alto-forno. Queria experimentar a vida numa siderúrgica.” Depois de quatro anos despejando ferro fundido, ele obteve uma vaga no departamento de logística da fábrica.

 

O complexo da Hansteel abrange cerca de 600 hectares, um terço da área de Handan. Percorremos de carro sua divisa meridional, uma rua que exibia apenas restaurantes fechados com tabiques e outros prédios dilapidados. A estrada era inteiramente negra, com o pó de carvão entranhado no solo. Estacionamos diante dos portões da fábrica. Saí do carro de Han e passei para o carro do meu contato, a quem chamarei de Teng. Superamos os últimos dois postos de controle e entramos na Hansteel.

As ruas no interior do complexo eram ladeadas de choupos recém-plantados e arbustos com flores vermelhas, roxas e amarelas. Viam-se gramados bem cuidados, cercas vivas perfeitamente aparadas, irrigadores automáticos. Mulheres com chapéus de palha tratavam do jardim. Uma grande faixa dizia: “Espalhe o espírito da Hansteel. Juntos forjaremos o sonho da China.”

Teng explicou que a fábrica havia instalado um novo equipamento para recolher o pó de carvão nos altos-fornos, e vedara o depósito de minério de ferro, antes a céu aberto, de modo a impedir que o vento espalhasse a fuligem. Caminhões patrulhavam as ruas, aspirando sujeira e cinzas, lavando o chão. Antigamente, diziam que uma pessoa perdia trinta anos de vida no momento em que cruzasse os portões da siderúrgica; hoje, a siderúrgica era o local mais limpo da cidade. A Hansteel seria o sonho de consumo de qualquer inspetor de Pequim.

Embora a fábrica de coque do complexo fosse bem maior do que a de Sihoupo, era mais limpa, porém mais intensamente se sentia o fedor de enxofre. Alguns homens empurravam carrinhos cheios de equipamentos e de lixo. Outros, sentados no meio-fio, com a aparência exausta, fumavam. Teng me disse que essa seção, aberta em 2008, era moderna e muito lucrativa, e contava com apenas 4 mil empregados. Numa unidade vizinha, mais antiga, com equipamentos antiquados e menor controle de poluição – e operando no vermelho –, trabalhavam 20 mil pessoas. Se a Hansteel, de longe o maior empregador da região, fechasse aquela unidade, seria uma empresa mais ecológica e ainda mais lucrativa, mas precisaria demitir milhares de trabalhadores. “Acho que não se pode fazer isso em nenhum país do mundo, não é mesmo?”, perguntou Teng, retórico. A produção em grande escala e também o emprego em grande escala fazem parte da responsabilidade social da empresa, acrescentou.

Saí da fábrica e caminhei pelas redondezas. Num bairro chamado Mengwu, conversei com Yang Xiu-ying, uma mulher de seus 50 anos que trabalha algumas horas por dia varrendo o pó de carvão de uma das avenidas da Hansteel. Como muitos moradores, ela ainda externava amargura ao falar das terras apropriadas pela siderúrgica em suas várias expansões. E descreveu a poluição de anos piores: “Caía uma chuva negra”, disse ela. “Não dava para vestir roupas brancas.”

A fuligem negra já não domina o centro urbano de Handan, mas as casas em Mengwu e outros bairros são sacudidas a cada poucos minutos pelos trens que transportam carvão. Algumas apresentam rachaduras nas paredes. Os moradores pediram indenização ao governo, e nada. Tal como a maioria das pessoas que mora perto de fábricas, Yang não tinha nenhuma expectativa de mudança. “Não se pode lutar contra a Hansteel. A cidade de Handan é a Hansteel”, disse ela, me dando as costas.

 

Durante décadas, o governo chinês ignorou a poluição, ou pelo menos tentou acobertá-la. Em 2007, temendo agitação social, Pequim pressionou o Banco Mundial a censurar um relatório sobre as mortes provocadas pela poluição no país. Depois de um vazamento de anilina numa fábrica de produtos químicos em Jilin, 1 200 pessoas sofreram de convulsões, náusea, dificuldade respiratória e paralisia temporária.

A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos classifica a anilina como provável agente cancerígeno; na Europa, desde o século XIX essa substância tem sido associada a surtos de câncer em cidades industriais ao longo do Reno. As autoridades sanitárias de Pequim, porém, atribuíram os sintomas a uma “histeria coletiva”; no hospital onde estavam sendo medicadas, as vítimas foram aconselhadas a se controlar. Em 2009, depois que a embaixada americana em Pequim passou a divulgar pelo Twitter os índices de poluição aferidos pelo monitor instalado em seu telhado, uma autoridade do Ministério de Relações Exteriores da China se queixou de que os Estados Unidos estavam se intrometendo nos assuntos internos do país.

Contudo, no início de 2013 o governo chinês resolveu tornar públicos dados da poluição atmosférica em 74 cidades – registros de leituras, de hora em hora, das estações de monitoramento em cada uma das cidades (Handan tem quatro), com base numa escala chamada Índice de Qualidade do Ar. A escala adota uma medida conhecida como MP2,5 – ou Material Particulado 2,5 –, que quantifica a concentração de partículas menores que 2,5 micrômetros. Quando inaladas, essas partículas podem aumentar o risco de ataques cardíacos, câncer e infecções respiratórias agudas, sobretudo em crianças e idosos.

Ativistas ambientais na China acreditam que a divulgação de dados pode ser uma tática do Ministério de Proteção Ambiental para criar uma pressão pública que obrigue as alas pró-indústria do governo a aceitar controles de poluição mais rigorosos. Outros sinais de mudança nas atitudes oficiais vêm ocorrendo. Em maio de 2013, Xi Jinping, o novo líder da China, declarou que a proteção ambiental seria um dos fatores para avaliar o desempenho de funcionários administrativos candidatos a promoção. Em julho, o governo noticiou que, para melhorar a qualidade do ar, nos próximos cinco anos iria gastar uma verba de 270 bilhões de dólares, grande parte dela destinada à região em torno de Handan.

 

As ações do governo refletem a conjectura de que a poluição é uma das poucas questões capazes de suscitar o desagrado de setores amplos da população, de todas as classes e etnias. Como o Partido fez da elevação dos padrões de vida seu parâmetro de sucesso, a poluição ambiental e os problemas de saúde que ela provoca minam a sua credibilidade. Em Pequim, Li Bo, veterano do movimento ambientalista chinês, me disse que a poluição “põe em questão a legitimidade do Partido, e o Partido sabe disso”.

Li trabalhou vinte de seus 43 anos em causas ambientais, e hoje é membro do conselho da mais antiga ONG ambientalista da China, Amigos da Natureza. As leis chinesas fazem de tudo para impedir que as ONGs se organizem em nível nacional, mas a Amigos da Natureza, com sede em Pequim, tem filiais em todo o país. Desde o final da década de 90, a ONG conseguiu questionar um projeto de hidrelétrica no rio Yang-tze e impedir a derrubada da floresta virgem na província de Yun-Nan, além de lutar pela preservação do antílope tibetano. No momento, sua campanha mais intensa está voltada para uma “aldeia do câncer” em Yun-Nan, onde durante anos uma fábrica de produtos químicos despejou dejetos tóxicos que escoaram para os reservatórios de água. A Amigos da Natureza vem ajudando os moradores a entrar com uma ação judicial com vistas a uma indenização: é a primeira vez que uma organização ambiental consegue levar ao tribunaluma indústria de produtos químicos.

As novas liberdades, segundo Li, vêm acompanhadas de limites claros. “Todo mundo fala da poluição, mas aquele que resolver seguir o curso de um determinado agente poluente até chegar ao poluidor corre o risco de acabar em apuros”, disse ele. “As autoridades locais podem alegar que o sujeito está prejudicando o progresso.”

Em Pequim também conheci Wang Jun e Zhang Bin, engenheiros de software que desenvolveram um aplicativo para smartphone chamado Índice de Qualidade do Ar da China. O aplicativo teve tanto sucesso que eles estavam pensando em alugar um escritório, em vez de trabalhar em seus apartamentos. O programa é capaz de calcular os níveis de poluição atmosférica do bairro, com atualizações de hora em hora e dados que remontam a meses. Pode-se passar horas acompanhando o rastro da poluição, observando a trajetória das nuvens de ar poluído pelas cidades e províncias.

Por vezes o índice registrado numa determinada estação salta de 100 ou 200 – marca que já é de dez a vinte vezes maior que a meta da Organização Mundial de Saúde – para algo como 800. A razão dessas flutuações não é clara: podem ser erros de aferição, pode ser que o equipamento de medição esteja no meiode um rolo de fumaça lançado de uma fábrica vizinha. Ninguém sabe responder com precisão. Mais importante que essas flutuações momentâneas são os dados diários e mensais, que refletem os efeitos de longo prazo sobre a saúde da população. A média do MP2,5 em Handan no primeiro semestre de 2013 foi de 130,5. A de Pequim foi 101,3 e a de Manhattan foi de 8,3. As diretrizes da OMS dizem que qualquer partícula é potencialmente prejudicial, mas estabelece uma meta de MP2,5 no nível 10. Em outras palavras, a concentração em Handan era treze vezes pior do que a meta da OMS.

Zhang e Wang abraçaram a causa ambientalista por acaso. “Na verdade, antes não prestávamos atenção à poluição, mas em 2011 houve um período de péssima qualidade do ar”, disse Zhang. “E então nos perguntamos se não haveria uma maneira mais fácil de acompanhar os índices.” No início, o aplicativo só contava com informações vindas dos tuítes da embaixada e do Consulado dos Estados Unidos, mas no início de 2013 os dois atualizaram o software de modo a incluir novos dados do governo, informações históricas, comparações entre cidades, e ainda a capacidade de localizar qualquer estação de monitoramento. O aplicativo já foi baixado 2 milhões e meio de vezes – das quais 58 mil ocorreram depois de um infame dia de janeiro de 2013, quando uma nuvem de poluição em Pequim provocou o cancelamento de ​​voos e levou firmas estrangeiras a distribuir máscaras para seus funcionários. Agora, Zhang e Wang contabilizam em média 4 mil downloads por dia, e estão pensando em expandir o negócio para outros países. Disseram que, embora o governo não tenha interferido em seu trabalho, a vigorosa resposta do público deixou as autoridades nervosas.

 

Num sábado de manhã, em um cume silencioso das Montanhas Taihang, participei de um encontro no Clube de Montanhismo Luz do Sol. A associação foi fundada por Han, o metalúrgico que me conduziu até a fábrica. No final dos anos 90, ele começou a organizar excursões para as montanhas. “Eu não tinha um objetivo; queria apenas caminhar com amigos”, disse ele. “Trabalhava na siderúrgica, e talvez inconscientemente sentisse que precisava do contato com a natureza.”

Depois de casar e ter uma filha, ele levou a menina para as montanhas, para fazê-la sentir o ar puro. Em 2008, o clube já tinha tomado forma. Através dele, Han conheceu outras pessoas que não trabalhavam na siderurgia – eram funcionários do governo, profissionais liberais e empresários. Nesses contatos, descobriu que havia uma insatisfação generalizada com a forma pela qual a China, em nome do crescimento econômico, desprezara outros fatores.

Anos atrás, Han arrendou 10 hectares nas montanhas, um lote no qual membros do clube poderiam plantar verduras orgânicas. Com a ajuda de agricultores locais, ele espera, no futuro, abrir um restaurante orgânico e também cultivar hortas que possam oferecer verduras frescas. “As pessoas não confiam nos legumes vendidos na cidade”, disse ele, enquanto atravessávamos campos recém-arados. “Acham que está tudo envenenado.”

Han nos guiou até um terreno baldio repleto de aipo-silvestre. O dia estava claro, tanto quanto podem ser claros os dias em Handan, ou seja, o ar estava umas cinco vezes mais poluído que em Manhattan. De vez em quando se vislumbrava um pequeno retalho de azul no céu. Enquanto os adultos colhiam aipo em sacos plásticos, as crianças correram para uma fazenda abandonada e subiram no telhado da sede. Han tinha esperanças de reformar a casa e transformá-la num clube.

Nossas sacolas acabaram abarrotadas de brotos verdes; planejamos preparar guiozas para o almoço. Um dos amigos de Han, um ex-metalúrgico de cabeça raspada que atende pelo apelido de Macaco, veio nos buscar num jipe Cherokee roxo, “envenenado” com enormes pneus, luzes na capota e um barulhento motor a diesel retirado de um ônibus. Descemos as colinas em zigue-zague, parando numa cidadezinha para comprar carne de porco. De repente fomos engolfados por uma nuvem de poeira. Han gritou “As janelas!”, e Macaco fechou os vidros imediatamente.

Na casa de outro amigo de Han, recheamos os guiozas com aipo e carne de porco, jogando conversa fora. Contaram que as mulheres haviam começado a usar máscaras de algodão emendadas em echarpes, para proteger a garganta e o peito contra a fuligem. (Algumas semanas depois notei essas mesmas echarpes em Pequim.)

Uma funcionária do Partido Comunista que treina trabalhadores das indústrias de base fazia parte do grupo. Seria natural esperar que a jovem, um quadro em ascensão no Partido, ficasse na defensiva em relação à política ambiental do governo, mas ela foi direta. “Todo mundo está ciente do problema, e há o desejo explícito de melhorar a situação”, disse ela. “Estamos treinando gerentes de controle da poluição. As coisas não podem continuar assim.” Ela entrou para o clube porque se preocupava com a saúde da filha.

Em geral, operários e funcionários burocráticos do governo não se encontram socialmente, mas Han animou a conversa com piadas descontraídas. “Conhecem aquela do sujeito de Handan que foi para a Suíça? Lá o ar era tão puro que ele começou a se sentir mal. Tiveram que arranjar um tubo e ligar no cano de escapamento de um carro, para ele respirar um pouco até se sentir melhor.”

 

Pouco antes de partir, fui até um braço do rio Zhuozhang com Wang Xiaohong, ex-funcionário público que é diretor do Clube de Natação de Inverno da cidade, uma agremiação bastante parecida com a dos excursionistas. Wang – que, junto com a mulher, tem uma loja de chá – reúne o grupo há vários anos, em locais onde o rio forma piscinas próprias para a natação. Depois do vazamento químico de 2013, o clube entrou com um processo contra a fábrica, mas abandonou o caso, ao que tudo indica sob pressão do governo. Mesmo assim, os membros estavam decididos a continuar dando suas braçadas.

Wang é adepto do taoismo, a religião nativa da China, que valoriza a proximidade com a natureza. Durante boa parte dos últimos dois milênios, o taoismo foi eclipsado politicamente pelo confucionismo, mais voltado para a família e a sociedade. Mark Elvin, professor emérito de história chinesa na Universidade Nacional da Austrália, já argumentou que o descaso da China pelo meio ambiente tem raízes nessa tradição. O governante ideal, segundo Confúcio, vê o domínio sobre a natureza como parte do triunfo da humanidade sobre a barbárie. Os filósofos taoistas ficaram em minoria.

Han, a julgar pelo pouco tempo que convivemos, me pareceu mais confucionista do que taoista. Seu clube nas montanhas proporciona um refúgio contra a poluição, mas também confere reconhecimento social ao metalúrgico. Já o interesse de Wang pelo meio ambiente está perfeitamente integrado a suas outras atividades – meditar, praticar a caligrafia chinesa e distribuir exemplares do texto clássico Tao Te Ching: O Livro do Caminho e da Virtude, uma das bases filosóficas do taoismo.

Quando chegamos à margem do rio, Wang perguntou se eu me importaria de nadar nu. Cerca de vinte homens tinham aparecido naquele dia e já estavam se despindo. Fiz o mesmo, pensando que pelo menos minha sunga seria poupada daquela água tóxica (mas não abri mão dos meus óculos de proteção). A água estava fria e refrescante. Wang foi o primeiro a mergulhar – um homem de 46 anos, de ombros largos, cabelo à escovinha e uma barba triangular destacada pelas costeletas finas.

Começamos num ritmo acelerado. Virei-me para o nado de costas, e alguém chegou nadando de peito, espanando água com braçadas irregulares. Engoli um bocado de água: tinha um gosto azedo, como uma piscina suja que acabasse de receber uma vasta dose de cloro.

“Essa água é limpa?”, perguntei.

“Não é potável”, disse Wang. “Mas o que não mata engorda.”

“Por que aqui só nadam homens?”

“Alguns anos atrás a qualidade da água era tão ruim que nossas associadas não queriam entrar no rio”, disse ele. “Os homens não se importavam. Depois de algum tempo, já que não havia mais mulheres, decidimos que tudo bem tirar a roupa e nadar nu.”

O produto químico que vazou no rio Zhuozhang era anilina. Se tivesse sido o único derramamento, estaríamos livres de perigo, pois ocorrera havia seis meses – e produtos químicos se dissolvem na água. Mas a julgar pelo número de fábricas nas margens do rio, seria difícil identificar a composição daquela água. “Vamos voltar”, gritei, e a corrente nos levou de volta para a orla.

Fomos até a loja de chá de Wang, forrada de prateleiras de aço onde se empilham tijolinhos de chá envelhecido tipo pu’er e bules de louça de Yixing, cidade famosa pela cerâmica. Há também saletas onde se pode meditar e tomar chá. Wang me disse que entre os membros do clube de natação havia muitos diretores de empresas. “O PIB”, e aqui ele usou a sigla em inglês, GDP, “não significa nada se uma pessoa não curte a vida.”

Nós nos despedimos, e saí em busca de alguma coisa para o jantar. Dei uma olhada no aplicativo do Índice de Qualidade do Ar, e meu smartphone mostrou que, naquele momento, Handan era a cidade mais poluída de toda a China. Dava para enxergar o fog e respirar a fumaça. As diretrizes do governo pregavam que em dias assim as pessoas deveriam usar máscaras e não sair de casa. Passei por um parque onde havia um grupo de idosos que dançava ao som de uma música que saía dos alto-falantes. Naquele nevoeiro amarelo, eles pareciam flutuar.

Conversei com uma dançarina aposentada que estava tocando uma espécie de flauta feita com uma cabaça e três tubos de bambu. Segundo ela, é melhor ficar no parque do que em casa, pois há mais oxigênio perto das plantas. Encontrei uma barraquinha de kebab, com uma mesinha e cadeiras, ao lado de um antigo canal, agora seco e cheio de lixo. Do outro lado, uma estátua imortalizava a historieta do homem que tentou imitar os habitantes locais. Seu corpo estava todo desconjuntado e os joelhos meio dobrados. Ele ainda não tinha dominado o jeito de andar de Handan.

Ian Johnson

Ian Johnson é jornalista canadense que vive entre Pequim e Berlim.

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