tempos da peste

“Eu não existi”

Minha vida durante e depois da Covid-19

Sergio Bermudes
Bermudes, na biblioteca de seu escritório: “Ella Fitzgerald é minha paixão. Tenho 117 discos dela e só me faltam os dois primeiros 
para completar sua discografia”
Bermudes, na biblioteca de seu escritório: “Ella Fitzgerald é minha paixão. Tenho 117 discos dela e só me faltam os dois primeiros para completar sua discografia” CREDITO: RICARDO BORGES_2021

Quando penso no que é a vida, recordo os versos pentassílabos de Gonçalves Dias, na Canção do Tamoio.

 

          Não chores, meu filho;
           Não chores, que a vida
           É luta renhida:
           Viver é lutar.
           A vida é combate,
           Que os fracos abate,
           Que os fortes, os bravos
           Só pode exaltar.

Numa quarta-feira, 8 de abril de 2020, eu fui intubado em decorrência de complicações trazidas pela Covid-19. Fora internado três dias antes, depois de, já infectado pelo vírus, apresentar febre e pressão alta. Sou diabético, hipertenso e fumei durante boa parte da vida. As lembranças que guardo são turvas. Dos dias de internação, antes de perder a consciência, me lembro de pouco. Sei que não tinha ânimo para ler nem para conversar, que sentia cansaço. E apaguei. Para usar uma expressão médica que ouvi muito, meus “sensórios” estavam “embotados”. Eu não sonhei, não me lembro de nada. Eu não existi. Minha memória mais concreta depois dessa internação data de quase um ano depois, o início de 2021. Nesse tempo todo, tive alta e voltei a ser internado três vezes. Quando deixei o hospital após minha última internação, em fevereiro, perguntei ao Júnior, meu dedicado funcionário, como estava o meu pai, Aylton Bermudes. Júnior me perguntou se eu me lembrava há quanto tempo não o via, e eu respondi: “Há poucos dias.” Mas já fazia um ano e dois meses. Eu havia perdido a noção do tempo.

Fiquei quatro meses em coma induzido numa das internações. Em agosto do ano passado, saí da unidade destinada aos pacientes com Covid do hospital CopaStar, em Copacabana, e fui para o Centro de Tratamento Intensivo, onde estive durante três meses até ter alta. Somando, isso significa que fiquei desligado seis ou sete meses.  Em casa, tive de reaprender tudo: a andar, a comer, a entender quem eu era e onde estava. Sou imensamente grato às equipes que me atenderam no CopaStar e no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Não deixam nada a desejar aos hospitais norte-americanos. O atendimento foi primoroso. Mas tenho de reconhecer que as idas ao hospital, ainda que eficazes no tratamento das complicações, sempre me deixavam combalido no retorno à minha casa.

Nesse período, eu não estava plenamente a par do que transcorria. Quando comecei a entender, fiz várias perguntas à minha família e aos meus funcionários: o que havia acontecido, como aconteceu, como ficaram a casa e o escritório, quem cuidou de tudo? E, mesmo assim, eu passava por momentos de completo branco ou confusão, dos quais não me lembro, mas me foram relatados. Já em meu apartamento, depois de ter alta, eu acreditava estar num hotel. Tiveram de puxar a cama para a frente da janela para que a vista do Pão de Açúcar me ajudasse a entender que eu estava em casa. Mesmo assim, em alguns momentos eu vacilava: pedia a conta e dizia que queria trocar de quarto.

Duas internações se deram em razão da inflamação no catéter que usei para fazer hemodiálise, e uma, devido a uma cirurgia para implante coclear no ouvido. As elevadíssimas doses de antibióticos que tomei afetaram meus rins e minha audição. Hoje, as hemodiálises se converteram em sessões de diálise em dias alternados. Tenho um catéter implantado no abdome, que drena as substâncias tóxicas dos meus rins. O procedimento é feito sempre à noite: começa às 21 horas e vai até às 7 horas da manhã. Como eu durmo, não sinto nada. Os rins ficaram muito comprometidos e, aos 74 anos, já não tenho mais idade para me submeter a um transplante. Minha esperança é de que eles se recuperem com o tempo e eu não precise mais da máquina.

Já a cirurgia auditiva é definitiva. Consistiu em substituir o canal auditivo por um aparelho eletrônico implantado dentro do ouvido e um microfone externo, mas muito discreto, que fica atrás da orelha, responsável pela captação dos sons. O microfone converte o som em impulso elétrico no nervo da audição. Ouço um som diferente, sintético e por vezes robotizado. Estou me acostumando. Faço leitura labial, o que me permite me comunicar com clareza, embora ainda tenha dificuldades para compreender sem o auxílio dos lábios do interlocutor. Quanto mais eu falar e interagir, mais rápido será o reconhecimento de sons e a melhora da audição. Tenho sessões de fonoaudiologia todos os dias, que me auxiliam não só na questão sonora, mas também na leitura labial. As palavras que começam com M são difíceis para mim, como Maria, Marta, Milton. E não ajuda o fato de que o brasileiro não enuncia muito as palavras ao falar.

Considero essas sequelas irrelevantes, já que não me impedem de exercer a atividade forense, à qual retornei em abril — embora só no final de maio tenha voltado fisicamente ao escritório. Muito antes da doença, eu já havia me acostumado a ditar meus pareceres, o que é bastante educativo para a minha condição. E, uma vez que se adquire o hábito de ditar, sempre prevalece a preguiça de escrever.

Eu costumo brincar dizendo que a doença foi minha inimiga porque me mostrou que o escritório funciona sem mim. Eu fiquei quase um ano e dois meses afastado. Se me dissessem que eu ficaria um ano sem trabalhar, eu jamais aceitaria e enlouqueceria. Mas, como eu não senti nada, é como se não tivesse parado. No retorno, voltei a trabalhar pesado, inclusive aos fins de semana. Ao elaborar um parecer, levei três dias trabalhando até tarde, um deles até as duas horas da manhã. Foi quando levei uma bronca do médico. Ele disse que isso não poderia voltar a acontecer, que preciso levar uma vida mais regrada. A advocacia que eu faço requer nervos de aço. Porque não são só os pareceres. É a luta forense. É perder, recorrer. Há clientes que perguntam: você perde mais ou ganha mais? Brinco dizendo que Rui Barbosa perdeu 83% das causas que patrocinou. Ocorre que, a causa, quando chegava a ele, era “parada cardíaca”, como dizemos entre advogados. Ou seja, quase causa perdida.

Houve uma comoção geral quando eu voltei ao escritório, que é hoje a maior banca de advocacia contenciosa do Brasil. E comecei há cinco décadas, engatinhando, sem nada. Eu costumo dizer que não queria morrer antes de papai e antes que os meninos tivessem condições de conduzir o escritório. Por meninos, me refiro aos meus sócios. O escritório é governado por um conselho de nove advogados. Eu me reservei o poder de veto, que nunca usei. O diretor-geral, a autoridade suprema hoje, é o Marcelo Fontes. Ele foi meu aluno na PUC do Rio de Janeiro, depois meu estagiário e hoje meu colega. Ele costuma me perguntar: “Sergio, quando que eu vou deixar de ser menino? Estou com 56 anos e já vou ser avô!”

 

Hoje, eu sou o símbolo do escritório. Quando entra uma causa, eu designo os advogados, discutimos, damos orientação. Em algumas causas eu mesmo quero trabalhar. A verdade é que a advocacia contenciosa é muito tensa. A minha secretária me disse outro dia: “Doutor Sergio, o senhor não está bem ainda.” Eu perguntei: “Por quê?” Ao que ela respondeu: “O senhor só me mandou à puta que pariu uma vez.” Ou seja, é um ambiente duro. Meu pai, embora advogado, não queria que eu seguisse seus passos. Na minha época, a advocacia era para quem não dava para nada. Não era uma profissão prestigiada. As profissões nobres eram medicina e engenharia.

Tive receio de que a minha memória, que é excepcional, fosse afetada pela doença. Mas felizmente ela continua igual. Eu digo isso sem jactância porque tenho, de fato, uma excelente memória. Eu não a fabriquei. Ela simplesmente existe. Dom Eugênio Sales, que foi arcebispo do Rio de Janeiro, um dia me disse: “Eu soube que você gosta de poesia. Você conhece O Navio Negreiro?” Eu respondi que conhecia e o desafiei a me dizer qualquer substantivo usado no poema que eu lhe daria a estrofe completa. E, como Castro Alves eventualmente repete palavras, eu daria todas as estrofes em que aquele substantivo aparecesse. E foi o que fiz.

Sou advogado da arquidiocese do Rio de Janeiro, católico, tenho muitos amigos padres e bispos e tenho muita fé. Sou devoto de Nossa Senhora, por quem tenho uma fé mística, e creio firmemente que não morri porque ela me colocou na cota dos 20% que sobrevivem aos casos graves. A quantidade de gente que morreu é impressionante. Amigos, alunos. Recebi três unções dos enfermos no período em que fiquei internado. Quando penso nisso, recordo Louis Pasteur. Certa vez, lhe perguntaram como era possível um cientista que havia lido tudo sobre todas as coisas conseguir ainda ter fé. Ele respondeu que, por ler muito e estudar muito, tinha a fé de um camponês bretão. E completou dizendo que quando estudasse mais e lesse mais, teria a fé de uma camponesa bretã. Eu penso mais ou menos assim. Minha fé é pequenininha, mas muito convicta.

Meu pai também era muito católico. Ele faleceu em março, logo depois que eu saí do hospital. Tinha 99 anos e oito meses. Ele nunca soube da minha situação. Sabia que eu estava hospitalizado, mas não conhecia a gravidade da doença. Mentiram para ele dizendo que eu havia sido internado por determinação médica porque, se ficasse em casa, não deixaria de trabalhar. Para incrementar a mentira, dois irmãos que têm a voz muito parecida com a minha ligavam para ele se passando por mim. Creio que ele não percebeu o engano. Estava lúcido, mas já muito cansado. Não tinha interesse em mais nada. Antigamente eu contava a ele sobre minhas viagens, fosse Nova York ou Teresina, e ele fazia perguntas. Nos últimos tempos, não perguntava mais nada. Falei com ele quando saí do hospital, mas não consegui vê-lo. E tampouco pude ir ao enterro, por proibição dos médicos, que achavam que ainda não era conveniente viajar por eu ter acabado de receber minha última alta do hospital.

Ele viveu em Cachoeiro de Itapemirim (ES), cidade onde nasci e passei a infância e a adolescência, e morreu em Vitória. Minha origem divido com Roberto Carlos e Rubem Braga, embora não os conhecesse naquela época. Eu cheguei a cantar na mesma rádio que o Roberto em Cachoeiro, enquanto ele tocava violão, mas só vim a conhecê-lo já no Rio de Janeiro. Hoje, da minha janela [que tem uma vista panorâmica para o Pão de Açúcar e a Baía de Guanabara] consigo avistar o prédio dele [que fica no bairro da Urca]. Nós temos o mesmo confessor, o cônego Jorjão. Então, por intermédio dele, vivemos mandando abraços um para o outro. O Roberto é seis anos mais velho que eu, tem 80 anos. Mas ele ainda não aprendeu a ter 80 anos. E é preciso aprender.

Escrevi dezesseis livros e sou candidato a uma vaga na Academia Brasileira de Letras. Existem hoje quatro vagas. Uma será possivelmente de Fernanda Montenegro. A segunda vaga é do Gilberto Gil. Sua família vem se esforçando bastante para que ele tenha votos. E a terceira deverá ser de uma pessoa de quem eu gosto muito, o Paulinho Niemeyer Filho, neurocirurgião, que tem em Merval Pereira, que é um vívido expoente da ABL, um grande amigo. Consta que se reúnem com frequência, viajam juntos. Digo que a obra do Paulo é o bisturi. Ele é muito competente e operou vários acadêmicos. Na ABL, hoje, há nove acadêmicos com mais de 90 anos e uma com mais de 100. O decano é José Sarney, com 91 anos. Com Sarney e com Fernando Henrique Cardoso, meu amigo, costumo brincar dizendo: “Vocês dois precisam se segurar, pois eu quero entrar com o voto de dois ex-presidentes da República.”

Fernando Henrique é um gentleman. É fino pela própria natureza. Digo a ele que, se ele quiser, volta a ser presidente da República. Mas ele rebate dizendo que, hoje, não teria força para enfrentar o Lula. O Lula é um fenômeno, embora eu o ache horrível. Entre Lula e Jair Bolsonaro, eu anulo meu voto. Não tenho coragem de votar em nenhum dos dois. Por isso, sobre a nossa situação política, tenho apenas uma anedota a contar. Havia no Equador um político que foi eleito cinco vezes presidente da República, chamado Velasco Ibarra. O povo equatoriano o chamava de Velasco “Iburro”. Foi quando um equatoriano então me disse: “Nós o chamamos de Iburro, mas como então deveríamos chamar a nós mesmos?”

Jair Bolsonaro é um caso à parte. Meu antigo sócio, Gustavo Bebianno, e meu amigo, Paulo Marinho, ambos meus compadres, acabaram envolvidos na campanha e no governo dele. O Paulo Marinho o acolheu em sua própria casa e a transformou no quartel-general da campanha. Mas nem Bolsonaro nem seus filhos parecem conhecer a palavra gratidão em relação a ele, pela forma com que romperam com Paulo. Já Bebianno, que faleceu repentinamente em março do ano passado, foi meu aluno. Dei aula para ele na PUC-Rio e sou padrinho de seu filho. Sempre disse a ele para não ir para esse governo, mas ele ficou entusiasmadíssimo com a vitória. Quem conspirou contra o Bebianno para tirá-lo do governo foi o Carlos, filho do presidente.

É uma pena tudo o que aconteceu, pois o Bebianno era uma pessoa admirável. Quando foi meu aluno, tinha boa desenvoltura e chegou para mim e disse: “Quero estagiar no seu escritório, posso?” Eu o aceitei, embora não conhecesse a sua origem. Ele se saiu muito bem e, depois que se formou, me disse que queria uma experiência empresarial. Eu o coloquei no Jornal do Brasil. Depois, ele saiu e voltou para o escritório, e em seguida eu o realoquei como advogado do Arcebispado, na Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro. De lá, ele foi para a campanha do Bolsonaro.

Bebianno queria, na verdade, ser prefeito do Rio, embora eu tenha dito a ele repetidas vezes que não achava uma boa ideia. O Rio está decadente em todos os sentidos. Adriana Ancelmo [ex-primeira-dama do estado] foi minha aluna. Antes da pandemia, ela veio se consultar comigo. Eu não sou criminalista, mas ela me pediu uma indicação. Eu perguntei à Adriana, com certa perplexidade, o que eles haviam feito com o Rio. Ela apenas me disse: “Nós estávamos anestesiados.” Eu também disse ao Sérgio Cabral [ex-governador do Rio]: “Como é que você jogou fora a Presidência da República?” Ele tinha tudo para ser candidato. Mas roubou.

 

Anatole France fez um discurso na inauguração de um monumento a Ernest Renan, na cidade de Tréguier, na Bretanha, que é considerado uma obra-prima. Renan foi um escritor símbolo do laicismo e sua obra inspirou diversos movimentos anticlericais na França. Anatole também era um grande crítico da igreja. Sua fala, naquela inauguração de 1903, termina assim: “Dorme em paz, Renan, porque lentamente, porém sempre, a humanidade realiza o sonho dos sábios.” Então, ao contemplarmos a história da humanidade, vemos que o mundo melhorou ao longo dos séculos. De vez em quando aparece um inimigo, como esse vírus que declarou guerra a nós. Mas eu acredito piamente que o mundo é melhor. Olavo Bilac, em seu soneto Dualismo, pinta o homem que conduz o curso da história, em toda a sua complexidade: Não és bom, não és mau: és triste e humano… De onde eu venho, em Cachoeiro de Itapemirim, há mais de 60 anos havia apenas 39 mil habitantes. Hoje há 210 mil. Era um lugar paupérrimo. Hoje, as casas não são mais de sapê, são de alvenaria. Há um carro na porta de cada casa e uma antena parabólica.

Eu sou, portanto, um otimista. Nasci assim. Trabalhei duro e sempre tive uma vida muito, muito reclusa. Eça de Queiroz tem aquela frase famosa, de que ele nada mais era do que um pobre homem de Póvoa do Varzim. Eu nada mais sou que um pobre homem de Cachoeiro de Itapemirim. Como tenho uma grande quantidade de clientes, acabei vendo o mundo através deles, de seus problemas jurídicos e da amizade que eventualmente construímos. Minha vida pessoal é muito fechada. Tenho amigos com quem convivo na intimidade e me dedico muito à igreja, à Arquidiocese. Mas gosto mesmo de ficar na minha casa, com meus CDs. Tenho mais de 3 mil. Raramente vejo televisão. No final de 2019, pouco antes da pandemia, dei uma festa no Copacabana Palace para comemorar os 50 anos do escritório. Afinal, não é todo dia que se faz 50 anos. Se estivesse viva, meu sonho seria chamar Ella Fitzgerald para cantar naquela ocasião. Ela é minha paixão. Tenho 117 discos dela e só me faltam os dois primeiros para completar sua discografia. Nisso, eu competia com meu amigo José Luiz Bulhões Pedreira, também advogado, morto em 2006. Ele tinha os 119. Eu ouvia música diariamente, ao chegar do escritório, e também quando trabalhava de casa. Há aparelhos de som em todos os cômodos, em que, além de Ella, eu escutava Mozart, Beethoven e Bach. Hoje, eventualmente, percebo algum som musical que o Junior, meu funcionário, põe para tocar. Outro dia ele colocou algumas canções do Roberto. Consegui ouvir um pouco, o que me fez sentir prazer e nostalgia.

Sergio Bermudes

É advogado e professor de direito processual civil na PUC-Rio

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