cartas

Excitado, leitor exorta piauí a fazer uma revista “mais sexy e bandida”

LOS DOCTORES

Já estava aguardando uma reportagem da piauí sobre o Programa Mais Médicos (“Los doctores”, piauí_89, fevereiro). A abordagem da revista foi interessante, pois apresentou fatos e prezou pela imparcialidade. Mas acabou sendo superficial demais.
Um ponto importante, que não foi abordado, é o status da profissão médica no Brasil. Por que os médicos brasileiros, tanto os recém-formados como aqueles que já conquistaram mérito e riqueza, não trabalham no interior do Brasil, em lugares onde não há sequer um profissional disponível? Talvez essa questão se responda com outra: qual a motivação da maioria dos estudantes que cursam as faculdades de medicina no país? Resposta óbvia e direta: ganhar dinheiro! Que outra profissão paga salários tão altos a recém-formados?
Está certo que há muito investimento – tempo e dinheiro – por trás de uma graduação na faculdade de medicina, mas, assim como os alunos que optam por medicina veterinária porque gostam de animais, ou os que escolhem engenharia porque gostam de números, não deveriam os futuros médicos ter por motivação o fato de gostarem de gente, de seres humanos, acima de qualquer outro objetivo? Por que os discursos de formatura desses médicos são repletos de frases como “salvar vidas”, “ajudar a população”, se muito poucos se aventuram nas terras onde mais são necessários (bairros pobres, periferias e regiões longínquas do Brasil afora)?
Não estou defendendo o Mais Médicos, nem o SUS, nem o governo federal; acredito que todos têm suas mazelas. Falta plano de carreira para os médicos no Brasil? Bom, faltam planos de carreira para muitos funcionários públicos, e tantos outros privados, de todos os setores. O programa é paliativo? Sim, mas se levando em conta que brasileiros morrem diariamente por falta de atendimento médico, é melhor começar com alguma medida, que deve ser mais bem estruturada no futuro, do que nada. Não seria esta mais uma estratégia eleitoral para angariar votos em ano de eleição? Provavelmente, mas não é a única, e, aliás, de tão polêmica, quem acabará conseguindo o melhor resultado eleitoral: seu criador ou a imagem (distorcida ou não) produzida?

HELENA HINKE DOBROCHINSKI CÂNDIDO_POMERODE/SC

 

Pertinente abordar, em “Los doctores”, o Programa Mais Médicos, do governo federal. Pertinente, mas atrasado e incompleto, dado que – vocês não teriam como confirmar, mas poderiam supor – mais e mais cubanos acabam aproveitando a condição de camaradas explorados para ficar por aqui, sumir ou finalmente fugir para a meca capitalista, os Estados Unidos. Essa situação é abordada apenas en passant pela reportagem, que deixa a desejar, na medida em que pouco esclarece a real situação dos camaradas.

RODRIGO CONTRERA_SÃO PAULO/SP

Comecei a ler a piauí por um mero acaso: era assinante da Bravo! e, com seu fechamento, tive que escolher outra revista. A Abril tentou mil campanhas para que eu assinasse a Veja, mas optei por vocês, uma vez que alguns amigos são assinantes e sempre falavam da revista (sabem como são os estudantes de jornalismo). Enfim, apaixonei-me!
As últimas edições estavam uma maravilha! Na piauí_88, identifiquei-me com as matérias sobre álcool e ressaca. Na piauí_87, adorei o texto da Margarita García Robayo e achei necessário o relato do Bruno Torturra. A edição de fevereiro (piauí_89) me trouxe essa maravilha que é a matéria “Los doctores”, da Malu Delgado, e apertou meu coração com “Depois da tempestade”, da Carol Pires, e “Céu escuro na Mongólia”, da Ariel Levy.
A minha tristeza foi ler a incrível matéria sobre a galera de São Francisco, na piauí_88, que já está rica com a minha idade e financiando os shows dos artistas de que eu gosto. Eles milionários, e eu aqui sofrendo para conseguir uns “freelas” e sonhando em, quem sabe, um dia publicar na piauí. Parece que é da minha natureza não ser um yuppie.

RENAN GUERRA_SÃO BORJA/RS

QUANTA DIFERENÇA

O texto “O caminho de Santiago”, do jornalista Patricio Fernández (piauí_89, fevereiro), expõe dados biográficos da presidente eleita do Chile, Michelle Bachelet, que retorna ao posto. Depois de sua excelente gestão de 2006 a 2010, Bachelet foi sucedida pela direita, embora seu governo tenha sido bem avaliado. Os chilenos conseguiram uma fórmula de convivência democrática dos contrários. Muito diferente da que impera em alguns países do continente, contaminados pelo bolivarianismo, uma das mais atrasadas manifestações de populismo. No Chile, a direita voltou ao poder pelo voto popular vinte anos depois do fim do regime ditatorial, entregando-o de volta à esquerda, sem rupturas.

Quanto à figura de Michelle, quanta ternura revelada, apesar de uma vida traumática e sofrida. Sua fisionomia descontraída exibe a confiança de uma pessoa que passou por tantas intempéries e que está pronta para os novos desafios. Pelo seu passado combativo e de enfrentamento, poderia se estabelecer alguma simetria com a nossa presidente. Mas em matéria de temperamento, quanta diferença!

DIRCEU LUIZ NATAL_RIO DE JANEIRO/RJ

DEUS É BURRO?

Gostei de saber da obra inédita, recém-descoberta de Pascal, comentada por Bernardo Carvalho na piauí_89. Sem a ajuda dele, provavelmente eu não tomaria conhecimento do assunto, já que não sou chegado ao tema religião. No entanto, chamou minha atenção a leveza com que ele acusa o papa Francisco de estar por atrás dessa possível farsa. Não pertenço ao fã-clube de Francisco, mas admiro sua postura democrática. Fiquei, portanto, abismado com a acusação feita pelo Bernardo, acusação que ele ousa chamar de “tese”. De qualquer modo, não seria uma tese, seria mera hipótese, ainda carente de evidência empírica. Carvalho não mostrou de maneira séria em que ele se baseou para chegar a essa horripilante dedução. Intuição? E isso já está valendo? Se estiver, vou sair por aí intuindo isso e aquilo, a torto e a direito.

TARCISO FILGUEIRAS_SÃO PAULO/SP



NOTA DA REDAÇÃO: Tarciso, atentai para o canto esquerdo superior da página que acolhe o blasfemo Bernardo Carvalho e vereis, cravada em papel pólen, a palavra “ficção”. Compreendeis agora o mistério da fé?

Bernardo Carvalho citou o papa e um livro recém-descoberto de Pascal (“Deus é burro?”, piauí_89, fevereiro), no qual está a frase “Vocês têm tudo a ganhar não acreditando em Deus”. Mistério! Que livro? Quando ou quem descobriu? Fato ou ficção do papa?

HAROLDO MARQUES_BELO HORIZONTE/MG

PIADINHA SEM GRAÇA

Minha mãe não quis mais a assinatura da piauí porque não gosta “desses jornalistas irônicos metidos a intelectuais que fazem piadinhas sem graça sobre tudo”. Passou para mim porque sempre diz que eu e meu marido somos “jornalistas irônicos etc…”. Aí vejo a matéria sobre o escritor queniano Binyavanga Wainaina (“Safári nas trevas”, piauí_89, fevereiro), que fala de sua irônica bula “Como escrever sobre a África”, publicada em 2005 na revista Granta. Já fiquei pensando em como fazer piadinhas sem graça sobre ela. Percebi que dá para variar o tema não só com países e culturas do Terceiro Mundo. “Como escrever sobre o Reino Unido”: no título, faça algum trocadilho com a monarquia, tipo “Deus salve alguma coisa”; lá pelas tantas acrescente um indiano para evidenciar a multiculturalidade.
Estive há pouco tempo num encontro de literatura africana em que um dos palestrantes falou exatamente dos clichês sobre a África usados pelos não africanos. Foi uma big saia justa, porque no fundo do palco estava o cartaz do encontro: uma estatueta tribal de ébano banhada pela luz laranja do entardecer na savana. Aliás, desconstruir clichês para desmascarar os discursos não é novidade. Então, o que o texto do Wainaina na Granta tem de tão especial? Foi porque ninguém esperava que um africano fosse dado a ser “irônico metido a intelectual que faz piadinhas sem graça sobre tudo”?

LIÈGE COPSTEIN_FREDERICO WESTPHALEN/RS

DISCÓRDIAS

Antes de comentar os artigos de Rafael Cariello e Bernardo Esteves (“O antropólogo contra o Estado” e “Os seixos da discórdia”, piauí_88, janeiro), quero dividir com a redação a satisfação de conseguir ficar em dia com a leitura da revista e do blog da piauí. Após meses tentando inserir a leitura em minha rotina, neste último dia de janeiro consegui. E o melhor ainda estava por vir. Atualizei minhas leituras com dois brilhantes ensaios sobre antropologia e arqueologia. Ainda que os pesquisadores resenhados não sejam unanimidade entre seus pares, os repórteres deram uma enorme contribuição ao descrever a origem das descobertas que os tornaram personae non gratae no meio acadêmico. São pesquisadores que lançam novas cartas no jogo e mudam o jeito de jogar o jogo. Contrariando modelos, resgatam a crença na curiosidade e na criatividade do pensamento. Eles se afastam, assim, do famigerado “salve-se quem puder” dos cursos de graduação, programas de pós-graduação e institutos de pesquisa, nos quais alunos, pesquisadores e pseudointelectuais transformam a produção científica num mercado onde a moeda é a publicação. Precisamos de pesquisadores desse quilate, que possam nos oferecer a oportunidade de encontrar formas nos seixos que despencam de nosso paredão conformista.

BRENO RODRIGO DE OLIVEIRA ALENCAR_BELÉM/PA

 

Sobre a reportagem “Os seixos da discórdia”, como pode alguém dizer que macacos fizeram ferramentas há tantos anos? Se tivessem feito, uma vez que o conhecimento é cumulativo, os macacos talvez estivessem hoje usando o Facebook. Ou, pelo menos, o telex.

DJALMA ROSA_SÃO SIMÃO/SP

NOTA DA REDAÇÃO: Você já frequentou o Facebook, Djalma?

 

Excelente a reportagem com o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro. Traz uma nova luz sobre o entendimento dos povos indígenas. Ou antigos. Ou diferentes. Interessante também aquela asnálise política em que o antropólogo chegou à brilhante conclusão de que o ex-presidente Lula governou o Brasil sob uma ótica operária e, mais ainda, de São Bernardo. Fiquei realmente surpreso, pois todos nós sabemos da formação intelectual e europeia do senhor Luiz Inácio Lula da Silva. Mas a reportagem ainda perde para o texto da piauí_83 (agosto de 2013),“O longo prazo chegou”, do intelectual César Benjamin. Ufa! Não sei se vou aguentar tanta gente inteligente. Vou voltar para a Veja e o Diogo Mainardi. Grande abraço.

DILAMAR SANTOS_FLORIANÓPOLIS/SC

Lendo o perfil do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, na piauí_88, não pude perceber, ou entender, o motivo pelo qual efetivamente suas ideias são inovadoras para a antropologia moderna. Ao contrário do perfil do matemático Fernando Codá (“Senhor dos anéis”, piauí_87, dezembro), esse texto não foi claro o suficiente ao mostrar as inovações de suas ideias, e como chegou às suas conclusões. Tudo bem que um governo não pode ser pensado pelo prisma de São Bernardo do Campo ou Barretos, mas, da mesma forma, a antropologia não deve ser feita na rota Ipanema–Leblon–Petrópolis. Me parece que lhe falta sair um pouco da Zona Sul.

ALESSANDRO DE CARVALHO SOUZA_RIO DO SUL/SC

REPORTAGENS LONGAS

Cientificado estou da lucidez, discernimento, competência e senso de humor da redação da piauí, mas, diante da carta de Anne Mittmann na piauí_89 e de carta anterior na piauí_88, criticando o tamanho da reportagem “Senhor dos Anéis”, quero reiterar o evidente: as longas matérias são um dos diferenciais mais notórios da revista. Por quê? Ora, permite a vocês e à gente alçar voo no jornalismo de profundidade, algo escasso na mídia impressa produzida pelos terráqueos. As neurociências cognitivas já explicitaram ad nauseam que leituras “longas” ajudam a fortalecer e a desenvolver as redes neurais. Além disso, cria-se (pelo menos eu crio) uma certa ritualística para ler a revista. Equação justa de tempo, ânimo interior e ambiente. Sinto-me nauseabundo em afagar vossos egos com tantos elogios, mas é preciso que saibam: há leitores que amam as reportagens extensas. Que as façam ainda maiores e ainda mais insólitas e interessantes!

IGOR SOUTO MAIOR DE GUSMÃO VASCONCELOS_RECIFE/PE

NOTA DA REDAÇÃO: Igor, depois de tantos elogios, a gente até liberou esse “nauseabundo”.

PIAUÍ, NEW YORKER

Cara revista piauí, o negócio é o seguinte. Ainda não descobri um meio de obter no Brasil (e principalmente aqui no Pará) a New Yorker. A revista é muito boa. Vocês, que são do ramo, sabem melhor do que ninguém. A maneira que consegui de lê-la, de forma indireta, foi por meio da piauí, que constantemente publica traduções de artigos de lá. Junto com os de um monte de outras revistas legais que dificilmente teriam pares nacionais, como a New Left Review.
Esse é realmente um dos pontos fortes da revista. Essa diversidade de origens evita o tédio e nos apresenta perspectivas às quais só os aficionados teriam acesso. O problema é a estética com que tudo isso é apresentado. Toda a história dos anaisquestões, memórias e demais seções da revista, além do tom geral da edição, se parece demais com a New Yorker. E essa história de anais, gente? Em inglês annal, o registro, ainda vai, pois se diferencia de anal, o sexo. Mas, poxa, em português fica simplesmente estranho. Acho também que sete (7) é um número agourento. Sete anos é a marca da separação. Então que tal aproveitar esse aniversário de sete anos e dar uma marca mais própria à revista, separando-a de vez de sua fonte inspiradora? Acho que a revista e nós, os leitores, só temos a ganhar com essa coisa sexy e bandida que pode brotar daí.

CÁSSIO LOREDAN BARBOSA_BELÉM/PA

NOTA DA REDAÇÃO: Nossa, Cássio, que carta sexy e bandida! Com essa você entrou para os anais da Redação.

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