anais da medicina

Expedicionário

No Amazonas e no Haiti – as cirurgias de Ricardo Ferreira

Marcelo Leite
A experiência de Ricardo Affonso Ferreira no atendimento a índios da Amazônia convenceu os Expedicionários da Saúde da necessidade de reproduzir na mata as condições ideais de um centro cirúrgico, confinando-o numa barraca fechada com ar-condicionado
A experiência de Ricardo Affonso Ferreira no atendimento a índios da Amazônia convenceu os Expedicionários da Saúde da necessidade de reproduzir na mata as condições ideais de um centro cirúrgico, confinando-o numa barraca fechada com ar-condicionado FOTO: ANDRÉ FRANÇOIS

São cinco os banheiros disponíveis para os Expedicionários da Saúde na Escola Indígena São Pedro, localizada na margem direita do rio Andirá, na Terra Indígena Sateré-Mawé, no Amazonas, divisa com o Pará. Os 39 integrantes da 16ª expedição da organização não governamental devem deixá-los limpos e enxutos para o próximo ocupante. Cada um tem de lavar os próprios talheres, prato e copo. Almoço ao meio-dia, jantar às sete. A orientação é tratar pacientes saterés e hixkaryanos com atenção e respeito, “como parentes”.

“Expedição não é democracia, quem manda aqui é a gente, não vocês”, disse o ortopedista Ricardo Affonso Ferreira, o “Balé”, apelido conquistado com muitas piruetas nas quadras de basquete de Campinas nos anos 70. Fechando a preleção, apontou para o próprio peito e para Martin Affonso Ferreira, seu primo anestesista, cofundador da Expedicionários da Saúde. Martin Ferreira é o mandachuva da barraca de lona verde que abriga o centro cirúrgico, usada desde a quarta expedição, em 2005. O anestesista tem a palavra final sobre se e quando um índio será operado. Após sete dias no Andirá, serão 150 cirurgias e 1 300 pacientes atendidos.

Todo o território fora da barraca recai sob a jurisdição do primo ortopedista, que raramente entra no centro cirúrgico (a não ser para um cochilo depois do almoço, no conforto do ar-condicionado). Balé circula sem parar entre os barracões da escola, de sandálias de borracha e shorts xadrezes que lembram cuecas de seda. Um rádio na cintura e outro na mão, quando não terminam esquecidos na beira de alguma janela dos barracões onde os visitantes montam suas tendas e redes de dormir.

Os Expedicionários estão pela segunda vez entre os saterés para realizar cirurgias que, apesar de relativamente simples, têm grande impacto na vida dos índios. São intervenções para reparar hérnias inguinais e escrotais que os impedem de suportar o peso de sacos de mandioca. Ou, então, para eliminar cataratas, substituindo por uma prótese a lente turvada do cristalino – e devolvendo a visão aos índios. Tudo isso num único dia de ausência da aldeia. A alternativa é perder semanas em filas de hospitais distantes e nas apinhadas e insalubres Casais, as Casas de Saúde do Índio, mantidas pelo governo federal em cidades maiores.

Na expedição anterior ao rio Andirá, em novembro passado, foram realizadas 1 345 consultas e 136 cirurgias. A avaliação positiva da primeira expedição parece ter se espalhado, boca a boca, pela região: chegaram barcos, como o Tio Tavares, com centenas de visitantes hixkaryanos de uma vez. “É muito cocô”, decretou Ferreira, preocupado com a capacidade de esgotamento das fossas sanitárias da escola e com a contaminação da água do rio. Boa parte do tempo do chefe é gasto na tarefa de berrar ordens para arrebanhar pacientes e embarcar provisões, de modo a fazer os barcos partirem logo.

Silas Miquiles, um sateré de 12 anos, deu sorte de conhecer Balé em novembro passado. Único ortopedista do grupo, o doutor Ricardo Ferreira examina todos os pacientes que chegam com problemas na sua área de especialidade. O menino é filho do intérprete e agente de saúde Lourival Miquiles, que havia procurado Ferreira para contar a história de Silas e pedir ajuda. Picado de cobra aos 7 anos, o garoto tinha perdido a perna direita acima do joelho. Prometera que se mataria aos 12 se continuasse naquela condição: sem ter como pescar, caçar e casar.

Os Expedicionários levaram Silas ao Centro Marian Weiss, do ortopedista Marco Antônio Guedes de Souza Pinto, no bairro paulistano de Vila Madalena. Tudo era novidade para o menino, que nunca tinha ido nem a Parintins, a principal cidade da região. Mas a surpresa, mesmo, veio quando Guedes tirou a própria prótese da perna esquerda e a colocou sobre a mesa do consultório. O médico alto, atlético e bem-vestido era um amputado como ele. Silas riu.

O garoto agora anda sem muletas, graças à perna metálica obtida em São Paulo, com um tênis Nike na ponta – o pé remanescente vai calçado na havaiana universal das áreas indígenas. Ainda há acertos para fazer na articulação do aparelho, mas Silas já arrisca um futebol. Só tira a perna mecânica para nadar, o que faz melhor que a maioria dos bípedes paulistas que ocupa a água preta e límpida do rio Andirá a cada final de tarde, quando há uma folga na expedição comandada por Balé com mão de ferro e algum jogo de cintura.

 

Três meses antes da expedição à terra dos saterés, na noite de 13 de janeiro, Ferreira lia em sua casa de sítio, nos arredores de Campinas, uma reportagem sobre aventuras de jipe pela África. Decidiu ligar para Gustavo Magnusson, outro expedicionário de primeira hora e entusiasta de viagens radicais. O fotógrafo estranhou o tom ameno do amigo médico e perguntou se não tinha assistido à televisão naquela quarta-feira. Diante da negativa, recomendou que a ligasse. Com 24 horas de atraso, Balé tomou conhecimento do terremoto no Haiti.

Quando chegou no dia seguinte à praça Maria Lenzi Vicentini, limite da zona rural campineira e ponto de partida para a caminhada diária de trabalho com Márcia Abdalla, sempre às seis e meia da manhã, Balé trazia uma ideia na ponta da língua: “Precisamos ir para lá.” Convenceu-se de que os haitianos necessitavam de um combinado da experiência da Expedicionários em cirurgias sob condições extremas, como as da Amazônia, com sua própria especialidade, a ortopedia, demanda de emergência numa nação de pobres soterrados sob escombros. Centenas, milhares de crianças como Silas.

A amiga, que até meados do ano passado era a única responsável pela logística dos Expedicionários, farejou o perigo. Ainda tentou demovê-lo da proposta quixotesca, mas desconfiou que não teria sucesso. O primo anestesista, Martin, pediu-lhe calma. Tampouco adiantou. Com os preparativos da missão de abril ao rio Andirá já em andamento, levar uma equipe de vinte pessoas e 7 toneladas de equipamento até um país conflagrado, em poucos dias, pareceu insano a Abdalla. Sua reação foi pedir socorro ao tenente-coronel Luís Francisco de Macedo, reservista da Aeronáutica.

Macedo atendeu ao celular em Londrina, no Paraná, quando transportava num reboque, de volta para Campinas, a moto BMW R1100 GS, avariada no retorno do Salar de Uyuni, na Bolívia. Concordou com a colega de logística que era loucura, mas foi o terceiro a conformar-se. Ele se considera um dos responsáveis por manter Ferreira “sob a constante vigilância de um adulto” e intuiu que, mais dia, menos dia, teria de acompanhá-lo ao Haiti.

 

Balé embarcou para a República Dominicana quatro dias depois do terremoto. Tinha na cabeça um boné azul-marinho bordado com bandeirinha verde e amarela e a frase “Dr. Ricardo”. Na bagagem, a minúscula e inseparável barraca North Face, muita castanha-do-pará e cerca de 15 mil dólares, levantados em 36 horas por Leon Naday, um amigo fazendeiro que cultiva laranja.

O médico teve de esperar um dia inteiro em Santo Domingo por Hernane Santos, enfermeiro de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, que sempre o acompanha nas “exploratórias”, as viagens de sondagem. Abdalla e Macedo ficaram em Campinas, com a missão de fazer os suprimentos saírem de Manaus e chegarem à capital haitiana, Porto Príncipe. O atraso de Santos fez com que perdessem um comboio de funcionários brasileiros que partiria para o Haiti.

Tiveram de seguir sozinhos, numa van de aluguel abarrotada com gasolina, comida e água para duas semanas. O chofer de um comboio de alemães sugeriu que acompanhassem o grupo, devido aos assaltos na estrada. Já em Porto Príncipe, na frente do hospital L’Espoir, um jovem meteu a cabeça pela janela do carro e perguntou em francês se podia ajudar. Era Pierre Philippe Cajou, estudante de relações internacionais que se tornaria guia fiel dos brasileiros na capital, por três dias e 350 dólares. “Meu encontro com o dr. Ricardo foi extraordinário, e não posso de modo algum falar em acaso: foi um momento oportuno que Deus escolheu para mudar minha vida”, contou o jovem. Cajou espera se mudar em breve para o Brasil, para fazer mestrado na Unicamp.

Ferreira entrou com Santos no hospital e encontrou gente amputada por todos os lados, sangue no chão, pedras usadas como pesos de tração para endireitar os membros desfeitos. Ofereceram-lhe um terreno ao lado do hospital para armar a barraca do centro cirúrgico. Mas ninguém podia garantir a segurança – nem os militares brasileiros da Minustah, força missionária das Nações Unidas.

 

Foram três dias de peregrinação em meio às ruínas e ao mau cheiro de Porto Príncipe. Sem opções para montar acampamento, Ferreira passou a frequentar as reuniões de coordenação que a Cruz Vermelha e organizações como Médicos sem Fronteiras realizavam diariamente, às quatro da tarde. Em francês e inglês, Balé apresentou sua organização e se comprometeu a trazer uma equipe de cirurgia ortopédica do Brasil. Mas todos já estavam tão enrolados com mil desafios logísticos que não se dispuseram a ajudar os expedicionários. Um médico da Organização Mundial da Saúde lhes disse que em Les Cayes, a menos de 200 quilômetros da capital, só havia um cirurgião e que muitos refugiados estavam rumando para lá – a cidade quase não tinha sido afetada pelo terremoto.

A viagem a Les Cayes levou oito horas. Ferreira e Santos foram direto ao hospital geral da localidade. Um médico haitiano o convidou para operar fêmures, e mais uma vez o ortopedista brasileiro se viu diante de condições piores que as da Amazônia: pessoas entravam e saíam da sala de cirurgia com a mesma roupa, sem máscaras, em desrespeito às práticas consagradas para evitar infecções. “Não tinham o mesmo cuidado que teriam com um parente”, resume Balé, repetindo a fórmula do padrão ético e sanitário que tenta aplicar em todos os lugares, mesmo num hospital de lona numa terra devastada. “Um centro cirúrgico não pode ser uma terra sem dono.”

A visita ao hospital não foi inteiramente perdida porque recebeu ali a sugestão que tornaria a expedição algo mais que uma aventura inútil: havia na cidade um pequeno hospital canadense dedicado a otorrinolaringologia e oftalmologia, o Institut Brenda Strafford, que talvez precisasse de ajuda. Ferreira o procurou no dia seguinte e foi bem recebido. O diretor, Richard Duchesnnes, concordou em lhe ceder uma sala de cirurgia. Depois de deixar Márcia Abdalla sem notícias por cinco dias, embora tivesse um celular no bolso, ligou para o Brasil e deu a guinada logística: suspender a barraca e mandar o reservista Macedo só com os suprimentos cirúrgicos e uma equipe de ortopedistas, anestesistas e enfermeiros.

Macedo embarcou em 26 de janeiro, duas semanas depois do terremoto, mas a carga só acabou de chegar cinco dias depois, quase ao mesmo tempo que a equipe pioneira do Brasil, com vinte pessoas, onze delas médicos. O primeiro trabalho foi limpar e reformar a sala cirúrgica do doutor Ricardo. Depois de tudo arrumado, o ortopedista tirou a noite para dormir. De madrugada, ao ouvir um paciente gemendo na enfermaria, despertou uma enfermeira: “Vamos lá, Sandra, tem paciente com dor.”

O xará canadense do doutor Ricardo se converteu em admirador. “Ele não tinha exatamente a aparência de um cirurgião habilidoso, mas, pela maneira como falava, pude ver que era sério e sabia o que era preciso fazer para adaptar nosso hospital às necessidades específicas da ortopedia”, contou Duchesnnes. Chamaram-lhe a atenção, ainda, a atitude respeitosa com o povo haitiano e a disposição para o trabalho, um bálsamo após a sucessão de “especialistas” e planos de ajuda nunca materializados. “Ele não prometeu a lua, mas realizou muito, apesar do problema gigantesco de trazer para o Haiti uma equipe de cirurgiões brasileiros e todo o equipamento necessário.”

 

Cinco equipes da Expedicionários da Saúde já foram ao Haiti, com um saldo de 298 cirurgias e mais de mil atendimentos ambulatoriais. O último grupo seguiu na primeira semana de maio. O ortopedista só retornou ao Caribe uma vez. No momento, se entrega a três novos projetos: substituir pouco a pouco o envio de equipes brasileiras ao Haiti pelo treinamento de médicos e enfermeiros haitianos no Brasil, desenvolver um “kit catástrofe” para os Expedicionários (carga, barracas, equipe e 50 mil dólares que possam ser mobilizados em 72 horas, “para não depender do governo em nada”) e desenvolver um projeto de barco de apoio para missões na Amazônia.

“O Ricardo é um idealista”, diz a atriz Maitê Proença, no fundo da van de vidros pretos que a levava da produtora no bairro paulistano da Barra Funda para o Aeroporto de Congonhas, de volta ao Rio e à novela global Passione. Balé foi seu primeiro namorado. São amigos até hoje, o suficiente para o médico recorrer a ela a fim de abrir algumas portas e levantar fundos em momentos decisivos, como no início da ONG e agora que os Expedicionários da Saúde se lançaram na carreira internacional.

Maitê ajudou a arrecadar 50 mil dólares para a expedição ao Haiti e esteve com o ex-namorado no país. Na volta, foi ao Domingão do Faustão mostrar o que viu e gravou. Segundo ela, ninguém aguenta ficar em Porto Príncipe mais do que três dias. Depois da exibição do programa, a Expedicionários foi procurada pelos organizadores de uma partida de futebol entre os Amigos do Zico e os Amigos do Falcão, no estádio do Avaí, em Santa Catarina, em abril. A ideia era destinar a renda líquida ao Haiti, apoiando o trabalho dos Expedicionários da Saúde. Balé esperava algo por volta de 100 mil reais, mas teve de contentar-se com 15 mil. Bilheteria e patrocínios arrecadaram 140 mil, mas as despesas com a partida chegaram a 125 mil reais.

Para Sérgio Cerqueira Leite, dono da fábrica de acessórios eletrônicos para automóveis Positron e um dos melhores amigos de Ricardo Ferreira, a ONG deve recorrer mais à ajuda de Maitê Proença. Embora nunca tenha participado de uma expedição, o empresário aconselha Balé em questões de estratégia e logística. Ajuda, ainda, no deslocamento de cargas entre Campinas e Manaus, onde a empresa tem sua fábrica principal. Lá ficam também armazenadas barracas, geradores e aparelhos de ar-condicionado dos Expedicionários, entre uma missão e outra, em área cedida pela Fundação Nacional de Saúde. A ajuda do governo, na opinião do empresário, não deve ir além disso – é melhor contar com diversos pequenos patrocinadores, para não criar dependência.

Para convencer Balé da importância de manter a ONG enxuta e com custos fixos baixos, Cerqueira Leite retoma uma história que ouviu do próprio médico. Quando voltou das primeiras expedições à região da Cabeça do Cachorro, no Amazonas, o ortopedista contou-lhe o caso dos makus, índios nômades que vivem entre as calhas dos rios ocupados por falantes de línguas de outros troncos, tukano e aruak. Os “índios do mato”, com pouco acesso à proteína crucial do pescado, caíram nas graças de uma freira católica, que passou a complementar sua alimentação com uma sopa servida regularmente na aldeia missionária. A aldeia cresceu e chegou a abrigar centenas de makus sedentários. Quando a freira morreu, passaram fome, pois não sabiam mais explorar os recursos da mata.

 

Há muitas formas de arriscar-se além do nomadismo, descobriu Ricardo Ferreira no Haiti. Márcia Abdalla e Luís Macedo, no Brasil, contavam de início com o transporte da equipe e da carga em aviões da FAB, como o jato ERJ-145 que os levaria em abril a Parintins, na boca do rio Andirá. Os Expedicionários foram também inundados com ofertas de ajuda de hospitais chiques de São Paulo, como alguns centros de excelência mantidos por comunidades étnicas, que se prontificavam a enviar médicos e equipamentos ao país flagelado pelo terremoto e chegaram a solicitar listas de material necessário. A ONG dava como certo, ainda, o apoio da Associação Médica Brasileira, a AMB, cujo presidente, José Luiz Gomes do Amaral, participara de missão junto aos ticunas em 2009.

Na hora H, quase nada se concretizou. O transporte pela Aeronáutica foi abortado nas altas esferas de Brasília. Sem a chancela estatal, os hospitalões recuaram em suas promessas filantrópicas. Como de hábito para os Expedicionários, os médicos das cinco missões haitianas embarcaram por obra de doações de pessoas físicas. Luís Macedo conseguiu fazer a carga chegar a Porto Príncipe, via Miami, mas aprendeu o caminho das pedras com um rotariano canadense-americano de Nova Jersey, Peter Kikot, que Balé conheceu no Haiti.

A parceria com a Associação Médica Brasileira deu algum fruto, mas não chegou a amadurecer. A segunda equipe de Expedicionários no Haiti foi mobilizada em conjunto com a associação, que enviou até o presidente Gomes do Amaral. Carimbados os passaportes, a experiência não se repetiu. No meio médico, não teve boa repercussão uma reportagem de jornal em que a iniciativa e as agruras dos Expedicionários de Ricardo Ferreira eram descritas como “aventura”. Na hora de organizar a segunda equipe, a AMB declinou, alegando que aquele tipo de iniciativa não se encaixava no perfil da associação. “Só um idiota pode achar que aquilo [o Haiti] pode servir de trampolim”, resume Ferreira, anunciando a disposição renovada de recusar ajuda oficial.

 

A história dos nômades makus é quase uma parábola da vida de Ricardo Affonso Ferreira, com a medicina no papel de missionária. A profissão, óbvia numa família com dezenas de médicos e dentistas, entrou tarde na biografia do aventureiro. Só depois dos 21 anos, quando conseguiu conformar-se às aulas tradicionais do curso na PUC de Sorocaba, com a ajuda de um psicólogo. Antes disso, principiando aos 13, viajou acampando por todo o Brasil, quase sempre na companhia de Maitê. Consumiu três anos num giro pelo mundo, em sua maior parte também com a namorada. Mas o primeiro trecho da peregrinação foi solitário, e a um destino tão improvável quanto o Haiti: Nigéria.

Balé abandonou a faculdade em Sorocaba no primeiro ano, o que levou o pai a lhe cortar a mesada e tirar o carro. “Ele sempre foi hippie”, resigna-se José Carlos Affonso Ferreira, também ortopedista, apontando para uma foto do filho aos 18 anos na estante da clínica que dirige em Campinas, o Instituto Affonso Ferreira. O futuro dr. Ricardo aparece na imagem com barba e longos cabelos negros, contidos num rabo de cavalo, do qual permanece um vestígio de não mais que 5 centímetros na nuca do expedicionário de 52 anos, a caminho da calvície.

O jovem sabia falar inglês, aprendido quando a família se transferira para os Estados Unidos em um dos vários períodos de especialização do pai. Foi aos aeroportos de Viracopos, Congonhas e Galeão e espalhou folhetos anunciando seus dotes e a disposição de trabalhar em qualquer parte do mundo. Semanas depois, recebeu uma chamada da empresa de reflorestamento Reflorenda, de Botucatu, no interior paulista, que tinha vencido uma concorrência na Nigéria para plantar árvores como barreiras de vento na região nordeste do país, perto do Chade e de Níger.

O quase estudante terminou contratado como gerente com um salário de sonho, 2 500 dólares, uma passagem para Lagos e instruções vagas para chegar à cidade de Kano. Ali havia um empregado da Reflorenda à espera, que o conduziu a Gashua, nas imediações do reflorestamento. O viveiro de mudas seria construído num oásis por 250 funcionários, dos quais seis eram brancos. Dois abandonaram o posto, e sobraram quatro brasileiros, Ferreira entre eles. Nos oito meses que passou ali, fez um grande amigo, Aldo Guruza, com quem aprendeu a língua hauçá, do povo guerreiro que habita o norte da Nigéria. “Não tinha outra coisa para fazer.”

Com a pequena fortuna poupada, partiu para encontrar Maitê, que a essa altura estava morando em Paris, e retomar os planos de conhecer o mundo. Partiram para o Oriente, numa aventura que duraria quase dois anos, com a verba diária de 1,50 dólar – para os dois. Da Europa Oriental seguiram para Turquia, Irã, Afeganistão, Paquistão e Índia. Lavavam a roupa de noite para usar no próximo dia. Ferreira perdeu a conta das vezes que quiseram comprar Maitê. No Irã, um mês antes da queda do xá Reza Pahlevi, quis que a namorada ficasse no hotel. “Eles achavam que eu estava disponível, só conheciam mulher europeia de filmes pornográficos”, relembra a atriz. Até em casa de ópio foram parar. Mas não eram inconsequentes, “totalmente”, ressalva Maitê.

De volta ao Brasil, seguiram trilhas separadas. Ferreira, que chegou pesando 47 quilos, retomou o curso de medicina. Casou-se com Cristina Esteves, de uma família abastada de Campinas. Já concluindo a faculdade, um convênio com a Universidade do Tennessee levou o casal para a cidade de Memphis e uma especialização em ortopedia no Elvis Presley Memorial Hospital. Terminado o curso, um brasileiro que conhecera em Miami lhes ofereceu emprego no restaurante que estava abrindo no Colorado. “Juntamos uma puta grana em cinco meses”, contou Ferreira, ele como garçom, a mulher como funcionária da chapelaria.

O plano era fazer residência médica nos Estados Unidos, mas Balé não conseguiu passar no exame para revalidação do diploma. Partiu então para um estágio em ortopedia no Instituto Alfred I. Dupont, em Delaware. Após quatro meses o diretor o chamou para dizer que não tinha perspectiva nos Estados Unidos e lhe deu uma carta de apresentação para fazer residência em Montpellier, na França. Grávida de oito meses, Cristina fez de novo as malas. Ainda passariam por um hospital no interior da Inglaterra e pela Alemanha, antes da volta ao Brasil, para mais três anos de residência em ortopedia na Pontifícia Universidade Católica de Campinas.

 

Depois de Ricardo Júnior, nascido na Europa, veio a filha Natália. A carreira na clínica do pai encorpou, em paralelo com a reputação de especialista em próteses de joelho. Na década de 90, das aventuras de juventude sobrava-lhe o gosto pelas viagens – quanto mais exótica, melhor. Nas horas de ócio no sítio, o médico viajava em sua poltrona lendo a revista The Economist e livros de exploradores e sobre exploradores – como Stanley: The Impossible Life of Africa’s Greatest Explorer, de Tim Jeal, sobre a vida de Henry Morton Stanley, que levou para ler entre os sateré-mawés na expedição ao rio Andirá.

Um dos destinos sonhados por Ferreira eram as trilhas do Pico da Neblina, no Amazonas, fronteira com a Venezuela. Foi essa caminhada que o lançou, em 2002, de volta no rumo da aventura e ao encontro dos índios. Já na organização da viagem Balé retomou contato com a própria juventude, nas pessoas do primo Martin e de Gordon Howie, neozelandês que conhecera em Delaware. Além do pico enevoado, os andarilhos queriam conhecer os yanomâmis, e até conseguiram autorização da Funai para entrar na terra indígena.

Foi traumática a chegada à comunidade Maturacá. Os yanomâmis não sabiam da visita dos médicos e não se mostraram amigáveis, lembra Martin. Depois de muita conversa, foram levados à aldeia e até experimentaram o pó de semente de paricá que os índios sopram nos narizes uns dos outros. A precariedade da vida de alguns indígenas, como os portadores de hérnias e cataratas, causou impressão nos excursionistas. Na trilha de retorno, passaram a debater o que poderia ser feito para ajudar. Nasciam os Expedicionários da Saúde, já cientes de que não é só chegar e ir entrando, sem mais, em território indígena, ainda que em nome da “alta medicina na Amazônia brasileira” – um dos slogans da Expedicionários.

A primeira expedição só viria a acontecer em fevereiro de 2004, longe dali, em Iauaretê, na região da Cabeça do Cachorro. Uma centena de consultas e 52 cirurgias foram realizadas em índios tukanos, tarianos, desanos, pira-tapuyas e arapasos, com o apoio da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro. Outras duas missões-piloto ocorreriam até abril de 2005, totalizando 205 cirurgias.

A experiência adquirida na Cabeça do Cachorro convenceu o grupo da necessidade de reproduzir na mata as condições ideais de um centro cirúrgico, confinando-o numa barraca fechada com ar-condicionado. A estreia do aparato ocorreu em novembro de 2005, na localidade de Pari-Cachoeira, igualmente em parceria com a Federação, entre tukanos, tuyukas, desanos e hupdas – estes últimos, falantes da língua maku e protagonistas da fábula sobre as boas intenções da freira que resultaram em sedentarismo.

 

Eram sete da manhã de 17 de maio, uma segunda-feira. No calendário habitual do dr. Ricardo, dia de cirurgia no Centro Médico de Campinas. Estava de barba feita, calça azul-escura, camisa social de xadrez miúdo azul e branco sobre camiseta branca – nada a ver com o desleixo do escoteiro que manda nas expedições. Todos no hospital o cumprimentam no caminho para o centro cirúrgico número 1, para o qual está agendada a operação de uma mulher. Seria uma “troca” do joelho esquerdo, ou seja, colocação da “prótese total” metálica entre as cabeças do fêmur e da tíbia.

Os panos azuis dependurados perpendicularmente à mesa de operações delimitam, como cortinas, o palco exíguo em que Ferreira protagoniza o esquete de força e perícia que conhece de cor. Como coadjuvantes, dois cirurgiões auxiliares e uma panóplia de ferramentas que, noutra circunstância, poderiam servir para tortura, como brocas, serras, formões e martelos. O chefe da equipe sua muito, reclama sem parar por isso, apesar dos 18 graus Celsius mantidos pelo aparelho de ar-condicionado. Ao final, Ferreira se mostra decepcionado: normalmente realiza o procedimento em 40 a 44 minutos, e este durou 55. “Meus amigos dizem que sou muito ranzinza e sistemático.”

Dali ele seguiu para a sede dos Expedicionários da Saúde, em Joaquim Egídio, um distrito de Campinas com casas antigas e botecos populares. No armazém alugado defronte à casinha de três cômodos, onde já não cabiam as caixas de suprimentos hospitalares de doações, uma bandeira do Haiti assegurava que L’Union fait la force. A próxima parada do giro campineiro é o Instituto Affonso Ferreira, onde fica seu consultório.

O avô que deu início à dinastia médica e nome ao instituto viveu atribulado com a legião de netos legados por seus quinze filhos. Nascido em 1875 na vila de Jerumenha, no interior do Piauí, mudou-se aos 11 anos para Teresina a fim de cursar o ginásio, enquanto trabalhava na Farmácia Collet-França. Dali seguiu para o Rio, onde estudou medicina e ganhou o inevitável apelido de “Piauí”. Em 1901, recém-formado, embarcou como médico de bordo no Minho, navio que conduziria tropas inglesas para o sul da África, envolto na Guerra dos Bôeres.

Depois de muito viajar, especializou-se em otorrinolaringologia em Viena e Paris, onde travou amizade com João Penido Burnier. O médico campineiro abriria uma famosa clínica de olhos na sua cidade, em 1920, e convidaria o amigo Piauí para agregar-lhe um serviço dedicado a ouvidos, nariz e garganta. “Essa coisa de aventureiro é tudo genético”, deduz o anestesista Luiz Cangiani, a respeito dos paralelos entre a inquietude do avô e a do neto, no corredor que une as salas de cirurgia do Centro Médico de Campinas.

 

Ricardo Ferreira diz que não se lembra do avô paterno, morto quando tinha 2 anos, e atribui influência maior ao materno, Antonio Araújo Villela. Também ele médico, durante o verão, Vilela atendia de graça os lavradores de sua fazenda no norte do Paraná, levando de São Paulo as medicações pagas do próprio bolso. À pergunta sobre ser essa face benemerente e meio esquecida da medicina aquilo que os voluntários buscam ao se engajar em sua ONG e se embrenharem no Haiti ou em terras indígenas, Ferreira reage com um de seus repentes de franqueza temerária: “Se não tem pecúnia, só vai sobrar a vaidade.”

Sua filosofia inverte o dito famoso de La Rochefoucauld e funciona como uma homenagem que a virtude presta ao vício: não há demérito em envaidecer-se pelo trabalho eficiente em favor de índios estropiados e negros aleijados – como se fossem parentes. A fábula dos makus, contudo, atormenta Balé. Ele teme que faltem terra e espaço, na cena brasileira, para acolher índios cada vez mais numerosos e longevos. Conhecedor da ambivalência das missões religiosas entre os índios, que lhes deram alfabetização e alguma saúde, mas desfiguraram a cultura e os expuseram a doenças antes desconhecidas, o ortopedista se interroga: “Será que vamos ser os salesianos do século XXI?”

Marcelo Leite

Marcelo Leite é repórter especial da Folha de S.Paulo e autor de Darwin, da editora Publifolha.

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