esquina

Exterminador de planetas

A filha do assassino de Plutão é apresentada ao rei Haroldo V

Bernardo Esteves
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

A pequena Lilah Brown, de 7 anos, ficou preocupada quando perdeu um dente de leite na Noruega, a nove fusos horários de sua casa, na Califórnia. Estariam os países escandinavos incluídos no roteiro coberto pela Fada do Dente? Felizmente a viagem transatlântica não foi um empecilho e a menina foi premiada com uma moeda dourada de 20 coroas norueguesas que trazia no verso a efígie do rei Haroldo V.

Lilah estava em Oslo no início de setembro para ver seu pai – o cientista planetário Michael Brown, pesquisador do Instituto de Tecnologia da Califórnia, o Caltech – receber uma homenagem importante. Brown foi contemplado com a terceira edição do prêmio Kavli, que celebra contribuições relevantes para a ciência. Dividiu a láurea de astrofísica com outros dois pesquisadores por ter mostrado que a região do sistema solar situada além da órbita de Netuno é povoada por dezenas de milhares de corpos celestes formados de rocha e gelo – antes disso, acreditava-se que ela era essencialmente vazia.

David Jewitt e Jane Luu avistaram em 1992 o primeiro astro do Cinturão de Kuiper, como foi chamada essa região do sistema solar. Na década seguinte, Brown descobriu alguns de seus maiores objetos e mostrou, com isso, que Plutão era apenas mais um componente do Cinturão e que não merecia ser chamado de planeta.

Na palestra em que falou sobre sua descoberta, Jane Luu descreveu as longas noites passadas num telescópio longe de tudo e tratou de desmistificar a busca por planetas. “Muitos pensam que os astrônomos têm uma vida glamorosa, mas não é o caso”, disse ela, enquanto mostrava a foto de um pesquisador tentando cochilar sobre duas cadeiras na sala de controle. Michael Brown ratificou a visão da sua colega e explicou como é a rotina das vigílias noturnas no telescópio. “Você checa os dados, tenta se manter acordado, procura bobagens na internet, come alguma coisa, toma café… É o trabalho excitante mais tedioso do mundo.”



Mas nem só de noites em claro vive um cientista planetário. Michael Brown passa a maior parte do tempo em seu escritório no Caltech, onde recebe por computador imagens coletadas no telescópio. Foi analisando essas fotos que ele descobriu alguns dos mais estranhos objetos já avistados no Cinturão de Kuiper. Na sua galeria de achados estão Haumea, o corpo celeste de grande porte com a rotação mais rápida do sistema solar, e Sedna, um astro que demora 11 400 anos para dar uma volta em torno do Sol e cuja órbita nenhum astrônomo conseguiu explicar até agora.

 

Nenhuma descoberta o marcou tanto quanto a de Eris, o maior objeto conhecido do Cinturão de Kuiper. Brown avistou-o pela primeira vez numa manhã de janeiro de 2005, analisando imagens registradas na véspera. Comparando várias fotos da mesma região do céu, ele notou um objeto brilhante que parecia estar se movendo. “Minha primeira reação foi me perguntar o que eu tinha feito de errado”, contou o cientista. “Aquilo não podia ser verdade.” A ficha só caiu depois de descartados possíveis erros de análise. “Me dei conta de que tinha encontrado o objeto mais distante que um humano já havia avistado na órbita do Sol, e que era tão grande ou maior que Plutão.” Com os olhos vidrados na tela do computador, o pesquisador pegou o telefone e ligou para a mulher: “Querida, encontrei um planeta!”.

Eris chegou de fato a ser chamado de “o décimo planeta” pela Nasa e pela imprensa durante alguns meses. Mas logo ficou claro que, nesse caso, seria preciso elevar outros objetos do Cinturão de Kuiper à mesma condição. Os astrônomos se deram conta de que até então não tinham uma definição formal de planeta. Seguiu-se um debate acalorado que teve seu ápice na assembleia geral de 2006 da União Astronômica Internacional. Ali se decidiu que seria considerado planeta todo corpo na órbita do Sol que tivesse forma esférica e exercesse uma força gravitacional forte o bastante para dominar a sua região do sistema solar. Esse último critério excluía tanto Eris quanto Plutão, que deixou com isso de ser o nono planeta e passou a ocupar a categoria de “planeta anão”, criada especialmente para acomodar esses astros híbridos.

Da noite para o dia, Michael Brown deixou de ser o descobridor do décimo planeta para se tornar o homem que rebaixou Plutão. “Melhor assim”, disse ele. “Do contrário eu me sentiria uma fraude para o resto da vida.” Sem rancor, o astrônomo vestiu com gosto a nova carapuça. Lançou o livro Why I Killed Pluto and Why It Had It Coming [Por Que Matei Plutão e Por Que Seu Fim Estava Anunciado] e, no Twitter, assumiu o codinome @plutokiller, “assassino de Plutão”.

Brown tornou-se o alvo natural da revolta de estudantes que, subitamente, se viram obrigados a rever seus recursos mnemônicos para decorar a nova ordem planetária. As crianças que tinham acabado de aprender a classificação dos planetas foram as mais frustradas. “Os adultos acabam superando”, contou o astrônomo, “e os meninos menores não ligaram – eles adoraram o fato de que seus pais estavam errados.” Nos meses que se seguiram ao rebaixamento de Plutão, Brown recebeu incontáveis ameaças e mensagens raivosas. Até hoje ele ainda ouve insultos, só que agora chegam por telefone. “Recebo chamadas obscenas bem maldosas, usando palavras que às vezes tenho que consultar meus alunos para saber o que significam.”

 

Lilah Brown não perdoa o pai pelo que fez com Plutão. Não que ela tenha nostalgia do antigo status do astro – nascida em 2005, nunca chegou a considerá-lo um planeta. “Ela fica furiosa comigo porque digo que matei Plutão, e matar é mau”, contou Michael. A filha já lhe pediu que ressuscitasse Plutão. Diante da resposta negativa, contentou-se com um pedido diferente: “Então você tem que descobrir outro planeta e chamá-lo de Plutão.”

Em Oslo, Lilah teve que acompanhar o pai numa agenda repleta de recepções, conferências e homenagens. O ponto alto foi um banquete oferecido aos laureados pelo governo norueguês no mesmo salão fastuoso em que o Nobel da Paz é entregue anualmente. Foi um jantar solene, com carne de rena como prato principal. Lilah vestiu-se como uma princesa e, como os demais comensais, se levantou para saudar a entrada do rei – só não entendeu por que ele não estava com a coroa. Foi apresentada mais tarde a Haroldo V, que se abaixou para lhe fazer uma pergunta: “Você não acha jantares formais como esse uma chatice?” Desinibida, Lilah disse que sim, achava. Ao que Sua Majestade replicou, com cumplicidade: “Eu também acho.”

Bernardo Esteves

Repórter da piauí desde 2010, é autor do livro Domingo É Dia de Ciência, da Azougue Editorial

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