esquina

Fausto no camarim

Um tenor em ascensão

Gustavo Zeitel
Andrés Sandoval_2019

Em um dos camarins do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, o tenor Giovanni Tristacci aquece a voz para dar vida a Fausto, o protagonista da ópera homônima do francês Charles Gounod. Dedilhando um piano vertical, ele entoa: Hum! Hum! Hum! Em seguida, emenda a série Rrrá! Rrrá! Rrrá!, que retumba nos corredores. São quase seis da tarde, e a récita de 26 de julho, sexta-feira, começa em uma hora. 

Tristacci não esconde a ansiedade. Anda de um lado para o outro e periodicamente dispara dramáticos Rien! Rien! (Nada! Nada!). É a palavra que abre a sua primeira ária: Rien! En vain j’interroge, en mon ardente veille, la nature et le Créateur (Nada! Em vão eu interrogo, em minha ardente vigília, a natureza e o Criador). 

O camarim é equipado com duas poltronas de pano, um sofá, um lustre de cristal e três espelhos. Perto da porta, há um móvel com frutas, uma garrafa térmica com café e copos com água mineral morna. Numa mesa, repousa o romance que o tenor está lendo: Pai, Pai, de João Silvério Trevisan. Tristacci tem 36 anos, mas a maquiagem e a barba pintada de branco o deixam com aparência de um homem idoso e muito pálido.

Rrrô! Rrrô! Rrrô!, canta o tenor, antes de trocar o look casual – camisa verde-musgo e calça cáqui – pelo figurino de Fausto: camisa branca, calça cinza, colete xadrez e um sobretudo roxo. “Jamais venderia a minha alma para o Diabo. Mesmo que eu fosse político!”, ele diz, gargalhando em seguida. 

O artista faz menção ao ponto central da ópera. Fausto, um alquimista que sonha atingir o conhecimento total, está tomado pela melancolia, pois todos os seus experimentos deram errado e a velhice se aproxima a passos largos. Ele decide, então, entregar sua alma a Mefistófeles em troca da juventude.  Em seguida, conhece Marguerite, cujo amor ele espera conquistar com a ajuda do Diabo. 

Fausto estreou há 160 anos em Paris, com grande sucesso. Foi baseada na peça Faust et Marguerite, de Michel Carré, que, por sua vez, se inspirou no Fausto de Goethe. O libreto, assinado por Carré e Jules Barbier, parceiro de Gounod em várias óperas, recria esse mito ocidental com a suntuosidade típica da grand-opéra.

Cerca de trezentas pessoas estiveram envolvidas na superprodução, que uniu coro, atores, solistas e balé. André Heller-Lopes foi o responsável pela direção cênica, Ira Levin encarregou-se da regência e Luiz Fernando Bongiovanni criou uma coreografia especial para a montagem. O papel de Fausto foi encarnado por Tristacci e, nas quatro récitas iniciais, pelo também brasileiro Atalla Ayan. Com a ópera de Gounod, encerraram-se as comemorações dos 110 anos do Theatro Municipal. 

 

Giovanni Tristacci teve o primeiro contato com a música erudita na cidade de Bento Gonçalves, onde nasceu, filho de pais viticultores. Foram os Três Tenores – grupo formado por Luciano Pavarotti, Plácido Domingo e José Carreras – que o levaram a se apaixonar pelo canto lírico, ainda adolescente, nos anos 1990. Arrebatado, o jovem passou a acompanhar as óperas transmitidas pela TV Cultura e frequentou apresentações da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre. Ensaiou as primeiras árias, sem nunca se preocupar em cantar baixinho. “Eu sempre quis cantar com a voz impostada”, comenta.

Por fim, decidiu estudar música e matriculou-se na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Dali seguiu para a Europa, com bolsas de estudo em escolas consagradas. Em 2010, estudou no Centro de Aperfeiçoamento Plácido Domingo, em Valência, e, no ano seguinte, na Capela Musical Rainha Elizabeth, em Bruxelas, onde cantou num concerto de gala com o prestigiado barítono José van Dam, que foi seu professor.

De volta ao Brasil, passou a ser mais e mais solicitado. Atuou em diversas montagens, como A Flauta Mágica, no Festival Amazonas de Ópera de 2012, e Rigoletto, no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, dois anos depois. Fausto representou um momento decisivo de sua carreira. “Eu tenho sorte, canto regularmente. Muitos cantores, porém, não conseguem viver só de cantar. O momento é de cortes”, ele alerta. 

 

Enquanto espera para entrar em cena, Tristacci adota um tom brincalhão com os colegas. Todos parecem descontraídos, mas talvez esse seja mais um recurso para driblar o nervosismo. Os contrarregras, apressados, carregam para lá e para cá artefatos usados pelos personagens. 

Sobe o pano do Theatro Municipal. Um lençol branco cobre seis torres que simulam uma catedral gótica, com arcobotantes e vitrais. No primeiro ato, Fausto está numa cadeira de rodas, moribundo. Logo após o pacto com o Diabo, lençol e cadeira são tragados para fora do palco. O alquimista rejuvenesce.

Na cena final do segundo ato, Tristacci alcança um si natural: Je t’aaaaaaime! (Eu te aaaaaaamo!) A plateia ovaciona. “Essa nota exige de mim uma grande pirotecnia vocal”, comentou o tenor mais tarde, no camarim, bastante satisfeito com o resultado. 

No terceiro ato, ele canta a ária de maior responsabilidade, com versos de amor para Marguerite: Salut, demeure chaste et pure (Salve, morada casta e pura). Mais aplausos. Nas coxias, continua a confusão formada por fios, holofotes e, sobretudo, pelo grande número de pessoas. Um integrante do coro, portando fones de ouvido, escuta uma musiquinha, enquanto, no palco, a soprano Flávia Fernandes, intérprete de Marguerite, dribla com sabedoria as dificuldades de uma gravidez já visível. 

Antes de voltar do último intervalo, Tristacci recebe um abraço apertado do chileno de origem cubana Homero Pérez-Miranda, que faz Mefistófeles, portando volumosos chifres de bode: Vamos, vamos, carajo! O pacto com o Diabo está para lá de consumado. 

No mundo paralelo da coxia, a diretora operacional Adriana Rio Doce ensaia alguns passos de funk, ao som do coro militar do quarto ato. Tristacci olha com espanto para Doce, que cai na gargalhada. Aproxima-se o final trágico da ópera e o tenor retorna ao palco. Na montagem, Marguerite enlouquece, rejeita o amor do alquimista e morre sob a proteção divina. Derrotado, Fausto se posta no palco como um cão e é encoleirado pelo Diabo. Após quatro horas e vinte minutos de ópera, cai o pano pela última vez. Exausto e faminto, Tristacci volta ao camarim.

Gustavo Zeitel

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