esquina

A Fields, de novo

Faces de um furto

Bernardo Esteves
ILUSTRAÇÃO_ANDRÉS SANDOVAL_2018

O engenheiro mecânico Antonio Palhano começava uma sexta-feira rotineira de agosto quando recebeu um e-mail. No campo “assunto”, lia-se a palavra “URGENTÍSSIMO”, enquadrada por uma profusão de asteriscos. Vinha do ICM, o Congresso Internacional de Matemáticos, realizado no Rio de Janeiro no início do mês. Queriam saber se ele podia gravar o nome de Caucher Birkar numa medalha de ouro 14 quilates. Na antevéspera, o britânico de origem curda virara notícia ao receber a Medalha Fields, o prêmio mais prestigioso que um matemático pode ganhar, e vê-la furtada pouco mais de uma hora depois.

Foi pela internet que a produção do congresso encontrou Palhano – sua empresa aparece no topo das pesquisas quando se procura por gravação a laser no Rio. O carioca barbado de 30 anos adquiriu no fim do ano passado a Persona Laser, que presta serviços de corte e gravação em materiais variados, sediada num galpão de cerca de 60 metros quadrados no Centro da cidade. Recebe encomendas para gravar o nome de empresas e pessoas físicas em estetoscópios, garrafas, troféus, pen drives e brindes de todo tipo.

Palhano se revoltara no dia do furto. “Por que tinha que ser no Brasil?”, pensou. “É mais um 7 a 1.” Imbuído de espírito cívico, aceitou o serviço e em quinze minutos mandou a resposta à produção. Não sem sentir um frio na barriga. “Era a primeira vez que eu iria trabalhar com um item tão caro”, contou o engenheiro – uma Fields vale 5 500 dólares canadenses, ou mais de 17 mil reais. Ele já havia gravado uma medalha de ouro para uma recém-nascida, mas agora teria que se haver com a borda de uma superfície curva com poucos milímetros de espessura. “Você não tem noção de tudo que pode dar errado”, disse. “E tinha que ficar bom de primeira.”

No começo da tarde, duas funcionárias da produção chegaram à sede da Persona com a medalha. Palhano levou-as ao fundo do galpão, onde fica a máquina usada na operação. O equipamento parece um gabinete de computador em cujo topo se acoplou um cubo metálico, de onde sai um laser de fibra óptica guiado por espelhos galvanométricos. Antes de atacar a medalha, Palhano imprimiu o texto – o nome CAUCHER BIRKAR, com 17,5 milímetros de extensão por 1,5 mm de altura – duas vezes; primeiro numa superfície plana, depois numa peça curva de aço inox. Deu certo. Confiante, ele fixou a condecoração num anteparo improvisado e fez o ajuste fino da posição do texto com a ajuda de um microscópio. Contou que tremia ao apertar o botão, antes de exibir o vídeo da operação. O laser passou duas vezes pela borda por alguns segundos, iluminando-a com um brilho intenso. Ao fim do processo uma das moças comemorou: “Yes!” Minutos depois, elas estavam a caminho do Riocentro, onde Birkar receberia a medalha no dia seguinte. Palhano cobrou 300 reais.

 

Quando subiu ao palco para receber a Fields pela segunda vez, o curdo levou consigo uma pasta para guardar a medalha e, ao final, saiu pelos bastidores. Estava descontraído, em contraste com o ar mais sisudo do dia da abertura do congresso. “Um desdobramento positivo do incidente é que fiquei mais famoso”, brincou ao microfone. “Agora muito mais gente sabe o que é uma Medalha Fields.”

Birkar recebeu uma enxurrada de pedidos de entrevista e negou a maioria. “Eu estava muito ocupado com o congresso e não queria me distrair muito”, justificou. O medalhista conversou com a piauí depois de enfrentar uma extensa fila de fotos e cumprimentos ao final de sua palestra. Sua fala foi indecifrável para leigos, embora todos que passaram pelo ensino médio já tenham tido algum contato com sua especialidade. “Quando você pega uma equação e desenha o gráfico – uma reta, círculo ou cônica –, está fazendo uma forma elementar de geometria algébrica”, explicou.

O matemático nasceu há quarenta anos em Marivan, na fronteira do Irã com o Iraque, cidade frequentemente bombardeada na guerra entre os dois países, que se estendeu por quase toda a sua infância, nos anos 80 (o território onde se concentram cerca de 40 milhões de curdos cobre ainda parte da Turquia e da Síria). Depois de se graduar pela Universidade de Teerã, Birkar foi para o Reino Unido, onde ganhou a condição de refugiado e fez seu doutorado; desde 2006 dá aulas na Universidade de Cambridge. Os pais e a maioria dos cinco irmãos continuam no Irã, onde ele não põe os pés há dezoito anos.

Birkar soube que receberia o prêmio em fevereiro, por um telefonema de Shigefumi Mori, ganhador da Fields em 1990. Contou só para o irmão mais velho, um engenheiro elétrico que despertou seu interesse pela matemática na infância e que hoje vive na Suécia. À mulher e a Zanko, o filho de 4 anos, disse apenas que estava viajando ao Rio para uma conferência. “Minha família ficaria tensa se eu contasse o segredo, e além do mais seria uma ótima surpresa.” Souberam da notícia só no dia da premiação, junto com o resto do mundo.

O curdo contou que, no dia do furto, não tinha descuidado da pasta com a medalha. “Estava bem na minha frente, mas enquanto eu estava de pé recebendo cumprimentos alguém veio por trás e a levou.” Quando falou com Zanko horas mais tarde, o menino quis saber onde estava a medalha. “Alguém está guardando para mim”, ele respondeu. Indagado três dias depois onde estava a substituta, o matemático disse que era segredo. “Assim que voltar para casa, vou guardá-la num banco.”

 

A entrega da nova medalha foi o final feliz possível para um episódio que exacerbou o complexo de vira-lata dos brasileiros. Marcelo Viana, o matemático que comandou a organização do congresso, julgou a reação exagerada. “Os americanos não saíram dizendo que Los Angeles estava perdida porque roubaram um Oscar após a cerimônia no começo do ano”, afirmou. “O que faz o Rio estar numa situação difícil são coisas muito mais profundas e sérias.”

A estatueta de Frances McDormand foi recuperada horas depois de surrupiada, e o ladrão, detido. O criminoso do Riocentro – o segundo brasileiro a levar uma Medalha Fields, conforme a piada que circulou após o furto – continua solto.

Bernardo Esteves

Repórter da piauí desde 2010, é autor do livro Domingo é dia de ciência, da Azougue Editorial

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