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Fim de uma era aérea

Ascensão e queda da goiabinha

Roberto Kaz

Quando os passageiros do vôo 2083 da Gol entraram no avião, não imaginavam que testemunhariam um momento ímpar na história do transporte aéreo nacional. A exemplo do que sempre acontecia, o Boeing 737 que ia do Galeão a Guarulhos decolou com as poltronas na posição vertical, os cintos afivelados e as mesinhas fechadas e travadas. Planou placidamente sobre a Serra das Araras até os quinze minutos de viagem, quando iniciou-se o serviço de bordo. Percebeu-se, então, a presença de um intruso. Eram quatro da manhã de um domingo, 19 de outubro de 2008 – o fim de uma era.

O alarde foi geral. A mudança, das mais drásticas, viera sorrateira, pegando todos de surpresa. Num misto de espanto e satisfação, alguns passageiros se entreolharam. Sonhavam? Seria verdade? Diante da situação que parecia escapar a qualquer lei da física e do mercado, tiveram que perguntar, de si para si: estariam mesmo diante de um sanduichinho de presunto?

Estavam.

Ao abocanharem a merenda, que vinha embalada em papel-filme, os clientes da Gol derrubaram o Muro de Berlim do serviço de bordo brasileiro. Até então, o cenário era dividido entre as companhias que ofereciam comidinhas atrozes, como Varig e TAM, e as que ofereciam simulacros de comidinhas atrozes, como a Gol. Na empresa dos Constantino, para onde quer que viajasse, o cliente se depararia com duas opções: barrinhas de cereal ou de goiaba. Se o vôo partisse de São Paulo para Salvador, teria direito a uma barrinha. Se partisse de São Paulo para Salvador, com escala em Belo Horizonte, teria direito a duas – uma para cada trecho. E se, hipoteticamente, um avião da Gol tivesse que rumar à China, servir-se-iam barrinhas no café, no almoço e no jantar. Segundo Tarcísio Gargioni, vice-presidente de Marketing da empresa, eram cerca de 30 milhões de unidades ao ano.



Quando ascendeu ao poder, no dia 15 de janeiro de 2001, data do vôo inaugural da Gol, a barrinha teve aceitação unânime. Demagoga, caiu nos braços de um povo cansado do amendoim japonês, do sanduíche frio e das altas tarifas cobradas pelas companhias aéreas para servirem gororobas repugnantes. Com o tempo, contudo, o povo cansou. O desgaste começou a ser detectado há cerca de um ano, a partir de análise encomendada ao instituto Pesquisas Inteligentes, em que se constatou um indício de insatisfação por parte dos passageiros. No levantamento mais recente, com 5 mil pessoas, o descontentamento atravessou a barreira dos 20%. “Havia uma curva ascendente, e percebemos que a situação piorava nos vôos mais longos”, disse Gargioni, antes de completar: “O alarme soou.”

 

Preocupado, o vice-presidente de Marketing colocou dez pessoas ao redor de uma mesa. “Era diretor, comissário de bordo, jovens e velhos, para dar conta de todo tipo de público.” Alimentou-os com bolachas recheadas, salgadinhos, sanduíches e pratos quentes. Após longa bateria de testes, chegou-se à nova diretriz alimentícia. Em vôos com menos de duas horas, servem-se, entre outras coisas, pacotinhos de três bolachas Parati (25 centavos na Casa do Biscoito, meca das guloseimas no Rio de Janeiro). Em vôos de duas a quatro horas, sanduíches de cream cheese, frios e tomate. “Como a bolacha é um pouco mais barata e o sanduíche um pouco mais caro, o custo da operação continua sendo o mesmo que o da barrinha (39 centavos na loja carioca)”, adianta Gargioni. “O único adicional será na Ponte Aérea.”

Nos aviões que ligam o Santos Dumont a Congonhas, a barrinha foi derrubada de seu pedestal após um golpe de estado liderado por bagels, pães de queijo, quiches, yakisobas, tapiocas e, de acordo com um texto enviado à imprensa, “hambúrgueres de picanha, servidos na sexta-feira para fechar a semana com chave de ouro”. Gargioni justifica: “O hambúrguer já fazia sucesso no cardápio da Varig. É uma paixão nacional.”

Com validade de doze meses, as barrinhas que sobraram padecem em um galpão escuro, à espera do que o futuro lhes reserva: “Nosso estoque já estava minguando, mas ainda não sabemos o que fazer com o excedente. Podemos guardá-lo ou doá-lo”, conta o executivo, explicando que, em tempos mais democráticos, o cardápio está suscetível a mudanças. “A barrinha não morreu. Ela tem até chances de voltar, mas sem a hegemonia de antes. Talvez se puder ser encaixada em um perfil específico de vôo.” Enquanto aguarda o seu destino no campo da aviação, a guloseima continua batalhando a vida nos sinais de trânsito, ônibus e camelôs, vendida em lote de três, por 1 real.

Roberto Kaz

Roberto Kaz

Repórter da piauí, é autor do Livro dos Bichos, pela Companhia das Letras

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