esquina

Fla–Flu de Laranjeiras

Tática black bloc polariza bairro que é reduto da esquerda no Rio

Luiza Miguez
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2013

Quando voltava do trabalho numa noite de julho, Caio Barbosa viu o grupo de mascarados e uma porção de carros quebrados. O asfalto e as calçadas da rua Coelho Neto, onde mora, estavam cobertos de cacos de vidro e lixo queimado. Um policial militar que assistia à cena de longe disse que não poderia abandonar um camburão já cheio de manifestantes para ir prender os autores da depredação. Caio atravessou o tapete malcheiroso para alcançar o portão do seu prédio e entrar em casa.

Caio se mudou há um ano e meio para Laranjeiras, onde os aluguéis são mais baratos do que nos bairros à beira-mar da Zona Sul do Rio de Janeiro. Seu apartamento fica a poucos metros da sede do Fluminense, seu time do coração. Também é vizinho do Palácio Guanabara, onde despacha o governador do estado, Sérgio Cabral.

Repórter do diário carioca O Dia, Caio tem 36 anos e leva no braço esquerdo uma tatuagem com o escudo tricolor. É filho de um casal de professores comunistas e admirador de Karl Marx. O espectro do barbudo paira sobre o bairro de 46 mil moradores, entre eles muitos jornalistas, músicos, escritores e professores. Laranjeiras foi a única região da cidade em que o candidato do PSOL à prefeitura, Marcelo Freixo, teve mais votos na eleição de 2012 do que o prefeito Eduardo Paes, aliado de Cabral.

Desde junho, quase todas as manifestações no Rio terminam em frente ao Palácio Guanabara, pedindo a renúncia do governador. Caio assistiu a muitas, como morador ou por tarefa profissional. No início, lembrou, a vizinhança não só apoiava como descia à rua para participar. Numa noite em que a repressão policial foi especialmente truculenta, as pessoas foram à janela bater panelas. Foi também por ali que as câmeras da Mídia Ninja flagraram policiais à paisana infiltrados nos atos.

A história mudou de figura quando as ações dos black blocs – definidas por seus adeptos como uma tática de denúncia da violência policial e do capitalismo – passaram a dar o tom das manifestações. Além da polícia, os alvos são vidraças, pontos de ônibus, latas de lixo, carros. “Quebraram banca de jornal, galeria de arte, carro, floricultura. Camelô não é símbolo do capital”, criticou Caio. “Eles não têm pauta, não vejo a esquerda contemplada em protestos como esses. Não faz sentido protestar em nome do povo se ele tem medo de você.”

Num dia de agosto, Caio buscava uma posição segura entre as bombas da polícia e as pedras dos manifestantes quando deu de cara com uma cena bizarra na Pinheiro Machado, a rua do palácio. Um taxista gritava enquanto quinze manifestantes levantavam seu carro por baixo, para bloquear a rua com o veículo e impedir a passagem da PM. “O que não resolveu nada. A polícia passou por cima, pelo lado”, contou. Moradores antes solidários começaram a atirar pedras de gelo nos ativistas. “Eles respondem ‘burguês de merda’, ‘filho da puta’, ‘fascista’. Acabou a harmonia.”

 

Bruno Lima está em lado oposto ao de Caio nesse conflito. Na tarde do 7 de Setembro, ele caminhou do Centro a Laranjeiras. Havia passado a manhã daquele sábado se esquivando das bombas e balas de borracha atiradas pela polícia contra cerca de 200 manifestantes que se infiltraram no desfile militar da Independência. Quando o grupo se aproximou da sede do governo estadual, foi recebido com gás lacrimogêneo. Na correria, cerca de vinte pessoas se abrigaram na portaria de um prédio. Um morador que é militar desceu com uma arma, exigindo que o grupo se retirasse. “Vou botar todo mundo para fora, vaza!”

“O Beltrame [secretário de Segurança] tinha dito que poderíamos nos manifestar. E ainda assim tomamos bomba”, disse Bruno. Ele também mora perto do palácio, na rua Martins Ribeiro. O apartamento térreo tem poucos móveis, alguns brinquedos de suas três filhas pelos cantos e um escudo do Flamengo colado na porta principal. As meninas são livres para escolher o que quiserem. Mas têm que ser flamenguistas.

Quando as bombas explodem nas proximidades, o gás entra na casa e fica impossível respirar. “Mas isso não acontece por causa dos manifestantes. Quem taca a bomba é a polícia”, alega Bruno. Com 38 anos, ele é formado em letras e trabalha como professor. Corpulento, não conseguiu se esquivar de uma bala de borracha que atingiu sua perna durante um dos atos que pediam “Fora, Cabral”. Sentiu a dor e levantou o jeans para avaliar o machucado. Mas continuou na rua.

Bruno brigou com um amigo quando os dois acompanhavam numa delegacia o caso de uma estudante de cinema que fora espancada por policiais na Lapa. “A polícia sai atirando, mas meu amigo colocava tudo na conta dos mascarados. Agora, uma vidraça não sente dor, orelhão quebrado não sente nada na pele”, disse. “Eu fico me perguntando que esquerda é essa. Solidária às pessoas de baixa renda, aos Amarildos, desde que não venham bagunçar o seu playground.”

Na rua das Laranjeiras, a principal do bairro, são cinco bancos e uma loja de automóveis com os vidros quebrados, além de pontos de ônibus, relógios digitais, portarias de prédios e lixeiras danificados. A associação de moradores fica ali perto, num casarão de dois andares. Uma senhora de 72 anos loura e bem maquiada preside a entidade.

Maria da Glória Souza, a Glorinha, militou contra a ditadura com os irmãos Herbert de Souza, o Betinho, e Henrique de Souza, o Henfil. Ela já se reuniu com os movimentos para buscar um acordo contra o quebra-quebra, sem sucesso. Num dos encontros, não gostou de ver seus interlocutores cobertos com a máscara popularizada pelos militantes digitais do Anonymous. “Aquela não é uma máscara brasileira. Ouvi dizer que isso é a CIA, que é golpe. Pode ser viagem. Mas, olha, tem um certo sentido.”

Luiza Miguez

Luiza Miguez é redatora do programa Greg News. Foi repórter e checadora de apuração da piauí entre 2011 e 2019.​

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