tempos da peste

um país, uma cidade

“Foi um terror”

Como Breves, na Ilha de Marajó, se tornou em maio a cidade mais contaminada do Brasil

Brenda Taketa
O barco-ambulância leva um paciente de Covid-19 para Breves: parte da população da zona rural contaminada prefere não se deslocar até a cidade e tenta se curar com remédios caseiros
O barco-ambulância leva um paciente de Covid-19 para Breves: parte da população da zona rural contaminada prefere não se deslocar até a cidade e tenta se curar com remédios caseiros FOTO: TARSO SARRAF_AFP

Quando o novo coronavírus tomou o rumo da América do Sul, havia duas apostas: o Paraguai, com um sistema de saúde precário, corria o risco de sucumbir. O Brasil, com seu histórico respeitável de combate a epidemias, poderia ser uma boa surpresa. Deu-se o contrário.

O Paraguai reagiu rápido ao avanço da pandemia. Medidas drásticas, tomadas ainda em março, como a suspensão de eventos públicos, o fechamento das fronteiras e a quarentena total, asseguraram ao país a proteção que precisava para evitar uma catástrofe. Com isso, até o dia 28 de julho, o Paraguai tinha apenas 4,6 mil casos positivos e 45 mortes – quando se previa, no início de tudo, um saldo apavorante de milhares de óbitos.

Enquanto isso, no Brasil, as coisas só pioravam. Em particular na Região Norte, onde a Covid-19 se infiltrou com voracidade. Em maio, uma pesquisa chamou a atenção para o flagelo: onze cidades do Norte se encontravam entre os quinze municípios brasileiros com a maior incidência de pessoas contaminadas. Liderando todos eles, estava Breves, a principal cidade da Ilha de Marajó. Ali, um quarto da população já havia sido contaminado pelo vírus.

Na edição de agosto, a piauí reconstitui as batalhas de um país e de uma cidade contra a contaminação. No Paraguai, a corrupção agora ameaça colocar por terra o sucesso exemplar de uma das nações mais pobres do continente. Breves enfrentou como pôde o fiasco da gestão brasileira da pandemia e hoje tenta retomar a vida cotidiana.



Abaixo, a reportagem de Brenda Takena.

*

Breves é um antigo e importante município do Norte do Brasil, mas poucas pessoas tinham ouvido falar dele em outras regiões do país até seu nome irromper no noticiário sobre a pandemia, acompanhado de números assustadores. Uma pesquisa feita em maio pelo Ibope e o Centro de Pesquisas Epidemiológicas da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), estimou que 25% da população da cidade – de 103 mil habitantes – tinha contraído o novo coronavírus. Segundo o estudo Epicovid-19 (Evolução da Prevalência de Infecção por Covid-19),[1] Breves estava no topo da lista dos quinze municípios brasileiros com a maior incidência de pessoas contaminadas, onze deles na Região Norte, que se tornara então um dos epicentros do contágio no mundo. Mesmo os dados oficiais deixavam ver a aceleração alarmante dos contágios em Breves: entre 20 de abril e 20 de maio, a cidade passara de dois casos positivos e uma morte para 421 casos e 50 mortes.

Espantoso era também o fato de isso ocorrer num lugar aparentemente tão remoto como Breves. Encravada na parte Sudoeste da Ilha de Marajó, a cidade está cercada de um lado pela vegetação tropical espessa e de outro, pelo Rio Parauaú, uma continuação do Rio Pará. A viagem de barco a partir de Belém, situada a 221 km, dura em média doze horas. Macapá, por sua vez, fica a 202 km de distância, se traçada uma linha reta dali até Breves, mas o percurso por via fluvial de uma cidade a outra é de cerca de 730 km e leva até vinte horas.

As distâncias e viagens complicadas acabaram não sendo uma barreira para a Covid-19, pois Breves está longe de ser um lugar isolado. É um agitado porto de ligação entre alguns dos principais municípios da Ilha de Marajó e a Região Norte. As idas e vindas entre a cidade e a capital paraense produzem todo ano uma movimentação de cerca de 150 mil pessoas no porto local; e, entre Breves e a capital do Amapá, de cerca de 85 mil pessoas.

Como é também a cidade mais populosa de Marajó, contando com um agitado comércio, serviços de saúde, sistema bancário e várias escolas, Breves funciona quase como uma “capital” para parte da ilha. E foi nas longas e demoradas viagens dos barcos, quase sempre lotados, que o novo coronavírus encontrou o meio ideal para aportar no município e se espalhar por seus três distritos – Antônio Lemos, Curumu e São Miguel dos Macacos – e pela Reserva Extrativista (Resex) Mapuá, próxima do município.

 

Tão logo foi confirmado o primeiro caso de contaminação em Belém, em 18 de março, os moradores de Breves se mobilizaram para arrecadar máscaras, álcool em gel, água sanitária e outros produtos de limpeza para as comunidades mais pobres. Muitos correram às farmácias para estocar remédios para gripe e tosse, que esgotaram rapidamente, contou o enfermeiro Celso Silva, de 26 anos, cujos pais têm uma farmácia na Avenida Rio Branco, a principal via da cidade. “As pessoas não estavam preparadas emocionalmente. Elas entraram em desespero”, disse.

Entre 18 e 20 de março, a prefeitura mandou fechar escolas, bares e repartições públicas, exceto as de serviços essenciais. Suspendeu também o atracamento de barcos de passageiros de outros estados. Mas o controle não foi suficiente. Em 16 de abril, ocorreu a primeira morte suspeita, de um homem de 71 anos, cujo sepultamento foi feito sem os cuidados devidos, pois não se sabia ainda o diagnóstico, que só saiu quatro dias depois. No meio tempo, em 18 de abril, foi confirmado oficialmente o primeiro caso de contágio na cidade.

A doença se alastrou rapidamente pelo município. Em 16 de maio, já havia em Breves 346 casos confirmados e 45 mortos por causa da Covid-19, segundo a prefeitura. “Apesar da suspensão do movimento no porto, teve embarcações clandestinas que não foram controladas logo no início. O vírus então se espalhou. Foi um terror”, disse a pedagoga Fabiane Nascimento, de 44 anos, integrante da Comissão Brasileira de Justiça e Paz. “Todos ficaram em pânico, pois começou a morrer muita gente: três, quatro, cinco pessoas no mesmo dia.”

Segundo o Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (Datasus), em abril de 2020 havia 176 leitos clínicos disponíveis nos dezesseis municípios de Marajó e 30 respiradores em cinco deles – Breves, Soure, Gurupá, Bagre, Melgaço e São Sebastião da Boa Vista. Uma vez que Breves concentrava 26 dos 30 respiradores, bem como os sete leitos de UTIs da região, tornou-se um posto avançado no tratamento da doença na ilha.

A prefeitura da cidade transformou um posto de saúde em local de triagem de pacientes, com o nome de Centro de Referência de Síndromes Gripais. Com 23 leitos, o local ficava aberto 24 horas por dia, todos os dias da semana, para atender casos leves e moderados. Os pacientes aguardavam ali vagas no Hospital Municipal Maria Santana Rocha Franco e nas duas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) adaptadas para o tratamento da doença. Uma delas destinava-se à população em geral; a outra, aos profissionais de saúde e da segurança pública. Os casos mais graves ficaram sob os cuidados do Hospital Regional Público do Marajó, que possui equipamentos de maior complexidade e dispunha dos leitos de UTI.

“No início, a gente estava muito despreparada para lidar com isso, até porque não se sabia como tratar, tinha poucos estudos a respeito”, disse a médica Carolina Ribeiro Mainardi, de 26 anos, que nasceu em Belém e, pelo programa Mais Médicos, trabalha desde janeiro do ano passado em Breves, terra natal de sua família. No final de abril, ela própria contraiu a Covid-19. “Acho que já me infectei com o primeiro paciente que atendi.” Só retornou ao trabalho no início de maio, fazendo plantões no centro de triagem e nas duas UPAs.

“Quando voltei, estava um inferno no posto de saúde. Chegou muita, muita gente, já em estado grave, com a saturação de oxigênio muito baixa”, ela contou. “As salas ficaram lotadas. Colocamos quantas macas cabiam, e todas foram ocupadas imediatamente. Tinha salas com pelo menos dezoito pacientes, todos eles precisando de oxigênio. Era um desespero, porque não tinha o suficiente. Logo nos dois primeiros dias, morreram duas, três pessoas.”

Como Belém fica longe, Breves teve dificuldades em obter rapidamente cilindros de oxigênio, remédios e equipamentos de proteção individual para os médicos e enfermeiros, que contavam com apenas um aparelho de tomografia na cidade. Os leitos de UTI foram logo ocupados, e as UPAs ficaram saturadas de doentes. “Embora muito cansada, eu ficava naquele dever moral de ter que continuar trabalhando para conseguir dar assistência à cidade toda”, afirmou Mainardi. “O que mais pesava era saber que, por trás de alguém doente, havia uma família inteira em sofrimento.” Às vezes, eram pessoas que ela conhecia, parentes de seus amigos.

“Tivemos uns plantões bem difíceis, com a ocupação de todos os leitos nas salas. Era paciente passando mal direto até de madrugada”, disse a enfermeira Kimberly Chaves, de 26 anos, que trabalhou no Centro de Referência de Síndromes Gripais. Nos seus cálculos, em abril houve uma média diária de 150 atendimentos de pacientes com sintomas da Covid-19. Em final de junho, o número baixou para cerca de 50 atendimentos diários. Chaves também adoeceu por causa do vírus, mas teve apenas sintomas leves. Não foram poucos os casos de contaminações entre os profissionais da área de saúde. O enfermeiro José Carlos Pinto da Silva não resistiu e morreu. Tinha 50 anos.

 

Apenas em 11 de maio, quando já havia 242 casos identificados e 33 mortes em Breves, foi inaugurado um hospital de campanha na cidade, com 56 leitos clínicos e 4 de UTI, que deveriam servir também aos municípios vizinhos de Anajás, Bagre, Curralinho, Gurupá, Melgaço e Portel. Aos poucos, os equipamentos e remédios começaram a chegar e testes rápidos passaram a ser feitos na população.

Amaury Cunha, secretário de Saúde de Breves, conta que, quando se percebeu que muitas mortes estavam ocorrendo em casa, a estratégia foi fazer a busca ativa de contaminados por meio de uma equipe volante que circulava tanto na cidade como na zona rural. “Eu diria que 40% dos óbitos de Breves, entre os que nós temos no nosso registro hoje, ocorreram em domicílio”, estimou Cunha. O atendimento no interior do município foi feito por meio de duas lanchas com equipamentos de saúde e seis “ambulanchas”, para o transporte de pacientes.

O município não aderiu ao uso ampliado de cloroquina no tratamento, como chegou a ser indicado pelo governo do Pará. Preferiu seguir o protocolo de recorrer aos remédios necessários para cada paciente. “O protocolo envolve vários medicamentos, aí fica a critério do médico escolher ou não. Não tem um coquetel único de medicamentos que sirva para todo mundo”, afirmou o secretário. “É muito raro a gente usar cloroquina.”

Em 10 de julho, apenas dezoito pacientes se encontravam internados no hospital de campanha, de acordo com a Secretaria de Estado de Saúde do Pará. Até aquele dia, 165 pessoas haviam sido atendidas no local, das quais 18 morreram. A redução no atendimento do hospital de campanha, apesar do aumento do número de casos na cidade, deveu-se, segundo Cunha, ao tratamento aplicado aos doentes, logo que diagnosticados com o vírus, o que reduziu o agravamento da doença e, por consequência, a necessidade de internação.

 

Jardim Tropical é um bairro na periferia de Breves, com casas baixas de madeira construídas muito próximas umas das outras, em ruas aterradas com serragem, que a população chama de moinha. “Foi muito difícil quando o vírus chegou aqui, porque estava tendo muito sarampo em Breves, e meus dois filhos pegaram. Em seguida, eu e minha filha ficamos com febre, perdemos o olfato por sete, oito dias”, contou a agente municipal e líder comunitária Maria Eloíza Furtado Cardoso, de 45 anos, que vive no bairro.

Como o Centro de Referência de Síndromes Gripais se encontrava lotado na época, mãe e filha se trataram em casa com remédios caseiros e analgésicos. Embora nem uma nem outra tenha feito o teste de detecção, Cardoso acha que ela e a filha pegaram a Covid-19, pois os sintomas eram os mesmos da doença. “Ficamos com sequelas. Até hoje a gente fica meio febril e nossa garganta nunca mais ficou boa.” A médica Carolina Ribeiro Mainardi avalia, porém, que essas não são sequelas do novo coronavírus e que, talvez, sejam sintomas de outra doença.

Cardoso ajudou a fundar há doze anos, no Jardim Tropical, a comunidade católica de Fátima e atua na Pastoral da Pessoa Idosa, que promove visitas e atividades de lazer a cerca de trinta idosos do bairro – dois deles morreram por causa do vírus. Ela também ouviu muitos relatos sobre famílias com crianças e pais com sintomas similares aos da Covid-19, mas que não recorreram aos serviços de saúde.

Em Marajó, 59% dos 564 mil habitantes vivem abaixo da linha da pobreza. Oito dos dezesseis municípios da ilha estão entre as cinquenta cidades com o mais baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do país: Breves, Curralinho, Afuá, Anajás, Portel, Bagre, Chaves e Melgaço – que tem o pior IDH do Brasil. Como outras cidades da região, Breves não possui política ou plano municipal de saneamento básico. No início de 2010, de acordo com o Censo, a rede geral de abastecimento de água alcançava 62% dos domicílios da área urbana e apenas 3% na área rural.

Em abril, 25 pesquisadores paraenses enviaram uma carta ao governador do Pará, Helder Barbalho, alertando que, segundo estudos feitos na China e em Cingapura, pessoas infectadas pela Covid-19 mantinham em suas fezes o material genético do vírus, mesmo depois de se curarem. Os pesquisadores escreveram: “Dada a escassez de saneamento na região amazônica, nos meses de duração da pandemia é possível que uma grande carga viral seja despejada em nossos rios, ampliando a disseminação do vírus Sars-CoV-2 no ambiente e a infecção contínua da parcela mais vulnerável da população.”

“A situação é bem terrível”, definiu a irmã Sandra Araújo dos Santos, referindo-se ao que se passa no interior de Marajó. “Não existe cuidado com as políticas básicas de saúde, como o saneamento básico. O povo vai apanhar água no rio e trata por conta própria. Com a pandemia, os municípios mais pobres ficam muito mais vulneráveis.” Santos mora em Breves desde 2018 e faz parte da Congregação das Irmãs de Notre Dame de Namur, a mesma de Dorothy Stang, assassinada em Anapu, no Pará, em 2005. Ela visita com frequência os municípios vizinhos de Breves, lugares ainda mais pobres e com pouca infraestrutura. “Essa não é uma realidade que nasceu com a pandemia. Ela apenas apareceu com muito mais força agora”, disse.

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Breves, Benedito Charles Almeida, de 37 anos, também desconfia que há “um índice de contaminação muito alto” no interior de Marajó. Ele viveu na Resex Mapuá, mas atualmente mora em Breves, onde acabou sendo diagnosticado com coronavírus. Precisou se isolar em casa, mas manteve contato com comunidades do interior, nas quais o sindicato e outras organizações distribuíram máscaras e produtos de limpeza.

Almeida diz que muita gente que contraiu a Covid-19 na zona rural não está vindo para a cidade e tem tentado se curar com remédios caseiros ou medicamentos entregues nos postos médicos. Ele contou que em São Miguel dos Macacos, um dos distritos de Breves, “como existe a tradição do trabalho em conjunto, com um ajudando o outro, isso facilitou a contaminação, e mais de cinquenta famílias, de um total de setenta, oitenta, foram infectadas.” Almeida também atribui a disseminação do vírus no interior às aglomerações em Breves para receber o auxílio emergencial do governo federal. “O pagamento do auxílio gerou muita aglomeração no município. Quem veio para a cidade buscar o auxílio acabou levando o vírus para as comunidades.”

 

O governo do Pará decretou a retomada das atividades econômicas a partir do dia 25 de maio. Em Breves, o aumento da circulação de pessoas nas ruas foi imediato. “No início, o isolamento social estava sendo respeitado, às seis da tarde tudo parava aqui, e você via poucas pessoas transitando pela cidade. Mas, agora, as pessoas estão literalmente nas ruas”, disse o estudante de educação física Gleibson Aquino Mesquita. Ele é um dos supervisores em Breves da equipe do Ibope que fez a pesquisa Epicovid-19 (Evolução da Prevalência de Infecção por Covid-19), da UFPel, com a estimativa alarmante.

Uma segunda etapa do estudo foi realizada entre 4 e 7 de junho e calculou que a porcentagem de pessoas contaminadas tinha caído de 25% para 12,2% da população. Em 10 de junho, a prefeitura liberou boa parte das atividades antes proibidas, como o atendimento presencial em órgãos públicos, cultos religiosos e o transporte fluvial de passageiros, mas com a capacidade reduzida.

Uma terceira pesquisa foi feita entre 21 e 24 de junho e estimou que a taxa de contaminação baixara para 9,4% da população – um número ainda elevadíssimo, quando comparado com o de algumas cidades do Sul e do Sudeste, nas quais a taxa média, segundo o mesmo estudo, é de 1% da população, como em São Paulo (outra pesquisa, no entanto, encontrou porcentagem muito maior na capital paulista: 11,4% da população teriam tido contato como o vírus até maio). Em Breves, a Epicovid-19 entrevistou e testou, em cada etapa, 250 pessoas, que serviram de base para as porcentagens obtidas pelo estudo epidemiológico, feito apenas na zona urbana.

Segundo os dados oficiais, até 27 de julho, haviam sido registrados 1 572 casos de contaminação em Breves, com 77 óbitos.

 

Rita de Cássia Mendes Gonçalves, de 26 anos, reside na Comunidade Bom Jesus, localizada na Resex Mapuá, e faz o curso superior de licenciatura em educação do campo no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará (IFPA), cujo campus é localizado na cidade de Breves. Suas aulas foram suspensas no dia 19 de março. Normalmente, o curso alterna aulas presenciais na cidade durante quinze dias com um período de pesquisa e atividades agrícolas na comunidade de cada estudante. A viagem entre Breves e as comunidades da reserva extrativista leva, dependendo da distância de cada uma delas, de onze a dezesseis horas, em um barco com motor do tipo rabeta ou em uma lancha.

“Aqui, na Resex, tivemos surtos de casos de Covid-19 e ficamos em isolamento social até acalmar”, contou Gonçalves, que diz que centenas dos moradores da reserva foram infectados. As pessoas em estado mais grave precisaram recorrer ao atendimento na cidade, levadas pelas ambulanchas. Apenas um óbito havia sido registrado no local onde ela vive até meados de julho. “Todos na minha família pegaram, mas, graças a Deus, nos cuidamos por aqui mesmo. Não fomos para a cidade. Até porque os transportes foram cancelados. Veio uma equipe fazer consultas e testes, e foi quando descobrimos que tínhamos pegado.”

Grande parte da reserva fica em uma área de várzea, mas a casa de Gonçalves situa-se em terra firme, onde ela, que também é técnica florestal, desenvolve projetos de manejo de açaizais e de criação de galinhas caipiras. O cultivo de roças, a coleta do açaí e a extração de madeira são algumas das atividades realizadas na Resex, onde vivem 720 famílias.

Durante um bom tempo, Gonçalves e seus familiares adotaram medidas estritas de proteção, por causa do pai e da mãe idosos, e publicaram nas redes sociais o aviso de que não estavam recebendo em casa parentes, amigos ou estudantes que fazem pesquisa na reserva. Em meados de julho, a situação já havia melhorado na comunidade. “Está quase normal”, descreveu Gonçalves. Os transportes voltaram a funcionar – e, mantidos os cuidados, as visitas agora são bem-vindas.

[1] A pesquisa Epicovid-19, financiada pelo Ministério da Saúde, teve também o apoio do Instituto Serrapilheira, da Unimed Porto Alegre, do Instituto Cultural Floresta e de doze instituições gaúchas de ensino superior.

Brenda Taketa

É jornalista com doutorado em desenvolvimento socioambiental pelo Núcleo de Altos Estudos Amazônicos, da UFPA

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