esquina

Franciscolândia

Uma cidade livre de Wilbersons e Kimberlys

Laís Duarte
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2010

Em São Roque de Minas, volta e meia desce a rua um carro de boi, rangendo as rodas como manda o figurino. As casas são simples, com assoalho de madeira, fogão a lenha e pequenas janelas coloridas que se abrem para as montanhas da Serra da Canastra. Fazendo o seu papel nesse pitoresco quase inverossímil, pessoas na soleira da porta sorriem para qualquer forasteiro.

A cidadezinha no sudoeste de Minas, a cerca de 300 quilômetros de Belo Horizonte, foi primeiro um povoado que, em 1938, emancipou-se de Piumhim com o nome de Guia Lopes. Era uma homenagem a um filho da região, o herói que ajudara o estropiado Exército brasileiro a voltar da guerra com o Paraguai, no episódio da Retirada da Laguna. Mas a população julgou que depositar o destino nas mãos de um herói secular era brincar com a sorte, de modo que em 1962, graças ao Senhor, um plebiscito pôs o pingo nos is e o vilarejo passou a viver sob as bênçãos de Roque, santo do século XIV, protetor contra a peste e doenças contagiosas em geral, inclusive do gado, padroeiro de inválidos e cirurgiões. A troca foi sábia.

Acontece que, mesmo com atributos tão superiores aos do guia Lopes, são Roque não passa de um coadjuvante na cidade que leva seu nome. O município guarda a nascente do rio São Francisco, que brota no alto da serra. São suas águas que abastecem torneiras, bicas e córregos. Em homenagem ao rio e por devoção ao santo, a população faz o que pode. Para não correr o risco de ficar sem água para a família, para os animais e para a lavoura, sem falar no desconforto de ter o corpo possuído pelo diabo, melhor não desgrudar do santo de Assis.

Muitos afirmam que em São Roque de Minas todo mundo tem Francisco na família. Francisco Cota, Francisca Silva, Francisco José. Eles representariam cerca de 10% da população de 6 301 moradores, segundo cálculos à moda da casa realizados pelos próprios Franciscos.

Chico Piloto, Chico dos José-Joana, Francisca Quitandeira, Chico do Brechozim, Chico Baú, Franciscão. Chiquinha, Chiquinho do Chico Zordino, Chiquinho da Auxiliadora, Chiquinho da Fazenda, Chiquinho da Oficina – são tantos que ocupam páginas e mais páginas dos livros do cartório. Cogita-se até criar um tomo só para eles, o que os não-Franciscos acham um desaforo, vai ver que por despeito de não serem, eles próprios, homônimos do santo. Um que não teria motivo para mágoas, se vivo fosse, seria o ex-topônimo da cidade. O guia Lopes assinava José Francisco Lopes e era filho de Antônio Francisco Lopes, que legou o nome também a Joaquim, Gabriel, Manuel, João e Remualdo, todos Francisco Lopes.

Esclareça-se que os tais 10% dizem respeito apenas aos que levam Francisco na carteira de identidade. Isso jamais impediu que os 90% restantes, desafortunados todos eles, não dessem um jeito. No caso de pais que tenham se comprometido a batizar o filho com o nome de outro cristão, desprotegido é que o recém-nascido não fica. O coitadinho recebe o apelido de Chico ou Chica, mesmo não se chamando Francisco. Com o passar dos anos, pode virar Chicão, Chiquinho, Chiquim ou mesmo Chiquinhoinho, para não confundir.

O centenário Juca Chico é um exemplo. Chapéu na cabeça e canivete a tiracolo, famoso por cortar léguas a pé, serra acima, sem se cansar, oficialmente nunca se chamou Francisco. No registro é José, mas o pai previdente pingou-lhe o apelido ainda nos cueiros.

Pode procurar pelas redondezas: quem não é Francisco é casado com Francisca, ou irmão de Francisco, ou filho de Francisco. E ainda trabalha com um ou mais Franciscos, mora na rua Francisco de Tal, tem mais de um primo, cunhado, nora Francisco/Francisca e conhece uma incontável lista de Franciscos. Em certos casos, o nome é uma espécie de designação de origem controlada: Maria do Chico, Antônia do Chiquim, Chica da Chiquita.

 

Desde pequeno seu Antônio Francisco é Antônio do Chico. Estudioso da memória são-roquense, considera-se duplamente abençoado: é filho de Francisco e Francisca. Teve oportunidade de ir morar na cidade grande, mas não quis se afastar das raízes. Tem medo de cair em depressão. Tem medo de morrer longe da terra natal.

Francisco Chagas Neto, ou Chico Chagas para os amigos, conta que o povo se sente protegido pelo santo padroeiro dos animais, cujas graças alcançam o rio no qual corre água fresca o ano inteiro. “É um santo milagroso. Só mesmo são Francisco pra ser um rio que corre para cima. Nasce cá embaixo nas Minas Gerais e vai matar a sede dos nordestinos.” (O Velho Chico sobe por Minas, cruza a Bahia, esbarra em Pernambuco e antes de desaguar no mar separa Sergipe de Alagoas.) “É um santo bom”, garante Chico Chagas. Como exemplo, está aí o Juca Chico, com 94 e vendendo saúde. Ou a Francisca do Zé Manteigueiro, que já passou dos 70 e ainda cuida da roça, da casa e dos netos.

O povo deve ter razão, porque passam-se as gerações e a multidão de Franciscos só aumenta. De outra parte, o lugar está livre de Wesleys, Wilbersons, Kimberlys e Sheylianes, assim como de Toncruzes, Bredepites, Cauãs e Henricastelis. Se bem que aqui o santo é outro. Se a cidade é imune a essa praga onomástica, o mérito é de são Roque. Que, aliás, era franciscano.

Laís Duarte

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