cartas

Fritando ovo no tablete

A MEDALHA DE ARTUR

Confesso que comecei a ler o número especial da piauí sobre Artur Avila (agosto de 2014) e outros grandes matemáticos, do Brasil e de fora, meio no tranco. Vamos ver que porra é essa, pensei. E não é que foi uma leitura maravilhosa, uma experiência fascinante? Louquíssimos, esses caras, e eu torço para que eles enlouqueçam cada vez mais, que cada dia inventem uma novidade. Perito em regra de três (a simples, a composta já acho complicada), escancaro a minha inveja – a boa inveja. Sen-sa-ci-o-nal.

MARCO ANTONIO GAY_RIO DE JANEIRO/RJ

Queria parabenizar a revista piauí pelo número especial dedicado a Artur Avila, ganhador da Medalha Fields. Com iniciativas como essa, para além da pátria de chuteiras, vamos perdendo o complexo de vira-latas, pois sabemos também criar bons exemplares capazes de obter prêmios equivalentes ao Nobel, nesse caso da matemática. A edição especial também ajudou a ilustrar mentes ignorantes como a deste leitor de terceira idade sobre os mistérios de poesia e beleza da matemática.

Entretanto, queria dividir com a Redação da revista a experiência surpreendente que tive ao assistir à notícia da conquista de Artur na edição para a América Latina da TV5Monde francesa, que anunciou o ganhador como simplesmente francês. Escrevi uma mensagem a eles reclamando do fato de não terem salientado pelo menos a dupla nacionalidade (a segunda, francesa, deve ter sido adquirida por Artur por conveniência, já que a matemática não reconhece nem bandeiras nem passaportes, simples panos e papéis).

EINARDO F. G. BINGEMER_RIO DE JANEIRO/RJ

Assim que soube da notícia da Medalha Fields para Artur Avila, postei no Facebook: “Medalha Fields para o Brasil. Melhor que Copa”, com um link para a notícia no site da piauí. Escrevi mais: “Para ser justo: a piauí foi a única publicação comercial a fazer um perfil do sujeito (em 2010).” Tudo isso já seria suficiente para a piauí se destacar como o grande meio divulgador da pesquisa em matemática no Brasil. Mas a revista quis mais: João Moreira Salles foi cobrir in loco a premiação no Congresso Internacional de Matemáticos e piauí lançou uma edição especial, com direito a vídeos em seu site no melhor estilo making of. Absolutamente incrível. De quebra, João adquiriu o conhecimento técnico para dirigir seus próximos filmes: A Quase Volta dos Operadores de Schrödinger ou Um Cantor e Dez Martínis. 😉

LUÍS GREGÓRIO DIAS DA SILVA_SÃO PAULO/SP

SISTEMA S

Na leitura da reportagem de Consuelo Dieguez, “O candidato S” (piauí_95, agosto), pensei que o “S” poderia ser a inicial de “sempre”. Chama a atenção que uma das bases da campanha de Paulo Skaf seja a educação, o que não acontece sempre. Ponto positivo. Porém, a propalada qualidade das escolas do Sistema S só existe em pequena escala, tal como aconteceu no sistema público de ensino. Quando milhões passaram a ocupar os bancos escolares, a qualidade despencou.

A Fiesp e todo o Sistema S têm orçamentos bilionários, espantosos, mas seriam eficientes? Leio também sobre as reeleições dos dirigentes das entidades empresariais, como reflexo do apego ao poder, ou seja, o de sempre. Se esta carta for publicada, já estaremos a menos de um mês das eleições, o 7 de Setembro já terá passado e as pesquisas eleitorais dirão se o Senhor S manteve o segundo lugar ou se foi ultrapassado pela máquina petista.

ADILSON ROBERTO GONÇALVES_LORENA/SP

Em respeito aos leitores da revista piauí faço questão de esclarecer que é incorreta a informação publicada a meu respeito na matéria “O candidato S”. Jamais usei ou fui acusado de usar verba do Sebrae para nenhum dos fins citados no texto: nem para cobrir gastos da campanha do PT nem para gastos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ou de seus familiares. Caso a jornalista tivesse pedido informações antes de escrever o texto não teria cometido esse equívoco.

PAULO OKAMOTTO, PRESIDENTE DO INSTITUTO LULA_SÃO PAULO/SP

 

NOTA DA REDAÇÃO: O missivista tem razão. Durante a CPI dos Bingos, Paulo Okamotto foi acusado de dar dinheiro para a campanha de Lula e de pagar despesas pessoais do ex-presidente. Ocupava então a presidência do Sebrae e alegou, à época, que os recursos eram pessoais, não da entidade. A origem do dinheiro jamais foi comprovada.

 

ELEIÇÕES

Gosto muito da piauí, porém o teor das últimas reportagens e a evidente parcialidade da revista estão reduzindo o meu prazer em acompanhar as publicações. Na reportagem sobre Aécio Neves (“O público e o privado”, piaui_93, junho) foram exaltados os defeitos do seu governo em Minas e reduzidas suas realizações. Também não compreendi o imenso espaço dado paras as cartas que criticavam o candidato. Na edição de julho foram ao menos quatro cartas de crítica e apenas uma favorável, que não era de um leitor, mas de um correligionário de Aécio. Na de agosto, na qual deveria ser dada mais ênfase para as cartas sobre a reportagem a respeito de Eduardo Campos (“Candidato anfíbio”, piauí_94, julho), mais uma vez existiam três cartas com críticas a Aécio.
Aécio Neves foi um bom governador e gostaria de vê-lo comandando o Brasil. Minas Gerais era um estado falido em 2002, nada funcionava. A situação em 2010 estava transformada, e para melhor. Educação, saúde, mobilidade, finanças, tudo melhor. Não é possível fazer milagre, mas o que nunca ninguém havia feito ele fez. Os críticos na maioria são servidores que perderam privilégios que ninguém na iniciativa privada tem. Muitos com convicções partidárias que não admitem que entre 2003
e 2010 Minas avançou, assim também como o Brasil, inegavelmente, avançou no mesmo período.

Não sei dos interesses da revista, mas acho que deve haver respeito ao leitor, pois esta parcialidade é uma avacalhação. A publicação deve ser imparcial e isso vale não só para Aécio, mas para Dilma, Marina, PSDB, PT, PSB, Rede…

ALEX FREITAS_BELO HORIZONTE/MG

Acompanho o jornalismo da piauí há anos. Sou jornalista e muito crítico a respeito de todo material intelectual que consumo. Posso dizer que tenho certa satisfação com a revista, embora ainda sinta que por vezes ela “quase chega lá”, como um coito interrompido. Porém, ao ler a carta do leitor Sergio Teixeira Amzalak, de Belo Horizonte, publicada na edição de julho, não tive como me conter: Sergio, se você acompanha mesmo a piauí, se lembrará de que, antes do perfil do presidenciável Aécio Neves, as páginas da revista já publicaram perfis de Marina Silva (“A verde”, piauí_40, janeiro 2010), Alexandre Padilha (“Padilha no laboratório”, piauí_80, maio 2013), Dilma Rousseff (“As armas e os varões”, piauí_31, abril 2009, e “Mares nunca dantes navegados”,piauí_34, julho 2009), Eduardo Campos (“Candidato anfíbio”, piauí_94, julho) e alguns outros. Creio que você cometeu séria injustiça ao afirmar que a revista recebeu favores financeiros para fazer uma matéria pró-tucano. Nunca senti qualquer tendência política na linha editorial da piauí. O que existe é o estilo e os trejeitos de cada redator na preparação de suas matérias. A Malu Delgado, por exemplo, escreve de maneira particular, própria, assim como os demais profissionais da revista, o que nada tem a ver com uma ordem superior.

THIAGO QUIRINO_RIBEIRÃO PIRES/SP

CORTÁZAR

Excelente e mesmo comovente a narrativa de Reinaldo Moraes sobre seu encontro com o Cortázar (“Último telefonema para o cronópio”, piauí_95, agosto). O autor presta um excelente serviço à memória de seu homenageado: inspira as vastas multidões de leitores da piauí a correr atrás de um fiapo que seja da obra de Cortázar ao mesmo tempo que vende seu peixe pessoal, demonstrando sagaz e afiada escrita!
No entanto (lembrei enfim por que vos escrevo), fiquei com uma questão literária que gostaria que fosse entregue às vistas de Moraes, se possível: no caso de a pessoa resolver ler Cortázar em e-books, o jogo continua de pé ou configura impedimento claro?

LEANDRO GODINHO_PORTO ALEGRE/RS

 

NOTA DE REINALDO MORAES: Meu caro Leandro, um autêntico cronópio tentaria fritar um ovo no tablete ou e-reader antes de decidir como diabos fará pra ler Rayuela em formato digital. Daí, ovo comido, correria até a livraria mais próxima e compraria o livro físico, que é um objeto muito mais divertido e quase tão saboroso quanto um bom ovo frito.

 

OS VULTOS E O ZÉ

Adoro a biografia dos Vultos da República. Sempre descubro algum lance interessante nesse pessoal, mas meu sonho é ser biografado. Sou um trabalhador da classe média, estilo “zé-ninguém”, um pacato cidadão. Tenho chance? Talvez dê uma história interessante.

ALESSANDRO DE CARVALHO SOUZA_TIJUCAS/SC

 

NOTA DA REDAÇÃO: Caro Alessandro, você não faz ideia dos apuros e constrangimentos a que são submetidos os nossos biografados. Nem queira imaginar o tipo de perguntas indiscretas que são obrigados a escutar. Nós mesmos às vezes ficamos ruborizados. Você não quer ser biografado. Tenha juízo, abandone esse sonho e arrume outro.

 

AFINAL, TEVE COPA?

Imergi de forma integral no texto de Ciro Oiticica (“Não teve Copa”, piauí_95, agosto). Sou professor de jornalismo para ensino médio e encontrei nesse texto uma forma de abrir a caixinha de vida de meus alunos à realidade que eles ignoram, a realidade do excesso de informação, desinformação e checagem. Para mim, amante do futebol, nunca teve Copa, pois nunca me senti parte dela enquanto evento; o máximo que me aproximei foi com o texto de Ciro.

BRUNO CHIAROTTI_CAMPINAS/SP

FORA, ŽIŽEK

Escrevo para me juntar à campanha “Fora, Žižek” lançada pelos leitores na sessão Cartas da edição de agosto. Žižek é mais chato do que um esporão do calcâneo!!! Cedam o lugar dele para o André Barcinski contar suas histórias fantásticas sobre música.

LEONARDO PÁDUA DOMINGUES_SÃO PAULO/SP

ESQUINAS

Muito boa a história da Livraria Leonardo da Vinci contada por Rafael Cariello (Esquina, “A caverna de Drummond”, piauí_95, agosto). Quantas cavernas desse tipo não estão sendo aposentadas pelas grandes redes de comércio literário digital? Fica muito difícil controlar “as fomes apressadas” citadas por Drummond com a facilidade de comprar qualquer livro com apenas um clique. Por experiência própria de consumista editorial voraz, tenho plena consciência de que minha gula está ajudando a destruir um dos locais que mais gosto de frequentar.

MURILO EDUARDO DOS REIS_ARARAQUARA/SP

Estou me questionando por que não voltar a morar no Rio. Quando morava lá, havia o Solar da Fossa, a que fui umas duas ou três vezes, reduto da contracultura e também do desbunde. Hoje, o Rio fervilha com “n” coletivos e entre eles se sobressai a Casa Foda-se (Esquina, “O tudo e o nada”, piauí_95, agosto), que permite o fluxo de ideias, comportamento, relacionamento e interação, tudo isso sintetizado nesta frase: “É o escritório mais bonito do mundo. Ninguém nunca deu ordem para ninguém, nada existe, tudo é tudo e na verdade eu nem sei o que está acontecendo.” Felomenal!

GUARACIARA DE LAVOR LOPES_VOLTA REDONDA/RJ

Ao ler as esquinas de agosto de piauí me deparei com o seguinte comentário proferido pelo candidato do psc cognominado Doctor Rey: “Sabe por que o Brasil tem complexo de vira-lata? Porque tivemos um imperador covarde. Dom Pedro veio fugido com a família, morto de medo das tropas de Napoleão. Eu agora vou mudar a autoestima da nação.” (Esquina, “Chega de dom Pedro!”, piauí_95).

Considerando que Pedro de Alcântara, que viria a ser dom Pedro I do Brasil, nasceu em 1798, basta uma conta simples para perceber que em 1808, quando a família real portuguesa aqui aportou, era apenas uma criança de 10 anos de idade. Nessa condição, dificilmente teria qualquer voz cantante na decisão da família de abandonar Portugal. Jamais saberemos se seu pai, dom João VI, que estava no comando do reino, embora apenas como regente, foi covarde ou não. O que se sabe é que, graças à habilidade de dom João para procrastinar tanto em relação aos interesses britânicos quanto aos franceses, o Brasil se viu em pouco tempo guindado à condição de reino unido ao de Portugal.

Dom João voltou para Portugal e deixou para trás seu filho, que agora entrava na idade adulta. Ao participar das negociações para a independência do Brasil, dom Pedro I revelou-se um sujeito opiniático. Somos lembrados pela indústria do entretenimento de seus defeitos: era mulherengo, autocrático, doidivanas (como se dizia à época), mas certamente não era nem nunca foi um covarde. E, ao abdicar do trono brasileiro em nome de seu filho homônimo, voltou a Portugal e pegou em armas para defender uma Constituição liberal. Assim, o monarca que no Brasil é lembrado como absolutista, em Portugal é lembrado como liberal. Em que se baseava o candidato alienígena para afirmar com tal convicção a covardia de dom Pedro, se nem sabia sequer dos fatos mais básicos da história do Brasil?

ANNA GICELLE GARCÍA ALANIZ_CAMPINAS/SP

GRATIDÃO

Escrevo para agradecer o pinguim que vocês finalmente me enviaram há algumas semanas. Estava aguardando que me acometesse um surto de inspiração para escrever com toda a pompa e circunstância estilística que os leitores se sentem obrigados a ter neste grandioso ato de envio de uma carta à Redação. Até me dar conta, agorinha mesmo, em meio à leitura da edição de agosto, que a pompa torna-se descartável diante das circunstâncias.

E as circunstâncias começam 95 edições atrás. Nos idos de outubro de 2006, encontrava-me em uma soporífera aula da faculdade quando uma amiga me repassou uma revista um tanto quanto grande, difícil de disfarçar entre os cadernos, mas ousei. Comecei pelas Esquinas, e, bastante confusa, questionava minha amiga: “Mas são histórias de verdade?” O tipo de humor, o estilo do texto, as escolhas de pauta, tudo havia me confundido.

Terminadas as aulas, passei na banca e segui estranhando aquele universo. Imaginei que fosse uma edição única, como um desses flash mobs na moda naquele ano. Eis que, no mês seguinte, lá estavam vocês de novo. Então imaginei que a revista não fosse durar muito, e no ano seguinte estavam lá vocês de novo. Até que virei assinante. Quando os meus colegas assinantes rompem em ira por alguma matéria, e sentenciam o fim da relação com vocês, eu concluo que, após 95 edições, nos estabilizamos. Algumas histórias me interessam muitíssimo, outras só finjo estar ouvindo, outras quero ouvir de novo, outras quero que todo mundo ouça, então saio contando por aí.

O novo morador repousa, claro, sobre minha geladeira. Onde, por sinal, já havia outro pinguim, que chegou aqui em circunstâncias ainda mais inusitadas, mas isso é outra história.

MONIQUE FRANÇA_RIO DE JANEIRO/RJ

NOTA DA REDAÇÃO: Dois pinguins? Cuidado, Monique: a sua geladeira se transformou num aparelho da subversão.

 

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