esquina

Genealogia de um prato

Moreno Veloso e um antigo instrumento do samba

Clara Rellstab
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2020

Alguns pratos têm um som mais assim; outros, mais assado. Dos que são feitos de aço e esmalte mais duro, não se consegue extrair nada que preste, e nem adianta riscá-los com faca. Bons mesmos são os de porcelana. O esperado é que a faca, ao atingir a borda do prato, produza uma ressonância similar à de um sino. “Um tuuum grave e bonito”, explica o músico Moreno Veloso. Feito isso, a roda de samba já pode começar.

Um prato fundo de porcelana, branco com bordas amarelas, e uma faca de prata foram dois dos instrumentos que Moreno utilizou durante a live em comemoração aos 78 anos de Caetano Veloso, gravada no apartamento do compositor em Ipanema, no dia 7 de agosto. Ele também tocou violão, pandeiro e lixas, na apresentação ao lado do pai e dos irmãos Zeca Veloso (no contrabaixo e teclado) e Tom Veloso (no violão principal).

Não era a primeira vez que Moreno, 47 anos, pai de Rosa e José, recorria a instrumentos nascidos na cozinha. No show Ofertório – em que dividiu o palco com o pai e os dois irmãos – lançou mão do prato e da faca para interpretar Boas Vindas, Alexandrino, Reconvexo e How Beautiful Could a Being Be. Na live, o prato apareceu também em Pardo, canção de Caetano gravada pela cantora Céu.

Teve quem se espantasse. A revista Rolling Stone, em texto não assinado, chamou “o momento de inusitado e cômico” e atribuiu o prato e a faca à falta de outros instrumentos, em razão da quarentena. As críticas à publicação não demoraram a aparecer, às pencas, nas redes sociais. “Silêncio. A @rollingstonebr está descobrindo que é possível tocar com um prato”, tuitou o usuário @wladowski. Caetano também reagiu, num vídeo, ao comentário da revista. “É de uma ignorância inacreditável”, sentenciou. Depois das críticas, a Rolling Stone, que é especializada em música, publicou uma matéria sobre a história da faca e do prato.



Sim, o prato é um antigo instrumento de percussão nas rodas de samba, seja na Bahia, seja no Rio. É provável que venha sendo usado na música brasileira desde o século XIX. Em 1864, o jornal baiano O Alabama denunciou desordens “provenientes dos continuados sambas” que estariam privando do sono os moradores da Rua do Castanheda, em Salvador, por causa dos “toques de pratos e pandeiros”. O instrumento aparece em músicas de Bule-Bule, Maria Bethânia, Hermeto Pascoal e Mariene de Castro. “Não estou sozinho nessa e nem meu pai está sozinho, mas é engraçado que as pessoas tenham esse desconhecimento”, disse Moreno.

 

A história musical de Moreno Veloso com pratos e facas se relaciona com a própria história de sua família. Remonta às rodas de samba de mulheres das quais participava sua avó, Claudionor Viana Teles Velloso, a dona Canô. Durante as festas de Nossa Senhora da Purificação em Santo Amaro, no Recôncavo Baiano, as irmãs Eunice Oliveira Nogueira Velloso, criada por Canô, e Edith Oliveira Nogueira se destacavam junto com a mãe de Caetano na execução dos únicos instrumentos que não eram dominados pelos homens: o prato e faca.

“Mas Edith tinha um jeito mais suingado, uma pegada mais desenvolvida ritmicamente, um carisma voltado para o lado musical, que foi ficando evidente com o tempo”, descreveu Moreno. “Ela era dessas figuras respeitadas em todos estes âmbitos: musical, religioso, pessoal, da graça, da inteligência.”

Moreno ainda estava na barriga da atriz Dedé Gadelha, ex-mulher de Caetano Veloso, quando o compositor gravou Araçá Azul, que traz a canção Júlia/Moreno – as duas opções de nome para o bebê, que viria a nascer em novembro de 1972, poucos meses antes do lançamento do disco. O álbum traz ainda as canções Viola, Meu Bem, de autor anônimo, e Sugar Cane Fields Forever, em que Caetano musicou versos do poeta Sousândrade, ambas abrilhantadas pela participação de Dona Edith do Prato, como já era conhecida a percussionista, que morreu em 2009, aos 94 anos. O único disco gravado por ela, Vozes da Purificação, de 2004, levou o Prêmio tim de Melhor Música Regional. Em 2005, o samba de roda do Recôncavo Baiano foi o primeiro gênero musical brasileiro a ser declarado patrimônio oral e imaterial da humanidade pela Unesco.

 

Compositor precoce, Moreno foi coautor, aos 9 anos de idade, de Um Canto de Afoxé para o Bloco do Ilê, que seu pai incluiu no álbum Cores, Nomes, de 1982. Mas ele teve que esperar a meninice passar para se aventurar na arte percussiva que conhecera na casa da avó. No final dos anos 1980, quando ainda estudava na UFRJ (ele é formado em física), Moreno castigou a louça de sua casa em busca da fórmula perfeita entre fricção, ritmo e ginga.

O treino acontecia ao som de Beth Carvalho, Fundo de Quintal e Paulinho da Viola, os expoentes do samba carioca que mais se assemelhavam ao que ele ouvia pelas mãos de Edith do Prato. “Era muito mais difícil do que parecia. Eu tinha a impressão de que era uma coisa natural e imediata, que era só pegar e esfregar a faca no prato. Mas não era”, disse. Tocar prato é coisa de gente grande. É preciso que o músico encontre sua própria mecânica, o ângulo certo que permita ao trio prato, faca e mão conversar em harmonia.

Foi a partir de 1989 que o primogênito de Caetano Veloso passou a se considerar um verdadeiro tocador de prato e a fazer uso do seu talento. Da época da turnê Prenda Minha, de Caetano, no final dos anos 1990, há um registro em vídeo que mostra Moreno cantando o samba de roda How Beautiful Could A Being Be, que ele compôs em homenagem ao pai, e tocando a mesma louça amarela e branca.

Os pratos preferidos de Moreno são os da casa da mãe. “Já quebrei quase todos, infelizmente. Tem mais um ou dois sobrando”, contou. Quando está em turnê e seu prato quebra, costuma pedir emprestado o instrumento aos hotéis ou aos restaurantes que frequenta. Não sem antes testar o “nível de sininho”.

Àqueles que ainda se espantam, em 2020, com a simplicidade e a grandeza do prato e da faca, da batida de duas colheres, do som da frigideira, das lixas ou da caixa de fósforos, Moreno adverte: “São coisas estudadas, conhecidas, tombadas.” Desde que o samba é samba é assim.

Clara Rellstab

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