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Hair na madureza

Mesmo começando a perder os cabelos, musical faz novos fãs

Nesta manhã de setembro no Central Park, em Nova York, milhares de pessoas aproveitam um dos últimos dias do verão para correr, andar de bicicleta ou simplesmente passear com a família pelo coração verde da cidade. Tina Morales, uma estudante espanhola de 18 anos, não está interessada em nada disso. Ao se deparar com um bando de malucos que formam uma longa fila dentro de seus sacos de dormir, ela se dá conta de que finalmente encontrou o que procura. Eles assumiram a posição na noite anterior. Agora, às 9h30 da manhã, precisam esperar apenas mais três horas e meia para a largada.

Uma das grandes tradições do verão de Nova York é a paciente luta por uma entrada para os espetáculos do Shakespeare in the Park, evento oferecido pelo Public Theater no palco ao ar livre do Delacorte. A cada verão, são duas ou três grandes produções de clássicos do teatro (não exclusivamente obras de Shakespeare). O prestígio do festival atrai grandes nomes para o palco. Denzel Washington, Kevin Kline, Michelle Pfeiffer, Richard Dreyfuss, Raul Julia e Meryl Streep são algumas estrelas que já passaram pelo Delacorte. As entradas – grátis – são distribuídas no próprio dia da performance, às 13 horas. Cada alma tem direito apenas a duas.

Neste fim de semana, o negócio ficou ainda mais complicado. O espetáculo a ser apresentado, se comparado às tradicionais produções de Shakespeare, Brecht e Molière, é um verdadeiro arrasa-quarteirão. Por três noites – não mais -, a tribo do musical Hair dará as caras no Central Park para cantar a história de Claude, o anti-herói interiorano que vem para a cidade grande, descobre o desbunde, vacila, se apaixona e vê seus sonhos abortados quando é obrigado a ir combater no Vietnã uma guerra que não compreende. Considerado o primeiro musical de rock, Hair ficou famoso por apresentar a primeira cena de nudez num musical da Broadway. Apesar da duvidosa qualidade musical de suas canções, seu impacto cultural é incontestável. Para o bem ou para o mal, Hair anunciou ao mundo um acontecimento invulgar: a chegada da Era de Aquário.

A cena de abertura mostra o rapaz ingênuo de terno e gravata que baixa em NY e dá de cara com um grupo de hippies que cantam o hino da nova era com flores no cabelo. O fato de a cena se passar no Central Park criou uma liga indelével entre o musical (e, mais tarde, o filme de Milos Forman) e o parque que é símbolo da cidade. Nenhum nova-iorquino que se preze pode ficar indiferente ao espetáculo de hoje à noite.

Hair está sendo remontado em comemoração aos seus quarenta anos de vida. Mas com os Estados Unidos afundados de novo, até o pescoço, numa guerra sem vencedores, o subtexto é outro. Quem fará o papel de Claude é Jonathan Groff, estrela de Spring Awakening, cujo protagonista são os hormônios de um adolescente de 16 anos. É o maior sucesso do momento na Broadway. Com cara de galã, sorriso sedutor e olhos azuis, Groff tem apenas 22 anos, mas dança e canta como um veterano. Indicado a melhor ator do ano para o Tony (categoria musicais), o Oscar do teatro, ele é a grande esperança que a Broadway tem no momento para arrastar toda uma nova geração aos musicais.

A passos lentos, Tina acompanha o caracol da fila, que gira em torno de árvores centenárias, invade campos esportivos, contorna fontes e lagos e agrega gente de todas as idades, classes sociais e preferências sexuais, numa miscelânea que deixaria Joseph Papp, o fundador do Shakespeare Festival, mais que orgulhoso. Numa das voltas, Tina encontra um colega madrileno do seu programa de intercâmbio. Pedro está ali desde as 7h30, lendo e relendo o El País da véspera. Pela quantidade de gente na sua frente, tem sérias dúvidas se a generosidade do Delacorte chegará até ele.

Tina fica tentada a furar a fila e se juntar ao amigo. Como um ectoplasma onisciente, um segurança aparece do nada, distribuindo água e declinando em alto e bom som o regulamento oficial: “Precisando ir ao banheiro, é necessário pedir permissão aos colegas de trás E aos da frente! E em respeito a todos os que amam o teatro, é TERMINANTEMENTE proibido incluir amigos no seu lugar na fila!” Os olhos da multidão caem sobre Tina como uma palmatória.

Ela se arrepende de não ter acordado mais cedo. Desiste antes mesmo de buscar com os olhos o fim da fila – mas às 6 da tarde os deuses lhe sorrirão. Seu colega madrileno telefona com a alvissareira notícia de que brigou com o namorado. Tem uma entrada sobrando.

A temperatura da noite é perfeita. O entusiasmo da multidão é palpável. Tina demora a achar o seu lugar no teatro. Da discussão que animava os que estão à sua volta, ainda escuta: “Qual a pior guerra: a do Vietnã ou essa do Iraque?” As luzes se apagam. Os jovens atores começam a cantar e anunciam, mais uma vez, o espetacular advento da Era de Aquário.

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