despedida

Haja tímpanos!

Nem só de talento, potência e estilo vive a elite do tênis. Ensurdecer o adversário também valia. Não mais

Dorrit Harazim
Maria Sharapova na temporada de 2006 de Roland Garros. A atleta russa é campeã de grunhidos orgásticos na quadra
Maria Sharapova na temporada de 2006 de Roland Garros. A atleta russa é campeã de grunhidos orgásticos na quadra FOTO: DEREK HOLTHAM

Maria Sharapova, a sílfide russa que brindou o ranking mais alto do tênis mundial com uma feliz dosagem de sensualidade e potência, bateu outro recorde no torneio de Wimbledon deste ano. Ao disputar (e perder) a segunda rodada na quadra central do venerável The All England Lawn Tennis and Croquet Club – tudo é em maiúsculas na instituição fundada em 1877 –, Sharapova produziu 101.2 decibéis grunhindo em jogo. Pela medição da BBC, isso equivale ao volume de uma sirene de carro de polícia ouvida a poucos metros de distância. Segundo os manuais de audiometria, recomenda-se evitar a proximidade de som tão intenso por mais de 15 minutos ao dia. Só que uma partida de tênis pode demorar horas a fio. São centenas de minutos de grunhidos, urros, uivos, roncos e espasmos sonoros sem nome.

Foi em 1974 que o americano Jimmy Connors abriu caminho em Wimbledon a golpes de matador e estranhíssimas emissões guturais, atribuídas, à época, à sua etiqueta pouco britânica. Na década seguinte, foi o ainda adolescente Andre Agassi que conseguiu desequilibrar o metódico Ivan Lendl, um dos grandes nomes de sua geração, emitindo uivos quase marciais depois de cada saque ou devolução de bola. Eram os primeiros sinais da cacofonia que veio alterar profundamente a prática do tênis de alto nível. Guga Kuerten aderiu à moda em Wimbledon, no ano 2000, levando Stephen Bierley, o comentarista do The Guardian, a escrever que as emissões primevas do brasileiro soavam como se vindas de alguém que “sofresse de uma constipação terminal”. E houve quem escrevesse que os seus gemidos tinham mais a ver com Vênus do que com a Nike.

Esportes individuais, como se sabe, tendem a ser mais silenciosos do que os coletivos – tanto por parte dos seus praticantes como por parte do público. O silêncio reverencial que acompanha uma tacada de golfe ou os modos contidos atribuídos até recentemente ao tênis matariam de tédio torcedores de vôlei e imobilizariam jogadores de futebol. Coube ao técnico americano Nick Bollettieri, considerado o maior formador de campeões em sua academia da Flórida, alterar essa equação. Dez dos tenistas mais ruidosos do esporte que acederam ao topo do ranking mundial – como Andre Agassi, Monica Seles, Maria Sharapova ou Serena Williams, todos múltiplos vencedores de Grand Slams – foram treinados por ele desde a pré-adolescência.

Inclusive a portuguesinha Michelle Larcher de Brito, de 16 anos, recém-chegada ao clube dos goela-solta. Dois meses atrás, ao disputar a terceira rodada do Torneio Aberto de Paris (Roland Garros), ela emitiu urros tão penetrantes e desconcertantes que os jornais especializados, já equipados com medidores de som, foram conferir: 109 decibéis. Ou, segundo o diário inglês The Independent, apenas 11 decibéis a menos do que o ronco de um avião decolando.

Bollettieri, hoje com 77 anos, garante que sua equipe jamais treinou ou treina atletas para, no momento do impacto da bola com a raquete, abrirem a traquéia e se esgoelarem. Os tenistas da barulheira se defendem: os estertores sonoros ajudam a manter o ritmo e o foco. Argumentam que se trata de uma descarga natural de energia, após um esforço máximo, e não de uma arma tática para desestabilizar o adversário. Sem descarregar essa energia, o corpo se retesaria. Ademais, não pode ser considerada uma forma desleal de competir, já que se dá às claras, e todos podem recorrer a ela, sob as vistas (e os ouvidos) do juiz.

 

Mesmo assim, desde o pico vocal de Sharapova em Wimbledon na última semana de junho, a Federação Internacional de Tênis decidiu contemplar a questão dos grunhidos no código de conduta da entidade. O próprio Bollettieri achou prudente publicar um artigo no qual se diz favorável à penalização dos tenistas que persistirem em manter a voltagem alta demais. Pelas regras atuais de Wimbledon, um ponto pode ser concedido a um jogador se seu oponente lhe causar, intencionalmente, algum impedimento durante a partida. Como os roncos não são nomeados, começou a circular a idéia de se instalar microfones parabólicos nas quadras, para registrar com exatidão a intensidade dos sons emitidos pelos atletas.

“É muito simples”, garante a veterana Martina Navratilova, nove vezes campeã só em Wimbledon. “Basta começar a tirar pontos do jogador e a coisa acaba rápido.” Sua opinião sobre o tema está fechada: “É fraude, truque, tapeação pura e simples.” O fragor gutural pode camuflar o som do contato da raquete com a bola, tornando a sua trajetória e velocidade mais difíceis de serem percebidas pelo adversário.

Um estudo publicado no British Journal of Sports Medicine pesquisou a demanda física e fisiológica desse esporte singular, que é disputado em superfícies diversas (saibro, grama, piso sintético), com bolas diferentes para cada tipo de quadra e torneios de três sets ou cinco sets. Alguém imagina um mesmo atleta se sagrar campeão de futsal, de futebol de praia e de futebol de campo numa mesma temporada? O desafio de um Grand Slam é justamente este.

Esporte de exercício intermitente, com arrancadas e paradas súbitas, o tênis alterna espasmos de alta intensidade física, de quatro a dez segundos de duração para cada ponto, seguidos de momentos de recuperação. Pelas regras atualizadas em 2004, a pausa permitida entre dois pontos é de vinte segundos, sobe para noventa segundos quando os jogadores trocam de lado na quadra, e passa a 120 segundos entre um set e outro. Nesse quadro, qualquer desvio da concentração pode ser fatal. A velocidade do jogo é tamanha “que o grunhido chega a quem está do outro lado da quadra quando ele se prepara para rebater, e isto cria um problema”, admite Bill Babcock, diretor executivo da Federação Internacional. A majestosa cobertura retrátil na quadra central de Wimbledon, que pôs fim a 132 anos de incertezas climáticas, tende a ampliar ainda mais o som emitido pelos jogadores.

Enquanto o repertório desses golpes sonoros permaneceu confinado ao universo masculino a questão foi tratada com leniência. Agora que a prática se tornou regra, e não mais exceção, no campo feminino, o tamanho da encrenca soa mais agudo. O público pagante já manifestou sua ojeriza e impaciência; os árbitros sofrem calados; os locutores de rádio e tevê se vêem obrigados a narrar mais alto. Inevitavelmente, o componente feminino da questão acabou alterando a narrativa nos jornais. Hoje, se condenam os “gemidos orgásticos” e as “descargas sonoras de gozo”. Não tem jeito: em algumas coisas o animal humano não muda.

Dorrit Harazim

Dorrit Harazim é jornalista. Foi editora de piauí de 2006 a 2012

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