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Hidroginástica ou morte

Desespero e amolação em sorteio de vagas no Sesc

Vanessa Barbara
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Centenas de pessoas se acotovelavam no ginásio vermelho, aguardando o sorteio. Nos corredores do 2o andar, a fila dava voltas, descia as escadas e parava no térreo. Eram seis da tarde da quarta-feira, 16 de fevereiro, e a cidade de São Paulo acabara de passar por mais uma das suas chuvas formidandas, deixando um rastro de setenta pontos de alagamento e uma avenida crucial interditada, a 23 de Maio.

Ainda assim, houve os que chegaram ao Sesc Consolação com duas horas de antecedência, embora a ordem de chegada não fizesse diferença. O burburinho da espera indicava que aquele seria o maior sorteio do ano e, quiçá, da história da instituição: ao todo, eram 791 candidatos para 412 vagas. Os primeiros a serem escolhidos garantiam os cursos mais concorridos. Aos seguintes sobrariam as modalidades tediosas e os horários risíveis.

As vagas pertenciam a sete diferentes cursos de atividades físicas e estavam disponíveis só para os portadores de carteirinha de comerciário. As opções variavam de futsal com condicionamento físico (13 vagas), hatha yoga (91 vagas) e ginástica postural (segundas e quartas às 7h10 da matina, 33 vagas), passando por natação e hidroginástica. Os cursos são pagos, mas as mensalidades variam de 28 a 56 reais (esportes aquáticos), o que é uma pechincha numa cidade em que as academias cobram até 500 reais mensais. O ambiente, porém, era de sorteio da Mega Sena.

Faltando vinte minutos para as sete, os funcionários trouxeram mais cadeiras para suprir a demanda da terceira idade. No telão, passavam cenas de um DVD de música étnica, um vídeo promocional do Sesc ou de um show de Hermeto Pascoal dedilhando sua própria barba.

Às 19h18, encerrou-se o cadastramento. Mas ainda não chegou o grande momento: a funcionária do Sesc Carol Ribas recitou as regras do sorteio e deu informações sobre os cursos. Os reincidentes já sabiam os mandamentos de cor: ginástica postural não é RPG, o exame dermatológico custa 9 reais, não é permitido fazer natação a quem já sabe nadar, não se atendem grávidas e portadores de necessidades especiais, e o boleto chega ao endereço cadastrado e deve ser pago até o dia 10, senão o usuário perde a vaga. “Não adianta reclamar depois que não chegou, que o cachorro comeu, que o porteiro saiu de férias”, ela repetiu. Para o curso de condicionamento físico (musculação, esteira e aulas de ginástica), é preciso agendar um horário para a avaliação e prescrição de exercícios com um professor.

 

É sempre a mesma coisa. O computador embaralha os nomes e efetua um sorteio. Os resultados saem imediatamente no telão, em forma de lista com nome e sobrenome, mas só dos primeiros vinte colocados – conforme as vagas vão sendo tomadas, a lista vai revelando os nomes seguintes. É nessa hora que todos se levantam, aproximam-se da tela e estreitam os olhos para enxergar melhor. Já cheguei a reconhecer meu nome pelo contorno das letras a 10 metros de distância, numa eletrizante 13a posição. Foi o meu melhor resultado em três anos de participação nos sorteios – minhas outras classificações incluem um patético 325o lugar, um 145o que não serviu para nada e, em agosto passado, um 90o que me granjeou apenas uma vaga rejeitada na turma de ioga intergeracional (adultos e terceira idade) na hora do almoço.

O anúncio do primeiro colocado é uma comoção. O contemplado costuma se erguer de um salto, abrir um sorriso, é cumprimentado pelos circunstantes e caminha rumo ao palco, de cabeça erguida. Agora, o abençoado foi Vinícius Monteiro, um rapaz de mochila nas costas e tênis All Star branco que optou pelo condicionamento físico às terças e quintas, período noturno.

Em meio à histeria, os contemplados escolhiam o curso e partiam para a próxima fila, a do agendamento, enquanto a lista ia descendo no telão. Ao todo, eram quatro filas: a de cadastramento no sorteio, a de escolha do curso, a do agendamento da primeira aula e a última, na Central de Atendimento, destinada a efetuar o pagamento e confirmar a matrícula.

Os mais desafortunados aguardavam o direito de entrar numa quinta fila. É que, num segundo momento da noite, foram divulgadas as listas impressas com a classificação geral, divididas por ordem alfabética e afixadas no fundo do ginásio. Uma horda de aflitos se aglomerou em torno das listas num clima de aprovados no vestibular. Fez-se uma fila secundária para consultar a ordem – uma verdadeira fila da fila. “Calma, calma, sem desespero”, pediu Carol ao microfone. “Eu sou o 655, você é o 522”, disse um rapaz, lamentando sua triste sina. Este mês, a média foi de 1,9 candidato por vaga, mas, nas modalidades mais cobiçadas (como natação e condicionamento físico noturnos), a média saltou para 20, como no vestibular para direito na Universidade de São Paulo e no concurso para auditor fiscal da Receita Federal (salário inicial de 13 mil reais).

 

Dependendo da posição no ranking, a maioria persiste. Uma moça aproveitou para adiantar sua leitura de Balzac, outra resolvia um caça-palavra, uma senhora costurava uma toalhinha em crochê e havia um garoto cuidando da lição de casa, lápis e borracha no colo. Senhoras se abanavam com leques e um sujeito conferia a programação dos cinemas em seu iPad.

Há gente que veio de Guarulhos ou da Lapa e saiu de mãos abanando. “Achou que ia ser fácil, é?”, ironizou um veterano a uma moça que, meia hora atrás, pensou que a vaga estivesse garantida mediante o comparecimento. “Mas, viu, a chance é grande”, interrompeu uma amiga, acrescentando: “… de sair daqui e ter perdido o seu tempo.”

Conforme as primeiras dezenas de sorteados passavam pela mesa de matrícula, a funcionária ao microfone começava a proferir anúncios funestos: “Atenção. Não há mais vagas para natação às terças e quintas, 19h30.” Muita gente abria os braços, indignada, praguejando contra aquele senhor cabeçudo que tomou seu lugar. “Atenção. Não há mais vagas para…”

O computador travou e foi preciso reiniciá-lo, paralisando o sorteio por duas vezes. Alguém mencionou o infeliz Natan da Rocha, que ficou na 791a posição – o que estatisticamente é tão difícil quanto ficar em primeiro, com a diferença de que não se ganha nada. Exceto amargura.

Outros se levantaram de súbito, viraram as costas e foram embora. Só não rasgaram suas carteirinhas porque precisarão delas para o próximo sorteio, que acontecerá no dia 16 de março e contará com os azarados de sempre.



Vanessa Barbara

Escritora e jornalista, é colaboradora do New York Times

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