esquina

Horário pobre

Como anunciar no Jornal Nacional a preço de banana

Paulo Lyra
ILUSTRAÇÃO_ ANDRÉS SANDOVAL_2008

Vionaldo Glória é o antigalã. Baixinho, gordo e quase careca, ele aparece na tela atrás de um balcão parecido com o das casas lotéricas. Um jingle que rima “remessa taxa zero” com “rapidez sem lero-lero” anima a cena. Corte. Close em Vionaldo, que na camisa pólo de cor verde exibe o nome da Vionaldo Express, empresa especializada em enviar dinheiro dos Estados Unidos para o Brasil. Corte. Notas de 100 dólares e 50 reais aparecem sendo contadas. Corte. Vionaldo, em seu escritório, conversa com uma loura sob um pôster do Cruzeiro. Olha para a câmera com ar de gaiato e sorri. “Vionaldo, o amigo da comunidade brasileira”, avisa o locutor, enfático. Assinatura e jingle com endereço de Pompano Beach, Flórida.

Os 85 mil assinantes da Globo Internacional nos Estados Unidos não têm como fugir à experiência de assistir aos comerciais caseiros, que lembram os anúncios veiculados no Brasil de décadas atrás. Lá, devido ao poder aquisitivo minguado dos imigrantes, trinta segundos de Jornal Nacional custam 345 reais, contra 328 800 reais pelo mesmo tempo no Brasil, uma diferença de quase 100.000%. Assim, entre uma aparição e outra de William Bonner e Fátima Bernardes, os pequenos empreendedores mandam para o ar atores anônimos que preferem declamar o texto a interpretálo. O produto costuma ser vendido pelos próprios donos do negócio, ladeados por familiares, funcionários e clientes. Muitas vezes, aproveitam para convidar o espectador a abrir uma franquia do que têm a oferecer.

A Alaska Travel garante os “melhores preços para qualquer viagem”, mas exibe imagens de um resort de praia tão fora de foco que nem o YouTube aceitaria. O Mastercars da Flórida não tem nada a ver com o cartão de crédito, mas vende carros usados “independentemente do histórico de crédito ou estado imigratório” do comprador. Uma batucada de escola de samba é a trilha sonora do comercial do Brazco Card, “o banco do imigrante brasileiro”, especializado em clientes ilegais. Ao solicitar o cartão pré-pago, o freguês ganha sessenta minutos de ligações telefônicas para o Brasil. No final, uma mão em close gira o cartão como se embalasse um pandeiro. Há anúncios que sequer usam imagens em movimento. Na propaganda de um açougue de Boston, por exemplo – a Casa de Carnes Solução, “sua melhor opção” – , o que se vê é a foto de uma bisteca que se eterniza na tela.

 

Como o sinal da Globo Internacional é um só em todo o território norte-americano, o produto anunciado nem sempre está ao alcance do telespectador. Cidades como Pompano Beach, Somerville e Bridgeport, algumas das mais assíduas da programação, distam centenas de quilômetros entre si. A maioria dos anunciantes parece não se importar com o detalhe geográfico. É o caso de uma revendedora de carros usados de Margate, que não especifica em que estado está estabelecida; procurando no mapa, descobre-se que a cidade fica na Flórida. É também na Flórida que está o consultório da doutora Marah de Sá; para dar credibilidade às suas obturações, a dentista afirma ter clientes “até de Nova York”.



O curso de inglês Zenaric, que oferece aulas em CD ou DVD, é um dos poucos que podem se permitir o luxo de oferecer um serviço verdadeiramente nacional. Nos últimos cinco anos, a empresa produziu treze peças publicitárias para TV, sete das quais em 2007. Uma delas, narrada em off na primeira pessoa, mostra um homem solitário que espera para ser atendido num restaurante. A voz diz: “Vida de imigrante na América não é fácil. Tem que sobreviver a muitas dificuldades e trabalhar de catorze a dezesseis horas por dia para mandar dinheiro para a família”. De repente, como que tocado pelo destino, o homem sorri, e a voz explica: “Mas depois que aprendi inglês, tudo mudou. Arranjei trabalho e agora sou mais respeitado”. Ele escreve o nome da empresa num guardanapo e o entrega à garçonete. A narração proclama: “Posso até ajudar outros imigrantes a realizar seus sonhos”.

Ainda no terreno dos cursos de idiomas, uma loura de chapéu de caubói e sotaque interiorano diz que nos Estados Unidos existe “oportunidade de conquistar nossos sonhos”, só que para isso é preciso aprender inglês. Em seguida, outra loura, com um decote que ocupa metade da tela, afirma que “um professor como esse você não acha em qualquer escola”. Ela se refere a Richard Cohen, um sorridente americano de porte atlético e cabelo curto que há seis anos criou o curso de inglês mais popular entre os imigrantes. Cohen fala português com desenvoltura e sotaque forte. Um anúncio recente o mostra no Brasil, doando computadores a uma escola de Goiânia. “Para nós, o responsibilidade social é muito importante”, explica.

A julgar pelos comerciais, os telespectadores precisam comprar carros usados, contratar companhias de mudança, freqüentar igrejas evangélicas, comer pratos típicos da terra natal e processar o próximo por acidente de trânsito ou de trabalho. Em caso de ganho de causa, o cliente já sabe: “Vionaldo, o amigo da comunidade brasileira”, é o nome certo para remeter o pé-de-meia para a terrinha.

Paulo Lyra

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