vultos da música

Imagine Martha

Dos 8 aos 80, a pianista argentina é um mundo de precisão, inteligência e paixão

Caetano Galindo
Martha, durante um concerto na Academia de Santa Cecília, em Roma, em 1998: seus dedos, que parecem articulados de maneira diferente dos nossos, se divertem, cabriolam, saltarelam
Martha, durante um concerto na Academia de Santa Cecília, em Roma, em 1998: seus dedos, que parecem articulados de maneira diferente dos nossos, se divertem, cabriolam, saltarelam CREDITO: MARCO ANELLI_1998

Um teatro silencia depois do sinal de que a música vai começar. Discreta e gradualmente vão morrendo as conversas na plateia ansiosa, que certamente temia um cancelamento de última hora. Ela é conhecida por desistir de seus concertos a qualquer momento. É conhecida, também, por fazer valer essa ligeira angústia.

Ela entra no palco, caminha decidida até o piano em meio aos aplausos protocolares, alegres, aliviados. Pouco reconhece a presença das pessoas na plateia. Se tanto, parece transparecer um leve constrangimento por estar diante delas. Com passos firmes, ela leva muito pouco tempo para chegar ao banco do piano e, assim que senta, muitas vezes um mero segundo depois de o peso do seu corpo acomodar-se sobre o banco, ela já está tocando. Nada de rituais elaborados, nada de jogo de cena, nada de um momento especial de concentração. O início de seus recitais parece quase abrupto demais, se comparado ao de outros intérpretes. Vez por outra algumas pessoas ainda aplaudem quando ela começa a tocar, e o som do piano precisa se sobressair entre as palmas.

Mas sua recusa às convenções mais dramáticas ou cênicas dessa curiosa instituição que é o concerto de música clássica desde Franz Liszt e Richard Wagner, sua dificuldade em atravessar apressadamente tudo que não seja música para se dirigir àquele piano, sua singularidade, sua aparente excentricidade, tudo isso muito em breve vai ser completamente esquecido. Em questão de segundos, depois daquela estranha sobreposição dos últimos aplausos com as primeiras notas do programa, ela vai mostrar a quem quer que esteja ali, centenas ou milhares de indivíduos, desconhecidos que o destino reuniu naquela noite, ali naquela sala de concerto, que ela tinha razão. Martha Argerich parece sempre ter razão, e seu desempenho prova cabalmente que o piano era, afinal, o que precisava de atenção.

O resto são fiapos. O resto, mesmo o ruído, é silêncio.

Diante daquela plateia, qualquer plateia, agora completamente calada, aquela mulher que se veste de maneira discreta, cabelo comprido caído sobre os ombros (foi impressão ou hoje ela estava com uma pulseirinha de couro trançado no braço direito?), aquela mulher que toca com uma expressão facial sem excessos de emotividade, sem o transe que caracteriza vários de seus colegas, parecendo mais a cara de quem está se divertindo, aquela mulher vai colocar a plateia em contato com compositores via de regra mortos há séculos. Ela vai anular distâncias no tempo, no espaço e entre os gêneros.

Essa mulher, argentina, nossa contemporânea, vai nos fazer sentir que conhecemos mais diretamente o que pretendia nos dizer, por exemplo, Franz Schubert, um homem do século XIX para quem tudo isso – situação e intérprete – pareceria absurdamente improvável. Mas mesmo isso, mesmo esse tipo de reflexão vai ocorrer àquelas pessoas mais tarde, em casa. Ali, naquele momento, elas vão simplesmente prestar atenção ao piano, enquanto os dedos de Argerich saltitam sobre o teclado de uma maneira absolutamente pessoal.

Talvez haja pianistas com movimentos mais elegantes que os dela. Especialmente mais econômicos. Mas os dedos de Argerich, que quase parecem articulados de maneira diferente dos nossos, subindo mais verticais em relação ao plano das costas da mão, são os que mais se divertem, cabriolam, saltarelam. Enquanto suas mãos cumprem uma série de detalhadas tarefas que quase nenhum outro ser humano vivo consegue sequer compreender em sua dificuldade, aqueles dedos dão a impressão, como ela própria, de se divertir de modo algo sarcástico. Suas mãos parecem sempre estar “sobrando”, ter um quantum extra de energia que permite aqueles movimentos empolgados dos dedos, que percorrem as teclas como quem caminha alegre, descontraído, por uma trilha fácil.

 

Esse ritual, ou variações desse ritual, vem acontecendo no planeta Terra há 72 anos. Setenta e dois anos. Martha Argerich completou 80 anos de idade no dia 5 de junho. Ela deu seu primeiro concerto público, ainda na Argentina, aos 8.

Conhecemos todos a figura da menina-prodígio, seja nos cansativos recitais da filha de algum vizinho, seja nas imagens repetidas nos vídeos da internet. Diante disso, seria fácil antever que aquela menina, em 1949, estava participando de um concerto amador, organizado por seus pais para constrangimento dos presentes no salão paroquial de alguma igreja, ou de um evento qualquer, que acabaria por se tornar o ponto alto de uma carreira destinada a nunca se realizar profissionalmente. A nunca amadurecer.

O fato de que ela ainda está aqui, e de que ainda estamos falando dela, anula por completo a ideia da carreira que não se realiza. E o “primeiro concerto amador” não era exatamente um sarau para a vizinhança, com um programa escrito à mão, um pianinho vertical mal afinado e algumas peças típicas do repertório dos prodígios. Martha subiu ao palco diante de uma orquestra completa, para executar um dos concertos para piano e orquestra mais conhecidos do repertório, o número 20 de Mozart, uma complexa obra de natureza sinfônica onde o piano, além de solista virtuosístico, precisa ocupar um papel na densa relação entre todas aquelas vozes, aqueles timbres, cores e texturas instrumentais; onde ela, aos 8 anos de idade, precisava não apenas executar sua parte, mas acompanhar um regente e se integrar à orquestra inteira.

Imagine por um momento a cena.

Oito anos de idade. Ou 80 anos de idade. Diante de um piano de concerto que chega a pesar mais de 400 kg. Diante de uma orquestra que pode ter quase cem integrantes. Diante de uma plateia que pode ter milhares de pessoas. Sozinha em meio ao mundo. Sozinha, acompanhada daqueles compositores mortos que dão vida aos seus dedinhos saltitantes. Sozinha no palco.

Imagine por um momento essa extensão de tempo. Mais de setenta anos. Pense no mundo do imediato pós-guerra. Pense no mundo desejável e tantalizante do pós-Covid. E Martha e seu piano estarão ali. Ela estará sempre ali durante o tempo de tantas vidas. Sozinha entre os mortos, acompanhada entre os vivos.

 

Antes de completar 20 anos, a improvável pianista argentina já tinha um contrato com a indústria fonográfica e lançava seu primeiro disco. Aos 24, era a vencedora do tradicional Concurso Chopin de piano, em Varsóvia. Qualquer músico cuja carreira se encerrasse nesse ponto já seria uma figura de exceção. Mas, de lá para cá, ela ajudou a repensar o lugar do virtuose, do músico de concerto, a cada decisão de carreira, a cada noite em que apareceu diante daquelas pessoas ansiosas e extáticas.

Quando sentiu mais forte a solidão do palco, quando se viu algo desiludida com a atividade de concertista, ela simplesmente parou de tocar. E se isso acarretasse um longo afastamento dos palcos, ora, tanto pior.

Nos anos 1980, quando essa mesma solidão (que o pianista canadense Glenn Gould comparava à sensação de ser um animal de circo em exibição) bateu de novo à sua porta, ela decidiu que iria parar de se dedicar à carreira de recitalista solo e passar a se apresentar cada vez mais (e, com o tempo, quase exclusivamente) diante de orquestras, em duos, em trios ou outras formações de câmara. Muitas vezes com músicos muito mais novos que ela, cujas carreiras ajudou a promover.

Desde os famosos recitais solo de Liszt ainda no século XIX, a imagem do pianista de concerto baseia-se na mesma dinâmica: o piano está de lado para que a plateia possa ver o executante em destaque, o instrumento fica sozinho no palco sob os holofotes, o ser humano dançando com a máquina de 88 teclas diante de uma plateia embevecida. É o virtuosismo e, sim, o exibicionismo. É a mais profunda encenação do paradoxo de solidão e integração. E Martha, no auge de uma carreira já então com poucos paralelos na história da música, simplesmente decide que estava ficando cansada daquele tipo de exposição. Que tinha mais interesse pela música e pelos músicos. Com o passar dos anos e, depois, das décadas, suas performances solo foram ficando cada vez mais raras.

Nos anos 1990, ela teve câncer. Seu tumor teve metástase. Ela passou pelo tratamento convencional, perdeu parte de um pulmão, recebeu uma terapia experimental e, depois de cinco anos lidando com a doença (não se luta contra um câncer; lida-se com ele), ela fez um daqueles raros recitais solo, lotando o Carnegie Hall, a celebrada sala de concertos em Nova York, para doar a bilheteria ao instituto de pesquisa onde trabalhava seu oncologista. Tivesse ela então decidido se aposentar, com pouco mais de 60 anos, sua carreira já seria única na música do século XX.

Mas o século XXI ainda estava por vir.

No ano passado, com o cancelamento de concertos e o fechamento de salas, ela não parou de tocar. Você pode vê-la no YouTube, sentada sozinha na escura Sinagoga de Görlitz, na Alemanha, com roupas discretas, cabelo comprido e agora quase totalmente grisalho caído sobre os ombros (sim, com aquela pulseirinha), tocando maravilhosamente e, como sempre, sem a partitura à sua frente, a segunda Partita de Johan Sebastian Bach, o compositor a quem tanta gente parece ter recorrido nesses tempos tão difíceis. Mas agora, em 2021, ela já anunciou que seu festival de música em Hamburgo vai acontecer neste mês de junho. Com Covid ou sem Covid. Com plateia ou sem plateia. Ela e uma lista alucinante de convidados do primeiríssimo time da música de concerto estarão fazendo música. Ela e suas mãos estarão saltitando sobre o piano.

A pianista Martha Argerich. Crédito: Werner Neumeister_1966. Cortesia de Deutsche Grammophon

 

Martha Argerich, que sempre foi extremamente fotogênica, dotada de uma presença cujo impacto é até difícil de descrever, está muitíssimo bem representada no YouTube. Com uma carreira tão longa, é inclusive possível comparar vídeos em que ela toca a mesma peça em décadas diferentes. É quase inacreditável o quanto o corpo de uma mulher de 80 anos consegue reproduzir o que realizava o corpo de uma menina de 20. Ela hoje não é mais lenta, não é menos ágil, não é mais “suja” em suas execuções. Continua tocando um repertório muito variado, e tocando de memória. Continua, como Gardel, ficando cada vez melhor.

Eu não sei muito bem se a maioria das pessoas, dos não músicos, consegue avaliar a dificuldade, a densidade do que está acontecendo no palco enquanto alguém executa peças complexas, de memória, durante uma, duas horas, com tolerância zero para erros. Nós assistimos a uma ginasta prodigiosa nas olimpíadas e ficamos, com razão, pasmados com aquilo. Aquelas pessoas, sobre-humanas com certeza, têm suas performances avaliadas a partir de descontos de uma nota de partida. Descontos derivados de pequenos erros, problemas de execução. Pois de um músico de concerto dos tempos modernos (essa tolerância foi mais alta no passado), espera-se nada menos que a perfeição em termos técnicos. Nenhum erro. Nada. A qualidade de uma interpretação, portanto, será avaliada a partir daí. Do que de novo o artista possa apresentar para além da perfeição técnica.

Dia desses, uma pessoa comentou um vídeo de uma performance de András Schiff e, ao fazê-lo, pode ter encontrado uma outra maneira, mais sucinta, de dar alguma noção dessa realidade. Ao ver o pianista húngaro tocar todo o primeiro livro do Cravo Bem Temperado, de Bach (48 peças, quase duas horas de música tocada de memória), a única coisa que ocorreu ao comentarista foi dizer que, apenas para escrever um elogio ao vídeo, acabou cometendo mais de um erro de digitação.

Vale pensar nisso. Digitar textos é uma tarefa mais familiar. Imagine digitar durante duas horas um texto decorado anteriormente. Sem erros. Imagine, no entanto, digitar quatro textos diferentes ao mesmo tempo, num teclado de cerca de 1,5 metro de largura, e então você começa a entender os meros requisitos técnicos de uma execução desse tipo.

E ainda nem começamos a falar de qualidade artística.

Precisão, velocidade, resistência física. Além da compreensão profunda de algumas das estruturas abstratas mais complexas, engenhosas e deslumbrantes que a mente humana já concebeu (música é isso, afinal), a ponto de poder gerar uma abordagem nova, convincente e pessoal daquela obra. A ponto de estar de posse do que é necessário para então acrescentar a isso tudo um dado pessoal, seu, artístico. O que está acontecendo no cérebro e nas mãos de um pianista de alto nível durante uma apresentação desse tipo é tão incompreensível para nós, da plateia, quanto os giros e aterrissagens de Simone Biles.

Imagine fazer tudo isso aos 8 anos de idade. A menininha de cabelo negro sobre os ombros. Imagine fazer tudo isso aos 80 anos de idade. A senhora de cabelo branco que mal dá a perceber a passagem de todo esse tempo. Imagine ter continuado a realizar essa mesma tarefa, a exigir tudo isso do seu corpo e da sua mente, durante 72 anos.

As horas de estudo constante. As dúvidas e questionamentos. Os desafios permanentes.

E isso tudo por você. Para você.

Para colocar você em contato com o que de melhor a música produziu. Para fazer você ouvir de novo, e de maneiras inesperadas e frescas, um repertório sobre o qual pianistas vêm se debruçando desde que o piano existe, e cravistas, desde ainda antes disso. Setenta e dois anos gerando beleza e fornecendo encanto. Criando alento, respiro e, com todas as letras, felicidade neste mundo.

Imagine Martha.

 

Em 2012, na cerimônia de abertura da Olimpíada de Londres, Daniel Barenboim, outro pianista (e regente) argentino, apenas um ano mais novo que Martha e amigo dela, foi um dos escolhidos para carregar a bandeira oficial dos jogos. Londres, afinal, apesar de já ter sido chamada de “terra sem música” pelos alemães, que riam sobre a falta de compositores ingleses entre os mais conhecidos no mundo até o século XX, é talvez a capital mais musical de hoje. E Barenboim desenvolveu lá parte relevante de sua carreira.

Na transmissão da cerimônia na televisão brasileira, no entanto, foi nítido o embaraço da narração, que simplesmente não sabia quem seria aquele senhor, perdido entre as “celebridades”.

Barenboim projetou o piano em que toca hoje em seus concertos. Ele, judeu, fundou com Edward Said, árabe, a West-Eastern Divan Orchestra, de que Martha aliás é membro honorário. Levou a música de Wagner a Israel, gravou a integral das 32 sonatas de Beethoven não uma, mas duas vezes. É uma figura absolutamente central da história da música clássica no nosso tempo, ainda que a música clássica infelizmente não seja assim tão central no nosso tempo. Para os bem informados jornalistas televisivos daquele momento, ele era um estranho tiozinho careca carregando uma bandeira.

Martha Argerich, agora, chega aos 80 anos logo depois da grande celebração em torno do octogenário Bob Dylan, primeiro músico a receber o Prêmio Nobel de Literatura. Eu não quero, e acho que você não pode querer, um mundo em que só ele receba atenção, e ela corra o risco de passar despercebida.

Em tempos tão duros, tão tristes e frios, esses tempos em que de fato me parece que tanta gente do meu entorno, ligada ou não à música clássica, acabou se aninhando em Bach, buscando alguma espécie de consolo e de esperança na melhor música que já foi escrita no mundo, vale lembrar que desde aquele longínquo pós-guerra, terra distante, país estrangeiro, a menina argentina senta algo apressada diante do monstro mecânico e, com uma precisão, uma inteligência e uma paixão completamente inesperadas, nos dá de presente um mundo inteiro. Séculos. Sons.

Chopin, Beethoven, Mozart, Prokofiev, Rachmaninoff, Ravel (ela toca o movimento lento de seu concerto para piano como ninguém), Brahms, Bach, Scarlatti (ela praticamente tomou para si a Sonata 141, que usa como peça de bis há décadas). Todos eles e tantos outros deveriam estar neste momento naquela plateia virtual, que permanece há quase três quartos de século fascinada diante da força, do brilho e da generosidade dessa musicista sem par. Deveriam estar agradecidos.

Como eu. Como nós.

Porque, para além de tudo com que já temos que viver neste vale de lágrimas e encantos, imagine o absurdo de um mundo sem Bach.

Imagine, Martha. Você em sua casa, preparando-se para um festival que leva seu nome, e que definitivamente vai se realizar, aconteça o que acontecer. Porque, por mais improvável que possa parecer, você existe.

Feliz aniversário.

Caetano Galindo

Caetano Galindo é professor de linguística na Universidade Federal do Paraná e tradutor de James Joyce e David Foster Wallace, entre outros.

Leia também

Últimas

Matemática que multiplica horas e projetos

Universitário do interior de Alagoas conta como realizou o sonho de conquistar medalhas em olimpíadas científicas e hoje incentiva outros jovens a participar dos concursos

O fim do dinheiro no país dos pixelados

Com o Pix a pleno vapor, cai a circulação de papel-moeda e bancos fecham cada vez mais agências; economia digital, no entanto, ainda exclui parte dos brasileiros

No rastro da Covaxin

Assim como a PF, a piauí vem investigando a Precisa Medicamentos e o escândalo da vacina indiana. Para entender melhor o caso, confira o roteiro do que já publicamos

Foro de Teresina #168: Bolsonaro janta os salvadores da pátria

O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

Quando a cruz vira espada

Seguindo o manual dos autocratas, Bolsonaro apela à radicalização religiosa para dividir o país e corroer ainda mais a democracia

A ferida aberta do Itamaraty

Homenagem feita por jovens diplomatas a José Jobim, morto pela ditadura, constrange o governo e reaviva o caso, até hoje não esclarecido

Bolsonaro não aceita imitação

Presidente sofre assédio de veteranos da velha política que prometem salvá-lo de si próprio

Mais textos