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Juquinhas não são inocentes

Escolas de Minas enfrentam a difícil "questão do baleiro"

Nuno Manna
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

No início de 2010, as cantinas das escolas mineiras tiveram de reformular seus cardápios. Uma dura lei promulgada pelo então governador Aécio Neves proibia o fornecimento e a comercialização de produtos com alto valor calórico, altos teores de gordura, açúcar e sal e pouco valor nutritivo. Nada de chocolates, balas, refrigerantes e salgados fritos, nada da imediata substância da felicidade infanto-juvenil.

Mas a história já cansou de ensinar que toda lei seca gera sua sombra e que é embaixo dela, no bem-bom do ilícito, que o mercado negro faz a festa. Em Belo Horizonte, não inventaram moda. Em pouco tempo, a cidade se viu às voltas com uma miríade de Al Capones cuja insídia só não é maior do que as porções de doce que mercadejam. O comércio de guloseimas proibidas corre solto, no nariz dos responsáveis por manter os escolares em segurança.

Atrás de uma escola na região da Savassi, numa rua de pouco movimento, instalado sob uma grande e colorida sombrinha, está o carrinho dos sonhos de qualquer criança mais ou menos rechonchuda. Parece ter saído direto da Fantástica Fábrica de Chocolate de Willy Wonka, mas quem o comanda é um homem bem menos excêntrico. Ele tem 40 anos, jeito cortês, é moreno e usa jeans, camiseta polo e sapato social. Seu nome é Mauro, vulgo Ô-Tio – e mais não diremos, porque temos juízo.

De dentro da escola, por cima do portão, brotam as mãozinhas do mal:

– Ô-Tio, me dá 1 real de bala misturada! Menos de menta.

– Ô-Tio, me dá uma Fanta e cinco canudinhos!

– Ô-Tio, me dá quatro Big Big, dois Dipn’Lik, três Poosh e uma paçoquinha!

– Ô-Tio, de menta não!

 

Mauro é baleiro licenciado e toca o negócio com diploma de técnico em administração de empresas. Atende a freguesia das 7h às 17h30, todo santo dia útil. Assumiu há mais de dois anos o ponto do pai, seu Pipo, que se aposentou depois de absorver a mesada das crianças por quase quatro décadas. Amparado na sólida tradição dos negócios da família, ele tem credibilidade para afirmar que as vendas nunca foram tão efervescentes quanto nesses tempos de ditadura do nutricionalmente correto.

A transação começa cedo, explica: “Antes da aula os meninos vêm aqui, enchem a mão de bala e de pirulito e entram. Acontece que, chega a hora do recreio, já acabou.” Quando ouve o sinal que solta os alunos, ele entra em estado de alerta máximo, pois sabe que em instantes terá de se haver com a manada de frenéticas mãozinhas penduradas por cima do portão.

O fato de os alunos não poderem sair da escola resultou num esquema de agilização do atendimento. Ô-Tio cutuca a mão, o cliente solta a grana e fica de mão aberta, à espera do que pediu. Em segundos a mão já está saltitando, de posse da sua Fanta. Se por algum motivo Ô-Tio demora um pouco, a mão se recolhe, mas é só ele esticar o pacotinho de Frutella por cima do portão que ela pega rapidinho.

Existem os mais ousados que escalam o portão e põem a cabeça para fora. Ô-Tio adverte – “Cuidado pra não cair daí, viu?” –, mas não há dúvida de que para ambas as partes o cara a cara é muito mais prático do que o mano a mano. O portão no meio acaba sempre dificultando os pedidos.

– Ô-Tio, me dá uma Coca.

– A Coca acabou. Hoje só tem refrigerante de laranja, limão e uva.

– Então me dá um guaraná.

– Tem bombom?

– Só chocolate.

– Qual?

– Tem do branco, tem do preto…

– Qual do preto?

– Tem o Choco Snack…

– Qual que é o Choco Snack?

– Aquele quadradinho que vocês compram.

 

O estabelecimento do tio Mauro é um carrinho de pipoca cuja função original se tornou obsoleta: “Antigamente até tinha pipoca aqui, né? Mas a pipoca foi caindo, caindo, e aí veio o chipão e ocupou o lugar dela.” Esse “chipão” é um enorme pacote de chips à base de milho, em quatro sabores: queijo, presunto, bacon e pizza. Mesmo que, desde o começo do ano, o fabricante tenha estampado em letras garrafais a palavra assado na embalagem (em oposição a frito), os chipões continuam a ser uma exclusividade do mercado negro e acabaram virando o carro-chefe do recreio.

Mauro vende de 80 a 100 sacos de chipão por dia (o mais procurado é o de bacon). Ele explica por que o produto é tão viciante: “É maiorzão e não custa caro. Um real.” Além disso, o dele é um chipão diferenciado, como se diz por aí, pois Mauro passa todos os dias no fornecedor para encher o carro com fardos do produto. “Quem compra de mim sabe que aqui o chipão tá sempre novinho.”

Carlos Henrique Alves, diretor da escola, afirma que segue rigidamente as determinações legais na sua cantina. Além de oferecer merenda gratuita com cardápio balanceado, ele reduziu e adaptou as opções da lanchonete da escola. “Agora o que tem é salgado assado, biscoito de polvilho, barra de cereal… O que sobrou pra gente foi isso aí.” Felizmente a lei não mexeu com o orgulho da terra: “Com pão de queijo a gente continua trabalhando, apesar de ser um produto um pouco mais gorduroso. Mas aí é tradicional. Pão de queijo é tombado como patrimônio. A gente vende até por uma questão de valorização do produto mineiro”, diz, dando a entender que, caso um dia as autoridades cheguem à insânia de proibir o petisco, terão de se haver com um novo Tiradentes.

As vendas na lanchonete da escola caíram muito este ano, e é com certo rancor que o diretor se refere ao que chama de “a questão do baleiro”: “Tudo o que eu deixei de vender no meu barzinho agora é ele que vende. Então os meninos consomem do mesmo jeito, só que o lucro mudou de mão. A gente já conversou, mas não tem jeito. É um problema em todas as escolas.”

Naquela tarde de quarta-feira, a merenda da escola era feijão tropeiro (sem torresmo e com bastante couve) e suco de polpa de abacaxi. Ainda que fosse ótimo o cheiro que vinha da cozinha, no início do recreio lá estavam as mãos dependuradas no portão, atrás de um complemento de açúcar e gordura. As vendas só não foram tão boas porque bem no meio do recreio desabou um aguaceiro. Os fregueses sumiram e Mauro correu para proteger a mercadoria.

Só um deles não suportou passar necessidade. No auge do toró, sua mãozinha solitária se agitou por cima do portão:

– Ô-Tio! Ô-Tiiiiôô!

Mauro não escutou os berros, já se refugiara no carro. A mão insistiu uns segundos e acabou desaparecendo escola adentro, cabisbaixa e molhada como um pintinho.



Nuno Manna

Nuno Manna é jornalista em Belo Horizonte.

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