esquina

Kendry quer ser rainha

A pequena candidata do povo

Paula Scarpin
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2015

Naquela tarde de fevereiro, só faltava uma infusão de eucalipto para a pequena sala coberta por telhas de amianto virar uma sauna. Ao centro, empunhando um cabo de vassoura, uma garota com roupa de lycra agachava-se repetidas vezes, sem derramar uma gota de suor. Em transe ao som de reggaeton, ela mantinha o olhar fixo no espelho. Há dois meses, Kendry Surmay Arroyo comparece todas as tardes àquela academia nos arredores de Cartagena, no Caribe colombiano. Kendry quer ser rainha.

Os reinados são concursos de beleza populares. Não há estatísticas, mas passam de uma centena em toda a Colômbia. Os temas podem ser específicos, como Rainha do Café ou Rainha do Atlântico, ou abrangentes, como Rainha do Folclore ou Rainha do Sol. A meta de Kendry é ser uma das representantes de seu bairro no concurso Reinado de la Independencia, organizado pelo Instituto de Patrimônio e Cultura da Prefeitura de Cartagena, o IPCC. O certame é o evento mais aguardado da Festa de Independência da cidade, no dia 11 de novembro.

Kendry Surmay mora no bairro Nelson Mandela, a quarenta minutos do centro histórico de Cartagena. A comunidade nasceu há vinte anos, depois de uma ocupação irregular de refugiados do narcotráfico. A família de Kendry foi uma das pioneiras no lugar – chegou ali dezessete anos atrás, quando a aspirante a rainha ainda engatinhava.

Seus pais tinham uma casinha confortável em El Líbano, no sul do mesmo estado, Bolívar. Um dia, receberam um aviso de que deveriam deixar a região. “Você não pode cumprimentar alguém que logo um grupo de narcos acha que você está mancomunado com o grupo rival”, explicou a mãe da pré-candidata, Candelaria Arroyo.

Desesperada, Candelaria aceitou o convite de um amigo, que hospedou a família no Mandela até que eles pudessem construir uma casa. Humilhado pela expulsão, o marido começou a beber e tornou-se violento. A mulher o botou para fora e terminou com as próprias mãos a casa de alvenaria. Desde então, trabalha como cabeleireira e manicure, e aplica cada centavo na carreira da filha.

A ambição de Kendry faz jus ao investimento. Sentada na varanda de casa, entre um gole e outro de um refrigerante rosa fluorescente, sabor maçã, a garota declarou: “Quero ser uma das mulheres mais famosas do mundo, e a melhor advogada da Colômbia.” Kendry cursa o 2º ano de direito numa universidade privada, pagando o equivalente a 2 500 reais por semestre. O curso é noturno, e todos os dias, às onze da noite, a mãe a espera no ponto de ônibus.

Cenário de disputa de gangues no passado, o bairro vive dias menos conflagrados. São raros, porém, os moradores que não testemunharam a violência. A comunidade de 40 mil habitantes se espraia por ruas e becos de terra, que ônibus e mototáxis cruzam a toda velocidade, empoeirando a vegetação, as casas de cores intensas, as roupas estendidas no varal, as pessoas que se esgueiram no meio-fio. Por ser o terceiro maior bairro de Cartagena, Nelson Mandela pode ter duas postulantes a Rainha da Independência. A escolha das representantes será em junho.

 

“Abaixa mais, para trabalhar a região dos glúteos”, ordenou um rapaz sentado em uma pilha de colchonetes. Gordinho, com um discreto moicano cacheado modelado com gel, Edson Nisperuza tem 23 anos e é preparador de rainhas. Kendry é sua terceira candidata. Em 2013, ele treinou a prima dela, que obteve o terceiro lugar, sagrando-se Primeira Princesa. No ano passado, tentou lançar a própria irmã, que não conseguiu nenhum título. Agora Nisperuza procura reverter o jogo, começando o treinamento com quase um ano de antecedência. O pai escolheu seu nome em homenagem a Pelé, esperando que o filho se tornasse um rei do futebol. “Não foi o que aconteceu, e ele nunca me pressionou”, disse.

Enquanto conversávamos na academia, chegou um rapaz com uma camiseta pink colada ao corpo musculoso. Fez cara de poucos amigos ao avistar Nisperuza. O fortão era o preparador de rainhas do bairro vizinho. “Ano passado eu peguei leve com você porque tinha sangue envolvido. Agora, como não é sua irmã, se prepara”, advertiu. Nisperuza deu um sorriso amarelo, evitando passar recibo da ameaça, mas o rival emendou: “Além disso, essa daí é muito miudinha.”

Kendry Surmay pesa 42 quilos e mede 1,60 metro – franzina, a garota de 18 anos aparenta 13, se tanto. A baixa estatura, um empecilho para as misses convencionais, não deve atrapalhá-la na disputa pelo reinado popular, cujas regras estéticas são mais elásticas. E seus traços indígenas contarão a seu favor.

 

De acordo com Margoth Castro, coordenadora de eventos do IPCC, as rainhas devem representar a raça e a cultura colombianas. Enquanto as candidatas a Miss Colômbia costumam ser brancas, nos reinados a maioria das moças é de origem indígena ou africana. Uma representante do Mandela no Reinado de la Independencia de 2014 foi muito elogiada pelos cabelos crespos naturais. Ficou em quarto lugar e deve participar da disputa pelo Reinado Nacional de la Afrocolombianidad.

Em tese, não há nada que impeça uma moça pobre de concorrer ao título de Miss Colômbia, assim como não há regras que proíbam a candidatura de uma patricinha a um reinado. Na prática, entretanto, os concursos pertencem a mundos distintos. Questionada se seu modelo era Paulina Vega, a primeira colombiana em mais de cinquenta anos a ganhar o Miss Universo, Kendry fez uma careta como se tivesse experimentado uma fruta azeda. Dois segundos mais tarde, numa demonstração de nobreza ensaiada, disse: “É uma moça muito bonita e determinada, que alcançou seus objetivos.” Feito o gesto diplomático, prosseguiu: “Mas não, não quero ser Miss Colômbia. Não tenho o perfil, e aspiro a outras coisas para a minha vida.”

Se a eleição fosse pelo voto popular, Kendry teria boas chances. Celebridade no bairro, na volta da academia ela parava a cada 100 metros para cumprimentar efusivamente algum conhecido. Os desconhecidos também não se faziam de rogados. A garota provocou torcicolos quando passou por um grupo de mototaxistas. “Qué rica estás, mamita!”, gritou um deles. Kendry e Nisperuza deram risada, e seguiram abraçados, num misto de cumplicidade e proteção.

Paula Scarpin

Paula Scarpin é repórter da revista desde 2007 e diretora da rádio piauí

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