esquina

#LaGrandeFolie

Uma noite diferenciada

Sofia Mariutti
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2015

“La Grande Folie: um baile de máscaras aos moldes dos que eram comemorados na Versalhes de Maria Antonieta e Luís XVI, com toques de cabaré.” Assim a Vogue deu o tom de seu último Baile de Gala e Fantasia, “a festa pré-Carnaval mais glamorosa da cidade”, segundo o site da revista. A edição de 2015, que ocorreu numa quinta-feira do início de fevereiro no Hotel Unique, em São Paulo, ainda celebrava os 40 anos da publicação no Brasil.

No aquecimento para o bal masqué havia uma novidade em relação às festas anteriores: dois dias antes do evento, os cerca de 1 500 convidados deviam se deslocar até o café Chez Oscar, à rua Oscar Freire, para um “inédito cadastro biométrico” que garantiria sua entrada na grande noite. O procedimento todo lembrava o registro de digitais para saques em caixas automáticos, ou a primeira visita a um prédio de serviços – onde se vai, por exemplo, ao dentista –, com um toque de exclusividade. Uma espécie de RSVP presencial.

No café, um longo tapete vermelho conduzia a um balcão onde o convidado apresentava um documento com foto. Reconhecido na lista e identificado com uma pulseirinha de acesso VIP, ele seguia de elevador até o 1º andar. Numa sala ampla, algumas mulheres estavam a postos para cadastrar as digitais do dedão e do indicador da pessoa, bem como registrar seu rosto numa foto. Então, num golpe certeiro, munidas de uma tesourinha, as hostesses cortavam a pulseirinha recém-colocada e a jogavam no lixo. Por fim, uma outra recepcionista informava sobre o transporte no dia da festa, oferecido pelo Uber, um serviço “diferenciado”, segundo ela, que conta com água nos carros e motoristas que “abrem e fecham a porta para os passageiros”.

Circulou que cinquenta convidados frequentavam uma lista über VIP que os dispensava do cadastro prévio; poderiam se apresentar diretamente no saguão do Unique. Na hora H, porém, quem não tivesse providenciado o reconhecimento biométrico deveria fazê-lo ali mesmo, na recepção. O importante era que cada um adentrasse aquele universo com sua digital – diferenciada e exclusiva.



 

A produção dos trajes também começou dias antes, como mostrava o Instagram sob as hashtags #bailedavogue2015, #bailevogue2015 e #lagrandefolie, com mais de 20 mil postagens, uma média de treze fotos por convidado. Mulheres faziam a última prova de vestidos encomendados para a ocasião, compravam acessórios ou tiravam selfies diante do espelho do salon de beauté eleito para a data, as grifes devidamente creditadas. Todos procuravam seguir as referências fornecidas pela Vogue: “A noite será tingida de vermelho, preto e dourado, simbolizando a sedução, a elegância e o luxo.”

Na tão esperada soirée, depois de passar pelo reconhecimento da digital, todos eram adornados com duas novas pulseirinhas VIP. Quem temia que o celular pudesse ficar sem sinal no subsolo do hotel logo se tranquilizava ao receber um cartão com a senha de wi-fi do ambiente – as postagens estariam garantidas ao longo da noite. Um amplo painel exibia os nomes dos investidores por trás da festa suntuosa, como BMW, Elo, Kérastase e Havaianas, e servia de pano de fundo para as fotos que eram tiradas a cada chegada, seguindo o protocolo do red carpet. Arranjos de penas vermelhas e máscaras douradas enfeitavam o salão e ficavam disponíveis aos foliões desprovidos de acessórios próprios.

O bar oferecia drinks preparados com Elyx, a vodca prime – “produzida com a combinação perfeita de trigos selecionados a mão e água filtrada, destilada naturalmente” – da patrocinadora Absolut. Ao banquete frio, disposto em longas mesas decoradas com buquês de rosas vermelhas, somavam-se “picolés fashionistas” em edição limitada, distribuídos em carrinhos da parceria Magnum e Dolce & Gabbana, com embalagens desenhadas pelos estilistas. E, la crème de la crème: à saída, brindes igualmente únicos da Perrier, Melissa, Heineken e Kopenhagen forravam as mesas, aos montes.

Camila Coelho, a imperatriz das blogueiras de moda, com 2,4 milhões de seguidores no Instagram, apareceu de Sissi. “A Alfreda fez o vestido exatamente como eu imaginava – feminino e super princesa!”, declarou em seu blog, Super Vaidosa. Sabrina Sato, apresentadora da Record, inspirou-se nas dançarinas parisienses de cabaré para montar seu look Crazy Horse, um seminu que deu o que falar. Sem fantasia, Ronaldo Fenômeno exibiu sua nova partner, uma modelo loira de 23 anos. A cantora Anitta não deu bola para a atmosfera versalhesa e foi de Michael Jackson. Todos desfilavam a mais haute couture.

 

Grande atração da noite, Ivete Sangalo subiu ao palco com um vestido exuberante, cuja confecção, segundo o site da revista, demandou 790 horas e ocupou onze pessoas. Com 6 metros de zibeline, 50 metros de organza, 20 metros de boás de plumas, 6 metros de cetim, cerca de 4 quilos de vidrilhos, 1 640 cristais e 100 metros de tule, a peça foi estimada em 46 350 reais.

Suando em bicas sob as muitas camadas de tecido, num certo momento a rainha do axé parou de dançar e cantar com seu costumeiro vigor e declarou que o baile estava “chique”, “chiquérrimo”, “cheio de gente chique e bonita”. E então agradeceu ao estilista Sandro Barros pelo vestido: “Vocês sabem, né, gente, com a quantidade de brilho que tem na saia, quando acabar o baile, vou leiloar – dá pra passar o ano inteiro de férias.”

Nos dois cantos do salão, os mais famosos assistiam ao show em camarotes, postados num plano superior. Eram detentores de uma terceira pulseira ainda mais exclusiva. No banheiro, as mulheres retocavam suas produções. Quem passasse por ali ouviria frases como “Meu body abriu aqui embaixo, agora preciso fechar, mas não consigo alcançar os botões com essa fantasia.”

Alguns dias depois, Sophia Alckmin estampava a página de uma coluna social dedicada ao baile. Diante das perguntas sobre a crise da água, a filha do governador Geraldo Alckmin, que também é blogueira, imbuída do espírito Maria Antonieta que ditava o dress code, revelou: “Estou fazendo muita coisa para economizar. Não lavo mais o cabelo todo dia. Agora uso xampu a seco.”

Sofia Mariutti

Sofia Mariutti é poeta, editora e tradutora paulistana.

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