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Leitor bota a boca no trambone: piauí evidencia abismo cultural

OTIMISMO

Excelente o artigo de André Lara Resende na piauí_76 (“A propósito do otimismo”, janeiro). Conheci a revista no final de 2011, e desde então tem sido leitura mensal obrigatória para mim. Sobre o artigo, compartilho de algumas das críticas do autor ao livro The Rational Optimist.

Uma pequena ressalva: o autor critica a teoria de Matt Ridley em relação aos chamados “bens públicos”, aqueles “cujo custo coletivo do consumo não é passível de ter preços determinados pelo mercado”. E afirma: “Qualquer aluno do curso básico de microeconomia deveria saber disso.” Dentro das hipóteses clássicas presentes em um curso de microeconomia, o argumento é válido. Entretanto, dado que o livro ganhou o Prêmio Hayek (sugerindo assim que o background teórico está ligado ao trabalho do austríaco), é importante entender o conceito de “mercado” dentro da visão “hayekiana”, isto é, um processo de coordenação, dentro de normas institucionais, fruto da ação humana, mas não do desígnio humano. Não se trata do conceito clássico e mais estrito de local onde compradores e vendedores se encontram. Sendo assim, existe uma bibliografia razoável que explora como o “mercado” (entendido de maneira “hayekiana”) pode, sim, solucionar problemas de bens públicos. Eu destacaria, por exemplo, o trabalho da vencedora do Prêmio Nobel Elinor (Lin, para os íntimos) Ostrom, no seu livro Governing the Commons, de 1991.

MATHEUS ASSAF_NITERÓI/RJ



 

O texto de André Lara Resende me despertou diferentes sensações durante a leitura. Após alguma reflexão, cheguei a duas conclusões. Primeira: ele deve morar na Holanda ou na Alemanha, onde há um grande número de ateus e agnósticos deprimidos pelo frio. Pelo que conheço do Brasil e do resto do mundo, bem poucos abriram mão das crenças religiosas citadas pelo autor, e, portanto, as generalizações dele, com muita generosidade, podem ser aplicadas ao Ocidente europeu, e olhe lá. Segunda: recorrer ao Iluminismo para defender uma tese é brincadeira. Ele precisa urgentemente vencer esses 300 anos de defasagem na filosofia, afinal Sartre, Camus e Bauman já falaram exaustivamente, e de forma muito mais satisfatória, sobre esse sentimento de que “precisamos desesperadamente encontrar um sentido para a existência”.

DANIEL XIMENES LOPES_RIO CLARO/SP

 

Parabéns à piauí, que iniciou o Ano-Novo com o pé direito, presenteando o assinante com o texto primoroso do economista André Lara Resende. O autor retoma um tema recorrente em seus últimos ensaios, alguns publicados no Valor Econômico, abordando a questão dos limites físicos do planeta e a irracionalidade do crescimento econômico desenfreado, que redundará num enorme desastre ambiental caso não ocorra uma urgente conscientização do problema e não sejam promovidas mudanças profundas no comportamento humano para a correção de rumo, enquanto há tempo.

DIRCEU LUIZ NATAL_RIO DE JANEIRO/RJ

 

MADALENA

Ao ler na piauí a conhecida passagem da madalena de Marcel Proust (“Madalenas idas e vividas”, piauí _76, janeiro), me veio à lembrança uma pouco conhecida passagem de Clarice Lispector, no romance O Lustre, que costumo chamar de “Licor de anis”. Ali encontramos a inspiração ou a respiração proustiana maravilhosamente assimilada e transformada pela grande escritora brasileira, então com 26 anos. Infelizmente, será impossível servir o licor de anis aqui. Pelo menos, servirá como indicação de leitura para os interessados em degustar, na hora do lanche ou após o jantar, o licor e o bolinho, conjuntamente. Quem sabe uma epifania não dará o ar de sua graça?

ARMANDO FREITAS FILHO_RIO DE JANEIRO/RJ

 

Excelentes os dois artigos de Mario Sergio Conti sobre Proust (“Há uma santa com seu nome”, piauí_76, janeiro, e “Proust, do pêndulo ao calendário”, piauí_65, fevereiro de 2012). Faltou a relação de Proust com o Brasil. Quando será publicada sua tradução? Espero que ele traduza jeune fille por jovens e não por moças em flor!

HAROLDO MARQUES_BELO HORIZONTE/MG

 

NOTA DA REDAÇÃO: Monsieur Conti manda dizer que oui, o leitor tem seu ponto. Dependendo do contexto, ele traduzirá tanto por “jovens” como por “meninas” em flor.

 

MENSALÃO

Sou advogado e, data venia, não compartilho das opiniões dos doutos, famosos e milionários defensores dos “mensaleiros” (“Enfim, terminou”, _76, janeiro). Por terem se acostumado, desde sempre, com a impunidade dos poderosos, por certo imaginavam que ela perduraria ad infinitum.

JOSÉ ANÍBAL SILVA SANTOS_TEÓFILO OTONI/MG

 

DENGUE

Ao ler a matéria “A solução do mosquito” (piauí_76, janeiro), consegui enxergar mais coerência na defesa do método proposto de modificar geneticamente o Aedes aegypti na tentativa de exterminar os mosquitos transmissores e as doenças que eles carregam. Os argumentos contrários me soaram alarmistas e sem arcabouço teórico suficiente que os justifique.

Porém, não pude deixar de sentir um calafrio ao me lembrar do filme A Mosca. Nele, um cientista testa uma máquina de teletransporte de matéria, e inadvertidamente permite que uma mosca entre na câmara junto com ele. Quando se dá a reintegração, o DNA do cientista se funde com o do inseto, dando início a uma perigosa mutação genética.

Fiquei imaginando meu vizinho barulhento transformado em um mosquitão, lavando o carro no sábado à tarde, ao som de Michel Teló.

 RONALDO SILVA ROSA_VOLTA REDONDA/RJ

 

DILMA E A RÚSSIA

Deve ter sido licença poética do redator do Diário da Dilma (“Quem não dança balalaica que cuide do samovar”, piauí_76, janeiro). Se não foi, a frase deveria ser “quem não toca balalaica que cuide do samovar”.

TAUXO FRANCISCO DOMINGUES_RIO DE JANEIRO/RJ

 

NOTA DA PRESIDENTA: Meu querido, pior do que ser pega num erro crasso (você está certo quanto à balalaica) é ser taxada de impostora. Se não delego quase nada (da última vez que deleguei, deu no Pibinho), por que entregaria meu diário a um redator, que, ainda por cima, comete licenças poéticas?

 

CAPA & TOMATE

Para estrear 2013, a piauí escolheu magnificamente a sua capa. Arrisco-me a dizer que é a melhor de todos os tempos.

FLÁVIO SANTOS DE SOUSA_VOLTA REDONDA/RJ

 

Não consigo parar de rir, chego às lágrimas cada vez que releio “Demonstração experimental da organização tomatotópica em sopranos” (piauí_75, dezembro de 2012). Já presenteei amigos com exemplares. A revista é sempre ótima. Mas esse artigo é hilário, brincando com as parafernálias acadêmicas, as falsas pesquisas, as citações bibliográficas.

Georges Perec, quem quer que você seja, receba meus aplausos risonhos. Que delícia encerrar o ano de 2012 lendo e relendo você. Deus seja louvado! E Perec abençoado!

CYANA LEAHY_NITERÓI/RJ

 

Ao deparar-me com “Demonstração experimental da organização tomatotópica em sopranos”, o subconsciente me remeteu instantaneamente aos “anos de chumbo” da ditadura, quando a imprensa divulgava textos tão impróprios e escrachados que a mensagem era límpida e direta – a matéria que seria aqui publicada foi suprimida pela censura. Mas não vivemos mais sob censura, que não a dos patrões da mídia, que omitem ou só publicam verdades e meias verdades, no seu espúrio e adúltero interesse.

Munido de estoicismo, continuei a leitura, e a segunda imagem que me veio foi a dos contêineres de lixo (seja físico, social, político ou cultural) que aqui aportam regularmente. Ao fim, perdura a inequívoca sensação de que fui objeto de estelionato praticado pela revista piauí. Como não tenho a quem me queixar, só peço mais respeito aos leitores.

JOSÉ ACÁCIO MELO_MACEIÓ/AL

 

Maravilhosa a edição da piauí_75. Quando for assim, lancem uma edição quinzenal porque eu leio tudo em dois dias e fico sem nada para ler no banheiro. Só o que estragou a revista foi a seção Questões lírico-balísticas (“Demonstração experimental da organização tomatotópica em sopranos”). Totalmente dispensável, nem a revista MAD publicaria. Pior que o Gotlib (acho até que foi ele quem escreveu e utilizou um pseudônimo para poder voltar à revista).

BERNARDO REINHARDT DESERT MENEZES_CURITIBA/PR

 

NOTA DA REDAÇÃO: José, se a Cyana conseguir parar de rir, a gente pede para ela te explicar por que publicamos o texto.

 

GELADA

Gostaria de alertá-los quanto a um pequeno equívoco em piauí_75, de dezembro de 2012. Na matéria “Cristina em metamorfose”, no parágrafo quinto, se diz que “Néstor governou a província de Santa Cruz, bem ao sul no mapa, abaixo da Patagônia onde venta e faz frio”. Quando, na verdade, Santa Cruz está na Patagônia.

Parabéns pela revista, a única em que encontro quase tudo que quero. Só acho que deveriam publicar mais sobre cinema.

GABRIEL DE MELLO BROSSI_FRANCA/SP

 

NOTA DA REDAÇÃO: Está certíssimo, Gabriel: Santa Cruz fica no sul, e não abaixo, da Patagônia.

 

QUESTÕES DA BOLA

Gostaria imensamente de saber a opinião de nosso querido Nuno Ramos a respeito da vitória do Corinthians sobre o Chelsea na final do Mundial de Clubes, e sua interpretação sobre o artigo que publicou em piauí_66 (“Depois do 4 x 0”, março de 2012). Nele, abordou o baile sofrido pelo Santos no fatídico 18 de dezembro de 2011, com Messi e companhia atuando pelo Barcelona. Dizia ele que era “preciso situar este jogo como um trauma, um antes e um depois, um sinal de que alguma coisa estranha está acontecendo com o futebol brasileiro”.

Pois bem, como um castigo, o time da Marginal calou o mundo (e seus rivais, isto é, o resto do mundo), conquistando o título do torneio e assegurando seu lugar na história com uma das melhores equipes do futebol mundial.

Em parte, tal conquista coloca sub judice o teor da crítica elaborada por Ramos, pois não é certo afirmar que nosso futebol pouco se adaptou à evolução do futebol praticado pelo mundo afora. Pelo contrário, a experiência do Corinthians no ano de 2012 demonstrou que o pragmatismo alemão se adaptou bem em terras tupiniquins. Por outro lado, isso nos leva a crer que hoje se torna cada vez mais indiscutível que a reconquista de nosso orgulho pátrio esteja passando pelo lugar-comum de refazer o feijão com arroz ensinado por Parreira em 1994.

A quem acredita ou paga para ver que Felipão e Parreira vão revolucionar na Seleção é melhor ter em mente o que se espera do futebol brasileiro daqui pra frente: pés no chão. Como anfitriões da próxima Copa, o mundo todo quer ver o “futebol-arte e alegre dos nossos talentos”. Nós queremos o título. Que escolha faremos só o tempo dirá. E como o tempo urge, o Corinthians nos deu um bom exemplo do caminho a seguir.

BRENO RODRIGO DE OLIVEIRA ALENCAR_BELÉM/PA

 

NOTA DA REDAÇÃO: Breno, pedimos ao Tostão que respondesse, ao menos em parte, às tuas dúvidas. Como a resposta é longa, nós a deslocamos para a página 16.

 

SÃO FRANCISCO

A matéria de capa de piauí_75 (“Era uma vez a transposição”, dezembro de 2012) é interessante, especialmente para quem mora no semiárido e enfrenta a estiagem. Lendo o livro Vida e Morte no Sertão, de Marco Antonio Villa, vemos que “em 1998, no Ceará, dos 8 mil açudes [existentes], somente 95 eram públicos, e o pior é que os 7 905 restantes foram quase todos construídos com dinheiro público”. Ou seja, apenas 1,2% é público. Marco Villa não indica a fonte desses dados.

São açudes situados em terras de grandes fazendeiros, construídos com dinheiro público e mão de obra semiescrava – dos “flagelados”.

A certa altura, “Era uma vez a transposição” cita palavras do engenheiro: “O canal vai ser cercado, para não entrar animal, para não entrar população. […] A população não vai ter acesso à água diretamente. Vai ter unidades de acesso, mas isso aqui não vai ser um rio para quem quiser vir e pegar água.”

Imagino cercas e paredões isolando os canais. Os sertanejos longe das suas margens. O rio artificial, ou rio São Francisco II, isolado do sertanejo. Haverá patrulha da água? Guardas armados impedindo o acesso à água? Por que não cercam e privatizam logo todo o rio São Francisco?

GEVILACIO DE MOURA_PIEMONTE DA DIAMANTINA/BA

 

28 REAIS

Vinte e oito reais foi o que eu gastei com a revista piauí em seus sete anos de existência. O equivalente a duas edições, para ser mais exato.

Os primeiros 14 reais foram na piauí_65, de fevereiro de 2012, em uma edição que comentava os meandros da crise de 2008 sob a ótica da Islândia (“A ilha-laboratório”) e que trazia também uma HQ do casal Crumb que fazia jus ao investimento. Os segundos 14 reais foram na piauí_75, de dezembro de 2012. Deparei-me com uma revista sem pé nem cabeça, comunicação desconexa, falha, ruídos. Um calor de 36 graus com sensação térmica de 40 graus – nem uma linha, nem um parágrafo, nem uma ilustração, nem a prazerosa HQ final da revista me fizeram esquecer do calor. Como bom brasileiro trabalhador, logo penso que a culpa é minha, me faltava um ventilador, um pouco mais de estudo e uma dieta com menos açúcar e carboidratos. E pronto, ali estaria eu “à altura” de ler e apreciar tal fenômeno editorial do Brasil. Mas aí chego à seção Cartas, e me deparo com as respostas da redação: curtas, grossas, mal-educadas, irônicas e com um grau de sarcasmo.

A piauí evidencia hoje o abismo intelectual e cultural em que vivemos, endossa o buraco negro da educação que afeta milhões que não têm acesso a ela. Feliz oitavo ano à redação.

MAURICIO BRANCALION_SÃO PAULO/SP

 

NOTA DA REDAÇÃO: Brancalion, quem tem piauí não precisa de ventilador. Use-a como leque.

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