cartas

Leitor revoltado & revista visionária

A MÉDICA E OS MORTOS

A excelente reportagem de Daniela Pinheiro sobre a médica Virgínia Soares de Souza (“A doutora”, piauí_81, junho) nos obriga a profundas reflexões sobre o trabalho da imprensa na cobertura de questões complexas. No caso, essas questões envolvem o conhecimento de procedimentos médicos numa Unidade de Terapia Intensiva e as barreiras representadas pelo próprio corporativismo da categoria, além do conhecimento específico do caso de cada paciente e de sua gravidade. É muito perigoso querer julgar a pessoa pela aparência física. Isso se soma aos depoimentos de desafetos que se sentiram prejudicados sob o comando da médica e procuraram vingança.

A cautela deverá preceder qualquer julgamento precipitado, sob o risco de repetir-se o ocorrido em 1994, no caso da Escola Base, em São Paulo, quando proprietários e funcionários dessa instituição de ensino privada foram injustamente acusados de abusar sexualmente de crianças de tenra idade.

Embora a doutora em questão demonstre muita segurança e competência em sua carreira profissional, alimenta contra si uma carga de antipatia, principalmente de subordinados, em função de sua arrogância pessoal. Só que isso não é crime, e é importante que piauí tenha veiculado a matéria, pois a grande maioria das pessoas, eu inclusive, já a havia condenado sumariamente, motivadas por reportagens dirigidas.

DIRCEU LUIZ NATAL_RIO DE JANEIRO/RJ

MENSALÃO

A artista Kátia Rabello (“A banqueira”, piauí_81, junho), ao adentrar no mundo dos banqueiros, deveria ter escutado os ensinamentos de Raul Seixas: “Se quer entrar num buraco de ratos, de rato você tem que transar.”

JOSÉ ANÍBAL SILVA SANTOS_TEÓFILO OTONI/MG

Quando li a reportagem “A banqueira”, fiquei pensando no julgamento do mensalão. Foi aquele estardalhaço, alguns foram condenados e até agora ninguém foi preso. Parece que o julgamento foi uma farsa, uma brincadeirinha. Se fosse um cidadão que roubasse um pacote de bolacha para não morrer de fome, já estaria mofando nas masmorras brasileiras. Parece que a Justiça tem pena de botar na cadeia quem usa paletó e gravata.

WILSON PEREIRA DE SOUZA_TABOÃO DA SERRA/SP

BECKETT JOVEM

Tenho de discordar do ótimo Nuno Ramos (“Esperando Beckett”, piauí_81, junho) quando ele diz que “a nitidez de contorno” caracteriza a obra do meu querido Beckett. Nitidez, nada. De tão pouco rebuscado, ele é impossível de decifrar, e se o reconhecemos aqui e acolá isso se dá mais pela fórmula de exiguidade que ele entronizou para si mesmo do que pelo acesso frutífero a algo por detrás de sua máscara.
Dá-me náuseas ter de carregá-lo, eu que amo tanto sua obra que mal consigo dela me desapegar. Nesse sentido, só pôde me irritar ler que o próprio Beckett, conscientemente, disse haver percebido que “seu próprio caminho estava no empobrecimento”. Não há apenas isso lá; há mais, e, como está escondido, nos puxa para dentro de um buraco negro do qual poucos conseguem sair. “Viajei”, né?

RODRIGO CONTRERA_TABOÃO DA SERRA/SP

NOTA DA REDAÇÃO: Sim.

 

GRANDE IRMÃO

A piauí é visionária agora? Mesmo antes da divulgação da invasão de redes pelo governo dos Estados Unidos, a revista já trazia vários sinais do Big Brother, indicando que sabia de tudo! O conjunto de cartas de George Orwell, dez anos antes de escrever 1984, foi o primeiro sinal (“Espero sair com vida para escrever”, piauí_81, junho). Um detalhe chama a atenção: o alter ego de Eric Blair [o verdadeiro nome de Orwell] diz que no futuro todos serão baleados, prevendo uma realidade corrente de nossas ruas.
Além disso, para não deixar dúvidas do lado Mãe Dináh de piauí, o perfil do ex-hacker e espiador Wanderley Abreu Junior, muito bem traçado por Paula Scarpin (“O céu de Wanderley”, piauí_81, junho), completa o código do Grande Irmão, revelando que ele continua nos bisbilhotando, se não pelos computadores alheios, pelo menos pelo espaço aéreo. Mesmo correndo o risco de ter meus segredos devassados, fiquei intrigado com essa constância de brasileiros envolvidos em grandes projetos das redes de informação e também com o programa SETI@home: será que caí na armadilha de deixar meu computador trabalhando com esse programa à toa?

ADILSON ROBERTO GONÇALVES_LORENA/SP

NOTA DA REDAÇÃO: Sim.

 

ADEUS AO BOLA

R.I.P. Fiquei muito chateada com a morte do Bola (“O último churrasquinho”, piauí_81, junho). Fazer o desfecho da pequena história desse grande homem mostra que a piauí exerce sua cidadania com excelência! Sucesso!

ANA CLARA ROMANELLI DA COSTA_SÃO PAULO/SP

Sou assinante da piauí há três anos, e li todas as demais revistas anteriores que pude encontrar nos sebos aqui na minha cidade, Criciúma, no sul de Santa Catarina.

Escrevo simplesmente para lhe agradecer, Laís Coelho, pelo texto da seção Despedida na piauí de junho. Encerrar a leitura com um baita texto desses me faz pensar que o bom e velho jornalismo ainda sobrevive.

ALEXANDRE CABREIRA_CRICIÚMA/SC

MAIS HUMOR

Estou escrevendo pra criticar (construtivamente, como todos os críticos reivindicam) a piauí_80 (maio). Apesar de alguns artigos interessantes, ela está chatinha, chatinha. A matéria principal, o perfil do ministro Padilha (“Padilha, a missão”), parece um texto institucional. Apesar do valor histórico de um perfil sobre alguém que pode ser o próximo governador de São Paulo, o resultado da matéria mais parece exaltar a figura, e deve ter agradado muito o próprio Padilha – o que imagino não era o objetivo da revista, nem da repórter.
A matéria sobre o demógrafo José Alberto Magno de Carvalho (“O enigma e o demógrafo”) está bem mais interessante, mas faltou aquela ironia e humor que são típicos da piauí. Aliás, mais parece que os editores da revista esqueceram a ironia e o humor em casa nessa edição. Alô, piauí! Até as “esquinas” saíram sem brilho. Ou eu não entendi: será que a revista estava querendo fazer uma referência subliminar ao texto “Ilusões perdidas”, que fala sobre a decadência do jornalismo?

MÁRCIO GARONI_SÃO PAULO/SP

NOTA DA REDAÇÃO: Não somos capazes de fazer referências explícitas, que dirá subliminares…

 

Piauienses, Millôr morreu, mas será que já não está na hora de deixar o luto de lado, colocar o fraque e a cartola e sair para tomar um banho? Desde o excelente estudo sobre os benefícios do uso tópico do tomate (“Demonstração experimental da organização tomatotópica em sopranos”, piauí_75, dezembro 2012), não se vê uma porra-louquice esperta por aqui. É a datenização da piauí. Quanto à médica Virgínia (“A doutora”, piauí_81, junho): talvez agora ela aprenda o valor sem paralelo de uma nota de 3.

VICTOR JOSÉ DE SOUZA TEODORO_SÃO PAULO/SP

NOTA DO SINDICATO NACIONAL DOS SOPRANOS: Então o senhor se divertiu com aquele ensaio, não é? Pois saiba que, desde sua publicação irresponsável, cinco de nossas mais valorosas sopranos foram atingidas por tomates, uma delas enquanto fazia as unhas, uma outra no palco, segundos antes de alcançar o famoso fá em “Il dolce suono”, de Lucia di Lammermoor. Sofreu uma hemoptise e está no pulmão mecânico.

 

MARX NÃO MORREU

Quero manifestar minha revolta com o artigo de Mario Sergio Conti a respeito de Marx (Esquina, “Movido a ventos contrários”, piauí_80, maio) e sua afirmação de que as ideias de Marx devem ficar no museu das coisas muito mortas. As ideias de Marx sobre o fetichismo da mercadoria, alienação e sua explicação do sistema capitalista não encontram paralelo até hoje.

Basta uma análise do contexto atual para se perceber que o capitalismo ainda se guia pelos mesmos conceitos criticados BRILHANTEMENTE por Marx em O Capital, volume 1. Sua afirmação, no Manifesto Comunista, de que o capitalismo se expandiria foi uma previsão da globalização sem limites de hoje. Além disso, cabe ressaltar que em O Capital Marx usa de forma pioneira a metáfora e a paródia para criticar diversos autores e sistemas político-econômicos. Suas centenas de citações revelam um autor erudito que, como ressalta Robert Heilbroner, “leu e criticou todos os economistas de sua época” e o fez sem piedade.

Basta uma leitura de Erich Fromm, Leandro Konder, Eric Hobsbawm, Perry Anderson e, claro, de TODA a obra de Marx para percebermos a atualidade e o alcance de suas ideias. Marx construiu brilhantemente suas ideias ancoradas nas teorias de Hegel, Fichte e Feuerbach, como forma de mostrar que, ao perder o controle sobre sua produção, o ser humano perde o controle de sua própria vida, visto que esta fica sem sentido, sem finalidade, ou seja, ele torna-se uma coisa, uma máquina cuja vida limita-se a tarefas mecânicas. Vai me dizer que isso não é atual, senhor Mario?

Sim, isso continua real, bem como a teoria de Marx de que a classe que domina economicamente domina politicamente. Basta uma simples análise do sistema atual para percebermos que o poder econômico anda de mãos dadas com o domínio político, influenciando suas leis, a educação e por aí vai. Portanto, o materialismo histórico continua válido e atual.

O argumento surrado e sem embasamento de que Marx queria aquela nojeira que vicejou na União Soviética, na China, em Cuba e quejandos é totalmente infundado. Marx e Engels também não sabiam como fazer a transição do socialismo para o comunismo. Marx nunca deu a receita de como governar um Estado socialista.

MAURÍCIO ANTUNES ARIEDE_SÃO MATEUS DO SUL/PR

NOTA DA REDAÇÃO: O senhor Conti declinou de responder porque, na tentativa de entender os últimos acontecimentos, está absorto na leitura das obras completas de Ayn Rand e Gabriel Chalita.

 

JORNALISMO

Parabéns pelo artigo brilhante de Graciela Mochkofsky (“Ilusões perdidas”, piauí_80, maio). No fim das contas, talvez o jornalismo não lucrativo virtual de qualidade seja uma necessidade. O que nos resta é esperar que as mudanças sejam mesmo para melhor, que nos ofereçam um diálogo mais imparcial e interativo. Quem sabe até o novo jornalismo não funcione em parceria com a mídia impressa, como já tem acontecido com a New Yorker (e a piauí).

BRUNA DANTAS LOBATO_NATAL/RN

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