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cartas_uniformes e peixes ornamentais

PARECE QUE FALTA OXIGÊNIO NO AR

Aprendi com o mestre Ariano Suassuna: coloca-se sempre o artigo “o” antes de “Recife”. Portanto, diz-se do Recife, no Recife, e assim por diante. Como uma revista do gabarito da piauí erra tão estrondosamente ao escrever a cidade “de Recife” (“Parece que falta oxigênio no ar”, piauí_41, fevereiro 2010)?

EDNALDO PATRICIO DE SOUZA_RECIFE/PE

NOTA DA REDAÇÃO: Faltamos justamente a essa aula de Ariano Suassuna. Para compensar, repórteres e revisores têm por tarefa ler pelo menos O Castigo da Soberba.

 

CONTO “DOCHERA”

Eu estava lendo a edição 42 como se fosse um livro, um texto depois do outro, sem pausa. Tão sem pausa que li mais da metade do texto de Edmundo Paz Soldán, “Dochera” (piauí _42, março 2010), pensando que fosse uma matéria jornalística e adorando a figura do senhor que escrevia palavras cruzadas para um jornal.

Só estranhei quando cheguei no seguinte trecho: “As luzes da rua se acenderam, seu fulgor alaranjado substituindo palidamente a perdida luz do entardecer.” Me pareceu tão poético que dei uma olhada pela página e lá estava, no canto esquerdo do alto, a palavra “ficção”. Ri da minha cara e pensei: “Poxa, o pessoal da piauí escreve tão bem suas matérias que nem notei a diferença entre jornalismo e literatura.”

JANAINA P. M. DA ROSA_GOIÂNIA /GO

 

CASO SEAN

Vem cá, o sr. Sergio Tost(in)es é fresquinho porque é torradinho, ou é torradinho porque é fresquinho? A carta que ele escreveu à revista (piauí_ 42, março 2010), alegando que a questão judicial do “Caso Sean” não havia ainda terminado, é de uma arrogância sem precedentes. E ainda jactou-se (“E, mais,…”) da decisão provisória do ministro Gilmar Mendes, além de ter frisado que a decisão do Tribunal Federal do Rio de Janeiro está sujeita a recurso ao STF, que, segundo ele, poderá revertê-la totalmente.

Diante de tanta soberba, me lembrei de uma fala do maravilhoso ator Robert Duvall, em A Qualquer Preço. No filme, Duvall encarna um advogado astucioso e competente, Jerome Facher, que diz que “o maior peso para um advogado é o seu próprio orgulho”. O orgulho, diz ele, “perdeu mais casos que provas ruins, testemunhas idiotas e um juiz cruel juntos. No Tribunal, não existe lugar para orgulho”, sentencia Facher.

ANA FRANCO_BRASÍLIA/DF

 

COCEIRA

O cirurgião, professor e escritor americano Atul Gawande nos oferece um artigo inusitado dedicado à doença de uma psicóloga que sofria, na pele, da compulsão de coçar o couro cabeludo, na qual vivenciava uma comichão (“A coceira”, piauí_42, março 2010). É sempre útil e pedagógico lembrar que os atuais manuais de medicina e psiquiatria não citam a velha e trágica histeria – o tal do complexo de Édipo – descoberta e curada por Sigmund Freud; ou melhor, o sintoma histérico como uma possível patologia psicossomática que afeta a mente e o orgânico. Em outras palavras, quando o leitor se debruçar sobre “A coceira”, deve discretamente substituir de sua mente depressão e estresse por histeria.

WALTER ZINGEREVITZ_SÃO PAULO/SP

 

GOG

Após lermos a matéria “Soco, sufoco e fogo no gogó de GOG” (piauí_41, fevereiro 2010), não podemos deixar de apresentar alguns esclarecimentos à passagem do rapper por Maceió. O rapper GOG foi contratado para fazer uma significativa participação no 1º Festival de Música da Ufal. Portanto, sua passagem em Maceió não foi simplesmente um “show” na “praia de Pajuçara”. Os festivais universitários cumpriram um papel importantíssimo na história de nosso país e foi neste sentido que foi planejada a retomada do festival universitário em Alagoas. O último festival aconteceu em 1982. Promovido pelos estudantes, o disco com as músicas vencedoras foi censurado e, portanto, proibido de ser lançado comercialmente. Já por isso, tínhamos o festival da Ufal como um evento de peso político; estávamos resgatando uma ação que entendíamos ser fundamental para o processo de formação da comunidade estudantil e da sociedade como um todo.

A aprovação do nome do rapper GOG ocorreu por avaliarmos que seu perfil questionador se articulava com a proposta, sendo ele o artista que, no momento atual, representaria melhor os estudantes universitários. Jamais desqualificamos o valor dos outros músicos mencionados na reportagem (Milton Nascimento e Chico Buarque). De forma alguma ficamos surpresos com a capacidade de articulação do rapper. Ele foi convidado justamente por termos constatado esse seu atributo.

FÁTIMA ALBUQUERQUE, RUTH VASCONCELOS E PEDRO NELSON RIBEIRO_MACEIÓ/AL

Ficou parecendo que o jornalista estava à procura de qualquer figura do hip-hop, com postura contraditória à ordem vigente, para canonizá-lo. Talvez um tom de impessoalidade coubesse melhor nesta matéria. Fica meio irônico e paradoxal um jornalista de uma revista voltada para um público restrito – não a encontro nem nas melhores bancas da Ceilândia – falar de movimento hip-hop do DF, e ainda por cima fazer julgamento de valor.

GISSELI A. RIBEIRO_CEILÂNDIA/DF

 

CARTUNS

O uso do nome de Deus nos desenhos de Rafael Campos Rocha (Cartuns ao longo da revista, piauí_42, março 2010) é uma afronta aos leitores cristãos dessa revista. Pegou mal mesmo! Pela qualidade de suas matérias, a revista deveria ter mais respeito por seus leitores.

PAULO OLIVEIRA_JEQUIÉ/BA

 

ORWELL

Amooooo essa revista, mas tenho que perguntar: o artigo “De uma classe à outra” (piauí_42, março 2010) é uma propaganda?

NOTA DA REDAÇÃO: Não. Mas que O Caminho para Wigan Pier merece ser lido, não tenha dúvida.

LUANA PEQUENO_SÃO PAULO/SP

 

NADA A VER

Isso não tem nada a ver com piauí. Mas numa manhã de domingo, ao escutar Espelho cristalino, de Alceu Valença, foi dele que ouvi a melhor definição do nosso presidente Lula e sua opinião sobre a greve de fome dos cubanos: nosso guia é mesmo um autêntico “porta-voz da incoerência”.

MARIA CRISTINA LEITE PEIXOTO_BELO HORIZONTE/MG

 

SPIEGELMAN

Noto que, na edição passada, uma história desenhada pelo distinto Art Spiegelman (“Lembram da infância?”, piauí_42, março 2010 foi publicada, antes, no San Francisco Panorama, o formidável periódico impresso lançado há não muito tempo pela editora californiana McSweeney’s. Não seria o caso de informar o leitor quanto à origem da coisa, procedimento que sempre me parece usual de parte da publicação?

CAUÊ MURARO_SANTO ANDRÉ/SP

NOTA DA REDAÇÃO: A piauí adquiriu os direitos diretamente do agente de Art Spiegelman. O San Francisco Panorama também.

 

VINGANÇA PELUDA

Fico sempre intrigado – às vezes irritado – quando constato o título original de algum filme a que assisto e o comparo à tradução. Recentemente entabulei essa discussão com um amigo enquanto refletíamos o que a expressão Amor sem Escalas poderia ter em comum com o enredo do ótimo Up in the Air, ou o que o brasileiro Guerra ao Terror e o português Estado de Guerra poderiam comunicar às audiências sobre a película The Hurt Locker. A conclusão à qual chegamos: os tradutores certamente não assistiram aos filmes.

Quanto à menção a Woody Allen (Esquina, “Vingança peluda não é solução”, piauí_42, março 2010, p. 12), realmente o caso de Annie Hall é um dos mais emblemáticos da má tradução – vale lembrar que os protagonistas sequer são noivos. Me revolta imaginar que os departamentos de marketing acreditam realmente que os inconvenientes subtítulos podem salvar uma bilheteria. Se Match Point emplacou no Brasil, não acho que isso se deva ao infeliz Ponto Final atrelado ao seu nome, e sim ao fato de que se trata, a meu ver, do último filme realmente bom de Allen. Além disso, para que traduzir match point, uma expressão do tênis que sintetiza tão bem o clímax do filme? Duvido que taglines tenham influenciado positivamente a audiência de Taxi Driver: Motorista de Táxi, um dos exemplos mais beócios do gênero, bem como Super Size Me: A Dieta do Palhaço, ou Closer: Perto Demais. Alguém arrisca que um subtítulo como, por exemplo, Avatar: O Mundo de Pandora tornaria o filme mais atrativo?

DIOGO CARVALHO_BRASÍLIA/DF

 

SYMPHYSODOM SPP.

Dedico-me à piscicultura ornamental. Atividade que, sem dúvida, liga-se essencialmente a valores estéticos. Não arrisco dizer que é arte, apesar da interferência humana direta nos resultados das cores, linhas, contornos e expressividade dos peixes cultivados. Ao ler “O primeiro congelamento em massa do aquecimento global”, na seção Chegada (piauí_41, fevereiro 2010), observei uma incorreção que não modifica em nada o sentido do bom texto. A espécie H. ciliares, muito colorida e apreciada pelos aquaristas, citada como fruto da piscicultura Urban Tropical, na verdade não é produzida em cativeiro, e o abastecimento do mercado deve-se apenas à captura no ambiente natural (costa atlântica tropical – inclusive Brasil). A espécie amazônica referenciada ali é o acará-disco, Symphysodom spp., realmente com inúmeras composições de cores. Esta espécie, assim como todas as outras citadas no artigo, não são nativas dos Estados Unidos. Foram importadas de seus habitats em países tropicais, estudadas e replicadas pelos gringos. Já há algumas décadas fazem um itinerário inverso, indo para nações de seus ancestrais como mais um produto de exportação de países desenvolvidos. No contexto do capitalismo, uma mercadoria de entretenimento a mais; no âmbito geral, mais um pequeno exemplo frustrante do neocolonialismo e da deglutição do homem pela natureza, que neste caso é, ironicamente, o frio em tempos de aquecimento global.

FRANCISCO B. MORAIS_PEDRO LEOPOLDO/MG

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