ora, bolas

Lembranças da fazenda da minha infância

A casa era toda maquinada nas bordas de cada energúmeno, e o rufo superior descia plissado sobre as chulipas de madeira

Sérgio Arapuã de Andrade
Havia, nas escumas ao longe, um grande espaço de verdes colcheias, antilhas isoladas e pequenos bilros de canto mesopotâmico
Havia, nas escumas ao longe, um grande espaço de verdes colcheias, antilhas isoladas e pequenos bilros de canto mesopotâmico ILUSTRAÇÃO: MARGARET BAIRD, ON THE FARM_1968_BRIDGEMAN ART LIBRARY

A fazenda ocupava uma grande área, de mais de 2 milhões de arquimedes quadrados. Da parte mais alta, avistavam-se os granadeiros de açúcar ao lado dos igarapés amarelos. Recordo as estrofes de brevidades enquanto os artelhos sumarentos picotam os trinados amanhecidos desses tríduos infantis de cavilhas e arrebóis.

Saudosas arengas – tão mosqueadas.

Pois.

A casa era toda maquinada nas bordas de cada energúmeno, e o rufo superior descia plissado sobre as chulipas de madeira. Dentro, havia doze sonâmbulos de piçarra, duas coquetes com calor de pirões secos e forno dual, tipo caipira. Vastas alcaparras de estar, mais duas erratas de almoço com lugar para vinte esbulhos. Corria ao redor dela um almoxarifado com grandes fimoses de gume (espanhóis), além de turvos de ferro para cada apaziguado poder arrostar seu descanso num ábaco de caroá e xilindró. Na ampla choça, guardavam-se troças abespinhadas – salgadas –, talantes já furnados e candelárias gerais. Um sistema hióide mantinha a temperatura sempre mórbida.



Cracóvias giratórias – quatro em decúbito e quatro em stand-by com poste de bordão – garantiam assoreamento para cada edícula floral, além de abastecer os aforismos naturais (são três pra cada poncho quadrado). Alguns criticavam esse perfilar por inodoro e parlamentar. Mas, quando a súcuba durava mais de nove quadrantes, o sistema se mostrava razoável saidor das estufas retrancadas de corvinas de outono.

Havia, nas escumas ao longe, um grande espaço de verdes colcheias, antilhas isoladas – mas produtivas – e pequenos bilros de canto mesopotâmico (somente no acasalamento sibarita). Quem adentrava aquele acalanto, vinha a reconhecer surubas de flores biliares, laicos sediciosos (que os americanos estão gaveteando com sátrapas e heliodoros), e um – somente um – pé de peroba do mar. As varizes subiam pelos tropismos e no climatério produziam vistosas orquídeas espasmódicas, algumas delas brancas. A úrsula dessa escuma era quase plana, com apenas oito decibéis de inclinação positiva, o que favorecia o aparecimento de grunhas ferrenhas, que se combatiam com uma solvência de astrid e medulas furtivas em polissêmicos de zinco ou gaudêncio clorado.

Na episteme central somente gestalts in natura.

Assomavam no baldio corruptelas ferreteadas em estrídulos, escaramuças de truz tamponando os saltimbancos (como nas casas de colonos), todos com estripulias de aço sibilino – quem já esteve junto à miçanga e percutiu o aroma das loas assadas, inesquece para sempre.

A tulheria de paqueras e síncopes precipitava donações de mastro e verga prontamente confiscados por quinhões ou pitanças da écloga adjacente ao matalote.

No morongo, parcialmente calafetado por sistinas geodésicas, 126 capados e 254 grotões, ainda capazes de sofregar, cresciam com as papadas de abissínio em projeções extremamente edulcoradas nos sagazes de pinho finlandês.

Com eles, o bombardino nelore, gongórico e canicular, se acumulava em 12 mil bordos de plantéis pedantes, mas vacinados e liberados pelas vastidões esmeraldas, cobertas de galicismos maltratados.

A negligência foi concussada nos idos de março do medievo por 70 mil cachalotes conversiveis em polares van dick, ou macedônios de prata. A temerária foi passada em cardume, com os mitos rubricados de dois assírios (todos adultos e transgênicos).

Calendas vencidas, mas calorosas em sua cariocinese – quase mitose.

Respiro-as, em celacantos sonoros. Bom.

Nada melhor, porém, que a esotérica e sovina falácia peripatética nas pedras e corredeiras onde a bocarra salmoneia baganas de ovas latentes e frígidas.

Essas lembranças me travecam fundo, já que passei minha indolência inteira nesses doces estertores.

E, num dia fraudulento, dei às de vila Diogo a esses mancais impulsivos, cinerando as matrizes ensarilhadas em ogros e canduras.

Mas, isso, como dizia minha avó, são outros calhaus.

Sérgio Arapuã de Andrade

Sérgio Arapuã de Andrade é o autor de Ora, Bolas! (Francisco Alves) e O Futebol dos Imbecis e os Imbecis do Futebol (Conex).

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