cartas raciais

Letras sensatas: A revolução começa em casa

É hora de parar de agir como se sua vida valesse mais que a dos outros

Keila Grinberg
“Mas o que é ser antirracista? Certamente, é mais do que colorir nosso Instagram de preto”
“Mas o que é ser antirracista? Certamente, é mais do que colorir nosso Instagram de preto” CREDITO: VÂNIA MIGNONE_2020

Esta é uma das cartas raciais que a piauí publica na edição junho. O texto a seguir foi escrito por uma historiadora branca, descendente de alemães, russos e marroquinos. O outro é de uma profissional de relações públicas negra, que há pouco descobriu que suas raízes africanas estão na Nigéria e em Angola. Ambas se dirigem aos mesmos leitores – os brasileiros brancos, que são 43% da população, e cuja atitude pode fazer enorme diferença na luta contra o racismo tal como ele resiste há séculos no país: recalcado na superfície, hipócrita na expressão e violento na realidade.

Com a eclosão dos protestos antirracistas a partir dos Estados Unidos, a relações públicas Ligia Lima, de 34 anos, tem “celebrado com discrição a insurgência do que é invisível, mas óbvio” e faz um apelo aos amigos brancos: “Não sejam ingênuos: viver de forma sustentável mesmo é ouvir os pretos, investir nas ideias geniais que nascem e diariamente morrem nas favelas e periferias do Brasil.” A historiadora Keila Grinberg, de 48 anos, que ficou “surpresa e ofendida” na primeira vez em que foi chamada de “intelectual branca” em um debate público, faz um paralelo entre a classe média que não consegue dispensar a empregada doméstica durante a pandemia e os senhores de escravos do século XIX, que diziam não gostar da escravidão, mas, lamentavelmente, não tinham como viver sem os escravos.

*

Em 1825, Joaquim José da Costa Portugal viajou do Maranhão a Portugal, levando consigo dois escravos domésticos, Luciano e Carolina. Ao ser informado de que a entrada de escravos estava proibida em solo português, Costa Portugal argumentou que, sendo assim, iria voltar ao Brasil, pois quem iria servi-lo durante a viagem se não pudesse contar com seus cativos? Encontrei esse relato curioso no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa. É possível imaginar o proprietário argumentando na alfândega de Lisboa: “Não é que eu queira trazer dois escravos em minha viagem; eu preciso deles.”



As elites brasileiras do século XIX lidavam com a escravidão no Brasil negando a responsabilidade por sua existência. Consideravam ser uma “herança” da colonização portuguesa e justificavam sua manutenção com o argumento de que tinham necessidade do “braço escravo”, como se dizia à época, para o trabalho na lavoura. Ao contrário do que ocorria no Sul dos Estados Unidos, aqui poucos defendiam os benefícios de uma civilização escravista.

Para os senhores brasileiros, o regime escravocrata era um mal a ser superado, mas um mal necessário. Até mesmo o padre e político Diogo Antônio Feijó, em 1834, recorreu ao argumento, ao explicar que a escravidão, embora “injusta por todos os princípios”, existia por causa do “estado de atraso da nossa agricultura”. Para ele, “acabar de um jato com o tráfico de pretos africanos” era “querer um impossível”. Parecia que todos diziam em coro: “Não é que queiramos ter escravos; nós precisamos deles.”

As falácias desses senhores do século XIX me vieram à mente durante a pandemia tão logo se começou a discutir sobre a manutenção dos serviços essenciais, em especial os que são feitos pela população mais vulnerável. As injustiças sociais e raciais que marcam a sociedade brasileira desde sempre vieram à tona com a obrigação da quarentena, deixando ver muito claramente, para quem antes não as enxergava, as diferenças entre as pessoas de “vidas protegidas” e as de “vidas tornadas vulneráveis”, como define a cientista política francesa Françoise Vergès, no livro Um Feminismo Decolonial.

Ela afirma ainda: “Há os/as confinados/as e os/as não confinados/as, e estes últimos garantem a vida cotidiana dos primeiros, levam os produtos aos comércios abertos porque são ‘essenciais’ ao funcionamento da sociedade, arrumam as mercadorias nas prateleiras, organizam os caixas; são os coletores e coletoras de lixo, as funcionárias e os funcionários dos correios, os entregadores, os motoristas de transporte público, as mulheres responsáveis pela limpeza de clínicas e hospitais, os motoristas de transportes rodoviários, as babás e tantas outras profissões.”

Vergès está falando da França, não do Brasil. Lá, ter empregados domésticos é coisa para ricos. Aqui, como afirmou o sociólogo Bernardo Sorj, em artigo no jornal O Globo (em 25 de maio), a quarentena levou as famílias de classe média a essa experiência inédita: viver ao estilo do Primeiro Mundo, sem empregadas, tendo que fazer com as próprias mãos o trabalho doméstico.

Houve quem reagisse a essa nova situação. O prefeito de Belém, Zenaldo Coutinho, expressou, numa decisão oficial, o pensamento de muitos: o serviço doméstico também é serviço essencial, porque há “pessoas que precisam, pela necessidade de trabalho essencial, ter alguém em casa”. É verdade que existem pessoas que não têm meios de cuidar de si próprias e de sua família, mas o que fez o prefeito, em uma operação bastante comum entre nós, foi transformar a exceção em regra. Após numerosas críticas e óbitos de empregadas domésticas, Coutinho alterou o decreto, em 7 de maio, classificando o trabalho doméstico como essencial somente “quando imprescindível”.

 

Há pouco mais de três meses, no início da quarentena, quando não tínhamos ideia de quanto tempo duraria o confinamento, o tema do trabalho doméstico ganhou as redes sociais. Não foram poucas as celebridades que se fotografaram em plena atividade, cozinhando, lavando e passando roupas. Ficou até chique uma pessoa compartilhar fotos mostrando que sabia fazer o próprio pão e uma série de iguarias recém-aprendidas. Parecia que a classe média, pelo menos a da região onde vivo, a Zona Sul do Rio de Janeiro, havia entendido que a regra do isolamento social deveria valer para todos.

Com o tempo, porém, começamos a nos cansar. A vida doméstica virou um inferno. Ninguém aguentava mais fazer faxina e comer sempre a mesma comida (ainda mais sem ter a possibilidade de tirar uma folga e dar um pulinho no restaurante). Fora isso, tivemos que continuar trabalhando remotamente e, muitas de nós, ajudando as crianças em suas aulas online. Ficamos exaustas e não temos a menor ideia de quando isso tudo vai acabar.

Foi então que muita gente capitulou e começou a chamar as empregadas de volta, para dar uma ajudazinha. Que mal há nisso se é apenas uma vez ou outra, nós nos dizemos. Basta usar máscara e pagar o Uber. Não é que queiramos, é porque precisamos. Como Joaquim José da Costa Portugal precisava dos seus cativos na viagem. Como os senhores precisavam do braço escravo na lavoura.

Há assustadoras semelhanças entre o escravismo envergonhado do passado e as nossas atitudes do presente. Semelhanças que estão atravessadas pela ideia de que as relações entre patroas e empregadas, por serem muitas vezes afetuosas, não seriam relações de trabalho propriamente ditas. É inacreditável que as pessoas ajam como se ecoassem as palavras de Gilberto Freyre negando a violência do trabalho doméstico na época da escravidão: “A casa-grande fazia subir da senzala para o serviço mais íntimo e delicado dos senhores uma série de indivíduos – amas de criar, mucamas, irmãos de criação dos meninos brancos. Indivíduos cujo lugar na família ficava sendo não o de escravos, mas o de pessoas de casa. Espécie de parentes pobres nas famílias europeias.”

É até constrangedor reproduzir o texto de Freyre. A expressão “pessoas de casa” é de uma coisificação tão aviltante quanto a frase “Você tem empregada?”, que volta e meia ainda ouço. O leitor já parou para pensar o quanto há de escravista nessa frase? Como assim: “Eu tenho empregada”? Por que não dizemos: “Eu emprego alguém” ou “Alguém trabalha na minha casa”? Nossa linguagem revela o cerne do nosso escravismo.

 

Os nossos lares são locais onde as marcas da escravidão ainda persistem. Nós desprezamos o trabalho manual. Gostamos de ser servidos. E, para muitos, o que a trabalhadora doméstica faz não é propriamente um trabalho: é um estar-sempre-à-disposição. Tanto assim que não achamos prejudicial a “nossa empregada” sair da casa dela de vez em quando, durante a pandemia, para dar uma ajuda na cozinha. Afinal, que “empregada ingrata” se recusaria a atender um chamado da patroa, correndo o risco de ficar desempregada?

Não falo de ingratidão à toa. Em meados do século XIX, uma pessoa escravizada que tivesse conseguido se libertar poderia ter sua alforria revogada se fosse acusada de ingratidão. Todas as alforrias eram pagas pelos próprios escravizados, em dinheiro ou em serviços, mas para os proprietários era fundamental que fossem tidas como uma prerrogativa senhorial. O mínimo que se esperava dos libertados era que fossem eternamente gratos e estivessem sempre à disposição.

O raciocínio atual é semelhante: se continuamos a pagar o salário da empregada durante a quarentena – acrescidos dos direitos que com imenso atraso foram incorporados à profissão –, o que custa vir ajudar de vez em quando?

Pode custar a própria vida. Como ocorreu com a primeira vítima conhecida do novo coronavírus no Rio de Janeiro, uma empregada doméstica que morava em Miguel Pereira, a 120 km da capital, e foi contaminada na casa de sua patroa no Leblon.

Não são poucos os que acham que a pandemia tem essa vantagem: vai aprimorar a humanidade, tornando-a menos consumista e mais solidária. Tenho minhas dúvidas de que isso irá ocorrer. Se viermos a nos tornar, de alguma forma, seres melhores depois dessa catástrofe, decerto não será por obra de algum pensamento mágico. Para os que se sentem impotentes diante das injustiças sociais no Brasil e não sabem o que fazer, dou uma dica: a revolução começa em nossas próprias casas.

Se queremos ajudar a proteger as pessoas mais vulneráveis, façamos, nós mesmos, o trabalho doméstico. Eu sei que é difícil, mas não é isso o que faz a maioria da população brasileira, trabalhando fora durante a semana e cuidando de sua própria casa no domingo? Se a maioria pode viver dessa maneira, nós, mulheres e homens de classe média, também podemos. E nossos filhos também podem, pois um benefício improvável da quarentena foi obrigar meninos e meninas a aprender a fazer o trabalho doméstico (porque, se não fizerem, ninguém fará por eles).

Essa é a oportunidade de alcance imediato que temos para romper com o passado escravocrata brasileiro e deixar de reforçar a divisão entre os que servem e os que são servidos. É a nossa chance de parar de agir como se nossa vida valesse mais que a dos outros.

 

Desde que começaram os protestos contra o racismo nos Estados Unidos, aumentou o clamor por manifestações iguais no Brasil. Como tantos ativistas negros vêm dizendo, “não basta ser contra o racismo, é preciso ser antirracista”. Mas o que é ser antirracista? Certamente, é mais do que colorir nosso Instagram de preto ou usar hashtag Black Lives Matter (Vidas negras importam).

Ser antirracista é, em primeiro lugar, reconhecer que somos brancos, amparados por todos os privilégios que a branquitude nos traz. Sejamos sinceros: nós não gostamos de ser chamados de brancos. Ficamos incomodados porque não gostamos de ser racializados – quem gosta? Digo isso deixando claro que cheguei bem tarde na discussão. Como tantas brancas de classe média, cresci “sem cor”, e só percebi que era branca ao ingressar na universidade pública, no fim dos anos 1980. Mesmo assim, muitos anos depois, ao ser chamada em um debate público de “intelectual branca”, fiquei, durante toda uma semana, entre surpresa e ofendida, até entender que era exatamente isso que eu era – e eu sou – e que esse reconhecimento é essencial na luta antirracista.

Também me parece essencial, para atuar nessa luta no Brasil, entender que o trabalho doméstico aqui está fundado sobre hierarquias sociais e raciais que persistiram após o fim da escravidão. O que torna possível, há séculos, a naturalização da violência racial brasileira? É a cotidiana desvalorização da vida das pessoas negras. Portanto, se você quer ser antirracista, se as vidas negras realmente lhe importam, fique em casa e deixe a pessoa que você emprega em casa também. Ela tem muito mais chances de vir a morrer por causa da Covid-19 que você, como mostram as pesquisas. Ela é a mãe do menino baleado em casa durante uma operação policial. É a mãe do menino de 5 anos que morreu por negligência da patroa. É a mãe dos jovens que saem às ruas para protestar contra o racismo e a violência policial – os mesmos que você tanto aplaude nas redes sociais.

Keila Grinberg

Historiadora e professora da Unirio, é coorganizadora do livro O 15 de Novembro e a Queda da Monarquia (Chão Editora).

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