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Lições de literatura e sociedade

Antonio Candido fala sobre o fazendeiro Pio e a invasão da USP

Mario Sergio Conti
ILUSTRAÇÃO_ANDRÉS SANDOVAL_2009

Depois de um silêncio excessivamente longo, Antonio Candido de Mello e Souza voltou a aparecer em público. Em um mês, fez conferências em Araraquara, São Paulo e no Rio, e falou numa assembléia de estudantes na Universidade de São Paulo. As conferências foram sobre a correspondência entre Mário de Andrade e o fazendeiro Pio Lourenço Corrêa, reunida no livro Pio & Mário – Diálogo da Vida Inteira, publicado pela editora Ouro sobre Azul.

O livro é, aparentemente, um assunto de família. Mário de Andrade era primo da mulher do fazendeiro, Zulmira de Moraes Rocha, mas sempre o tratou de “tio Pio”. Antonio Candido, além de ter sido amigo do fazendeiro, casou-se  com Gilda de Mello e Souza, née Moraes Rocha, que era sobrinha-neta de Pio e prima de Mário de Andrade.

As cartas de Pio a Mário foram deixadas de herança para Gilda. E as do poeta ao fazendeiro ficaram com Antonio Candido. “Era prático, estava tudo em casa”, disse o professor aos que se reuniram para ouvi-lo no Rio. Ao morrer, há dois anos, Gilda terminava um ensaio de apresentação da correspondência entre ambos. Antonio Candido fez pequenas emendas ao trabalho, escreveu uma curta apresentação e os entregou a sua filha Ana Luisa, que comanda a Ouro sobre Azul.

Nas palestras, Antonio Candido demonstrou que o alcance das cartas ultrapassa em muito o interesse familiar. Mário de Andrade era um missivista compulsivo e, de todas as suas correspondências, a mais longa foi precisamente a que manteve com o fazendeiro – iniciada em 1917, durou até 1945, ano da morte do escritor. Foi também a única em que o interlocutor de Mário não era artista. Mas Pio estava longe de ser apenas um fazendeiro “conservador e maníaco”, como afirmou. Era também gramático, linguista, um erudito que falava quatro idiomas. “Pio Lourenço foi um dos homens mais inteligentes e originais que conheci”, disse o crítico. E Antonio Candido conheceu Mário e Oswald de Andrade, Drummond, Manuel Bandeira, Sérgio Buarque de Holanda, Giuseppe Ungaretti, Fernando Henrique Cardoso, João Gilberto, Luiz Inácio Lula da Silva etc., etc.



 

Antonio Candido está com 91 anos. Mora sozinho em São Paulo e sozinho veio ao Rio. Sentou para fazer sua palestra, tirou o relógio do pulso e o pousou sobre a mesa, pegou umas poucas folhas manuscritas que trazia no bolso e começou. Durante quarenta minutos, fez com que sombras esmaecidas virassem figuras de carne, pensamento, osso e sensibilidade. Fez isso sem pedantismo, com a simplicidade de quem contava casos de que ouvira falar ontem, sem fazer banca de sua portentosa erudição e sua argúcia analítica. Sabia todas as datas de cabeça, entremeou anedotas com observações críticas, disse todas as palavras necessárias (e nenhuma a mais), e não deixou qualquer raciocínio sem explicação. Parecia fácil.

Surgiram na sua fala o atormentado Mário de Andrade, remoendo a dor de ter visto o pai morrer quando os dois estavam estremecidos; o severo Pio Lourenço, com suas infindáveis pesquisas sobre a etimologia da palavra Araraquara – que significa “morada do sol” ou “buraco onde nasce o sol”, e não “cova das araras”, como defendiam os nefandos “araristas” –, “e é verdade, porque na língua geral arara é verbo de ação, pois há repetição da mesma sílaba: a-ra-ra“, ensinou Antonio Candido; o imperador Pedro II, que “sabia tudo sobre o Brasil”, inclusive o paradeiro do último falante de tupi, morador de Porto Feliz; o bêbado escocês que o fazendeiro chamou para lhe ensinar inglês – em troca de casa, cama, comida e a condição de que largasse a bebida –, o que fez com que Pio fosse o único brasileiro que Candido conheceu a falar inglês com sotaque de Glasgow.

Sobressaiu-se, principalmente, a figura reta e multifacetada de Pio Lourenço Corrêa, e sua relação paternal com Mário de Andrade. Não fosse Antonio Candido, toda essa riqueza – que diz muito a respeito de quem somos, os brasileiros – estaria perdida. “Foi uma apresentação muito bonita”, disse o crítico Roberto Schwarz, que assistiu à palestra em São Paulo. “O Antonio Candido tem uma qualidade rara: o discernimento para o valor das pessoas com as quais ele não concorda política e esteticamente.”

Antonio Candido botou de novo o relógio no pulso, agradeceu a presença do público, deu suas anotações de presente ao poeta Armando Freitas Filho, levantou e foi embora. Dias depois, compareceu a uma barulhenta assembléia de estudantes da Universidade de São Paulo.

Funcionários, professores e alunos da universidade onde Candido estudou e da qual se aposentou estavam em greve. Protestavam contra a entrada da Polícia Militar no campus dias antes. Armados de metralhadoras, fato inédito até para os tempos da ditadura, os policiais jogaram bombas de gás lacrimogêneo e deram cacetadas num piquete de manifestantes.

“Estou aqui para fazer um protesto veemente contra a intervenção da força policial no campus: ela é um atentado a um dos direitos mais sagrados, que é o de debater sem sofrer pressão externa”, disse Candido. E encerrou sua curta fala com uma recomendação aos estudantes: “Atuem, ajam, exagerem, errem, acertem na busca da justiça social.”

Ao deixar a palestra no Rio, Armando Freitas Filho disse: “Quando Antonio Candido fala, o Brasil existe.”

Mario Sergio Conti

Mario Sergio Conti é jornalista e autor de Notícias do Planalto, da Companhia das Letras. Foi diretor de redação de piauí de 2006 a 2011

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