esquina

Limbo cirúrgico

Como ocupar o tempo até a hora temida

Maria Dolores
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2007

A partida está no final. Restam duas peças brancas e quatro pretas. Os ânimos se exaltam, sobretudo na fila dos que esperam para ocupar o lugar do perdedor. O espaço é pequeno. Para amenizar o sol da tarde, as cortinas estão fechadas. A porta semi-aberta resguarda o que sobra de privacidade. O número de homens varia: quatro, seis, três, oito, dez. É um entra-e-sai. Eles vêm para participar da jogatina ou só para assistir. Mulher, apenas a mãe do adolescente entretido no videogame, alheio a tudo.

Do lado de fora, no final do corredor, outros homens formam uma roda perto da janela. Animados, trocam histórias de pescaria. José Carlos tem 40 anos e, como a maioria ali, adora pescar. Contando suas façanhas na represa de Furnas, descreve os tucunarés que fisgou e dá detalhes sobre o tamanhão dos peixes, ó. Uns duvidam. A gargalhada é geral.

O sol cai sobre a 23 de Maio, uma das principais vias expressas de São Paulo. A tarde acaba e a conversa segue adiante. Às 11 da noite, uma moça simpática, de calça branca e colete azul, aparece com a bandeja cheia de copinhos de plástico. Cada um deles traz um nome. Em vez de café, contêm comprimidos de tamanhos, cores e princípios ativos diferentes. “Agora, todo mundo para a cama, está na hora de vocês se acalmarem”, ordena a enfermeira, enquanto entrega a cada paciente o copinho com a medicação específica.

José Carlos pega o seu e se recolhe ao quarto. Sabe que a noite não será fácil. Sem o calor da conversa, sem os jogos de dama e dominó, o videogame, o mp3, a televisão e as visitas, é inevitável: as dúvidas aparecem. O colega de quarto, Mauro, também se cala. A luz é apagada e tudo se aquieta. Quem será o próximo?

É a pergunta essencial. Não fosse por ela, poderia parecer que esses homens estão de férias. Eles não se cansam, não choram, não lamentam, não têm fios ligados ao corpo – com exceção dos que voltaram há pouco da mesa de operação, mas esses ficam confinados nos quartos, longe do burburinho. Ao melhorar, ganham então permissão para retomar a ativa vida social na ala masculina de cirurgia cardíaca pelo Sistema Único de Saúde do Hospital Beneficência Portuguesa, o maior da América Latina, com 30 256 cirurgias por ano.

 

O mineiro José Carlos é novato. Chegou na primeira quinta-feira de maio, dia 3, crente que seria operado no dia seguinte ou, no máximo, logo depois do fim de semana. Não foi preciso ninguém lhe dizer que a coisa não é bem assim. Bastaram algumas horas de internação para descobrir que a data de sua cirurgia – duas pontes de safena e uma de mamária – era uma incógnita. Ninguém ali nunca sabe ao certo o dia de uma operação, nem as enfermeiras.

Como os outros pacientes, José Carlos vestiu o pijama e esperou a noite chegar. Com a noite, disseram-lhe, viria a palavra do médico. A noite chegou, fizeram os primeiros exames, nenhum médico apareceu, talvez no dia seguinte. Ele esperou, vieram mais exames, os medicamentos no copinho, as três refeições e os dois lanches. Outro dia passou, foi-se a esperança de falar com um médico. Alertado pelos veteranos, descobriu que os médicos não passam diariamente em todos os leitos: visitas só estão asseguradas para operados, casos de urgência e pacientes que serão levados ao centro cirúrgico no dia seguinte. Todas as manhãs, não se sabe bem como ou de onde, surge o boato de que um cirurgião, o dr. Januário, vem visitar este ou aquele leito. É o suficiente para que à tardinha os pacientes se ponham em alerta no corredor, atentos ao movimento, à aparição, lá no fundo, daquele homem de estatura mediana, simpático, de jaleco branco, que vem trazer a um deles a boa nova. Receber a visita do dr. Januário é tirar a sorte grande.

Para tornar suportável a espera, eles dividem o tempo entre a conversa fiada, as piadas e os jogos no “cassino”, o quarto que abriga um dos únicos aparelhos de TV da ala. Para os católicos, há missa às 17 horas. Os pacientes trocam o pijama por um traje mais adequado – geralmente a roupa com a qual se internaram – e o chinelo por sapatos fechados. Caminham até a capela, participam do rito, recebem a bênção e retornam aos respectivos pijamas, chinelos e expectativas.

O grupo ao qual José Carlos se juntou é liderado pelo paciente a quem todos chamam de Paulista, o titular do quarto onde funciona o cassino. A ele pertencem a televisão e as guloseimas conseguidas no mercado paralelo, que nem é tão paralelo assim. Suas visitas sempre trazem o que ele pede, e tudo é compartilhado com o restante da turma: bandejas de coxinha e bolinho de bacalhau, tapioca, um vidro de pimenta, sacos de mexerica. Na final do Campeonato Paulista de Futebol, mais de dez homens entre os seus 40 e 80 anos petiscavam gomos da fruta enquanto torciam pelo Santos, pelo São Caetano ou por nenhum dos dois. Era impossível controlar o volume da algazarra.

A maior parte dos pacientes não nasceu em São Paulo. O único paulistano é o próprio Paulista, cinqüentão, internado há catorze dias, à espera de que o SUS libere mais um lote de marca-passos. Quatro são mineiros. Entre eles, um rapaz franzino conhecido como Lambari, que precisa colocar duas válvulas no coração. Lambari passou o sábado na UTI, depois de se sentir mal. Por causa disso, pulou para o primeiro lugar da fila, o que deixou cabisbaixo Zezinho, de quase 60 anos. Na noite anterior, haviam anunciado que ele seria o próximo. Zezinho suspira. Está há 28 dias à espera de uma operação na safena.

 

No domingo, logo depois da final, o dr. Januário aparece no quarto de José Carlos. A visita, entretanto, era para o vizinho Mauro, há treze dias aguardando o momento de receber uma válvula. “Vieram buscar ele antes da hora, nem sei se deu tempo de avisar a mulher”, José Carlos comenta. A única reclamação que tem é não poder dormir com a mulher a seu lado. “Só depois da operação é que ela pode ficar comigo”, explica. “Quem será que vem para cá agora?” É outra dúvida que passa a fazer parte das suas aflições. Em poucos dias, ele se acostumou à companhia de Mauro, à conversa do Paulista, do Lambari, do Carioca, do Pernambucano, do menino do videogame.

Durante a semana, os amigos vão partindo para o centro cirúrgico. Alguns seguem depois para a UTI, outros retornam diretamente para o quarto e há sempre os que não vão mais para lugar nenhum. Esse é, na verdade, o maior medo, a pergunta acima de todas as outras. Contra ela, não há o que fazer. Apesar das horas divertidas com a nova turma, apesar da consciência de que o hospital é bom, do apoio da família, o medo é inevitável. Ajudaria bem ter alguma idéia de quando o dr. Januário virá ao pé do leito.

Na quinta-feira, 10 de maio, ele apareceu para José Carlos Vaz-Tostes. A cirurgia correu bem.

Maria Dolores

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