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Limbo internacional

Dois meses sobre uma ponte entre o Brasil e o Peru

Roberto Kaz
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2020

Foi na noite de 23 de maio, sábado, que a cantora venezuelana Abril Curvelo Palma chegou à ponte que liga as cidades de Iñapari, no extremo Leste do Peru, e Assis Brasil, no Sul do Acre. Estava acompanhada do conterrâneo Manuel José Alvarez Varela, um ex-militar com quem pretendia entrar legalmente no Brasil na esperança de conseguir um trabalho.

Em situação normal, Curvelo e Alvarez teriam cruzado a ponte, pois o Peru e o Brasil são signatários de um acordo do Mercosul que permite o livre trânsito entre os países. Mas não foi o que ocorreu, em plena pandemia.

Dois meses antes, o governo havia publicado uma série de portarias fechando as fronteiras terrestres brasileiras. Curvelo e Alvarez viram-se impedidos de entrar no Brasil – e de voltar ao Peru. “Dois colombianos que estavam conosco cruzaram o Rio Acre a nado, entrando pela floresta. Mas nós fazíamos questão de entrar legalmente.” A cantora e o ex-militar resolveram esperar. Amargaram dois meses e catorze dias sobre a ponte.

 

Abril Curvelo Palma, uma mulher de 29 anos, negra e de estatura baixa, vivia em Valencia, terceira maior cidade da Venezuela. “Minha família é de músicos”, disse ela, que ganhava a vida cantando rap e reggaeton em comícios de Nicolás Maduro e campanhas para governador e prefeito. “Eu achava que levava esperança para as pessoas, mas fui vendo que o governo não deixava ninguém prosperar, que pintava um mundo que não existia. Em dado momento, percebi que não podia mais fazer aquilo”, contou. “Além disso, volta e meia não me pagavam.”



Em julho do ano passado, ela avisou aos pais que deixaria o país para tentar a vida no Brasil. Tinha 50 dólares no bolso. “Minha mãe me disse que eu estava cometendo um erro com a pátria.” Como Curvelo continuava irredutível, a mãe sugeriu que ela pelo menos trocasse de destino e acompanhasse um grupo de vizinhos que pretendia buscar asilo no Peru. Foi o que a cantora fez, combinando de pagar o primeiro trecho da viagem, tanto dela quanto dos vizinhos, entre Valencia e Cúcuta, na fronteira da Colômbia. O trecho seguinte da viagem ficaria a cargo dos companheiros do grupo. “Chegando à rodoviária, eles me pediram que eu aguardasse com as malas, enquanto compravam as novas passagens.” Nunca mais voltaram.

Curvelo entrou em desespero e foi acalmada por uma venezuelana um pouco mais velha que pretendia seguir a pé, com os filhos, até Bogotá. A cantora decidiu acompanhá-la. “Eu não tinha mais planos, mais nada.” Começou então uma saga de quase um ano de longuíssimas caminhadas, caronas (inclusive em um caminhão frigorífico, no qual ficou fechada durante doze horas) e pernoites nas ruas, quando as pessoas se revezavam na vigilância, para garantir a segurança do grupo. “Eu ia ficando onde houvesse trabalho”, disse Curvelo.

Ela permaneceu um mês em Bogotá e juntou algum dinheiro cantando dentro dos ônibus municipais. Seguiu para Quito, capital do Equador, onde dormiu cinco noites num terminal rodoviário. “Lá havia muita xenofobia.” Partiu então para Huaquillas, na fronteira, mas foi impedida de entrar no Peru por não ter passaporte (desde 2019, o país exige visto de cidadãos venezuelanos).

Foi em Huaquillas que conheceu Manuel José Alvarez Varela, com quem decidiu cruzar a fronteira ilegalmente, atravessando uma montanha. Quando os dois chegaram a Lima, em março, descobriram que uma pandemia havia se espalhado pelo mundo. “Estavam todos com máscara, menos a gente.” As caronas, já raras, desapareceram. “Os motoristas tinham medo de parar.”

Eles continuaram a viagem e, nos três meses seguintes, atravessariam a pé um deserto e várias montanhas, muitas vezes evitando as estradas, para não serem deportados. “A nossa ideia era entrar no Brasil, porque diziam que aqui teríamos mais chance de conseguir ajuda”, disse ela. Enfrentaram assaltos e ameaças de morte, até chegarem a Iñapari, a última cidade peruana antes da fronteira com o Brasil. No sábado, 23 de maio, pisaram pela primeira vez na ponte que os conduziria até Assis Brasil, no Acre. “Foi uma felicidade, era alguma parte do meu destino.”

 

Era também o início de um novo périplo, que a obrigaria a viver em uma ponte na Amazônia, sob um calor de até 40°C, esperando que fosse revogada a portaria que impedia sua entrada no Brasil. Para remediar a situação de Curvelo, Alvarez e outros imigrantes que também haviam se instalado na ponte, o Exército peruano montou tendas sobre o asfalto. O Exército brasileiro se encarregou de oferecer remédio e comida, que eram doados por ONGs da região. O banheiro, por assim dizer, funcionava sob a ponte, às margens do Rio Acre. “Dava medo por causa das serpentes”, disse Curvelo. Já a energia elétrica vinha de uma gambiarra, puxada de um poste de luz, que servia também para abastecer o telefone celular. “Eu tinha uma linha do Peru que usava para falar com a minha família. Mas dizia a eles que já estava num abrigo de refugiados no Brasil, para que não ficassem preocupados.”

Curvelo teria vivido meses a fio sobre a Ponte da Integração Brasil-Peru (seu nome oficial), não fosse um lance do acaso. Em julho, um grupo de oito venezuelanos entrou ilegalmente no Brasil, chegando a Rio Branco, capital do Acre. Descobertos, foram deportados justamente para onde estavam Curvelo e Alvarez, ficando no mesmo limbo internacional, pois não poderiam voltar ao Brasil (por causa da portaria) nem entrar no Peru (por falta de visto). Pouco antes, outro grupo também chegara ali – e no começo de agosto, a ponte já abrigava mais de trinta pessoas.

A situação fez soar o alerta no Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados no Brasil e da Defensoria Pública da União, que recorreu à Justiça Federal e ao Ministério da Justiça para tentar achar uma solução. No dia 6 de agosto, o Departamento de Migrações do Ministério da Justiça autorizou a entrada de Curvelo, Alvarez e mais doze pessoas, ressaltando que isso não serviria “de precedente para outros estrangeiros, dadas as peculiaridades do caso”.

“Acho que a minha situação ajudou essas pessoas a entrar, e a situação delas também me ajudou a entrar”, afirmou a cantora, logo depois de ser levada a um abrigo em Assis Brasil. Em meados de setembro, Curvelo conseguiu ser transferida para um segundo abrigo, em São Paulo. “Ainda não tenho trabalho, mas sei que vou conseguir”, disse, esperançosa.

Roberto Kaz

Roberto Kaz

Repórter da piauí, é autor do Livro dos Bichos, pela Companhia das Letras

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