ficção

A literatura nazista na América

Três vidas reacionárias

Roberto Bolaño
Aos poucos vai se formando uma patota de escritores heterodoxos demais para o gosto de sua mãe. Para os nazistas e os complexados, a revista Letras Criollas vira uma referência obrigatória
Aos poucos vai se formando uma patota de escritores heterodoxos demais para o gosto de sua mãe. Para os nazistas e os complexados, a revista Letras Criollas vira uma referência obrigatória CREDITO: Pedro Franz_2019

Publicado em 1996, A Literatura Nazista na América foi o terceiro livro lançado pelo chileno Roberto Bolaño e a obra que projetou seu nome para o público e a crítica. É um compêndio de vidas imaginárias de escritores de extrema direita, feito em tom paródico e sombrio. A piauí publica a seguir três das biografias: a da argentina Luz Mendiluce Thompson faz parte do primeiro capítulo, “Os Mendiluce”; a do brasileiro Luiz Fontaine de Souza, do capítulo “Precursores e anti-iluministas”; e a do venezuelano Franz Zwickau, do capítulo “Dois alemães no fim do mundo”.

Luz Mendiluce Thompson
Berlim, 1928 – Buenos Aires, 1976

Tradução de Rosa Freire d’Aguiar

Luz Mendiluce foi uma menina encantadora e vistosa, uma adolescente gorda e pensativa e uma mulher alcoólatra e infeliz. Além disso foi, de todos os escritores de sua família, quem teve mais talento.

A famosa foto de Hitler segurando a menina de poucos meses a acompanhou por toda a sua vida. Numa linda moldura de prata lavrada, presidia o salão de sua casa ao lado de vários retratos de pintores argentinos em que ela aparecia, menina ou adolescente, quase sempre na companhia da mãe. Apesar do valor de alguns desses quadros, não se descarta que em caso de incêndio Luz Mendiluce tivesse salvado das chamas, antes de qualquer outra coisa, inclusive de alguns cadernos com textos inéditos, a fotografia.

Costumava dar versões diferentes para quem visitava sua casa e se interessava pela origem de foto tão singular. Às vezes dizia que se tratava de uma órfã, simplesmente, e que a foto tinha sido tirada numa visita a um orfanato, uma das tantas que os políticos fazem para ganhar eleitores e publicidade. Outras vezes explicava que se tratava de uma sobrinha de Hitler, uma menina heroica e infeliz que tinha morrido aos 17 anos enquanto combatia na Berlim assediada pelas hordas comunistas. E às vezes reconhecia sem rodeios que era ela, que Hitler a carregara no colo e que, em sonhos, ela ainda podia sentir seus braços fortes e sua respiração cálida por cima de sua cabeça, e que provavelmente aquele tinha sido um dos melhores momentos de sua vida. Talvez tivesse razão.

Poetisa precoce, aos 16 anos publica sua primeira coletânea de versos. Aos 18 tem em seu ativo três livros editados, vive praticamente só e decide se casar com o jovem poeta argentino Julio César Lacouture. O casamento conta com o beneplácito da família, apesar dos inconvenientes que à primeira vista o noivo oferece. Lacouture é jovem, elegante, culto, de uma beleza varonil singular, mas não tem um tostão e como poeta é uma mediocridade. A viagem de núpcias se passa nos Estados Unidos e no México, em cuja capital Luz Mendiluce organiza um recital de poesia. Ali mesmo começam os problemas. Lacouture tem ciúme de sua mulher. Vinga-se pondo-lhe chifres. Uma noite, em Acapulco, Luz sai para procurá-lo. Lacouture está na casa do romancista Pedro de Medina. A casa, onde durante o dia se organizou um churrasco em homenagem à poetisa argentina, de noite se transformou num bordel em homenagem a seu cônjuge. Luz encontra Lacouture acompanhado de duas putas. De início mantém a calma. Bebe duas tequilas na biblioteca, com Pedro de Medina e o poeta realista socialista Augusto Zamora, que tentam tranquilizá-la. Falam de Baudelaire, Mallarmé, Claudel e da poesia soviética, de Paul Valéry e sóror Juana Inés de la Cruz. A menção a sóror Juana é a gota que transborda o copo, e Luz explode. Pega a primeira coisa ao alcance da mão e vai para o quarto à procura de seu marido. Lacouture, em alto grau de intoxicação etílica, está ocupado no processo de se vestir. De um canto do quarto, as putas, em trajes sumários, o observam. Luz não resiste e atinge a cabeça do marido com uma estátua de bronze que representa Palas Atena. Lacouture, com uma forte concussão, tem de ser internado num hospital por quinze dias. Voltam juntos para a Argentina, mas quatro meses depois se separam.

Com o fracasso matrimonial, Luz afunda no desespero. Entrega-se à bebida, frequenta antros e tem aventuras com personagens portenhos da pior espécie. É dessa época seu famoso poema “Com Hitler fui feliz”, texto incompreendido tanto pela direita como pela esquerda. Sua mãe tenta mandá-la para a Europa, mas Luz se recusa. Na época está pesando mais de 90 quilos (mede apenas 1,58 metro) e costuma beber uma garrafa de uísque por dia.

Em 1953, coincidindo com a morte de Stálin e de Dylan Thomas, publica a coletânea Tangos de Buenos Aires, em que, além de uma versão revista e ampliada de “Com Hitler fui feliz”, figuram alguns de seus melhores poemas: “Stálin”, uma fábula caótica que se passa entre garrafas de vodca e alaridos incompreensíveis; “Autorretrato”, provavelmente um dos poemas mais cruéis escritos na Argentina na década de 50, pródiga em poemas desse tipo; “Luz Mendiluce e o amor”, na linha do anterior, mas com certa dose de ironia e humor negro que o torna mais respirável; e “Apocalipse aos 50 anos”, uma promessa de suicídio ao chegar a essa idade, e que, para quem a conhece, pode ser considerada otimista: nessa toada, Luz Mendiluce é forte candidata a morrer antes dos 30.

Aos poucos vai se formando ao seu redor uma patota de escritores heterodoxos demais para o gosto de sua mãe ou radicais demais para o gosto de seu irmão. Para os nazistas e os complexados, para os alcoólatras e os sexual e economicamente marginais, a revista Letras Criollas se transforma numa referência obrigatória, e Luz Mendiluce, na grande mãe de todos e na papisa de uma nova poesia argentina que a sociedade das letras, assustada, tentará esmagar.

Em 1958, Luz volta a se apaixonar. Dessa vez o eleito é um pintor de 25 anos, louro, de olhos azuis e uma estupidez desnorteante. A relação dura até 1960, quando o pintor vai para Paris com uma bolsa de estudos que Luz, por intermédio de seu irmão Juan, conseguiu para ele. A nova desilusão age como um motor na gestação de outro de seus grandes poemas, “A pintura argentina”, em que examina sua relação nem sempre harmoniosa com essa pintura, sendo ela compradora de arte, esposa de pintor, modelo infantil e modelo adulta.

Em 1961, e depois de conseguir a anulação do primeiro casamento, contrai matrimônio com o poeta Mauricio Cáceres, colaborador da Letras Criollas e cultor de uma poesia que ele mesmo denomina “neogauchesca”. Escaldada, dessa vez Luz está decidida a ser uma esposa exemplar: deixa a Letras Criollas nas mãos do marido (o que lhe acarretará sérios problemas com Juan Mendiluce, que acusa Cáceres de ladrão), abandona a prática da escrita e se dedica de corpo e alma a ser uma boa esposa. Com Cáceres à frente da revista, os complexados, os nazistas e os problemáticos em massa logo passam a ser “neogauchescos”. O sucesso sobe à cabeça de Cáceres. Por um instante chega a pensar que já não precisa de Luz nem da família Mendiluce.

Quando imagina ser conveniente, ele ataca Juan e Edelmira. E até se dá ao luxo de desprezar a própria mulher. Não tardam a aparecer novas musas, jovens poetisas que se rendem diante da viril proposta “neogauchesca” e por quem Cáceres se deixa atrair. Até que, de súbito, aparentemente alheia e ignorando os negócios de seu marido, Luz volta a explodir. O incidente é comentado à exaustão pelas colunas sociais de Buenos Aires. Cáceres e um redator da Letras Criollas vão parar no hospital com ferimentos de bala, que no caso do redator não terão maiores consequências, mas que manterão Cáceres internado por um mês e meio. O destino de Luz não será muito melhor. Depois de atirar contra o marido e contra o amigo do marido, ela se tranca no banheiro e engole todos os comprimidos do armário de remédios. Dessa vez a viagem à Europa é inevitável.

Em 1964, e depois de passar por vários sanatórios, Luz volta a surpreender seus poucos mas fiéis leitores: sai a coletânea Como um Furacão, dez poemas, 120 páginas, prefácio de Susy D’Amato (que mal compreende uma única linha da poesia de Luz, mas é das poucas amigas que lhe restam), publicada por uma editora feminista do México que logo se arrepende amargamente de ter apostado numa “conhecida militante de ultradireita” cuja filiação verdadeira era desconhecida, embora os versos de Luz sejam isentos de alusões políticas, talvez uma metáfora infeliz (“em meu coração sou a última nazista”), mas sempre no plano íntimo. Um ano depois o livro é reeditado na Argentina e consegue algumas críticas favoráveis.

Em 1967, Luz volta a se instalar, agora definitivamente, em Buenos Aires. Uma aura de mistério a envolve. Em Paris, Jules Albert Ramis traduziu e publicou praticamente toda a sua poesia. Ela vive na companhia de um jovem poeta espanhol, Pedro Barbero, que faz as vezes de secretário e que ela chama de Pedrito. O tal Pedrito, ao contrário de seus esposos e amantes argentinos, é prestativo, atento (embora talvez meio rude) e acima de tudo leal. Luz retoma a direção da Letras Criollas e se põe à frente de uma nova editora, El Águila Herida. Uma coorte de fãs não tarda em cercá-la e celebrar todos os seus atos. Pesa 100 quilos. Usa o cabelo até a cintura e lava-se pouco. Veste roupas velhas, para não dizer farrapos.

Sua vida sentimental sossegou. Ou seja, Luz Mendiluce não sofre mais. Tem amantes, bebe em excesso e às vezes abusa da cocaína, mas seu equilíbrio espiritual se mantém incólume. É dura. Suas resenhas literárias são temidas e esperadas com deleite por aqueles que seu engenho e seus dardos envenenados não atingem. Mantém debates polêmicos e azedos com certos poetas argentinos (todos homens, todos famosos), os quais satiriza cruelmente chamando-os de homossexuais (em público Luz é contra o homossexualismo embora na intimidade conviva com uma profusão de amigos dessa tendência), arrivistas ou comunistas. Boa parte das escritoras argentinas a admira e lê, abertamente ou não.

A briga com seu irmão Juan pelo controle da Letras Criollas (a revista em que tanto investiu e tantos dissabores lhe custou) atinge proporções épicas. Perde e leva os jovens consigo. Vive num grande apartamento de Buenos Aires e numa fazenda do Paraná que transformou numa comuna de artistas em que ela reina inconteste. Ali, perto do rio, os artistas conversam, fazem a sesta, bebem, pintam, alheios aos cruéis acontecimentos políticos que começam a pipocar vertiginosamente no exterior.

Mas ninguém está a salvo. Uma tarde aparece na fazenda Claudia Saldaña. É jovem, é poetisa, é bonita, acompanha uma amiga. Luz a vê e no mesmo instante fica maravilhada. Pede para ser apresentada e não poupa suas atenções. Claudia Saldaña passa uma tarde e uma noite na fazenda e na manhã seguinte volta para Rosário, onde vive. Luz leu seus poemas, mostrou-lhe seus livros traduzidos em francês, a foto de sua primeira infância em que aparece com Hitler, animou-a a escrever; implorou-lhe que a deixasse ler suas poesias (Claudia Saldaña disse que mal está começando, que é tudo muito ruim), ofereceu-lhe uma pequena escultura de madeira que a outra elogiou e, por fim, tentou embriagá-la, para que se sentisse mal e não fosse embora, mas Claudia Saldaña foi embora.

Dois dias mais tarde (que passa como sonâmbula), Luz descobre que está apaixonada. Sente-se como uma criança. Consegue o telefone de Claudia em Rosário e lhe telefona. Transtornada, mal contém sua emoção. Quer marcar um encontro. Claudia aceita. Vão encontrar-se em Rosário três dias depois. Luz não se contém, deseja vê-la naquela mesma noite, no mais tardar no dia seguinte. Claudia alega compromissos inadiáveis. Não tem jeito, é impossível. Luz aceita todas as condições, resignada e feliz. Nessa noite chora, dança e bebe até desmaiar. Sem dúvida é a primeira vez que sente algo assim por uma pessoa. O amor verdadeiro, confessa a Pedrito, que concorda com tudo.

O encontro em Rosário não é tão maravilhoso como Luz imagina. Claudia lhe expõe clara e francamente os empecilhos para uma relação futura e mais íntima entre as duas: não é lésbica, a diferença de idade é considerável (mais de 25 anos) e por fim suas ideias políticas são opostas, para não dizer claramente antagônicas. “Somos inimigas mortais”, Claudia lhe diz com tristeza. Luz parece se interessar por essa última afirmação. (Ser lésbica ou não, quando o amor é verdadeiro, não lhe parece transcendental. E a idade é uma ilusão.) Mas serem inimigas mortais desperta sua curiosidade. Por quê? Porque eu sou trotskista e você é uma fascistoide de merda, diz Claudia. Luz engole o insulto e ri. E isso é irremediável?, pergunta, morrendo de amor. É irremediável, diz Claudia. E a poesia?, pergunta Luz. A poesia tem pouco a ver com a Argentina nos dias que correm, diz Claudia. Talvez você tenha razão, Luz reconhece, prestes a cair no choro, mas talvez se engane. A despedida é triste. Luz tem um Alfa Romeo esporte azul-claro. Sua rotunda anatomia custa a entrar no carro, mas ela tenta, animada, com um sorriso no rosto. Da porta da lanchonete onde estavam, Claudia a observa sem se mexer. Luz acelera e a imagem de Claudia no espelho retrovisor não se move.

Qualquer uma, em seu lugar, teria se rendido, mas Luz não é qualquer uma. Invade-a uma atividade criadora torrencial. Antes, quando sofria de amores e desamores, sua pluma secava por muito tempo. Agora escreve como uma alucinada, pressentindo talvez a fatalidade do destino. Toda noite telefona para Claudia, falam, discutem, leem poemas uma à outra (os de Claudia são francamente ruins, mas Luz evita dizê-lo). Toda noite insiste, suplica um novo encontro. Faz propostas fantasiosas: partirem juntas da Argentina, fugirem para o Brasil, para Paris. Seus planos provocam gargalhadas da jovem poetisa, uma gargalhada desprovida de crueldade, talvez uma hilaridade tingida de tristeza.

De repente o campo, a comuna de artistas do Paraná torna-se asfixiante para Luz, que resolve voltar para Buenos Aires. Ali tenta retomar sua vida social, frequentar amigos, ir ao cinema ou ao teatro. Mas não consegue. Também não tem coragem de ir visitar Claudia em Rosário sem sua permissão. Escreve então um dos poemas mais estranhos da literatura argentina, “Minha filha”, 750 versos cheios de amor, arrependimento, ironia. E telefona para Claudia toda noite.

Não é descabido pensar que depois de tantas conversas surgisse entre ambas uma amizade sincera e correspondida.

Em setembro de 1976, transbordante de amor, Luz pega o Alfa Romeo e sai literalmente voando para Rosário. Quer dizer a Claudia que está disposta a mudar, que na verdade já está mudando. Ao chegar à casa de Claudia encontra os pais dela mergulhados no desespero. Um grupo de desconhecidos sequestrou a jovem poetisa. Luz move céus e terra, recorre às suas amizades, às amizades da mãe, do irmão mais velho e de Juan, em vão. Os amigos de Claudia dizem que os militares é que estão com ela. Luz se nega a crer e espera. Dois meses depois o cadáver é encontrado num lixão na Zona Norte da cidade. No dia seguinte, Luz retorna a Buenos Aires em seu Alfa Romeo. No meio do caminho se espatifa contra um posto de gasolina. A explosão é considerável.

Luiz Fontaine da Souza
Rio de Janeiro, 1900 – Rio de Janeiro, 1977

Autor de uma precoce Refutação a Voltaire (1921) que lhe valeu elogios nos círculos católicos do Brasil e a admiração do mundo universitário por causa da vastidão da obra, 640 páginas, do aparato crítico e bibliográfico e da manifesta juventude do autor. Em 1925, como para confirmar as expectativas criadas por seu primeiro livro, publica a Refutação a Diderot (530 páginas) e dois anos depois a Refutação a D’Alembert (590 páginas), obras que o colocam à frente dos filósofos católicos do país.

Em 1930 publica a Refutação a Montesquieu (620 páginas) e, em 1932, a Refutação a Rousseau (605 páginas).

Em 1935 passa quatro meses internado numa clínica para doentes mentais em Petrópolis.

Em 1937 vem à luz A Questão Judaica na Europa Seguida de um Memorando sobre a Questão Brasileira, livro volumoso como todos os seus (552 páginas) em que expõe os perigos que espreitam o Brasil (desordem, promiscuidade, criminalidade) se a mestiçagem se generalizar.

Em 1938 aparece a Refutação a Hegel Seguida de uma Breve Refutação a Marx e Feuerbach (635 páginas), que muitos filósofos e até alguns leitores consideram a obra de um demente. Fontaine, é irrefutável, conhece a filosofia francesa (domina perfeitamente o idioma), mas não a filosofia alemã. Sua refutação a Hegel, que vira e mexe ele confunde com Kant e outras vezes, o que é ainda pior, com Jean-Paul, Hölderlin e Ludwig Tieck, segundo os críticos é patética.

Em 1939 surpreende a todos com a publicação de um pequeno romance sentimental. Em suas escassas 108 páginas (outra surpresa) narra os galanteios de um professor de literatura portuguesa dirigidos a uma jovem rica e quase analfabeta de Novo Hamburgo. O romance, Luta de Contrários, quase não se vende, mas seu estilo fino, sua argúcia e a perfeita economia verbal com que está construído não passam despercebidos de certos críticos, que o elogiam sem reservas.

Em 1940 é internado de novo no sanatório de Petrópolis, de onde só sairá três anos mais tarde. Durante sua longa temporada, embora interrompida pelas festas natalinas ou pelas férias com a família e sempre sob os cuidados estritos de uma enfermeira, escreve a continuação de Luta de Contrários: Crepúsculo em Porto Alegre, cujo subtítulo, Apocalipse em Novo Hamburgo, é esclarecedor para o conjunto da obra romanesca. O relato parte exatamente do mesmo ponto em que se interrompe Luta de Contrários. Com uma escrita fragmentada, alheia ao estilo fino, à argúcia e à economia verbal do precedente, Crepúsculo em Porto Alegre narra os vários pontos de vista de um mesmo personagem, o professor de literatura portuguesa, em relação a um crepúsculo interminável, e no entanto velocíssimo, na cidade meridional brasileira, enquanto simultaneamente em Novo Hamburgo (daí o subtítulo Apocalipse em Novo Hamburgo) os criados, a família e posteriormente a polícia se deparam com o cadáver da rica herdeira analfabeta encontrada em seu quarto, debaixo da grande cama de baldaquim, retalhada a punhaladas. O romance, por imperativos familiares, só seria publicado quando já ia bem avançada a década de 60.

Depois, um longo silêncio. Em 1943 publica um artigo num jornal do Rio no qual se opõe à entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Em 1948 publica um artigo na revista Mulher Brasileira sobre flores e lendas do Pará, especialmente da região entre o rio Tapajós e o rio Xingu.

E assim até 1955, quando aparece Crítica a O Ser e o Nada, de Sartre, v. I (350 páginas), que trata unicamente dos tópicos 2 e 3 da Introdução, “Em busca do ser”, de O Ser e o Nada. Esses tópicos são “O cogito pré-reflexivo e o ser do percipere” e “O ser do percipi”, e em sua crítica Fontaine percorre desde os filósofos pré-socráticos até os filmes de Chaplin e Buster Keaton. Em 1957 aparece o segundo volume (320 páginas), que trata do quinto tópico, “A prova ontológica”, e do sexto tópico, “O ser em si”, da Introdução da obra sartriana. Os dois livros passam, diríamos, em brancas nuvens pelos círculos filosóficos e universitários brasileiros.

Em 1960 aparece o terceiro volume. Em 600 páginas compactas aborda os tópicos terceiro, quarto e quinto (“A concepção dialética do nada”, “A concepção fenomenológica do nada” e “A origem do nada”) do primeiro capítulo (“A origem da negação”) da Primeira Parte (“O problema do nada”) e os tópicos primeiro, segundo e terceiro (“Má-fé e mentira”, “As condutas de má-fé” e “A ‘fé’ da má-fé”) do segundo capítulo (“A má-fé”) da Primeira Parte.

Em 1961, e em meio a um silêncio sepulcral que não é interrompido nem mesmo por seu próprio editor, aparece o quarto volume (555 páginas), que aborda os cinco tópicos (“A presença ante si”, “A facticidade do para-si”, “O para-si e o ser do valor”, “O para-si e o ser dos possíveis” e “O eu e o circuito da ipseidade”) do primeiro capítulo (“As estruturas imediatas do para-si”) da Segunda Parte (“O ser-para-si”) e os tópicos segundo e terceiro (“Ontologia da temporalidade, a) ‘A temporalidade estática’, b) ‘Dinâmica da temporalidade’” e “Temporalidade original e temporalidade psíquica: a reflexão”) do segundo capítulo (“A temporalidade”) da Segunda Parte.

Em 1962 aparece o quinto volume (720 páginas), em que, pulando o terceiro capítulo (“A transcendência”) da Segunda Parte, quase todos os tópicos do primeiro capítulo (“A existência do próximo”) e todos os tópicos sem exceção do segundo capítulo (“O corpo”) da Terceira Parte (“O para-outro”), aborda, pródigo e feroz, o terceiro tópico (“Hüsserl, Hegel, Heidegger”) do primeiro capítulo e os três tópicos (“A primeira atitude para com o próximo: o amor, a linguagem, o masoquismo”, “A segunda atitude para com o próximo: a indiferença, o desejo, o ódio, o sadismo” e “O ‘ser-com’ (Mitsein) e o ‘nós’, a) O ‘nós’-objeto, b) O ‘nós’-sujeito”) do terceiro capítulo (“As relações concretas com o próximo”) da Terceira Parte.

Em 1963, enquanto trabalhava no sexto volume, seus irmãos e sobrinhos se veem obrigados a interná-lo de novo num sanatório para doentes mentais, onde permanecerá até 1970. Não voltou a escrever. A morte o surpreenderá sete anos depois em seu confortável apartamento do Leblon, no Rio, enquanto ouve um disco do compositor argentino Tito Vázquez e observa pelos janelões o crepúsculo carioca, os carros, as pessoas que conversam nas calçadas, as luzes que se acendem, se apagam, as janelas que se fecham.

 

 

Franz Zwickau
Caracas, 1946 – Caracas, 1971

Franz Zwickau passou pela vida e pela literatura como um torvelinho. Filho de imigrantes alemães, dominou à perfeição tanto a língua de seus pais como a língua de sua terra natal. As crônicas da época falam de um garoto talentoso e iconoclasta que se negou a crescer (Segundo José Heredia o definiu em certa ocasião como “o melhor poeta estudantil da Venezuela”); as fotos mostram um jovem alto, louro, com o corpo de atleta e o olhar de um assassino ou de um sonhador ou as duas coisas ao mesmo tempo.

Publicou dois livros de poesia. O primeiro, Motoristas (1965), é uma série de 25 sonetos de tendência e musicalidade um tanto heterodoxas, que versam sobre temas juvenis: motos, amores desesperados, o despertar sexual e a vontade de pureza. O segundo, O Filho dos Criminosos de Guerra (1967), marca uma mudança substancial na poética de Zwickau e de certo modo na poesia venezuelana da época. Livro maldito, pavoroso, mal escrito (Zwickau tinha uma estranha teoria sobre a correção do poema, algo bastante singular em alguém que começou escrevendo sonetos), salpicado de impropérios, maldições, blasfêmias, detalhes autobiográficos absolutamente falsos, imputações caluniosas, pesadelos.

Alguns de seus poemas são memoráveis:

– “Diálogo com Hermann Goering no Inferno”, no qual o poeta, montado na moto preta de seus primeiros poemas, chega a um aeroporto abandonado da costa venezuelana, um lugar chamado Inferno, perto de Maracaibo, e encontra a sombra do marechal do Reich, com quem conversa sobre temas diversos: aviação, vertigem, destino, casas desabitadas, coragem, justiça, morte.

– “Campo de concentração”, ao contrário, narra com humor e certas gotas de ternura sua infância, dos 5 aos 10 anos, num bairro de classe média de Caracas.

– “Heimat”[1] (350 versos) descreve numa curiosa mistura de espanhol e alemão – com algumas alocuções em russo, inglês, francês e iídiche – as partes íntimas de seu corpo com uma frieza de médico-legista ao trabalhar no necrotério na noite seguinte a uma chacina.

– “O filho dos criminosos de guerra”, extenso poema que dá título ao livro, é um texto vibrante e desmedido em que Zwickau, que lamenta não ter nascido 25 anos antes, dá rédeas largas a sua capacidade verbal, seu ódio, seu humor, sua inexistente esperança na vida. Ali, em versos livres como poucas vezes se tinha visto na Venezuela, o autor põe em cena uma infância atroz, inenarrável, compara-se com um menino negro do Alabama de 1858, dança, canta, se masturba, levanta peso, sonha com uma Berlim fabulosa, recita Goethe, Jünger, ataca Montaigne e Pascal, que conhece bem, adota as vozes de um alpinista, de uma camponesa, de um tanqueiro alemão da Brigada Peiper morto nas Ardenas em dezembro de 1944, de um jornalista americano em Nuremberg.

A coletânea, desnecessário dizer, foi ignorada, para não dizer maldosamente escondida pela crítica, como de costume.

Por um breve período ele frequentou o círculo literário de Segundo José Heredia. De sua participação ativa na Comuna Ariana Naturalista sairia sua única obra em prosa, o curto romance Camping Calabozo, em que zomba inúmeras vezes de seu fundador (facilmente reconhecível no personagem de Camacho, o Rosenberg da Planície) e de seus discípulos, os Mestiços Puros.

Sua relação com o mundo literário nunca foi fácil. Só duas antologias de poesia venezuelana incluem seu nome: a publicada em 1966 por Alfredo Cuervo, Novas Vozes Poéticas, e a polêmica Jovem Poesia Venezuelana 1960-70, de Fanny Arespacochea.

Andando de moto, despencou num barranco da estrada de Los Teques a Caracas quando ainda não tinha completado 25 anos. Só postumamente se conheceram seus poemas escritos em alemão, Meine kleine Gedichte,[2] uma coleção de 150 textos curtos que se passam num ambiente bucólico.

 


Trecho do livro A Literatura Nazista na América, a ser lançado este mês pela Companhia das Letras.


[1] “Pátria”, em alemão.
[2] “Meus pequenos poemas”, em alemão.

 

Roberto Bolaño

Escritor chileno, é autor do livro A Literatura Nazista na América, lançado pela Companhia das Letras.

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