despedida

Longe de casa

Os peixes que estarão no novo aquário carioca dão adeus à liberdade

Roberto Kaz
“Pego uma quantidade mínima, que pode servir de bandeira para as espécies”, diz Szpilman
“Pego uma quantidade mínima, que pode servir de bandeira para as espécies”, diz Szpilman FOTO: BRUNO BEZERRA_2016

O primeiro peixe do dia é uma cavalinha. “Que bom!”, comemora o biólogo Marcelo Szpilman. “Vai fazer companhia à outra que tenho.” Logo depois, viria um xerelete. E um jaguareçá. E um boca-de-fogo. E dezenas de outros peixes de matizes variados. “Com a pescaria de hoje, acho que chegaremos a 500”, calcula, animado.

São dez da manhã de um domingo de março – quarto dia seguido em que Szpilman embarca numa traineira rumo ao arquipélago das Cagarras, no Rio de Janeiro. O conjunto de ilhas, localizado a 4 quilômetros da praia de Ipanema, foi escolhido como ponto inicial da pescaria que vai durar seis meses e abastecer um imenso aquário privado a ser aberto em julho na cidade. Na semana seguinte, o barco iria para as ilhas Maricás, próximas à saída da Baía de Guanabara.

Szpilman é um homem alto de 55 anos que frequenta o mar desde a infância. “Nasci em Copacabana. Meu pai me levava à praia para pescar.” Formou-se em biologia marinha, fundou um instituto ambiental e publicou cinco livros sobre espécies aquáticas. Em 2005, começou a flertar com a ideia de construir um aquário no Rio, que servisse tanto para entreter o público quanto para auxiliar pesquisas científicas. “Pouco antes, quando criei um projeto de preservação de tubarões, notei que os leigos precisavam conhecê-los melhor para desmitificá-los. O tubarão carrega a fama de assassino, mas só ataca humanos se comete um erro de identificação.”

Uma possibilidade, pensou, seria levar os fortes de espírito para passeios submarinos em busca dos bichões. Outra, mais segura, barata e rentável, seria trazer os tubarões à massa de curiosos. Em 2007, Szpilman ganhou da prefeitura carioca a cessão por cinquenta anos de um terreno na zona portuária, onde jazia um frigorífico abandonado. A obra, orçada em 100 milhões de reais, começou a sair do papel apenas em 2012. Está sendo paga por três empresas privadas do ramo turístico, uma delas presidida pelo engenheiro Sávio Neves, primo do senador Aécio e sobrinho do governador fluminense em exercício, Francisco Dornelles.

Quando pronto, o AquaRio deve contar com 28 tanques – o maior deles terá 3,3 milhões de litros d’água – para abrigar peixes, corais e águas-vivas. O Instituto Estadual do Ambiente (Inea) aprovou todas as 400 espécies a serem expostas, o que de pouco valeu para atenuar o grito dos contrariados. “Quem deseja ver peixe que vá para o mar. Por que colocar os animais numa piscina se a natureza lhes deu a imensidão?”, indaga Marli Moraes, de 69 anos, integrante do grupo de ativistas ambientais Gaia. Já o biólogo Marcelo Carvalho, especialista em tubarões e raias pela Universidade de São Paulo, diz que os fins acabarão justificando os meios. “É inevitável que haja algum sofrimento em prol da educação e da pesquisa”, diz ele, fazendo um correlato: “Você iria a um médico que tivesse aprendido o ofício sem colocar a mão na massa?”

Szpilman afirma que os peixes do aquário serão os mesmos que a indústria pesqueira caça rotineiramente para virar comida. “O que estou fazendo é pegar uma quantidade ínfima, que pode, inclusive, servir de bandeira e ajudar na preservação das espécies.” Noventa por cento dos animais devem vir do litoral brasileiro e os 10% restantes, de criadores privados.

A ideia é que o aquário seja inaugurado com metade da capacidade de 8 mil exemplares e que os peixes continuem chegando no futuro. “A sardinha morre em um ano. O polvo, em dois. Mas, para diminuir um pouco a captura, vamos fazer pesquisa de reprodução em cativeiro, com a Universidade Federal do Rio de Janeiro”, adianta o biólogo.

 

Naquele domingo, Szpilman zarpou do Iate Clube, no bairro da Urca, às 7h30. Estava acompanhado da mulher, Roseny – incumbida de contabilizar cada peixe fisgado –, e de cinco ajudantes. Um deles, o biólogo marinho português Nuno Vasco Rodrigues, viera de Lisboa para ensinar o grupo a lidar com espécimes vivos. “Não podemos contaminá-los com nossas bactérias”, explicou Szpilman, que, assim como o restante da equipe, usava luvas para manusear os animais. A traineira ainda levava três tanques vazios, que seriam abastecidos com a água das Cagarras – a mesma que estará no aquário.

Como Szpilman não tem autorização do governo federal para pescar, ficou acordado que a captura seria feita por duas lanchas de pescadores amadores. Às 11h30, a Razo V surgiu com a primeira leva de peixes. “Fala, Marcelo, conseguiu pegar alguma coisa?”, perguntou o biólogo. “Um xerelete, um boca-de-fogo, dois pampos, dois xaréus e um jaguareçá”, respondeu o pescador. “Manda pra cá. Tem que ser rápido”, ordenou Szpilman. Colocados em sacos com água, os peixes foram passados, um a um, ao pessoal da traineira – que tratou de soltá-los nos tanques já cheios. “Xaréu é show!”, comentou Szpilman, abrindo os braços de ponta a ponta: “Vai ficar desse tamanho.”

Quinze minutos depois, surgiu uma segunda lancha com marimbás, cocorocas e mais xereletes. “Olha a Punta Negra chegando, deve estar abarrotada”, festejou o biólogo. “Tem bonito aí?” Contou, então, que havia recebido dois exemplares no dia anterior. “O peixe nada sem parar. É puro músculo, faz jus ao nome. Se tiver, pode jogar.”

Em seguida, pôs-se a descrever o destino dos animais assim que chegam ao aquário. “Primeiro, eles ficam 24 horas num tanque de água salgada com um pouco de formol, para matar os parasitas externos. Depois, permanecem cinco minutos em água doce e mais trinta ou quarenta dias de quarentena, novamente em água salgada, para que se acostumem ao cativeiro.” Nessa fase, longe da área de visitação, os peixes de grande porte – como tubarões, raias e garoupas – aprendem a receber alimento dos veterinários. “Cada um deles vai comer num lugar específico do tanque. Só assim conseguiremos saber se todos estão se alimentando.” Como diferentes espécies devem dividir o mesmo espaço, o biólogo não descarta que algumas acabem devoradas por peixes maiores.

São duas da tarde quando a lancha Razo V volta com as últimas presas. “Tem dois serras. Faz cinco minutos que a gente pegou!”, grita o pescador. O par de peixes é transferido à traineira e colocado no tanque. Um deles afunda, catatônico. “CTI, CTI”, berra um marujo, aproximando uma mangueira de oxigênio da cabeça do animal. Nada acontece. O peixe é retirado com uma rede e jogado de novo ao mar, na esperança de que volte a nadar. “Que pena, né?”, lamenta Szpilman. “Eles dariam uma boa dupla.”

Roberto Kaz

Roberto Kaz

Repórter da piauí, é autor do Livro dos Bichos, pela Companhia das Letras

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