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Louco pelo Kiss

Mexicano reúne em bar-museu 5 mil itens com a marca do grupo de rock

Ricardo Viel
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2013

Federico Riojas tinha 8 anos quando viu seu primo colocar na vitrola um disco que trazia na capa quatro homens com jeito de vilões de quadrinhos. Era uma tarde de 1976 e, enquanto soavam os acordes de Detroit Rock City, o garoto ficou hipnotizado com a imagem dos roqueiros do Kiss – maquiagem com uma base branca espessa e desenhos felino-demoníacos, roupas pretas colantes e botas com plataformas enormes. “O que me chamou a atenção não foi a música, mas a figura deles. Na época aquilo era novo e assustador”, relembra o mexicano de 45 anos.

Aquele dia na casa do primo foi um divisor de águas na vida de Riojas, conhecido como Kiko. Ele começou a comprar qualquer coisa que trouxesse o nome do grupo de rock. “Só produtos licenciados, sou totalmente contra a pirataria”, esclarece o dono do Kiss Lounge, bar que homenageia a banda nova-iorquina criada em 1973. O primeiro dos cerca de 6 mil itens de sua coleção foi um kit para pintar o rosto e ficar parecido com seus heróis. Durante mais de trinta anos, a cada viagem que fazia Riojas procurava bugigangas com a marca Kiss.

“Hoje já nem compro tanto porque o que me interessa são os itens mais raros. Também não tenho mais onde colocar. Há 5 mil itens aqui e mais uns mil em casa”, explica, mostrando as vitrines do bar-museu. O lugar fica na estrada que liga a Cidade do México a Toluca, a meia hora do Centro da capital e perto de quase nada. É um templo de adoração à banda, que está entre aquelas que têm mais produtos licenciados, de camisinhas a máquinas de pinball.

No Kiss Lounge, Riojas recebe fregueses e fãs com um visual de roqueiro antigo. Os poucos cabelos que lhe restam estão besuntados de gel e penteados para trás, o pulso acomoda pulseiras de couro, nenhum dedo escapa dos anéis, e o peito suporta um cordão de prata pesado. Um ano depois da epifania no México, conta ele, o pequeno Kiko estava nos braços de Gene Simmons, o líder do Kiss. Foi levado a San Francisco por um tio que trabalhava no showbiz, e assistiu ao primeiro de mais de uma centena de shows da banda. “De repente eu estava no camarim e na frente do Gene, que tem quase 2 metros de altura. Eu tremia, de emoção e talvez medo. Ele me levantou pelas axilas e perguntou de onde eu era.” Ao escutar a resposta, o roqueiro disse: “Não se esqueça do que vou te falar: você é o primeiro mexicano que conheci na minha vida.”



 

Riojas nunca esqueceu. No final da adolescência mudou-se para os Estados Unidos, onde estudou e começou a trabalhar na noite. Continuou comprando objetos do Kiss, mas só em 1995 voltou a apertar a mão de seus ídolos. Um amigo virou empresário da banda e o levou para jantar com o quarteto. Riojas criou coragem para perguntar a Simmons sobre o encontro de vinte anos antes. Não sabe se por boa memória ou por hábito de ser gentil, o roqueiro disse que se lembrava. Foi quando rebateu: “Aquele menino era eu.” Os dois ficaram amigos.

O bar-museu tem 500 metros quadrados dedicados à banda, divididos em três ambientes. Na entrada, motos e uma bomba de gasolina recebem o visitante, que passa por uma sala com discos e fliperamas. Descendo uma longa escadaria (com as paredes decoradas com fotos do empresário mexicano com seus heróis), chega-se ao bar propriamente dito, com um palco em que há shows nos fins de semana, só de rock pesado. Atrás há outras três salas, com sofás, pinturas no teto – o xodó do dono – e mais objetos (do Kiss, claro).

Entre as centenas de bonecos, roupas e itens musicais que recheiam as vitrines, existem preciosidades como um baixo em formato de machado assinado pelo “amigo Gene”, uma bandeira usada em um dos filmes do grupo e um conjunto de matrioskas, as bonequinhas russas, com os quatro integrantes do Kiss. Uma parede é decorada com réplicas de todos os discos de ouro e platina que a banda já recebeu.

Riojas diz que prefere nem pensar em quanto gastou para adquirir a coleção. “Acho que daria um tiro na cabeça se descobrisse.” Mas ele procura atenuar as evidências de seu fanatismo: “Não tenho tatuagem nem nada disso, e não escuto só Kiss. Escuto de tudo, adoro música brasileira, Astrud Gilberto, por exemplo.” A seguir, em nova recaída, o empresário conta que viaja no avião particular da banda – e publica as fotos no Facebook.

“O Gene é muito culto, fala sete idiomas. Conversamos sobre tudo, e pouco sobre música. E o que pouca gente sabe: ele nunca colocou uma gota de álcool na boca e nunca provou qualquer droga. Nós roqueiros somos assim, pensam que somos loucos, mas não tem nada disso”, disse Riojas. De todos os produtos licenciados pelo Kiss, há um que ele não quis comprar: o caixão. “Está maluco!? Quer antecipar minha morte? Eu só tenho 45 anos.”

Riojas abriu o Kiss Lounge em 2003. No início, seria apenas um museu particular, ao lado de sua casa, para guardar a memorabilia do grupo, ainda fechada em caixas. Até que um amigo foi ver as obras e sugeriu: “Quando abre para o público?” Riojas pediu autorização para usar o nome do Kiss, e não só a recebeu como teve a presença de Simmons na inauguração do bar. “Ele veio, ficou meia hora olhando as vitrines, e eu impaciente. Até que perguntei: ‘O que achou?’ Ele falou: ‘Calma, não vi tudo ainda.’ Depois de percorrer o bar inteiro, voltou e me disse que eu estava muito mal da cabeça.”

Ricardo Viel

Ricardo Viel é jornalista brasileiro radicado em Salamanca.

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