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Loucos por shopping

Moradores de um bairro em São Luís ficam sem sua principal opção de lazer

Marcella Ramos
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2020

A capital maranhense, São Luís, foi o segundo local no Brasil, depois de Fernando de Noronha, a entrar em lockdown, no dia 5 de maio. O decreto de fechamento veio logo após ser divulgada uma pesquisa da Fiocruz mostrando que a pandemia avançava no Maranhão com a mesma velocidade que nos Estados Unidos, o que levou a Justiça a ordenar que o governador Flávio Dino bloqueasse totalmente a cidade. No primeiro dia de lockdown, São Luís acumulava 3 368 casos de Covid-19 e o bairro que registrava o maior número de contaminações era Turu, com 143 casos.

Com cerca de 37 mil habitantes, Turu é um bairro de classe média onde a principal opção de compras e lazer é o Rio Anil Shopping. Quando foi inaugurado, em 2010, o estabelecimento com quase 40 mil m2, salas de cinema bem equipadas, lojas de departamento e área infantil causou verdadeira euforia nos moradores da região. Até então, havia na capital maranhense apenas um grande shopping, o São Luís, localizado perto de áreas mais abastadas.

Os moradores do Turu e de regiões vizinhas, também pouco favorecidas economicamente, compareceram em peso à inauguração do Rio Anil, que fica próximo a várias linhas de ônibus. À época, as imagens dos corredores superlotados chamaram a atenção na internet. A foto de uma moça correndo entre a multidão, com um sorriso largo e os punhos erguidos, como se tivesse vencido uma prova olímpica, chegou a virar meme no Orkut. Ela ficou conhecida como “a louca do Rio Anil”.

O shopping acabou provocando uma onda de revitalização no bairro. Hoje existem sete universidades no entorno do estabelecimento, em cujos corredores era comum ver, antes da pandemia, alunos batendo perna entre uma aula e outra.



No final de março, o Rio Anil e todo o comércio do Maranhão fecharam as portas. Dois meses depois, uma reabertura gradual foi autorizada, exceto para os onze shoppings do estado, onde só poderiam operar os comércios de atividades essenciais, como supermercados, bancos, lotéricas, pet shops, óticas e clínicas médicas e odontológicas.

Para um lugar que recebia em média 30 mil pessoas por dia, o fechamento teve impacto gigantesco. Como, aliás, para todo o segmento de shoppings, que antes das medidas de isolamento social era responsável por aproximadamente 2,7% do PIB, gerando mais de 3 milhões de empregos diretos e indiretos no país. Apenas nos onze shoppings do Maranhão, eram 60 mil empregos.

Como em vários setores da economia, não são bons os prognósticos a respeito do futuro imediato dos shoppings. O superintendente Rafael Saldanha, designado pela administradora BRMalls para comandar as atividades do Rio Anil, prevê que algumas lojas nem voltarão a abrir as portas. “Uma grande parte dos lojistas é de pequenos empresários que estão passando por um momento de muita dificuldade de acesso ao crédito”, disse.

 

Na segunda semana de junho, muita gente assistiu perplexa às imagens da reabertura de shoppings pelo Brasil, com filas nas entradas e corredores lotados. Nas redes sociais, o assunto foi um dos mais comentados, porque as cidades continuavam a registrar recordes de novos casos de contaminação pelo novo coronavírus. No dia 11 de junho, véspera do Dia dos Namorados, uma reportagem do G1 trouxe a seguinte chamada sobre a situação na capital paulista: “Com reabertura de shoppings, ruas do Brás, no Centro de SP, registram filas, aglomeração e congestionamento.” No dia 16, uma médica de São Paulo tuitou: “O shopping lotado, e eu pedindo três vagas de UTI COVID-19.” A postagem foi curtida mais de 13 mil vezes.

O Rio Anil também reabriu, em 15 de junho, mas dessa vez não houve aglomeração. No mesmo dia, São Luís somava 12 040 casos positivos de Covid-19, e o bairro Turu, 342 casos, segundo a Secretaria de Estado da Saúde (SES).

Além dos serviços essenciais, apenas as lojas voltaram a funcionar no Rio Anil – até o fim de junho, a praça de alimentação, a área infantil e os cinemas permaneciam fechados. No dia da abertura, a maior procura foi por lojas de departamento e empresas de telefonia, onde filas se formaram. Os clientes, contudo, obedeceram às recomendações de distanciamento e, antes de entrarem nas lojas, seguiram a instrução de passar álcool em gel nas mãos.

Muita coisa mudou no Rio Anil. No estacionamento, por exemplo, não é mais necessário apertar um botão para retirar o ticket, agora tudo funciona com sensor de movimento. Mesmo que as dez portas de entrada e saída estejam abertas para manter a circulação de ar, o acesso de clientes é permitido por apenas três delas.

Só é possível a entrada de quem estiver usando máscara e deixar que um funcionário do shopping confira sua temperatura com um termômetro a laser. Uma vez lá dentro, a pessoa precisa limpar as solas dos sapatos em tapetes higienizadores, colher um pouco de álcool em gel num dos vários dispensers disponíveis e atentar para as marcas sinalizadoras de fluxo. Na escada rolante, os adesivos nos pisos indicam que é para manter três degraus de distância do vizinho. Elevadores só são permitidos para uso prioritário de quem tem mobilidade reduzida ou deficiência. O número de pessoas dentro do estabelecimento não deve passar de 30% da capacidade total de ocupação, o que é controlado por funcionários por meio de aplicativos.

Enquanto estava fechado, o Rio Anil criou um sistema de drive-thru, no qual o cliente compra a mercadoria pelo WhatsApp e a retira no estacionamento, sem sair do carro. Esse tipo de venda, também adotado por outros shoppings no país, foi mantido.

A mudança mais drástica provocada pela Covid-19 no Rio Anil foi a retirada, nas áreas de circulação, de todos os sofás, poltronas, cadeiras e móveis nos quais as pessoas podiam se recostar. “Tudo isso é para indicar que, nesse primeiro momento, o shopping não é uma opção de lazer”, disse Saldanha.

Essa é a nova má notícia para os moradores do Turu.

Marcella Ramos

Repórter e coordenadora de checagem da piauí

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