esquina

Lugar de bandido é em alto-mar

Enfermeira sexagenária vira musa da turma da bala

Luiz Maklouf Carvalho
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

O assalto era para ter acontecido na véspera, sexta-feira, 6 de outubro. Estava escurecendo. Maria Dora dos Santos Arbex, de 67 anos, saía de um supermercado perto do apartamento onde mora, no Flamengo, no Rio. Foi ali o primeiro diálogo com o bandido:

— Ô tia, me dá o celular
— Está sem crédito
— Vai me dar o celular.
— Vou pensar no teu caso.

“Ele era desses que vivem perambulando pelas redondezas”, diz ela. “Já conhecia de vista. Achei que tinha cheirado cola e não dei importância.” Maria Dora simplesmente se afastou.

No sábado cedo, ela fez o de sempre: levou o cão tenerife Igor para o pipi matinal. Caminhava sem pressa pela rua Senador Vergueiro, já quase chegando em casa, quando o mesmo bandido fez a nova abordagem:

— Passa aí o cachorro, vale uns 50 reais.
— O cachorro, não.
— Então a bolsa.
— Não.
— A senhora vai acertar comigo porque eu não vou sair de mão pura. A bolsa já é minha. Perdeu! Perdeu!

Alexandre Cardoso Pereira, o Nem, falava alto. O “Perdeu!” foi reforçado por um canivete de cabo cor de vinho e, pior, por vários pisões de calcanhar nos dedos do pé-direito de Maria Dora. “Parecia um martelo!” Não havia ninguém na rua. Ela não se abalou. Pregou um olho no bandido e outro no cachorro. Tentou argumentar com Nem:

— O que não vão dizer se você sair por aí com a minha bolsa? Vão dizer que roubou, e não vai ficar bem. Não é melhor eu tirar o dinheiro e te entregar?

— Eu só sei que você perdeu! Perdeu! Nem avançou, com canivete e calcanhar. Maria Dora e Igor deram um passo para trás.

“Remexi na bolsa, fiz que procurava o dinheiro e saquei o revólver, rápido. Ele veio pra cima com o canivete. Eu vi o peito dele na minha mira, mas desviei para a esquerda, apertei o gatilho e acertei na mão. Não matei porque não quis.”

 

Maria Dora é cearense da praia do Meireles, em Fortaleza. Veio com os pais, ainda garota para o Rio de Janeiro. Completou o curso clássico, formou-se enfermeira e exerceu a profissão em clínicas particulares. Casou, teve quatro filhos. Um morreu. Os outros três moram com ela. São duas mulheres e um homem, solteiros e sem filhos.

Na sala do apartamento próprio, onde contou sua história, Maria Dora está à vontade. “Disseram que eu furei a mão dele. Bobagem. Eu dei de raspão, entre os dedos. Não matei porque não quis.” Ela se levanta e, a pedido do repórter, aplica-lhe o golpe de calcanhar que sofreu. Dói, e muito.

Ela atribui à profissão o sangue-frio que afirma sempre ter tido: “Fui instrumentadora cirúrgica. Exige muita precisão, muita agilidade”. À observação de que um bisturi não é exatamente um revólver calibre 38, Maria Dora oferece uma tríplice resposta. O filho é militar do Exército; ela perdeu o medo de tanto ver ou guardar a arma dele. Em 92, fez um curso de tiro, no qual demonstrou pontaria exemplar. Em determinado exercício, o instrutor lhe disse que a regra era não acertar a silhueta-alvo em nenhum ponto letal. Maria Dora mandou o tiro no meio da testa. Chamada às falas, saiu-se com esta: “Ora, se ele estivesse de colete, ia me jantar”. Conclui a explicação declarando que dois episódios fortaleceram seu sangue-frio. Relata que foi obrigada a fazer uma ligadura de tendão “na mulher de um bandido, com a arma dele na cabeça”, e que em 1998 ela e a filha mais nova, então com 24 anos, foram vítimas de um sequestro. Livraram-se incólumes quatro dias depois, resgatadas “pela outra irmã”.

O trinta-e-oito que acertou Nem pertencia legalmente à filha mais nova, que está concluindo o curso de serviço social. “Sei que é crime usar arma sem porte, mas usei para me defender, porque uma amiga minha foi estuprada no aterro do Flamengo e as autoridades não fazem nada”, diz.

Depois do tiro, Nem saiu correndo. Foi preso na mesma manhã. Maria Dora foi para casa, aonde chegou “em estado de choque”, para usar a expressão da filha mais velha. Minutos depois ouviram-se as sirenes de oito viaturas da polícia, que pararam em frente ao prédio. Maria Dora foi presa na sala. Ao se entregar, pôs a arma em cima da mesa e disse: “Fui eu mesma, podem me levar”. Um inquérito apura os dois crimes.

No dia 23 de outubro, Maria Dora, vestida com (digamos) elegância, compareceu ao plenário da Câmara Municipal do Rio de Janeiro para a solenidade em que recebeu a Medalha Pedro Ernesto, proposta pelo vereador Carlos Bolsonaro. Além dele e da homenageada, compunham a mesa o pai do vereador, deputado federal Jair Bolsonaro, o irmão, deputado estadual Flávio Bolsonaro, o tenente-coronel PM Fernando Príncipe Martins e a promotora pública Dora Beatriz Wilson da Costa. Maria Dora defendeu uma severa política de controle da natalidade e sugeriu que bandidos sejam confinados em navios e mandados para alto-mar.



Luiz Maklouf Carvalho

Luiz Maklouf Carvalho, jornalista, é autor de "O Coronel Rompe o Silêncio", da Objetiva, e coautor de "Vultos da República", da Companhia das Letras.

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