poesia

Maçã

Eu poderia simplesmente aguentar firme o formigamento e tocar em frente como todo mundo

Airton Paschoa
ILUSTRAÇÃO: LAURENCE BURNS

ADEJO SOSTENUTO

Ter imaginado, imaginado que podia,
podia ser.
E ter de rir de si e ter de rir de dó e ter
de rir de lá.

ORDEM

Ó Vossa Iminência,
Vossa Iminência que nunca chega,
Vossa Iminência que não chega, chega.

ARABESCO

Quando você não diz nada, toda olhos, fogos e artifício, e nada digo eu, todo utopia, tiros e queda, não é que não dizemos nada. Poderíamos falar cobras e lagartos, serpentes. Poderíamos falar sem parar, caravana, miragens. Ou poderíamos simplesmente dizer deserto. Mas não, não dizemos nada. E é o que dizemos de certo.

FORMIGAMENTO

Praga ou não, dei com as maçãs formigando ao erguer os olhos. Acho que o sangue para de correr pelo local, ou corre demais, não sei. A única coisa que sei é que sempre que acontece fico meio atarantado, pensando em esconder o rosto, mesmo não fazendo ideia de como seguir escrevendo com as mãos ocupadas, ou olhar só para o chão, arriscando viver vexado, ou até mesmo aguentar firme o formigamento e tocar em frente como todo mundo, cada qual com seu papel, ou folha… penso um pouco corado.

A TRISTEZA DO REI

Baixar édito –
é o ofício.
Baixa o tédio
e baixa a treva.
A trova cala
e cala o bobo.
A cama é larga
e larga o corpo.
Mas a alegria –
a alegria tem que reinar,
tem que reinar a alegria
em todos os quadrantes,
e o rei se dependura
(qual um quadro).

GATOS E HOMENS

(goeldiana)

Os gatos passeiam, de olhos acesos, entre móveis, vasos, vielas. Os homens sossegam, de olhos cerrados, entre persianas, penumbras, penhascos. Os gatos querem pular e pulam, como os sonhos, o muro. E as sombras, esgueirando-se meio-fio adentro, despertam a mais pálida suspeita.

ESPERANÇA

Não havia porto.
Corpos e mais corpos apenas.
Não que não houvesse braços.
E o abraço desesperado.
E a esperança de afundar.
Não havia esperança de mar.

BANHO DE SOL

Certas manhãs, despontando impossíveis de azul e luz, parece quererem nos lembrar que não devíamos estar fazendo isso. É quando com certo pejo rápido engavetamos os afazeres e – não sabemos bem o que fazer. O amor permanece proibido durante o expediente. A poesia, de fim de semana, se confunde com suplemento. O subterrâneo, que retumbava outra vida… Outra vida! É quando com certo pejo rápido descemos tomar banho de sol.

ARTROSE

Mexeu-se um pouco. Que tinha que fazer algo, isso lembrava, e que era urgente isso, lembrava. O que era… Mexeu-se. Era alguma coisa que tinha que ver. Olhou ao redor, nenhum pico à vista, e teve vontade de sentir saudade do tempo em que escalava as estantes. Intrépido. É, intrépido. Mas não se mexeu. Nem pra apanhar a manta, que de quando em quando deslizava como deslizavam as nuvens, lembrava. Via a cortina em sua queda congelada e teve vontade de sentir saudade do tempo em que mergulhava no trabalho. Pescou a manta, com o gancho do cabide, cobriu a cabeça. O ar – não, não faltava. Inspirava e expirava, regular.

CIRCULATURA DO QUADRADO

Indo de um canto a outro e deste àqueloutro e destoutro ao penúltimo e do penúltimo ao último canto, perfaz-se um quadrado. Perfazendo-o vida afora, em que pese a distração com a poeira que levantamos, observa-se com justeza que o último confina palmo a palmo com o primeiro canto. Não deixamos de perfazê-lo por isso, notando embora requerer sempre mais e mais esforço, à medida que mais e mais nos faltam forças. – Mas há o pó, o pó! o tom subindo, subindo e descendo em sua infinita variedade, e a réstia de sol, volta e meia nos dizemos, erguendo a coluna.

AUTOIMOBILISMO

As notícias chegam de fora. Volta e meia viaja um conhecido, um parente, e regressam cheios de malas e saudade. Ah, a Europa! E não só ela. A Ásia! A China! O Império! Quantos jardins suspensos não suspeita o pobre tronco! resvalamos a pena velada nos olhos dos descobridores, nós que mal nos movemos do leito. Só ficamos menos embaraçados quando as pedem de dentro. Balançam a cabeça, não sei se positivamente ou por polidez, e esperam assentar a poeira. Uma hora os braços caem, levantando mais poeira. É quando se levantam também. Felizmente não preciso acompanhá-los.

LABIRINTITE

Ler o diário sem abanar a cabeça, eis arte que só a idade ensina. E se volta e meia topamos notícia imperiosa, a tentar-nos o equilíbrio estoicamente conquistado, cerramos os olhos, como que em oração matinal, o tempo talvez de uma ave-maria, um pai-nosso, surdo de todo aos rompantes do vulgo, e logo logramos reabri-los com a beatitude dos grandes santos. Se porventura anos afora, sabe Deus, pressentimos falecer-nos o árduo dom de levitar, resta virar a página e com sorte deparar nosso necrológio. Ou até mesmo fechá-lo, última saída. Tudo, tudo, irmão, menos cair na tentação de abaná-la. Não por reavivar o fogo da danação, este eterno, senão por prevenir mais alta desgraça, o inflamar o labirinto.

PARÁBOLA

Não reclamo. Se é sina andar em círculo, ando. Se ninguém nunca viu a figura, paciência. A esperança… vocês sabem. Por isso não reclamo, ando. Ou me arrasto, vá lá. Às vezes levo uma vida, caracol? carrossel? via-láctea? tateando a geometria dos passos. Geometria? A aspiral pode ser só aspiração, bem sei. Daqui, da poça, divisá-la, não há, senão em parte, braço, sino, cello. E se for uma parábola, uma parábola! e ergo os olhos. Os sóis, dardejando, parece também se desfazerem em sal ou cal, e caio queimando.

ANCIEN RÉGIME

Acompanhar nosso passamento passo a passo tem sido meu passatempo. E o tempo passa. Os arranjos por entretê-lo, ao império do dia frágeis, figuram coroas. Para que servem então – ó questão que morreu descabelada! Servem à cabeça, sabe Deus, ou sobem a ela.

MISTÉRIO DOS TRANSPORTES

Rasgando o futuro e desaguando na praça monumental, os maiores pensam em rodovias; já avenidas cogitam os grandes da vida, de preferência homônimas e culminando no arco do triunfo; há quem sonhe, lírico! com alamedas a cuja sombra possa folgar do insolente sol; não falo dos épicos, que devem planejar estradas sumindo no horizonte curvado de aventuras; menos ainda dos dramáticos, que atentam só aos buracos e ponto; em tempos verdes e ardentes bucólicos ainda vislumbram trilhas a receber-nos de cachoeiras abertas. Mas o último capiau, este sabe, picando o fumo, que é o fim da picada.

FLOR DE ASFALTO

Ó flor de betume que não corta
a corrente…
Trinca o cristal de crença, tão enorme
o normal.
Ó flor de bestunto que não enxerga o
enxurro, o cu do escuro, a bota/
Bota na cabeça.

Airton Paschoa

Airton Paschoa é autor de Contos Tortos, Dárlin, Ver Navios e Banho-Maria, editados pela Nankin, e lançou Poemitos, pela Dobra Editorial.

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