chegada

Mais fortes são os poderes do corpo

Francisco prega uma Igreja na rua, que beije e toque

Mario Sergio Conti
Sem proximidade, a Igreja é como uma mãe que só se comunica com os filhos por cartas
Sem proximidade, a Igreja é como uma mãe que só se comunica com os filhos por cartas ILUSTRAÇÃO: ENCONTRO DE ANA E JOAQUIM NA PORTA DOURADA, AFRESCO DE GIOTTO NA CAPELA SCROVEGNI EM PÁDUA_1305

O papa Francisco usou a tecnologia de comunicações durante a sua visita ao Brasil. Ele falou ao repórter Gerson Camarotti, da Rede Globo, que um dos problemas maiores da Igreja Católica é a sua distância dos fiéis. A palavra-chave, sustentou, é “proximidade”. Isso, disse Francisco, “porque a Igreja é mãe, e nem você nem eu conhecemos uma mãe por correspondência. A mãe dá carinho, toca, beija, ama. Quando a Igreja, ocupada com mil coisas, se descuida dessa proximidade, se descuida disso e só se comunica com documentos, é como uma mãe que se comunica com seu filho por carta”.

Enquanto falava, Francisco fazia gestos de quem abraça e acaricia. O que vale, insistiu, são os corpos que se tocam aqui e agora. A proximidade possibilita a verdadeira comunicação, palavra que tem a mesma raiz de comunhão – receber e integrar-se ao outro. E, no entanto, lá estava o papa, falando a um portentoso aparato tecnológico que levou a sua imagem a milhões de pessoas distantes, e não próximas. A ambiguidade esteve no coração da entrevista à Globo. Ela foi uma operação de relações públicas de massa, possibilitada pela técnica, cujo conteúdo foi a defesa da intimidade entre pessoas de carne e osso.

 

A Igreja Católica é uma monarquia de direito divino que surgiu na Antiguidade e virou potência na Idade Média. Seus primeiros dogmas foram codificados por meio de cartas, o meio de comunicação criticado por Francisco, enviadas pelo apóstolo Paulo a comunidades cristãs de Roma, Corinto e Éfeso. A sua pregação tinha maior alcance que a de Jesus, que nem sabia escrever.

Foi por meio de cartas, bulas e encíclicas que o poder do papado se consolidou. Elas foram escritas no idioma internacional de então, o latim. Com o tempo, o latim perdeu espaço para línguas regionais, que eram faladas pela maioria dos católicos, gente pobre e analfabeta. O cisma provocado pela Reforma teve como pivô a defesa de Martinho Lutero de que o clero usasse traduções da Bíblia.

Mais tarde, o papado veio a permitir as traduções. Mas só há cerca de cinquenta anos, com João XXIII, autorizou que as missas fossem rezadas no vernáculo. Começou a diminuir a distância que separava a corte vaticana dos fiéis. A pompa medieval, as batinas rebuscadas, as marcas da riqueza da monarquia foram paulatinamente reduzidas, em benefício do despojamento estabelecido pelo Concílio Vaticano II.

A emergência de sociedades de massa, bem como a disputa pelo rebanho católico, acossado por forças seculares e de outras religiões, obrigou o Vaticano a recorrer aos novos recursos tecnológicos. João Paulo II foi o primeiro papa midiático. Ator na juventude, ele parecia ter sempre em mente as câmeras de tevê nas suas incessantes viagens internacionais, que se assemelhavam a turnês de astros pop. Francisco é o segundo pontífice midiático. O uso que o argentino faz da tecnologia, no entanto, é diferente da do polonês.

Na chegada ao Rio, Francisco não se prostrou para beijar o chão como João Paulo II, gesto inócuo mas que propicia boas fotos. Abriu a janela do carro num engarrafamento, sabendo, como disse à Globo, que poderia ser agredido. O polonês abençoou Lula e outros sindicalistas de oposição em plena ditadura. E o argentino, mesmo afirmando que não entendia direito as manifestações de rua brasileiras, conclamou os jovens a delas participar. O primeiro papa pregou de cima para baixo e deu lições. O outro reconheceu que não sabia mais que ninguém e falou como que a iguais.

 

Francisco contou em sua entrevista à tevê que foi morar na Casa de Santa Marta porque detesta ficar sozinho. O homem gosta de gente. Reconheceu a importância do Vatileaks e deixou no ar que simpatizava com a derrama de documentos internos do Vaticano. Não cogitou preservar segredos e tramoias de sacristia. Ao contrário, tuitou e deu entrevista.

As atitudes do papa não mudam a substância da igreja. O papa escolhe os cardeais que elegerão os seus sucessores em conclaves iluminados por uma figura da trindade, o Espírito Santo. A pedra da igreja fundada por Pedro é a submissão, ainda que voluntária. A monarquia divina não pretende se democratizar.

O que chegou com Francisco não foi a democratização. Foi o apelo explícito à participação direta, de corpo presente. O papa usou a tecnologia como um meio para incentivar a proximidade, o que é sempre um risco para os poderes constituídos. Para eles, seria melhor que o povo, atomizado na frente de computadores, enviasse e-mails com petições a quem de direito. Assim não haveria manifestações de rua, que, no entanto, continuam a acontecer. A tecnologia – redes sociais, celulares, minicâmeras – serve para convocá-las e difundi-las. Mas o que conta mesmo, como disse o arruaceiro Francisco, é estar ali de corpo presente, hic et nunc.

Mario Sergio Conti

Mario Sergio Conti é jornalista e autor de Notícias do Planalto, da Companhia das Letras. Foi diretor de redação de piauí de 2006 a 2011

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