carta da Colômbia

Mano dura e obras públicas

O que deslumbra os políticos brasileiros que visitam Medellín, a cidade onde a criminalidade caiu drasticamente em cinco anos

Daniela Pinheiro
Em novembro de 2003, cerca de 900 paramilitares das favelas de Medellín aceitaram a oferta de anistia do governo.  Confessaram seus crimes, entregaram as armas com uniformes militares e braçadeiras da AUC, e hoje recebem um salário mensal de 200 dólares
Em novembro de 2003, cerca de 900 paramilitares das favelas de Medellín aceitaram a oferta de anistia do governo. Confessaram seus crimes, entregaram as armas com uniformes militares e braçadeiras da AUC, e hoje recebem um salário mensal de 200 dólares FOTO: JOSE GOMEZ_REUTERS_LATIN STOCK

Medellín, na Colômbia, parece um imenso estádio de futebol, onde de um lado as arquibancadas são favelas e de outro, prédios de luxo. Uma densa vegetação ainda recobre boa parte dos morros. A cidade fica num vale isolado, distante de outros centros urbanos. Atrás dos morros ficam a floresta, os rios e os caminhos pelos quais a cocaína sai de Medellín para o mundo. Como no Rio de Janeiro, os carros só conseguem chegar até certo ponto das favelas. O resto se sobe a pé, por escadas íngremes e labirínticas, perpetuamente tingidas por córregos de água imunda que escorrem de fontes imprecisas. O acesso aos prédios ricos, revestidos de tijolos aparentes e com amplas janelas em vidro duplo, é feito por pistas de asfalto novo em folha, emolduradas por amendoeiras em copa.

Com 3,2 milhões de habitantes, 65% deles morando em áreas pobres, Medellín é um canteiro de obras. Onde quer que se vá, vêem-se tapumes, trabalhadores da construção civil aboletados em andaimes com seus capacetes amarelos, caminhões de cimento atrapalhando o trânsito. Barulho de britadeiras é a trilha-sonora de Medellín. Novos restaurantes de luxo, condomínios, shoppings, complexos de escritórios e supermercados exibem seus esqueletos por toda parte. Em outubro, 147 edifícios estavam em construção na cidade, contra 109 no Rio e 52 em Miami. A taxa de ocupação dos hotéis era de 86%. O centro de convenções, de 12 000 metros quadrados, tinha uma extensa lista de eventos programados, o que injeta cerca de 100 milhões de dólares ao ano, em investimentos e negócios, na economia.

A cidade mudou de figura porque a criminalidade caiu drasticamente. Há cinco anos, 6 500 pessoas foram assassinadas em Medellín (381 homicídios por 100 mil habitantes), o que lhe valeu o título de cidade mais violenta do mundo. Em 2007, até outubro, a taxa caiu para 26 assassinatos por 100 mil moradores.

Em março, época em que begônias em flor brotam nos canteiros das calçadas da cidade, os governadores Sérgio Cabral (Rio: 51 homicídios por 100 mil habitantes), Aécio Neves (Belo Horizonte: 37 homicídios por 100 mil) e José Roberto Arruda (Brasília: 33 por 100 mil) visitaram favelas-laboratório e escolas-modelo de Medellín para entender a razão da queda na taxa de homicídios em tão pouco tempo. Pelas contas das autoridades colombianas, a cada duas semanas uma delegação de políticos brasileiros chega a Medellín em missão oficial. No seu gabinete, no Palácio Laranjeiras, o governador Sérgio Cabral resumiu-me numa frase o que aprendeu na sua visita: “A experiência colombiana mostra que o enfrentamento do crime com todas as forças é a única saída para entrar nas áreas ocupadas por criminosos armados”.



O dínamo da criminalidade colombiana é a cocaína, com o complicador de que ela é, igualmente, um dos principais motores da economia nacional. Com a fabricação e o refino de 700 toneladas ao ano, o país é o maior produtor da droga no planeta. Ela não é comprada por universitários colombianos que lêem Michel Foucault, e sim pelos americanos, que consomem 80% da coca colombiana. Isso faz com que o governo americano seja um personagem significativo no imbróglio da criminalidade de Medellín. Os outros personagens são os traficantes, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as FARC, os paramilitares (também chamados de “autodefesa”, que equivalem às milícias cariocas), o governo e a polícia.

Inspiradas na revolução cubana, surgiram organizações políticas armadas nos anos 60, entre elas as FARC, a mais antiga e poderosa. Ela conta com cerca de 15 mil guerrilheiros, que controlam quase 40% do território nacional. Políticos e historiadores vêem legitimidade política na origem das guerrilhas: naquela época, apenas dois partidos se alternavam no governo, os liberais e os conservadores, artífices de uma Constituição que impedia qualquer outra força política de chegar ao poder por meio de eleições.

Até os anos 80, os guerrilheiros se concentraram no campo. Para financiar a luta armada, passaram a achacar e aterrorizar pequenos proprietários rurais. Em pouco tempo, de críticas do emergente fenômeno do narcotráfico, as FARC passaram também a oferecer segurança privada aos plantadores de coca. Concomitantemente, o consumo da droga nos Estados Unidos se multiplicou, elevando fortemente seu preço. Ainda hoje, a cocaína financia as atividades de guerrilha, juntamente com os resgates obtidos com seqüestros de empresários, políticos e estrangeiros.

Com o incremento da indústria da coca, os grandes traficantes se transferiram para as cidades, onde implantaram os quartéis-generais de distribuição e contrabando de cocaína para os Estados Unidos e a Europa. Os irmãos Rodríguez formaram o cartel de Cali, e Pablo Escobar, o de Medellín. Foram seguidos pelos guerrilheiros, com quem disputaram os ganhos com o tráfico. Moradores e comerciantes das favelas passaram a ser assediados, achacados, expulsos de suas casas, e mortos por traficantes e guerrilheiros. Nesse contexto, surgiram os paramilitares, grupos de autodefesa liderados por ex-policiais e líderes comunitários, que vendiam proteção aos favelados. A princípio, contaram com o apoio velado do governo e de parte da opinião pública, que pensavam da mesma forma que raciocina, hoje, o prefeito do Rio, Cesar Maia: as milícias são preferíveis aos traficantes (e aos guerrilheiros). Só que, rapidamente, os paramilitares passaram a disputar também o butim da cocaína e de outras modalidades de crime urbano, dos seqüestros à extorsão.

A guerra pelo controle territorial das favelas e por suas atividades ilegais se dava entre os exércitos de jovens arrebanhados por traficantes, guerrilheiros e paramilitares. Em Medellín, Pablo Escobar tocava o terror contra o governo explodindo carros-bomba à luz do dia e assassinando políticos influentes. A Colômbia entrou no radar do governo de Ronald Reagan, que deflagrara em seu território a “guerra contra as drogas”. Foi com o apoio estratégico da espionagem americana que, em 1993, a polícia colombiana encurralou e matou Pablo Escobar em Medellín.

As milícias paramilitares se fortaleceram. Expulsaram o comando dos traficantes e da guerrilha nas favelas e assumiram o controle dos crimes locais. Em 1997, formaram a Autodefesas Unidas da Colômbia, as AUC, que se tornaram o maior grupo armado urbano. Em menos de dois anos, chegaram à política. Em outubro passado, onze congressistas renunciaram ao cargo por suspeita de envolvimento com as milícias paramilitares. Nas últimas eleições, trinta candidatos ligados ao grande capo paramilitar de Medellín, Don Berna, foram eleitos diretores de associações de bairros.

O presidente Álvaro Uribe é o condutor da política de mano dura. Voz da direita em meio a uma maioria de chefes de estados de esquerda nos Andes, ele está no segundo mandato, e correligionários começaram a ventilar a possibilidade de um terceiro. Ele é dado a arroubos verborrágicos e brigas com a imprensa que o critica. Foi Uribe quem, em outubro de 2002, ordenou a invasão da Comuna 13, um conjunto de favelas com 170 mil habitantes de Medellín, naquele que foi considerado o maior combate urbano da história da Colômbia. Recebidas pelos bandidos com granadas, tiros de fuzis e metralhadoras, as forças da ordem responderam, pelo ar, com helicópteros de artilharia. Por terra, 3 mil policiais e soldados entraram nas casas das favelas, em busca de suspeitos e armamentos. O saldo foi de 18 mortos, 34 feridos e 281 detidos. “A invasão significou a ruptura com o passado”, diz Marta Ruiz, editora da revista Semana, a maior do país. “Foi quando o governo Uribe resolveu se impor, entrando na Comuna 13 à força, custasse o que custasse.”

O armamento e o planejamento da invasão da Comuna 13 foram cacifados pelo governo americano, no quadro do Plano Colômbia, de combate ao narcotráfico. Na última década, a Casa Branca destinou 5 bilhões de dólares ao Plano. Só no ano passado, foram 650 milhões de dólares. No governo de Bill Clinton, ficou definido que as verbas do Plano Colômbia deveriam ser usadas exclusivamente para erradicar a produção e o tráfico de drogas. No governo George W. Bush, contudo, a “guerra às drogas” virou apêndice da estratégia maior, a “guerra ao terror”. Como o governo americano classifica as FARC de organização terrorista, parte das verbas agora é usada no combate aos guerrilheiros na selva.

Numa manhã de outubro, dezoito jovens se reuniram em uma sala de paredes descascadas na favela de La Sierra, onde vivem 2 700 pessoas. Sentados em cadeiras de plástico, formando um círculo, eles assistiam a uma palestra. A maioria usava bonés, jaquetas e calças jeans com rasgos em lugares escolhidos. Os tênis eram Puma, Adidas e Nike. Um sargento de bigode, com roupa preta de combate, exibia slides. Ele disse: “Vocês é que têm que comprar os rádios. Vocês serão cooperantes, e não informantes. Os informantes são pagos, vocês não. Se acontecer algo aqui, um roubo, um acidente, um seqüestro, vocês avisam pelo rádio e a polícia vem. Isso não dá nenhum poder a vocês, entenderam? Isso porque houve muitos casos em que os cooperantes passaram a extorquir comerciantes, dizendo que tinham linha direta com a polícia. Vocês vão fazer parte da Rede de Apoio Cidadão, que é uma ação do nosso presidente Uribe, para construirmos uma sociedade melhor”, concluiu. Na classificação do governo, os garotos da reunião receberam o nome de “desmobilizados”.

Todos os rapazes da sala eram assassinos. Há dois anos, empunhavam fuzis, matavam a sangue-frio, roubavam e traficavam drogas na mesma favela onde ainda moram e agora assistem à palestra. Integravam uma gangue de quarenta garotos, ligada a uma milícia paramilitar, o Bloque Metro. Um deles, com a cabeça raspada e ar de enfado, foi protagonista de um documentário, exibido na Colômbia em 2005. La Sierra foi visto por mais de 6 milhões de pessoas. O filme não menciona as FARC ou os barões do tráfico. O que se vê são morros miseráveis dominados por adolescentes armados, sem qualquer ideologia ou propósito comunitário. O que lhes interessa é ter uma arma como símbolo de poder e de atração sexual.

Em julho de 2003, como parte do Plano Colômbia, Álvaro Uribe deu início às negociações que levariam a um acordo entre o governo e os maiores grupos criminosos, a começar pelas AUC. Seria como se representantes do governo Lula se sentassem com negociadores do Comando Vermelho e do Primeiro Comando da Capital, o PCC. As garantias oferecidas aos criminosos foram tentadoras: com a promulgação da Lei de Justiça e Paz, os paramilitares que entregassem armas e bens obtidos de maneira ilegal, e que confessassem crimes, seriam anistiados. Mesmo os chefes das milícias seriam condenados a, no máximo, oito anos de prisão. E o que mais ansiavam: não seriam extraditados para os Estados Unidos, onde receberiam penas bem mais duras.

Cinco meses depois, o primeiro grupo de “desmobilizados” se apresentou em Medellín. Eram 868 milicianos paramilitares, que foram reunidos numa quadra de esportes e exibidos para câmeras de televisão. Ainda que usassem camiseta, bermudas ou jeans no dia-a-dia, eles foram vestidos com uniformes militares camuflados, se enfileiraram em ordem unida e depuseram as armas como se estivessem numa solenidade de rendição.

Pelos cálculos do governo haveria 12 mil “desmobilizados” em potencial, incluindo paramilitares, sicarios (matadores de aluguel), adolescentes treinados pela guerrilha, viciados recrutados por traficantes e membros das bandas criminales, os bandidos comuns. Apresentaram-se nada menos que 32 mil jovens. Só em Medellín, foram 4 132, quando se imaginava que apareceriam 800. “A desmobilização foi o passo fundamental para a queda vertiginosa da criminalidade na cidade”, disse o cientista político Pablo Angarita, da Universidade de Antioquia. “Mas deve se pensar o quão duradoura pode ser essa paz, pois ela se baseou numa ordem de suspender a matança dada pelos chefes do crime.”

No cargo de secretário de Governo da prefeitura de Medellín, Gustavo Villegas pensa de maneira diferente. Com a autoridade de responsável pela reinserção dos “desmobilizados” à sociedade, ele me disse: “Não se pode ignorar os líderes. É preciso fortalecê-los, sejam eles anjos ou diabos. Eles são líderes natos, não adianta querer esmagá-los. Se você não pode escapar do inimigo, tem que falar com ele. Fechamos um acordo com Don Berna, sim. Falamos que íamos fazer mudanças em Medellín, com ou sem ele. Ele concordou. Na prática, coincidimos nas nossas aspirações e vontades”. Desde a prisão dos principais chefes do crime nas favelas de Medellín, o secretário de Governo se reúne com eles a cada dois meses. Entre os bandidos com quem Villegas se encontra está o próprio Don Berna, um homem gordo e de bigodes que, escorado pela Lei de Justiça e Paz, está preso desde 2003. Ele ainda é muito querido nas favelas de Medellín. Como Pablo Escobar, Don Berna ajudava a população com casas, terrenos, comida e proteção.

Villegas explicou que um acordo com criminosos, por si só, não acaba com o crime: “O que vai fazer parar o crime é a presença do Estado. Os paramilitares nasceram da convicção de que o Estado não estava presente. Um poder ilegal combatia um Estado, que eles consideravam ilegal. Até podem voltar ao crime, mas serão perseguidos pela Justiça e vão ser pegos. Então, o sujeito pensa: ‘A atividade ilegal é melhor do que o que esse governo está me oferecendo?’ E assim eles tomam suas decisões”. Villegas parou um pouco e contou: “Um dia, da cadeia, Don Berna falou que matar em Medellín estava fora de moda. Eu pensei: ‘Meu Deus, o que esse homem está falando?’ Mas é verdade”.

Em junho, a polícia carioca entrou no Complexo do Alemão, um conjunto de favelas com 130 mil moradores, e foi recebida à bala. O saldo foi de dezenove supostos traficantes mortos e quilos de munição apreendida. Em meados de outubro, confrontos entre policiais e traficantes na favela da Coréia também tiveram um resultado sangrento: dezesseis mortos, sendo um policial, catorze supostos criminosos e um menino de 4 anos. Estatísticas oficiais mostram que 961 pessoas foram mortas pela polícia desde que Sérgio Cabral tomou posse, no início do ano. Quando lhe contei que isso dava uma média de sete mortos por policiais a cada dois dias, o governador disse, sorrindo: “Não vi isso não. Saiu no jornal de hoje?” Houve um silêncio, Cabral ficou sério e disse: “A polícia está num confronto permanente. Confronto gera estresse. Não tem outro caminho. Não tem”.

No mesmo período, foram apreendidos 694 artefatos explosivos, entre granadas, bananas de dinamite, bombas e até minas terrestres, nas favelas. Segundo o governador, quando ficou claro que a polícia entraria nos morros à força, os bandidos mudaram de postura. “Agora eles sabem que vai ter reação com apoio da sociedade. Eles já não têm mais os arroubos ou cometem os abusos, como no passado recente, porque percebem que agora tem polícia”, disse. Sobre a morte de inocentes, Cabral afirmou: “É evidente que não queremos isso. Mas vamos deixar de enfrentar, então? Vamos deixar os marginais da favela da Coréia controlar de maneira facínora a comunidade?” Na semana seguinte ao confronto, o governo do Rio deu uma casa à mãe do menino morto.

Durante onze anos, um militar que prefere ser chamado de Germán Ordoñez integrou a tropa de elite do Exército colombiano. Jantamos num restaurante de Bogotá. Enquanto comia pizza e tomava suco de tangerina, ele contou que a preparação para invadir áreas urbanas durou dois anos. “Sabíamos exatamente para que estávamos aprendendo aquilo tudo”, contou. Para ele, que pilotava helicópteros, o treinamento tinha o objetivo de conseguir acertar uma lata de azeite de uma altura de 600 metros, domando o vento provocado pelas hélices, que desviava do alvo a mira da arma. Ordoñez disse que o próprio presidente ia aos batalhões para animar os militares. “Ele chegou um dia às duas da manhã e começou a falar que aquilo era para nossa vida e nosso futuro”, lembrou.

De calça jeans, camisa xadrez e mochila Nike, Ordoñez poderia ser confundido com um playboy que toma energético na entrada de uma boate da moda. “O discurso das autoridades era que a guerra é algo pessoal”, ele disse. “Cada um de nós tinha esse sentimento, mesmo que aquilo custasse nossas vidas. Era algo como: ‘Que tipo de país vamos deixar para os nossos filhos? Damos um jeito nisso ou deixamos essa vagabundería tomar conta?’.”

Há poucos meses, companheiros de pelotão de Ordoñez foram condenados pela Justiça por um massacre, no qual morreram dezoito civis, entre eles sete crianças. “A guerrilha mata os civis e coloca os corpos lá para dizer que foi o Exército”, justificou o militar. “Que civis vão ter franco-atiradores disparando contra a gente? Essas FARC têm muita imprensa, têm muita ONG, têm muito marketing, elas são a encarnação do diabo.” Como o restaurante estava cheio, ele baixou o tom de voz para se queixar dos seus superiores: “Se você conversasse com um general, ele diria que os militares teriam todas as garantias legais e jurídicas, caso fossem acusados de alguma morte. Mas não é verdade. Tivemos que dar um dia de nosso salário para pagar os advogados dos amigos que foram processados”.

Enquanto esperávamos a conta, ele falou sobre o atual momento do combate à criminalidade: “A paz em Medellín tem tudo a ver com Uribe, que nasceu na cidade e fez toda sua carreira lá. Todos sabemos que depois de 7 de agosto de 2010, quando ele sair, algo vai acontecer. Para melhor ou para pior, mas não vai ficar igual. Estamos no meio de uma transição”. Recentemente, Álvaro Uribe foi atingido por duas denúncias: a ligação de correligionários seus, incluindo um primo senador, com os paramilitares e a notícia de que ele teria usado o helicóptero de Pablo Escobar, em 1983, para ir ao enterro do pai. Também se diz que Uribe sempre foi a favor dos paramilitares porque eles enfrentavam as FARC, a quem o assassinato de seu pai é atribuído.

O sucesso a longo prazo da política de segurança de Uribe é colocado em dúvida pelo cientista político Pablo Angarita: “Há uma lógica perversa: na Colômbia, há quase 4 milhões de pessoas que são informantes do governo. Imagine o que isso quer dizer: uma turma de alcagüetes que ganha por informação. Há pouco, divulgaram um suposto atentado a Uribe. Era falso, mas serviu para justificar ações pesadas da polícia e, ainda por cima, fazer o presidente de vítima”.

Da janela de seu gabinete, do prédio da Central do Brasil, o secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame, enxerga parte do Morro da Mineira, onde o tráfico de drogas é controlado pelo Comando Vermelho. Sentado num sofá preto, de costas para a favela, ele falou sobre as lições que tirou da visita a Medellín, quando acompanhou o governador Sérgio Cabral. “Morreu muita gente para eles terem conseguido estabelecer aquilo lá. Mas a polícia enfrentou, se posicionou. Boa parte desse povo do crime foi morta pela polícia, mas ela entrou nas favelas, levou Estado lá. Os colombianos não vão te contar quantos morreram, e nem eu”, disse.

Beltrame contou que se convenceu sobre a necessidade de enfrentar a criminalidade, com mão forte, assim que assumiu o cargo, em janeiro, quando oito pessoas foram queimadas vivas dentro de um ônibus. “Não existe isso de seis pessoas pregarem a violência e pararem uma cidade”, disse. “Aquilo foi ação de meia dúzia de bandidos. O Rio está em guerra, e essa guerra tem núcleos”, afirmou. “Se ficamos sabendo que no Complexo do Alemão tem 15 mil cartuchos de fuzil numa casa, nós vamos lá pegar. Tem que subir o morro e enfrentar. Isso é cumprir nossa missão. Pode não ser a melhor solução, mas é uma solução”, afirmou. Dias depois, Beltrame, num lapso, disse que cumpre a sua “missão” com base em critérios geográfico-classistas: “Um tiro em Copacabana é uma coisa, um tiro na favela da Coréia, no Alemão, é outra”.

À palestra em La Sierra, chegou atrasado um rapaz de camisa estampada, gel no cabelo e calça jeans desbotada com água sanitária. Elétrico, sacudia o pé direito todo o tempo, mexia-se na cadeira e se distraía com facilidade. Trazia na mão duas fotografias grandes, que fez circular pela roda de ouvintes. A foto o mostrava, em pose de Rambo, com roupa camuflada, ajoelhado no chão, fuzil atravessado no peito, encarando a câmera com arrogância. A foto foi tirada em 2005. Ele explicou: “Isso é um fuzil de assalto de 5,56 milímetros, aqui tem duas granadas, um morteiro, aqui é a minha barraca, e as botas para andar na água, novinhas”.

Ele se chama Jose Giovanny Serra, tem 24 anos, e se juntou aos paramilitares aos 11. Ficou também cinco anos na selva, com a guerrilha. De volta à favela de La Sierra, foi patrulheiro: avisava os chefes do bando sobre a chegada de estranhos e apontava ônibus a serem assaltados. Até 2005, a polícia não subia em La Sierra. À primeira aproximação, era recebida por uma rajada de balas. As mortes aconteciam em brigas de facções inimigas ou, simplesmente, por diversão. Serra não tem idéia de quantas pessoas matou. Tem dúvidas se assassinou o pai de um colega de infância. “Não sei se fui eu ou um amigo meu, que matou o pai dele. Mas eu fui lá e pedi desculpas ao colega. Ele disse que tudo bem”, contou. Dali, Serra, que tem dois filhos, iria para a casa. “Não tenho nada o que fazer agora, meu trabalho é só amanhã”, disse.

No processo de reinserção social, os “desmobilizados” têm direito a um salário de 200 dólares. São obrigados a freqüentar cursos, a ter acompanhamento psicológico e participam de algum treinamento profissional. No caso de Serra, ele trabalha num projeto agrícola. A prefeitura desembolsou 13 milhões de dólares para ressocializar meliantes, e diz acompanhar com lupa a vida de cada “desmobilizado”. Pelos registros oficiais, 2 780 deles estão estudando e 1 770, trabalhando – o que daria um índice de sucesso do programa de 90%. Os outros 400 teriam voltado à criminalidade. “É um número incrível, uma prova de que a política está certa”, disse o sociólogo Jorge Gaviria, coordenador do programa de reinserção dos criminosos, da prefeitura de Medellín.

Em agosto, o ministro da Justiça, Tarso Genro, anunciou as bases do Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania, o Pronasci, que o governo promete implementar nas onze cidades com maior taxa de homicídios. A intenção é investir 6,7 bilhões de reais, até 2012, em segurança pública. O pacote, de mais de noventa medidas, inclui idéias como ajuda financeira para ex-reservistas, líderes comunitários e jovens infratores. É uma versão do salário pago aos “desmobilizados”. A ironia carioca já batizou o projeto de Bolsa-Bandido. “Vai ter uma bolsa, sim, mas não posso entrar em detalhes porque não sou eu o autor da iniciativa”, disse-me Sérgio Cabral. “A idéia é boa: dar uma ajuda financeira aos jovens que largarem a criminalidade, condicionando a remuneração a trabalho e estudo.”

Em Medellín, água e luz chegam à maioria das casas das favelas. As construções são quase todas de tijolos e parecem mais sólidas do que as levantadas nas favelas cariocas. Só nos tigurios – as favelas mais miseráveis -, como a Moravia, há barracos de madeira ou papelão. Nas ruas da cidade, estão os camelôs, os desempregados, os que vendem carregadores de celular, os mendigos nos semáforos. A presença da polícia nas ruas é imperceptível. Ao contrário de Bogotá, onde se vê militares com metralhadoras e policiais em boa parte das esquinas, a sensação de segurança parece absoluta. Mas quando se entra num shopping, prédio comercial, hotel ou em uma repartição pública, bolsas e porta-malas são impreterivelmente revistados.

Uma das poucas ações de segurança visível é a obrigatoriedade de os motoqueiros usarem colete com o número da placa em letras garrafais, nas costas e na frente. A maioria dos assassinatos e assaltos era cometida por criminosos em motocicletas sem identificação. Nem mesmo a lei seca, que previa o fechamento de bares à uma da manhã, em vigor em Bogotá, pegou em Medellín.

A Embaixada Brasileira ocupa o 8º andar de um prédio antigo da capital, em uma rua onde há camelôs e oficinas mecânicas. O embaixador Julio César Gomes dos Santos – que ficou conhecido na época do escândalo da compra de aparelhos para o Sistema de Vigilância da Amazônia, o Sivam – contou que, na semana anterior, organizara um seminário sobre a segurança colombiana para autoridades brasileiras. O convidado mais ilustre foi o ex-governador de Pernambuco, Mendonça Filho (Recife: 70 homicídios para 100 mil habitantes). “Se aqui fosse Paris ou Nova York, até diria que os políticos vêm fazer turismo, mas não é o caso”, ele disse. “Faço coquetel lá em casa depois e vamos conversar. Sabe qual é a primeira coisa que digo a eles? ‘Isso tudo o que vocês viram aqui não se aplica ao Brasil.’ Eles ficam chocados, mas é a pura verdade.”

A primeira diferença apontada pelo embaixador diz respeito à polícia: “Na Colômbia, o Estado é unitário. Há uma polícia nacional, e só. Logisticamente, ela depende das prefeituras, mas é subordinada a um comando geral, em Bogotá. Uma decisão tomada pela cúpula, pelo governo, é seguida em todas as esferas. Já no Brasil são 27 polícias, de 27 Estados. E ainda há a Federal, a Civil, a Militar, o Serviço de Inteligência. São rivais entre elas, sem falar na miríade de corrupção. Fora isso, aqui o Exército também combate o narcotráfico”.

Medellín tem 3 800 policiais. Em Bogotá, são 16 mil. No Rio, 5 mil. A polícia de Medellín dispõe de 300 caminhonetes e 1 265 motocicletas (Suzuki de 650 cilindradas), que trabalham em rondas de três turnos. A maioria dos policiais atua nas favelas e no centro da cidade, onde estão as zonas de prostituição e uso de drogas. Prostitutas, bêbados, mendigos, doentes mentais, drogados e vadios são recolhidos por carros da polícia todas as madrugadas. “Mas por que as prostitutas, coitadas?”, perguntou uma funcionária da prefeitura que acompanhou minha entrevista com o coronel Alejandro Bustamante, subcomandante da Policia de Medellín. “Elas vendem drogas, podem criar confusão”, respondeu o coronel. “Na dúvida, deixamos elas se acalmarem um pouco.”

O salário de um policial na Colômbia é de 1 300 reais. “Mas temos muitas vantagens, o que compensa”, disse Bustamante. Enquanto abria seu laptop para checar as estatísticas da corporação, ele enumerou os benefícios: “Temos nossas próprias clínicas e hospitais, nos quais o atendimento é extensivo às nossas famílias. Também temos o direito de morar em vilas só de militares, por um aluguel baixíssimo, coisa de 80 reais ao mês. Não pode deixar o policial morar na favela junto com bandido que ele vai combater”. Outro benefício é um subsídio de 14 mil reais para que o policial compre uma casa. “E, nas férias, podemos freqüentar os clubes militares nas praias, onde alugamos uma cabana por 40 reais por dia.” Isso basta para convencer alguém a ser policial em Medellín? “Há filas para ser policial, mas o treinamento e a seleção são muito duros”, contou.

O cientista político Pablo Angarita avalia que o processo de desmobilização tem uma falha de origem. “Não foram todos os bandidos que depuseram as armas, e nem todos os ‘desmobilizados’ eram bandidos”, ele disse. Na época da desmobilização, centenas de jovens que nada tinham a ver com o crime foram cooptados pelos paramilitares para se apresentarem como parte do bando. Eram desempregados, sem-terra e até estudantes. Como a maioria dos criminosos sequer tinha carteira de identidade, o governo se encarregou de fichá-los pela primeira vez. “Muitos inventaram novos nomes e limparam suas fichas policiais. Outros, que nada tinham a ver com o assunto, aceitaram se apresentar como criminosos, em troca de uma vaga em escola ou um salário”, conta a jornalista Marta Ruiz. “Ou seja: entrou muita gente que nada tinha a ver com o crime e ficou solta muita gente que tinha tudo a ver com o crime”, explicou.

Numa tarde chuvosa, crianças uniformizadas faziam fila em frente ao Parque Biblioteca de Espanha, na favela de Santo Domingo. Havia até um carrinho de pipoca em frente ao prédio. “Isso aqui mudou demais”, disse Jayme Londonio, de 46 anos, sentado em um dos sofás de veludo verde de sua casa. Da janela da sala, ele enxerga a faustosa construção. “Quando iríamos imaginar uma cena dessas aqui em frente? Agora, minha casa vale cinco vezes mais. E nossa tranqüilidade, mil vezes mais”, disse enquanto sua mãe preparava um tinto, o café coado. “Há muito sangue derramado por essas ruas, mas a paz que chegou é algo para se agradecer todos os dias. Olhe ali, aquele é um regenerado”, disse apontando para um rapaz que levava cimento em um carrinho de mão. “Ele ficava ali, na outra esquina, armado. E agora está trabalhando, porque está tendo oportunidade.” Perto dali, turistas loiros tiravam fotos de barracos.

O terceiro momento da política de segurança de Álvaro Uribe se deu quando a prefeitura de Medellín, aproveitando a calmaria proporcionada pela desmobilização, investiu pesado nas favelas. Nos últimos quatro anos, foi gasto 1,6 bilhão de dólares na construção de parques, livrarias e escolas nas zonas mais pobres da cidade, projetados por renomados arquitetos colombianos. Também foram feitas pontes ligando favelas inimigas e o centro da cidade passou por uma remodelação, transformando ruas de trânsito caótico em bulevares, e praças abandonadas em pontos de encontro da juventude. A conjunção de portentosas obras públicas com a diminuição da criminalidade bota um brilho deslumbrado nos olhos dos políticos estrangeiros.

O roteiro da prefeitura para autoridades que visitam a cidade começa pela favela de Santo Domingo, onde foi construído, ao custo de 22 milhões de dólares, um complexo composto de biblioteca, cinema, salas de computadores e ludotecas. Os três prédios ficam em uma área onde estavam 160 casas, desapropriadas pela prefeitura. Por fora, os três blocos de concreto lembram uma construção soviética: sem janelas, muito cimento e segurança de bunker. Por dentro, o prédio é bem iluminado, tem móveis modernos em poliuretano e chão de tábua corrida cor de mel. Ele fica no mesmo bairro onde está o segundo ponto de visita: o Metrocable, o teleférico de 93 cabines que liga o topo da favela com uma linha de metrô, uma idéia que Sérgio Cabral já anunciou que vai copiar.

As obras em Medellín estavam na agenda de Sergio Fajardo desde que ele tomou posse na prefeitura. Aos 51 anos, doutorado pela Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos, ele é herdeiro de uma das famílias mais ricas da cidade. Seu pai é o arquiteto e empreiteiro Raul Fajardo, responsável pela construção de vários edifícios em zonas nobres de Medellín, que no momento edifica centros comerciais e um flat. Com um bronzeado mediterrâneo, sobrancelhas arqueadas, calça jeans, camisas com mangas dobradas acima do cotovelo e cabelos encaracolados, Fajardo, casado pela segunda vez, faz sucesso entre as eleitoras. “En este gobierno los hombres son muy lindos“, disse-me uma assessora da prefeitura.

Num começo de tarde, Fajardo participou de um encontro com organizações não-governamentais, para fazer um balanço de sua gestão, que termina em dezembro. “Sempre tivemos claro: vamos entrar nos lugares onde o Estado nunca entrou. Nossos prédios mais bonitos têm que estar nas zonas mais pobres da cidade”, ele disse à platéia de 120 pessoas. “Mapeamos toda a cidade e vimos onde eram os piores lugares. Foi lá que começamos a construir.”

Por meio do Plano de Aceleração do Crescimento, o governo Lula promete investir 1,2 bilhão de
reais no Rio. É com esse dinheiro, ainda inexistente, que Sérgio Cabral diz que construirá ruas, avenidas, escolas, clínicas médicas, centros de ajuda ao cidadão nas favelas da Rocinha, Pavão-Pavãozinho, Alemão e Manguinhos, onde moram 600 mil pessoas. O teleférico colombiano vai ser reproduzido na Rocinha.

O embaixador Julio César ajeitou a gravata azul de bolinhas vermelhas, que insistia em ficar por cima de seu paletó preto, e enunciou o segundo aspecto que, no seu entender, impede que o plano de segurança de Uribe seja aplicado no Brasil: “Na Colômbia, o Código Penal é para valer. Aqui não tem essa coisa de cumprir um sexto da pena. Endureceram o Estatuto da Criança e a idade de criminalização passou a ser 14 anos. Não é essa coisa do Brasil, onde o sujeito tem 2 metros de altura e 10 de envergadura e fica falando ‘sou dimenor‘. A lei é dura. Há cinco senadores presos, aguardando julgamento por ligação com paramilitares. E não foram nem indiciados ainda”.

A Comuna 13 também está em obras. Para subir à favela, é preciso se desviar de caminhões de areia e dos trabalhadores que recapeam as ruas. Chovia fino e duas senhoras conversavam, encostadas na mureta baixa de uma casa. “Isso aqui está a mesma coisa”, disse-me a aposentada Ana Julia Hincaipe. “Os grupitos estão se formando de novo. Estão invadindo casas, extorquindo gente honesta, cobrando dinheiro para tudo. E ainda estão se matando como antes.” Há vinte anos ela mora sozinha na favela. Sua amiga, de cabelos brancos, continuou calada. “Antes, o comércio fechava cedo, ninguém saía na rua de noite. Por um tempinho, ficou melhor, mas agora está de novo assim. A gente continua acordando com o barulho de tanto tiro de noite”, contou Ana Julia. A amiga, sem dizer uma palavra, entrou em casa e fechou a cortina.

Um levantamento da prefeitura mostra que ainda há 180 bandas criminales atuando nas favelas de Medellín. A diferença é que estão sem chefe. “Isso é o mais perigoso”, disse Pablo Angarita, na cafeteria da Universidade de Antioquia. “O grande problema é que as bases estão abandonadas. Enquanto os capos estão presos, há uma turba histérica e armada cometendo crimes e delitos. Por isso, estão surgindo novos grupos, formados pelos que não se desmobilizaram, ou que foram recrutados depois. São os dissidentes, os rearmados e os emergentes.” Enquanto mexia o café, concluiu: “O futuro da violência em Medellín é um ponto de interrogação. As causas originais da criminalidade não foram tratadas. Há todas as condições para se repetir o ciclo de violência: a desigualdade social, o narcotráfico, a violência estruturada de muitos anos, os grupos de políticos ligados à criminalidade. Vamos voltar a conversar daqui a cinco anos”, afirmou. A jornalista Marta Ruiz pensa de maneira semelhante: “Sai um chefe, mas vem outro. Morreu Pablo Escobar e surgiram Castaño, Mancuso e Don Berna. Eles morrem, surgem outros. É algo sem fim”.

Entraram na sala outros dois diplomatas. O embaixador Julio César contou uma piada e todos caíram na gargalhada. Em seguida, continuou a falar sobre as particularidades colombianas: “Outra coisa diferente do Brasil é o povo, a educação. Você entra em um elevador, todo mundo diz ‘bom-dia’, ‘dá licença’, cumprimenta. Aqui, quase 100% dos adultos são escolarizados. Aqui, os CIEP deram certo. Existe uma consciência da necessidade da escola, repare a quantidade de universidades em todo o país. Tentar fazer uma política de intervenções sociais, sem que o povo considere isso fundamental, é tarefa impossível”.

Sob a gestão de Fajardo, 40% do orçamento de Medellín, de 1,2 bilhão de dólares, foram destinados à educação, o que inclui construção de escolas e capacitação de professores. Uma das escolas reformadas pela prefeitura é a Hector Abad Gómez. Como ela, há outras em construção nas favelas. Ali, foram gastos 4,5 milhões de dólares na reforma, o que as próprias autoridades dizem ser o valor de três colégios. “Como quería-mos mostrar que as favelas são importantes, usamos o melhor material, o melhor projeto, a melhor infra-estrutura, tudo melhor do que qualquer colégio particular da cidade”, disse o subsecretário de Educação, Felipe Gil. Os alunos são filhos de prostitutas e camelôs do centro de Medellín. Há um ano, a escola era um prédio de paredes infiltradas, cadeiras quebradas e ratos pelas salas de aula. São 3 mil alunos, em três turnos. O noturno tem sessenta “desmobilizados”, cursando o ensino médio.

Em janeiro, quando se acreditava que a paz viera para ficar, uma líder comunitária da Comuna 13 foi assassinada. A prefeitura de Medellín lamentou a morte, mas deu pouca corda para o assunto. “Foi uma coisa isolada”, comentou o prefeito Sergio Fajardo, atrás de uma mesa cheia de papéis, em seu gabinete. Ele rabiscava um bloco de notas. Para Fajardo,
a queda na violência em Medellín foi uma ação conjunta entre o governo nacional e a prefeitura. “O governo nacional fez uma negociação com os paramilitares. Não fui eu quem fez. Nosso papel foi fazer com que esse acordo funcionasse em Medellín, que houvesse um verdadeiro processo de reinserção dessas pessoas à sociedade”, disse.

Ele acha que a prosperidade da cidade irá perdurar. “Não dependemos de Plano Colômbia em Medellín”, afirmou. “Tudo o que fizemos aqui foi definitivo. É cada vez menor a possibilidade de alguém encontrar na criminalidade uma alternativa de vida. Temos mais controle, temos mais noção do que se passa nos lugares onde o Estado não existia. Hoje, sabemos onde está o problema e de qual tamanho é o problema. Isso nos dá maior capacidade de ir solucionando as coisas.”

O prefeito Sergio Fajardo tem ambições presidenciais. Ele conta com 91% de aprovação da população. Num artigo que escreveu para atrair novos investidores à cidade, Fajardo falou das possibilidades abertas pelo Tratado de Livre Comércio, que está sendo negociado com os Estados Unidos: “As empresas não estão vindo para cá porque lhes damos incentivos fiscais, nada disso. E sim por causa da segurança, da estrutura, da mão-de-obra, dos serviços públicos”.

Perguntei ao prefeito sobre a possibilidade de haver dinheiro do narcotráfico no boom imobiliário de Medellín. A construção de cassinos na cidade, por exemplo, poderia ser um indicativo. Só no último ano, foram abertos sete. Fajardo não gostou da pergunta. Disse que eu tinha obrigação de contar-lhe quem me havia dito tais “falsidades”. Perguntei o que lhe fazia ter tanta certeza que o dinheiro da droga não estava sendo investido em obras. “É esse o problema: agora quem tem que provar sou eu!”, respondeu, irritado. “Quem tem que ter prova é quem fala isso. Quem fala isso tem que mostrar, e duvido que tenha como mostrar. Vá olhar o quanto de imposto de renda as pessoas pagam nessa cidade. No país inteiro, há um boom de construções e não é só em Medellín. A Colômbia está com um nível de crescimento econômico que nunca teve em sua história. É de 8% ao ano.”

Na hora da despedida, comentei que me surpreendi com a sua reação. “Acontece que sou sério”, disse o prefeito. “É muito fácil acabar, mesmo com uma frase, com tudo o que foi feito em Medellín. Essa cidade passou por coisas horríveis durante tanto anos, que ficamos com a pecha de que todo mundo aqui é narcotraficante, é ligado a paramilitar, a qualquer coisa. Isso não é justo. Eu fico assim mesmo quando exponho o que penso. Isso aqui é minha alma, é minha vida.” Mais tarde, uma assessora comentou: “Fajardo leva as críticas para o lado pessoal”.

Sérgio Cabral falava segurando seu telefone Blackberry na mão esquerda. Um garçom entrou para servir água. “Tem que legalizar as drogas para acabar com essa confusão toda, esse gasto maluco com segurança pública, essa guerra sem fim, em que o Estado cada vez gasta mais e vidas são perdidas”, ele disse. “Se fosse legalizada, haveria menos vítimas por consumo de droga do que vítimas da violência gerada pela droga.” Ele parou o raciocínio porque Aécio Neves o chamava pelo telefone.

Julio César Gomes dos Santos lembrou-se de um jantar recente, no qual um diplomata holandês se jactava de seu país ter legalizado as drogas. Um representante mexicano lhe disse que, na Holanda, o comércio de drogas era legalizado, mas não a sua importação. “Então, é fácil dizer que é muito bom legalizar se você não produz”, falou o mexicano. Na mesma ocasião, um velho diplomata argentino, que ocupou um cargo relevante no peronismo, perguntou aos colegas: “A quem interessa a paz na Colômbia?” E explicou o seu raciocínio: “Existe a indústria da guerra. Uniformes, tanques, armas, veículos, pneus, imaginem quanto dinheiro isso movimenta. Os interesses por trás dessa megainfra-estrutura são imensos, sem falar nos ganhos homéricos com o narconegócio”. Segundo o embaixador brasileiro, a sala ficou em silêncio.

Em dezembro, o embaixador Julio César volta a Brasília, depois de mais de uma década fora. Passou pela Cidade do México, por Roma, Nova York e ficou dois anos em Bogotá. Ele retomou as comparações entre a Colômbia e o Brasil. “Aqui, o crime é organizado. Não é essa coisa desorganizada do Brasil. Aqui tem hierarquia, uniforme, o bandido usa braçadeira para se identificar. Aqui é narconegócio, é business. Não tem crimezinho, petty crime. Não tem nem consumo de droga. O consumo colombiano é pífio. A polícia acaba recebendo uma ajuda indireta dos bandidos porque os chefes não admitem crimezinho na favela. Não quero dizer que não haja pick pocket, mas se os chefes sabem, mandam bala. Aqui não tem amador. Não tem Rocinha brigando com Vidigal.” E concluiu: “Os políticos que vêm aqui podem tirar lições sobre como implantar projetos sociais ou aprimorar a educação, mas acabar com a violência, como fizeram aqui, é impossível. Não temos essa estrutura no Brasil”.

Depois de elogiar o desempenho das autoridades de Medellín no combate ao crime, Sérgio Cabral fez uma restrição ao modelo colombiano: “Aqui no Brasil não vai ter anistia, não vai ter conversa com bandido”, afirmou o governador. “No Rio, de um lado tem a milícia, e do outro o traficante. É bandido contra bandido. Eles não querem parar porque têm uma fonte de renda forte. Em Medellín, estimulou-se demais os paramilitares, que equivalem às nossas milícias. Eu não vou estimular aqui força paralela nenhuma. A nossa política é de enfrentamento. E não adianta vir com sociologuês para botar pecha no nosso governo.”

Daniela Pinheiro

Daniela Pinheiro foi jornalista da piauí entre 2007 e 2017

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